Blue Jeans
8 Se permita amar
Notas iniciais
Ana Lua ainda não sabia o que tinha acontecido na outra noite mas sabia que estava nas nuvens. Não sabia até quando aquilo iria durar mas estava disposta a aproveitar. O sábado já havia raiado há algum tempo. Ela iria almoçar com Pedro na casa dele. Tinha marcado de ajudá-lo com algumas letras de música. E de noite iria na festa do Alexandre, encontrar Daniel. Ana Lua foi até o ponto e pegou um ônibus que ia pra uma área mas nobre. Quando chegou ao local, se sentiu mal vestida e desconfortável. As pessoas vestiam-se muito bem por lá. Havia grandes mansões e pelos condomínios de luxo. Madames passeavam com seus cachorros de raça. Ela pegou um papel amassado do bolso que continha o endereço de Pedro, rezando pra estar no lugar errado. Pra sua infelicidade, estava no lugar certo. O endereço dava em um prédio de rua. Não era tão luxuoso mas era fino e bonito. Ela tocou o interfone e uma mulher respondeu com gentileza. Entrou no prédio e apertou o terceiro andar do elevador, depois percorreu o elevador até o apartamento e tocou a campainha.
— Bom dia! Você deve ser a Ana Lua, certo? — Uma mulher que parecida ter uns quase 50 anos atendeu. Ela era sorridente e estava bem vestida. Logo apertou a mão de Lua e beijou seu rosto — Eu sou a mãe do Pedro. Seja bem-vinda a nossa casa!
— É um prazer conhecê-la.
— Venha, pode entrar!
Ana Lua deslizou pela porta. O apartamento era bonito mas não era muito grande. Tinha um aspecto rústico. Era bem decorado e tinha muitos instrumentos. Ana Lua teve a certeza que Pedro não era um garoto pé-rapado da vida. Ela começou a observar os livros da estante de madeira. Estava apaixonada por eles. Sua vontade era de pegar a estante e sair correndo. A mãe de Pedro voltou a se aproximar.
— Gosta de livros?
— Sim. Eu amo escrever. Já pensei em ser escritora mas por enquanto eu faço filosofia.
— Que interessante! Eu sou escritora. Escrevo livros infantis. Larguei tudo pra seguir o que gosto. Eu tinha um bom emprego. Recebia bem até mas desisti daquela vida.
— Foi muito corajosa. A maior parte das pessoas não fariam isso.
— Não fariam mesmo. Mas eu fiz.
A mãe de Pedro continuou mostrando o resto da casa para ela. Quando chegaram ao quarto de Pedro, Ana Lua encontrou o rapaz jogado ainda em sua cama. Parecia dormir em paz. Ana Lua andou até as cortinas e as abriu, fazendo o sol passar pela janela. A luz bateu no rosto de Pedro que logo se incômodo.
— Acorda, Bela Adormecida!
— Nossa, já é tarde assim?
— Pois é, vossa senhoria dormiu demasiadamente.
— Desculpe, Lua. Realmente perdi a hora.
— Então trate de levantar! Temos músicas para compor! — Ana Lua puxou a coberta de Pedro, que estava dormindo apenas de cueca. Ficou meio corada e jogou a coberta novamente nele, envergonhada — Oh, desculpe... Eu não sabia.
— Relaxa, mina do satélite. Agora vire-se para que eu possa me vestir. Ou se preferir, me veja.
— Nem tenta, Pedro — Lua se virou para a janela, admirando o bairro enquanto Pedro de vestia.
— Pronto, pode se virar agora.
— Ótimo. Vamos começar.
