Blue Jeans

3 Montanha Russa


Ana Lua não tinha dormido bem nessa noite. Ela se levantou mais cedo que o normal. Preparou seu café e o tomou na varanda. Ainda estava escuro. A rua estava vazia de pessoas e cheia de luzes nos prédios. O frio rondava pelas ruas, sozinho. Naquele dia, ela decidiu sair mais cedo de casa. Ana Lua caminhava devagar até perceber alguns passos atrás de você. De inicio, ela achou que fosse uma pessoa normal caminhando. Mas conforme ela caminhava, viu que estava sendo seguida. Ela acelerou os passos e os passos atrás dela também. Ela começou a correr mas a pessoa corria mais rápido. Ela sentiu sendo empurrada pra um beco antes do ponto de ônibus. O sol começava a nascer e ela pode ver o rosto da pessoa. Um rosto que ela nunca mais esperava ver.
— Como me acharam aqui?
— Ah, Ana Lua.. realmente acreditou que não a acharíamos? Não adiantou mudar de estado. Não adiantaria nem se mudasse de planeta.
O homem de barba retalhada, cabelo cerrado e de cicatrizes pelo corpo pegou um canivete em seu bolso e mostrou uma arma pra ela no outro. Ela ficou sem voz. Não podia correr, nem se mover. Ele aproximou o canivete ao pescoço dela. Ela suava frio e seu corpo exaltava calafrios.
— O que você quer? — Ana Lua disse com a voz trêmula. Mal podia respirar de nervoso.
— Queremos que você pague a dívida.
— Essa dívida não é minha. Era do meu pai.
— Ah, era sim — Ele apertou o material afiado na garganta dela — E veja: ele não teve tempo suficiente pra pagar. Estamos te dando esse tempo antes. Porque se você não pagar, sabe o que vai acontecer.
— E o que vai acontecer? — Ana Lua logo reconheceu a voz. A voz de quem ela menos esperava agora. A voz do Daniel. Ela tremeu. Seu corpo inteiro ficou dormente. Faltava ar nos seus pulmões. Ela olhou discretamente e viu que ele segurava uma arma. E que estava apontada pra cabeça do homem.
— Vejo que fez amigos, Ana Lua.
— Solte ela.
O homem tirou o canivete do pescoço dela e Daniel tirou a arma da cabeça dele. O homem deu um pulo pra trás e Daniel foi pro lado dela.
— Fique tranquilo, rapaz. Eu e ela já tivemos nossa conversa — Ele virou o olhar pra ela — Um mês, bem aqui nessa hora, Ana Lua. E dessa vez, não vai adiantar fugir. Porque se fugir, teremos seu amiguinho em garantia.
O homem começou a correr pra fora do beco. Ela desabou no chão, sentada. Batia a cabeça em seus próprios joelhos. Aos poucos voltava a respirar. Sentia seu pescoço arder. Passou a mão e sentiu um leve corte nele. Daniel a ajudou a levantar. Ela ainda estava em choque e olhava fixamente pra arma na mão dele.
— Por que diabos você tem uma arma?
— Sabe, essa não é a primeira coisa que se deve dizer quando é salva por alguém.
— Obrigada — ela respirou fundo e olhou pra ele — Por que diabos você tem uma arma?
— Uma longa história. No apartamento eu explico a você.
Ela não fez subjeções como faria de normal. Apenas se apoiou nele e foi andando até o prédio. Ele tinha guardado a arma em sua cintura quando saíram do beco. Quando chegaram ele a colocou no sofá e buscou um copo de água. Ela engoliu a água com rapidez. Ainda tremia e estava nervosa.
— Então, o que aconteceu lá naquele beco? — Ana Lua hesitou uns instantes — Lua, se você não me disser eu não vou poder ajudar você.
