Blue Lantern
1 Um Novo Começo
Notas iniciais
A Liga já estava reunida na sala de reuniões do Atalaia. Hal Jordan e John Stewart haviam avisado Batman, Superman e Mulher-Maravilha sobre um garoto superdotado e, além da Trindade, também aguardavam o Caçador de Marte, o Asa Noturna, o Flash e o Arqueiro Verde.
A porta se abriu. Hal e John entraram primeiro e, meio passo atrás deles, veio o garoto.
O uniforme azul-noite se ajustava ao corpo alto e atlético, sem exagero. No peito, o emblema da Tropa Azul pulsava, mas não no ritmo calmo da esperança que o alimentava: batia irregular, acompanhando o coração dele. Sem máscara, o rosto de vinte anos se mantinha neutro, quase imóvel, e a postura era a de quem já aprendeu a ficar em pé diante de gente importante: costas retas, mãos junto ao corpo. O olhar o denunciava, porém: escapava em relances para os heróis que ele só conhecia de longe, fascinado, e voltava a um ponto fixo antes que alguém o pegasse olhando.
Batman o observava sem piscar. O Caçador de Marte inclinou a cabeça, como quem ouve algo que os outros não ouviam. O Asa Noturna notou as mãos do garoto, apertadas uma contra a outra, e desviou o olhar de propósito. Do outro lado da mesa, o Flash abriu um meio sorriso que Theo não soube como retribuir.
Hal deu um passo à frente para quebrar o silêncio da sala.
— Bom ver todos vocês. Este é Theo Cabrero, o primeiro Lanterna Azul que a humanidade teve.
Todos os heróis encararam o garoto. Theo fez um aceno curto com a cabeça, de soldado, e fixou os olhos num ponto da parede atrás deles. John pousou a mão no ombro dele, em silêncio. Batman continuou encarando.
— Você disse "superdotado", Jordan — disse Batman. — Isso não explica por que ele está nesta sala.
Hal abriu a boca e, pela primeira vez em muito tempo, escolheu as palavras com cuidado.
— Ele é especial em… muitos sentidos. Precisa de ajuda para entender o que é ser um herói.
Batman olhou de Hal para o garoto, e dali para as mãos de Theo. Entendeu antes que Hal terminasse.
— Antes de continuarmos, ele pode esperar do lado de fora.
— Respira, garoto — disse o Flash, com um sorriso sincero. — Você está indo bem.
— Estou respirando — respondeu Theo, sério. Só depois percebeu como aquilo soou, e o canto da boca tremeu, sem chegar a virar sorriso.
O Flash riu baixo. Até Superman sorriu.
Hal e John acenaram: era só esperar. Theo assentiu e saiu da sala sem fazer barulho. Superman o seguiu com o olhar, já com o sorriso desfeito.
— Ele parecia assustado. O que houve?
Dessa vez foi John quem respondeu.
— Ele tem muita dificuldade com interações sociais. É o outro motivo de o termos trazido. Ele ainda está em treinamento como Lanterna, então nem sempre estará na Terra, mas, enquanto estiver, um herói novato que não sabe lidar com pessoas precisa de ajuda para aprender.
— A fazer parte de uma equipe? — perguntou Superman.
— A ter amigos.
A sala ficou em silêncio. O Caçador de Marte foi o primeiro a falar, com calma.
— Não li a mente dele. Não foi preciso. O medo dele é grande, mas, debaixo do medo, há esperança. Muita.
— Esperança não é o problema — disse Batman. — Se a ideia é colocá-lo na Liga, minha resposta é não. Um garoto que não consegue olhar para esta sala não vai suportar o que vem depois dela.
— Pela primeira vez, concordo com o Bats — disse o Arqueiro Verde, sem tirar os olhos de Hal. — Adoro você, Jordan, mas trazer o garoto para cá foi um jeito estranho de ajudar. A Liga é pesada demais para quem ainda está aprendendo quem é.
— Mas Hal disse que ele é especial em muitos sentidos — disse Mulher-Maravilha, com a voz mais suave. — "Especial" é só por causa dessa dificuldade?
— Também quero saber — disse Superman.
Os outros assentiram. A pergunta era de todos.
— Não. A dificuldade existe, mas não é o que o torna especial — respondeu Hal. — Ele é um gênio na forma mais pura da palavra. E, em campo, é outra pessoa: firme, decidido, o tipo de gente que você segue sem pensar duas vezes.
— Nunca vi um cérebro tão absurdo — completou John. — Sou arquiteto e sei o que é um projeto complexo. Ele apontou três falhas no hangar do Atalaia em dois minutos. E sim, isso foi um elogio.