O dia havia passado depressa. Ana Lua já estava em sua casa se preparando. Não sabia o que vestir. Ela não podia faltar a festa. Acabou escolhendo uma calça preta de couro, uma camisa branca simples e uma jaqueta jeans. Usou uma maquiagem de tons marrons e nude. Apenas na boca que utilizou um batom vinho. Olhou no espelho e respirou fundo. Os cachos estavam bonitos e arrumados. Cheirou seus pulsos e sentiu seu perfume doce. Respirou fundo novamente e saiu em rumo da festa. Nada havia feito muito sentido na sua vida. Mas ela queria aproveitar aquele momento. Estava feliz, tinha amigos, havia quitado a dívida de seu pai e finalmente estava se dando bem com o cara que gostava. [Aperte o play aqui] Quando chegou a festa, estava começando a tocar Like a Stone. Ficou feliz de ver Daniel esperando por ela na varanda. Quando seus olhares cruzaram, ambos sorriram de felicidade.
— Vou descer! Me espera! — Daniel gritou.
— Está bem! — Ana Lua gritou de volta, rindo baixo.
Ela entrou devagar na casa, havia umas 30 pessoas mais ou menos. Sua grande maioria usava blusas de banda. Quando Alexandre a viu, veio cumprimentá-la.
— Se sinta a vontade, moça. Todo mundo aqui é gente boa. Vem aqui conhecer a galera.
Ele começou a apresentá-la as pessoas até Daniel chegar. Ele chegou perto dela e colocou seu braço em torno da sua cintura.
— Vou ter que roubar ela de vocês, sanguessugas. Depois vocês terminam de se apresentar.
Ana Lua deu uma risada e ele caminhou com ela lentamente até a pista de dança.
— Ei, o que foi isso, Daniel?
— Acha que eu vou dar um mole desses de deixar você com esses caras? Eu os conheço muito bem — eles dançavam lentamente juntos, dentro do ritmo da música.
— Se eu não conhecesse você, diria que está com ciúmes, Daniel — Ana Lua lançou um sorriso de canto. Daniel soltou uma breve gargalhada.
— Shhhh, Lua. Tem muita coisa que você ainda não sabe de mim.
— Realmente, isso eu concordo. Pensei que o ultimo lugar do mundo que você me puxaria seria pra uma pista de dança.
— Então aproveite, esses momentos são realmente raros de acontecerem.
— Quer dizer que ainda tem cartas e surpresas na manga?
— Talvez, Lua, talvez.
— Pensei que odiasse surpresas e essas coisas, Daniel
— Mas eu odeio. Odeio quando as surpresas são pra mim.
— Ah, jura? Mas isso é muito injusto!
— Bem vinda ao mundo, gatinha.
Ambos riram e continuaram a dançar. Com certeza aquele era um momento raro. Os dois radiavam alegria e sentimentos. Daniel acariciava o rosto dela enquanto dançavam e eles sorriam como crianças que ganharam brinquedos novos. Daniel começou a fazer alguns passos bobos, quebrando um pouco do clima.
— Desculpe. Eu não faço muito o tipo romântico e acabo quebrando o clima sem querer.
— Só cale sua boca por um tempinho, ok? — Ana Lua colocou sua mão no rosto dele com cuidado e selou seus lábios. Ficou assim por algum tempo. Quando os lábios desgrudaram, eles sorriram. Continuaram a dançar até o fim da música. Depois sentaram num canto mais vazio da sala e tomaram algumas cervejas. [Aperte o play aqui]
— Polar é a melhor cerveja do mundo!
— Tenho que concordar com você, realmente, é muito boa — Ana Lua tomou mais um gole do copo — Fiquei surpresa com sua reação.
— Que reação? — Daniel tomou mais um gole de sua cerveja.
— De não ter se afastado de mim quando beijei você. Eu senti muita vontade de ter você naquele momento. Não pude controlar meus instintos.
— Eu também senti. Mas porque acha que eu te afastaria de mim?
— Você não parece muito ser do tipo que assume garotas em público. Ainda mais eu que sou complicada e me intrometo na sua vida — Lua deu uma risadinha baixa.
— Não tenho vergonha de assumir você. Mas admito que realmente não costumo fazer isso. Gosto mais das coisas privadas, acredito que ninguém tem que saber da minha vida. As coisas guardadas duram mais tempo. Quando você expõem algo assim pro mundo, desgasta mais rápido. E eu não gostaria que nós desgastássemos rápido.