—Meu pai era viciado em jogo. Ele deu quase todo dinheiro que tínhamos nas mãos desses caras. Eu trabalhava pra tentar pagar a dívida. Às vezes, fazia até bicos como dançarina de boate pra ter dinheiro extra. Meu pai foi entregar uma parte do dinheiro pra eles, mas eles queriam tudo e, atiraram nele. Ele ficou algumas semanas em coma, até morrer no hospital. Eu não queria mais ficar lá. Pensei que com meu pai morto a dívida estaria quitada. E vim embora pra não ter que encontrá-los de novo. Mas pelo visto, não é bem assim. Eles me acharam e querem que eu pague a dívida dele, senão vou ter o mesmo destino.
— É, realmente está complicado. Quanto ele devia?
— Ele devia cinco mil. Mas eu paguei dois mil.
— Faltam três mil, então.
— Agora está na hora de você me responder. Por que você tem uma arma? E por que anda com ela?
— Essa arma era do meu pai. Eu era a pior pessoa do mundo que ele podia ter a deixado. Justamente hoje, eu iria me livrar dela. Estava pensando no que fazer com ela. É muito perigoso pra mim e pras pessoas no meu redor. Vamos dizer que você teve muita sorte hoje.
— É, talvez eu tenha tido. Mas já decidiu o que fazer?
— Ainda não. Eu ia pensar nisso no caminho do trabalho. Alias, vou ligar pra avisar que não vou hoje. Você devia fazer o mesmo.
Ambos pegaram seus telefones e ligaram pros seus trabalhos avisando a falta. Ana Lua ainda estava inquieta e preocupada. Não sabia onde iria arrumar aquele dinheiro em um mês. Ela respirava fundo, segurava o choro. Ela finalmente achava que as coisas iam dar certo e aquele passado voltou pra assombrar.
— Então, como vamos arrumar esse dinheiro?
— Hã? Como "vamos"?
— É, eu vou ter que ajudar você, não acha? Ou vai achar três mil assim na rua ou pegar de uma árvore?
Mesmo naquela situação ele conseguia irritá-la. Ela cravou as unhas no sofá e bufou.
— Eu não sei. Eu tenho mil guardado, eu creio. Mas ainda falta dois mil. Qual sua sugestão?
— Eu também devo ter algo guardado. E também tenho meu salário e você tem o seu. Provavelmente faltaria uns quinhentos reais.
— Eu poderia voltar a dançar. Pelo menos por uma noite.
— Você acha que pagariam quinhentos reais em cachê pra você?
— Não subestime meu talento.
Daniel deu uma risada. Ela a observava. Ele realmente tinha um passado misterioso como ela imaginava. Mas afinal, ela também tinha. Não podia julgá-lo.
— Você não falou mais comigo desde a noite do bar.
— É, eu não falei.
— Por que, Ana Lua?
— Andei ocupada. Trabalhando bastante. Me concentrando em escrever. Essas coisas, sabe.
— Ainda com aquele lance de ser devagar?
Ana Lua ficou sem resposta. E ela odiava ficar assim.
— Talvez. Eu sou uma caixa de surpresas.
— Odeio surpresas.
— Sinto muito por você.
Daniel deu um sorriso de canto. Ana Lua deu um jeito nos cabelos bagunçados.
— Eu queria saber mais sobre você, Daniel.
— Eu não sou um cara muito interessante — ele disse rindo — você é muito mais interessante que eu.
— Nem tanto. Mas ainda gostaria de saber.
— Eu não costumo muito falar sobre mim. Eu sou apenas mais um cara, vagando por aí. Esperando a hora de morrer.
— Isso soa tão.. fúnebre.
— Eu disse que não era interessante. Eu tenho um vazio que creio que só possa ser preenchido com a morte.
— Você já tentou preenche-lo?
— Sim. Com tudo que você pode imaginar. Álcool, mulheres, comidas, drogas, amigos, sentimentos. Com tudo.
— Eu gostaria de tentar preenche-lo.
— Não vai conseguir. Eu em si já sou um grande vazio. Não tenho nada, sou um nada, vivo por nada.
— Se você diz. Só saiba que eu sou teimosa — Ana Lua se levantou e foi até a porta. Daniel a acompanhou. Antes dela sair, ele sussurrou em seu ouvido.