— E ele é único entre os Lanternas Azuis — continuou Hal.
— Único como? — perguntou o Caçador de Marte.
— A maioria aqui sabe que a Tropa Azul é movida pela esperança. Mas eles são limitados: para usar o poder por completo, precisam de um Lanterna Verde por perto, porque esperança sem vontade não é nada.
— Theo tem as duas — disse John. — Uma esperança inabalável e uma força de vontade que impressiona até entre os melhores Lanternas Verdes.
— Ele pode explorar todo o potencial de um anel azul por conta própria — disse Hal. — Isso nunca aconteceu na história do universo.
— Espera, mas você já usou um anel azul, não? — perguntou o Flash. — Lembro de você ter contado.
— Usei, mas eu já era Lanterna Verde. O Theo foi escolhido diretamente por um anel azul. É a primeira vez que um humano é escolhido pelo espectro da esperança, apesar de ele também ser digno de um anel verde.
Batman cruzou os braços.
— Em resumo: um potencial sem precedentes, sem treinamento e sem ninguém que saiba guiá-lo.
— É isso — disse John. — Podemos tentar orientá-lo, mas ele está num caminho que não sabemos como guiar. Somos de tropas diferentes, e ele já tem um mentor azul. O que ele precisa agora é de uma equipe que o ajude a entender o que é ser herói e o que é fazer parte de algo.
— Então a Liga não é o lugar certo — disse Mulher-Maravilha. — Ele merece um lugar onde possa errar sem que o mundo esteja olhando.
— Um lugar onde aprenda a confiar nos outros — disse Superman. — Onde tenha amigos. Uma casa.
— Então não existe lugar melhor para ele do que os Novos Titãs — disse o Asa Noturna. — Eu sei o que é chegar a um lugar cheio de gente maior do que a gente e encontrar uma família nele.
Batman olhou para o Asa Noturna por um longo momento e assentiu uma única vez. Ninguém mais discordou.
Do lado de fora, Theo olhava a Terra pela janela do Atalaia, ainda admirado com o lugar. Estava de pé, com as mãos cruzadas nas costas, postura de sentinela. Só o emblema no peito o entregava: pulsava irregular, no ritmo da espera.
A porta se abriu e Hal e John saíram da sala. Theo se virou de imediato, com as costas retas.
— Decidimos que você vai se juntar aos Titãs — disse Hal.
Theo piscou.
— Decidimos quem?
— A gente e a Liga — respondeu John.
— Sem mim.
— Sem você, porque você estava desconfortável naquela sala. Se disser não, a gente volta lá e resolve.
Theo ficou um instante em silêncio, pesando aquilo como quem pesa uma ordem que entende, mas ainda não aceitou.
— Titãs? — perguntou, por fim. — Tipo… aqueles Titãs?
— Sim, aqueles Titãs — disse John.
Então o sorriso escapou, rápido, antes que ele conseguisse segurar.
— Que irado! Minhas malas já estão prontas.
O anel brilhou, e duas malas azuis de luz sólida surgiram no chão do corredor. Hal e John riram, e a tensão do garoto pareceu afrouxar um pouco.
Mas o sorriso durou pouco. Theo encarou as malas, e a voz saiu mais baixa.
— E se eles não gostarem de mim? — Fez uma pausa, e completou, com a honestidade seca de sempre: — Eu consigo trabalhar com quem não gosta de mim. Mas preferia que gostassem.
Hal apoiou a mão no ombro dele, e John no outro.
— Eles vão te conhecer, Theo. E vão gostar. Eu apostaria meu anel nisso.
— E você não vai estar sozinho — completou John. — Foi para isso que a gente trouxe você aqui.
Theo respirou fundo. O emblema voltou a pulsar num ritmo mais calmo.
— Vocês dois foram os primeiros a acreditar em mim. Não vou esquecer isso.
— Então a gente vai cobrar — disse Hal, com um meio sorriso. — Com juros.
— Eu pago — respondeu Theo, sem mudar a expressão.
— Não precisa ir agora — disse John. — A Liga ainda vai levar um tempo na reunião, e alguém vai estar lá para te receber quando você chegar. Vá quando se sentir pronto.
— E, Theo, você não precisa ir de uniforme — disse Hal. — Ninguém lá espera isso.
Theo assentiu, e as malas de luz se desfizeram no ar.
— Como são eles? Os Titãs?
Hal e John trocaram um olhar.
— Você vai descobrir — disse John.
Theo partiu para o Monte dos Titãs sem pressa, deixando as nuvens passarem por baixo dele. Quanto mais perto chegava, mais alto o ensaio ficava na cabeça.