— Desculpa, eu não sabia. Mas concordo com sua teoria, faz sentido. Se eu pudesse guardaria isso aqui num potinho e não dividiria com ninguém. Mas isso soaria muito possessivo.
— Concordo, quase senti medo com seu comentário! Acho que eu não ficaria muito bonito em miniatura... — Eles riram um bocado juntos.
— Quer dizer que você é bonito em tamanho real?
— Claro que sim! Não é atoa que você está encantada por mim.
— Oh, desculpe questionar sua admirável beleza e modéstia.
— Eu lhe perdôo se conhecer o resto da casa comigo.
— Sim, eu quero conhecer.
— Então, vem comigo. Vamos explorar essa casa. Eu serei seu guia essa noite, madame.
Daniel a segurou pela mão e começou a mostrar a casa para ela. Mostrou todos os cômodos que estavam vazios. Alguns deles aconteciam coisas um bocado insanas, intensas e particulares.
— Esse lugar que vou te mostrar agora é especial. Só eu e alguns amigos sabemos dele.
Daniel a levou até o fim do corredor em formato de L. Quando fizeram a curva, deram de frente pra uma janela. Ana Lua não entendeu muito de inicio. Logo depois, Daniel puxou uma cordinha que abriu uma passagem no teto. Havia uma escada dobrável a qual ele esticou. Ele subiu primeiro, fazendo Lua segui-lo. Logo após ela subir, Daniel suspendeu a escada e fechou a passagem. Ela ficou maravilhada com o que estava vendo. Era uma área reta de meia parede no telhado, tipo uma laje. Mas ficava escondida pelo telhado pra quem olhasse de baixo. Havia uma espécie de jardim e uma construção parecida com uma estufa porém haviam cortinas no seu interior, deixando apenas o teto descoberto. Daniel mexeu num vaso de planta, pegou uma chave e abriu a estufa. Eles entraram e Lua estava encantada. Dentro não havia muita mobília. Estava meio escuro. Apenas a meia lua iluminava o local. Havia um colchão, alguns travesseiros, um cobertor, algumas caixas de velas e um castiçal.
— Senta ali no colchão, Lua!
Ana Lua se sentou no colchão. Daniel foi até as caixas e pegou algumas velas. Colocou-as no castiçal e acendeu com o isqueiro. Logo depois se juntou a Lua, sentando em seu lado. Estava um bocado frio naquela noite, então pegou o cobertor e os cobriu. Olharam-se e ficaram um tempo em silêncio. Lua se apoiou no ombro dele e os dois ficaram olhando a lua e as nuvens que as rondava. Ela fechou os olhos por alguns momentos e sorriu.
— O que foi, Lua? Algum problema?
— Eu só estou tentando guardar esse momento. Guardar o seu cheiro se misturando com o da vela. Guardar como a luz reflete no seu rosto. Guardar como o cobertor toca minha pele. Guardar a textura da sua camisa no meu rosto — Ela permanecia de olhos fechados.
— Então guarde isso também.
Daniel colocou seu braço novamente entorno dela e a beijou devagar. Era um beijo diferente das outras vezes. Havia desejo como nos outros mas também possuía algum bônus. Ele durou alguns minutos. Após ao beijo, Ana Lua finalmente abriu os olhos e olhou pra ele.
— Obrigada. Obrigada por me proporcionar esse momento.
— Vamos viver e aproveitar o hoje. Vamos sentir esse momento sem ligar pra depois, que tal?
— Sim. Vamos nos permitir amar e viver esse instante.
— E eu digo pra você, Ana Lua, que nesse instante eu amo você.
— E eu também te digo, Daniel, que nesse instante eu também amo você — Ele acariciou o rosto dela enquanto ela dizia as palavras.
— É a primeira vez que diz que me ama, Lua.
— Mas não é a primeira vez que sinto amor por você. Eu tive muito medo de assumir o que sinto pra você, Daniel. Tenho medo de não controlar a intensidade do que sinto.