— Só não se apaixone por mim, Ana Lua.

Ana Lua saiu do trabalho e foi direto para a boate. Havia conseguido o cachê que precisava. Ela tomou um banho rápido e sentou em frente ao espelho do camarim. Começou a se maquiar. Seu figurino era sensual. Tinha meias arrastão com suspensório junto a um short de couro preto e um belo salto preto. Seu sutiã tinha tachas afiadas como um spike e usava um colete curto por cima, aparecendo a maior parte dele. Usava um batom bem vermelho nos lábios e uma mascara preta escondendo a faixa dos olhos. Em sua cintura, tinha um chicote vermelho preso. Ela faria seu show em breve. Se admirou no espelho e lembrou do passado. Ela foi para o palco e se sentou em uma cadeira de costas. As cortinas se abriram. A música começou a tocar. Com graciosidade e sensualidade ela rebolava devagar na cadeira. Fazia movimentos cuidadosos e bem feitos. Quando ela olhou a platéia, viu o Daniel na primeira cadeira. Ele bebia cerveja e tinha um sorriso sacana no rosto. Ela sentiu vontade de pular no pescoço dela. Mas não podia. Foi andando lentamente até a barra do pole dance. Ela fazia os movimentos, descendo e sumindo. Girava pela barra como profissional. Parecia ter feito aquilo a vida inteira. Os homens na platéia babavam e mal piscavam os olhos. Ela andou até o fim da passarela e chicoteou o chão. Tirou o colete, jogando-o longe. Subiu no colo de Daniel como se não o conhecesse e continuou sua dança. Rebolou devagar e dançava conforme o ritmo. Se entregou de corpo e alma ao momento. Depois retornou ao palco onde continuou a dançar. Terminou seu show ajoelhada no chão, extasiada da dança. Foi recompensada com muitos aplausos. Levantou e mandou um beijinho pra platéia e foi correndo pro camarim. Sentia o sangue quente rolar nas veias. Se olhou no espelho e sorriu. Prendeu os cabelos e pôs um sobretudo. Recebeu seu cachê junto de elogios e convites pra próxima noite. Ela os negou e resolveu ir pra casa. Se surpreendeu quando a porta do elevador se abriu no quinto andar e viu Daniel parado em sua porta. Ela olhou pro 505 e depois olhou pra ele.
— Veio me parabenizar?
— Sim. Foi uma bela apresentação. Inclusive quando veio pra cima de mim.
— Você era o mais próximo do palco.
— Ah, claro. E só por isso você dançou em cima de mim?
— É, por isso.
— Não minta pra mim, Ana Lua — Daniel a segurou pela cintura, deixando-a presa ao seu corpo.
— E quem disse que estou mentindo? — ela disse quase sem fôlego.
Daniel apertou ainda mais seu corpo contra o dela. Beijando-a ardentemente. Ele a trouxe pro seu apartamento. Cada parte do corpo dela entrava em êxtase. Ela sentia a pele formigar e o sangue incendiar. Ela gostava do que sentia. Ana Lua retribuía o beijo e o aperto. Ela tinha vontade dele e tentava resistir. Mas era muito mais difícil. O que ela menos queria que acontecesse foi justamente o que aconteceu. Ela se apaixonou por ele e sabia disso agora. Era totalmente contra aos votos dela. Contra aos pensamentos. Contra os planos. Mas ela simplesmente não podia conter. Ela escorregou as mãos pelas costas dele e o arranhou como sempre fazia. Ele apertava as coxas dela com força, ficando a marca das suas mãos. Ele jogou o sobretudo dela pela sala e a levou no colo pro seu quarto.
— Quero fazer algo diferente hoje.