— Oi, eu sou o Theo — murmurou para o vento. — Não, isso soa chato. Lanterna Azul Theo Cabrero, se apresentando. — Fez uma careta. — Ninguém lá é meu superior. Olá, tudo bem? Não… ninguém fala "olá, tudo bem" assim.
Ele suspirou, e o emblema no peito piscou junto, irregular.
Um grito na esquina cortou o ensaio, e Theo já estava descendo antes de terminar a frase.
Dois homens, uma mulher encurralada contra um muro, uma faca. O anel brilhou, e um construto azul prendeu o pulso do homem sem machucá-lo.
— Larga isso. Agora — disse Theo, com a voz seca e sem espaço para discussão.
O outro correu, e um muro de luz fechou a rua à frente dele.
— Eu ia sugerir que você não corresse. Mas agora já está decidido.
Prendeu os dois, avisou a polícia pelo anel e ajudou a mulher a se levantar.
— A senhora está bem? Fique aqui até a polícia chegar. Não precisa agradecer.
Só quando ela tentou dizer mais alguma coisa, algo nele travou. Assentiu uma vez e subiu, sem olhar para trás.
Aconteceu de novo duas vezes antes de chegar: um carro desgovernado, um incêndio pequeno num prédio. Em todas, o mesmo: a voz firme dando ordens, o anel trabalhando sem pressa e uma pausa estranha no fim, quando alguém tentava agradecer. Theo assentia uma vez, como quem recebe uma missão cumprida, e subia.
Pousou no terraço de um prédio qualquer com o coração ainda acelerado. Na claraboia, o reflexo, azul-noite da cabeça aos pés, o encarou de volta. Você não precisa ir de uniforme, tinha dito o Hal. Certo. Só faltava decidir o que vestir.
O anel brilhou, e um construto o vestiu de terno. Theo fez uma careta. Depois, jaqueta de couro. Pior. Depois, camisa social, colete e gravata-borboleta.
— Não — disse, desfazendo tudo. — Eu pareço um garçom.
Tentou mais três estilos, e em todos se achou ridículo. Por fim, concluiu que não importava o que vestisse: ia ser ridículo de qualquer jeito. Então escolheu o que sempre escolhia: calça larga, tênis simples, camiseta preta sem estampa e o suéter preto enorme que engolia os ombros e escondia o corpo atlético. Pendurou uma mochila nas costas, ajeitou os óculos de descanso e bagunçou o cabelo com a mão. Pela primeira vez no dia, sentiu o peito afrouxar.
Quando chegou ao Monte dos Titãs, parou diante da torre, encravada na encosta de uma montanha enorme. Reparou nas juntas do metal, no ângulo das janelas, no jeito como a base se ancorava na rocha. Passou tanto tempo tentando entender tudo aquilo que esqueceu o motivo de estar ali.
A porta se abriu quando ele chegou perto. Dick Grayson estava lá, ao lado do Cyborg.
— Você deve ser o Theo — disse Dick, com um sorriso fácil. — Estávamos te esperando. O caminho foi tranquilo?
Theo travou. A apresentação inteira sumiu da cabeça, e o corpo respondeu sozinho: costas retas, mãos junto às coxas, olhos num ponto qualquer acima do ombro de Dick.
— Tranquilo, senhor.
— Dick — disse Dick, divertido. — Só Dick.
— Ele está bem? — perguntou Cyborg, baixinho.
— Victor, deixa comigo — disse Dick. — Ele precisa de tempo para se acostumar com tantos rostos novos.
— E eu achando que você ia reunir o time inteiro para recebê-lo — disse Cyborg, já se virando para entrar.
Dick olhou o garoto. Poucos segundos antes, ele analisava a fachada, interessado. Agora estava rígido como uma estátua. Apontou a torre com o queixo.
— Ela é mais resistente do que parece. A antiga Torre dos Titãs foi destruída por completo, então dessa vez a gente escolheu uma montanha. Estou torcendo para dar certo.
— Eu contei pelo menos vinte falhas nela — disse Theo, e só então percebeu que tinha falado em voz alta. Não conseguiu mais parar: os reforços que faltavam nas fundações, os pontos cegos do telhado, o ângulo das janelas. Só parou quando notou que estava falando com alguém. Esperou um olhar de desinteresse, talvez de nojo. Encontrou um olhar sereno e um meio sorriso.
Cyborg, que já ia entrando, parou com a mão na porta.
— Espera. Ele disse pontos cegos no meu telhado?
— Disse. Anota aí, Vic — respondeu Dick, sem tirar os olhos de Theo. — Então, Theo, o nosso mais novo Titã vai entrar para conhecer a estrutura completa ou vai ficar aí fora até anoitecer?