— Shhhhhhh. Lembre do que falamos ainda pouco. Se permita amar agora na intensidade que sente agora.
O dia estava amanhecendo, então Lua e Daniel desceram da estufa. Encontraram pessoas dormindo jogados por toda a casa. Alguns dormindo sujos de vômito no banheiro, outros no corredor, muitos na cama. Não podia se contar e nem entender. Alexandre ainda estava acordado e bebia café sentado numa poltrona na sala.
— Já acordaram?
— Na verdade, não dormimos — Daniel respondeu ao amigo, lhe dando um aperto de mão com um abraço em seguida.
— Vocês sumiram no meio da festa, presumo que a noite foi boa.
— E como sempre, não é do seu interesse, Alexandre.
— Sempre rápido nas palavras, Daniel.
— Já estamos indo. Obrigado pela festa. Foi de arrasar pelas pessoas que eu vi no banheiro.
— Sabe como é, não existe limites aqui. Mas foi bom recebê-los. Espero que você volte sempre, Lua. Espero que tenha gostado também daqui.
— Obrigada, foi uma festa muito boa. Voltarei sempre que me chamar.
Eles se despediram de Alexandre e pegaram seu rumo para o velho edifício onde moravam. Cochilaram um no ombro do outro no ônibus até chegarem em casa. Por muito pouco não perderam o ponto de saltar do ônibus. Subiram dentro do velho elevador. Quando Daniel foi andando para sua porta, Lua respirou fundo e o chamou.
— Daniel? — Ele se virou para olhá-la — Cê quer dormir aqui em casa?
Ele sorriu de canto e andou até ela.
— Seria um prazer, Lua.
Os dois entraram no apartamento dela e foram direto em direção ao quarto. O dia ainda não havia amanhecido totalmente. Podia-se ver o sol subindo lentamente entre as montanhas e irradiando o dia. Daniel tirou sua camisa e subiu até a cama dela. Observava os detalhes do quarto. Ana Lua pegava uma camisola do cabideiro e estava indo pro banheiro se trocar.
— Ei, onde você está indo?
— Eu vou no banheiro me trocar, por que?
— Sério que tem vergonha de se trocar na minha frente?
Daniel gargalhou e ela fez uma careta, arqueando as sobrancelhas.
— Está bem!
Ela se virou de costas para ele e começou a despir-se da calça, da jaqueta e da camisa. Colocou a camisola com um pouco de pressa. Caminhou até a cama, subiu as escadinhas e se deitou ao lado dele.
— Tive uma visão incrível agora. A luz da janela fez uma sombra perfeita no seu corpo.
— Você me deixa sem graça assim, Dan. E você sabe disso.
— É exatamente por te deixar sem graça que eu faço isso, Lua.
Ana Lua deu língua para ele. Ele deu uma pequena risada.
— Agora vamos dormir! — Lua lhe deu um selinho demorado e fechou os olhos.
Dan continuou de olhos abertos e afagou o cabelo dela. Respirou fundo.
— Lua?
Já um pouco sonolenta, ela abriu os olhos e olhou pra ele.
— O homem que eu matei... ele havia estuprado minha irmã. Se aproveitou de um momento que ela estava sozinha e um pouco bêbada. Ela hesitou, falando que queria ficar ali. E ele disse que a colocaria num lugar mais confortável. Levou ela pra uma cama e começou a despir as roupas dela. Ela pediu pra ele parar mas ele continuou...
— Shhh. Não precisa me dizer isso agora.. Posso esperar você se sentir mais confortável pra isso.
— Obrigado por compreender.
— Você só quis proteger sua irmã. Você deve amar muito ela e não aceitou ferirem ela. Você não é um monstro, Dan. Você não precisa ser o mocinho da história pra estar certo.
— Obrigado, Lua. De verdade. Vamos dormir?
Ela fez um movimento positivo com a cabeça. Ela o abraçou bem forte, tentando proteger ele de tudo. E os dois finalmente fecharam os olhos para dormir.
Fale com o autor