Ele segurou os pulsos dela e os amarrou com um pano. Cauteloso, começou a tirar a roupa dela devagar. Pressionando os dedos contra o corpo dela ficando leves marcas. Ela se sentia exposta e vulnerável. Ela brincava com seu corpo. Usava-o. Lambuzava-o. Ele conhecia cada parte do corpo dela. E ainda o explorava. Ela gostava do que sentia, cada vez mais. Sentia-se invadida. O mundo podia parar, o prédio podia pegar fogo, mas ela continuaria ali. Ela sabia que o sentimento dela duplicava cada sensação. Ana Lua fechava os olhos, mordia os lábios e suspirava. Seu corpo tinha novamente marcas roxas mas ela não ligava. Suas mãos tinham marcas das próprias unhas. Ele chupava seu corpo com vontade e prazer deixando-a mais excitada. Suas pernas estremeciam de prazer e desejo. Ela implorava por ele. Chamava por ele. Gritava por ele. Nada vazia sentido pra ela naquele momento. Ela não pensava. Ela apenas sentia. Depois de tanto implorar, Daniel penetrou nela com força fazendo-a soltar um longo gemido. Ela retribuía cada estocada dele. E naquele momento, ela podia sentir todo um universo nela. Podia sentir as cores, as sensações, os sentimentos e cada coisinha do mundo.

Ana Lua acordou antes dele. Já estava entardecendo. Podia-se ver o sol preparado pra se pôr. Nada era tão belo quanto o pôr-do-sol naquele momento. Curiosa, ela analisou o quarto dele. Não era muito grande, era organizado. Tinha uma estante com livros e num canto quatro guitarras. Ela caminhou pelo quarto e viu encarando o guarda roupa cor de mogno. Abriu uma das portas e começou a ver uma extensa coleção de camisas de banda e diversos jeans pretos. Poucas blusas de cor. Dentro do armário, num cantinho, tinha uma caixa jogada em baixo de algumas peças de roupa. Ana Lua olhou pra trás, espiando Daniel e o viu em sono profundo. Ela pegou a caixa e a segurou por um tempo. Sabia que suas ações estavam sendo erradas mas sua curiosidade sempre foi maior. Ela abriu a caixa e viu alguns frascos e saquinhos. Junto também tinha algumas seringas descartáveis. Ela arregalou os olhos e começou a ver as doses. Doses de vários tipos de droga. Das mais pesadas até as mais leves, ele tinha um pequeno estoque delas. Suas mãos tremeram e ela começou a pensar. Ela fechou a caixa e a guardou com rapidez. Pegou suas roupas e fugiu de lá. Se trancou em seu apartamento e ficou jogada no chão da sala. Ela pensava que Daniel se drogava com raridade. Mas pelo seu estoque, não parecia ser tão raro. Algumas doses à mais e já era. Ele poderia ter uma overdose. Se ele já não tivesse tido alguma. Depois de todas as conversas que tiveram e depois de pensar nelas, ela descobriu. Que ele era depressivo era obvio. Ele evitava as pessoas porque não queria se apegar. Ele não pretendia estar vivo por muito tempo. Ana Lua não sabia o que fazer. Tudo saiu do seu controle tão fácil. Sua garganta estava tão fechada que mal passava a saliva. Ela ficou algumas horas naquela mesma posição na sala. Ela pensava na ingratidão da vida. A vida nos enche de sonhos, de esperanças e de pessoas. Faz você acreditar, se esforçar e batalhar. E no fim o que ganhamos afinal? A morte. Tentamos se realizar e vencer. Tentamos conquistar as nossas vidas. Todos os dias cravamos batalhas, muitas das vezes interiores. A vida podia ser muito boa, mas muito ruim também. Aqueles que são escolhidos pela sorte conquistam o mundo. Mas aqueles que não foram, se contentam com momentos tão intensos e cheios de sobe e desce. A vida não era mais do que uma montanha russa semi-infinita. Cheia de curvas, de voltas, de subidas e descidas. Às vezes ela fica tanto tempo na descida que achamos que ela nunca terá uma subida e desistimos. Nos jogamos dos carrinhos tentando ser livres. Somos tão complexos e simples ao mesmo tempo. Mas um dia, tudo faria sentido.