— Eu vou não… — Theo parou, corrigiu a postura e recomeçou: — Quer dizer: vou. Eu vou entrar.
Ainda tinha dificuldade em sustentar o olhar, mas dessa vez deu um passo à frente.
Já dentro da torre, Theo caminhava meio passo atrás de Dick, tentando lembrar como se respirava. O silêncio do corredor pesava mais que qualquer conversa. Então a pergunta escapou antes que ele conseguisse segurá-la.
— Então… quem é você?
Dick olhou para ele por cima do ombro, com um meio sorriso.
— Dick Grayson. — Fez uma pausa e completou, como quem confessa uma bobagem: — Hal e John responderam por você, então posso ser honesto: quando estou trabalhando, sou o Asa Noturna.
Theo parou no meio do corredor. Na sala da Liga, mal tinha levantado os olhos; dos rostos naquela mesa, só guardara os de Superman e da Mulher-Maravilha, e pouco mais.
— Eu… — a voz falhou. — Eu passei dez minutos falando de reforço estrutural para o Asa Noturna?
— Foram mais de dez — disse Dick, rindo. — Mas foi uma boa análise.
Theo levou a mão ao rosto.
— Eu devia ter ficado quieto.
— Não.
Theo olhou para ele.
Dick apontou para o corredor.
— Você percebeu coisas que eu não tinha percebido.
— Mas eu falei demais.
— Falou.
Theo abaixou os olhos.
— Ah.
Dick riu.
— Theo, falar demais não é um crime.
— Depende do que você fala.
— Justo.
Os dois continuaram andando.
Por alguns segundos, Theo permaneceu em silêncio.
Então olhou para os lados.
— Eles estão aqui?
— Alguns.
O corpo de Theo ficou rígido outra vez.
Dick percebeu.
— Relaxa.
— Eu estou relaxado.
— Você está andando como se estivesse indo para uma inspeção militar.
Theo olhou para os próprios braços, que estavam colados ao corpo.
— É… talvez.
Dick sorriu.
— Você não precisa conhecer todo mundo hoje.
Theo assentiu.
— Certo.
Mais alguns passos.
— E se eu fizer alguma coisa errada?
Dick parou.
Theo também.
— Vai fazer.
Theo arregalou os olhos.
— O quê?
— Vai fazer alguma coisa errada.
Dick deu de ombros.
— Todo mundo faz.
— Mas…
— Você acha que eu nunca fiz?
Theo ficou em silêncio.
Dick apontou para si mesmo.
— Eu já destruí equipamento, errei missões, tomei decisões ruins, levei bronca do Batman…
— Você levou bronca do Batman?
— Muitas.
Theo pareceu genuinamente surpreso.
— Por quê?
— Longa história.
Um pequeno sorriso apareceu no rosto de Theo.
Dick voltou a caminhar.
— Você não veio para cá porque já sabe ser um Titã.
Theo o acompanhou.
— Então por que eu vim?
Dick olhou para ele.
— Para aprender.
Theo ficou quieto.
— E para conhecer pessoas que talvez acabem virando seus amigos.
O garoto desviou os olhos.
Dessa vez, porém, não parecia estar procurando um lugar para escondê-los.
Só estava pensando.
Eles chegaram ao fim do corredor.
Uma porta automática se abriu.
Do outro lado, vozes.
Risos.
Uma discussão sobre alguma coisa que Theo não conseguiu entender.
O som fez seu estômago apertar.
Ele parou.
Dick percebeu.
— Quer que eu entre primeiro?
Theo olhou para a porta.
Depois para Dick.
Pensou por alguns segundos.
— Não.
Dick ergueu uma sobrancelha.
Theo respirou fundo.
— Se eu ficar esperando, vou pensar demais.
Dick sorriu.
— Essa é a ideia.
Theo deu um passo.
Depois outro.
Antes de atravessar a porta, ouviu uma voz do outro lado.
— Dick, você trouxe o garoto?
— Trouxe.
— Finalmente!
Theo congelou.
Dick olhou para ele.
— Pronto?
Theo respirou fundo.
O emblema azul não estava mais em seu peito, mas, por um instante, ele quase pôde sentir seu ritmo.
Ainda estava acelerado.
Mas não estava descompassado.
— Não.
Dick sorriu.
— Ótimo.
Abriu a porta.
— Ninguém está.
Theo entrou.
E, pela primeira vez desde que recebera o anel azul, percebeu que talvez aquela não fosse uma missão que precisasse enfrentar sozinho.
Fale com o autor