Blue Eyes

1 Capítulo Único


Notas iniciais
Uma one shot que estava guardada no meu word por tempo demais. Espero que gostem, boa leitura ♥ Aviso: A história original, postada em 2016, era crua e precisava ser trabalhada. Portanto, cá estou eu repostando o capítulo.

As luzes invadiram meus olhos, eram como flashes de câmera, piscando incessantemente. Era difícil passar pela multidão. Pessoas suadas, mexendo seus corpos sem ligar para as bebidas que estavam segurando, como se nada pudesse pará-las. Passava com dificuldade por eles, tentando me esquivar. Fracassei. Uma garota qualquer me viu totalmente perdida e me puxou para perto do grupo dela.

Tentei me deixar levar pelas batidas da música eletrônica. Eu sempre gostei de The Chainsmokers, mas eu não conseguia seguir o fluxo. Olhei ao redor. Eu me destacava de um jeito ruim, me vestia diferente. Eu me sentia como uma nerd no meio dos populares, com óculos de fundo de garrafa, redondos como o de Harry Potter, meias de listras coloridas até os joelhos.

Todas as pessoas ali eram iguais: perfumes exagerados, roupas coladas e curtas, cabelos grudados na pele por causa do suor, hálito de bebida e algo a mais. Eu fiz uma trança meio desfiada, achando que a festa merecia um penteado. Meu vestido era rodado, porque eu não tinha curvas para usar tubinho. Eu odeio maquiagem e me esforcei ao máximo para fazer algo nos olhos e usar cílios postiços. Peguei escondido o perfume da minha mãe.

Eu não pertencia a este mundo. Foi então que eu o vi, com sua roupa de bad boy, o cabelo mais longo do que deveria, e aqueles olhos azuis que me hipnotizaram. Eu não tinha o coração mole, eu não pensava em garotos desde o ensino fundamental, eu simplesmente não ligava para o amor.

Eu não pertencia a este mundo. Não pertencia e sabia disso. Mas eu estava em transe pelo azul.

As meninas me puxaram para o centro da rodinha, e por mais que eu queira me mexer, eu não conseguia. Meus olhos estavam totalmente imersos nos seus. Mil pensamentos me vieram à cabeça. Eu estava hipnotizada, meus olhos estavam sendo atraídos para dentro daquele oceano vivo. Pra ele.

Amon me achou, finalmente, no meio daquela bagunça. Ele era um pouco de tudo, sabe, aqueles caras no ensino médio que conseguem tirar notas boas mesmo sendo viciados em videogames e livros, só sabe falar sobre mangá e futebol e é o capitão do time.

Ontem, ele me acordou três da manhã só para me convencer a vir para a festa. Eu disse que não queria, mas somos tão grudados que me obriguei a levantar da cama hoje. Ele havia conseguido os convites por ser muito popular. Qualquer um gostava dele. As pessoas inconscientemente davam espaço para ele passar, as meninas lançavam olhares sedutores, mas ele não prestava atenção. Amon tentava falar alguma coisa comigo, porém meus ouvidos não cooperavam. Meus sentidos estavam centrados em outra coisa.

— Ei! Está me ouvindo?

— Hum? — respondi automaticamente.

Amon bufou, irritado. Bem, até eu ficaria. Ele deve estar me chamando já faz muito tempo.

— Pra quem é essa atenção toda? — ele seguiu o meu olhar, mas antes de vê-lo, o detive. Foi tudo por impulso, nem mesmo eu sabia por que Amon não podia saber dele.

— Pra ninguém, eu tava só viajando mesmo. — disse meio rápido demais. — Afinal, você sabe muito bem que eu não curto festas... — levantei uma sobrancelha, sarcástica. Ele levantou outra, aceitando meu desafio e roubou a bebida na mão de uma garota que estava dançando perto da gente. Ela ia protestar quando ele lançou seu melhor charme: ele passou as mãos no cabelo, deu uma piscadela e um sorriso torto. Homens, revirei os olhos, todos sempre iguais.

— A culpa não é minha se você fica enfiada em casa todos os finais de semana. — se defendeu, dando de ombros para o que acabara de acontecer. — Aceita?

— Não, obrigada. — executei minha melhor imitação de garota-loira-líder-de-torcida e um sorriso amargo. — Sabe-se lá o que passou naquela boca. — apontei para a garota, que agora tentava "discretamente" seduzir Amon. Ele olhou para a bebida com repulsa e deu para o primeiro garçom que apareceu.

Rimos juntos, como duas crianças mexendo nas coisas escondidas dos pais. Ele me puxou para o centro da pista e começamos a dançar, ou pelo menos eu tentei. Eu ainda estava desconfortável com essa atmosfera. As pessoas bebiam, se esfregavam uns nos outros, casais se pegavam nos cantos e as pessoas se atiravam, de roupa e tudo, na piscina dos fundos. Amon notou o meu incômodo.

— Vamos. — ele pegou a minha mão e me levou para fora da pista. — Você precisa beber alguma coisa.

— Amon, você sabe que eu não bebo. — retruquei. Ele parou.

— Você precisa se soltar, garota. Sair dessa caixa. Se misturar!

— Mas eu não quero me misturar com ELES! — olhei para um casal que estava praticamente sem roupa no corredor. Amon bufou e pediu para o barman algo azul e com muita vodca.

— Amy, vamos lá! O que custa um pouco de diversão? — perguntou com o braço esticado. A bebida azul espumante na mão.

Meus olhos se alternavam entre ele e a bebida, se eu deveria pegá-la ou simplesmente dar meia volta e ir pra casa, como várias vezes que fiz no meio da noite, quando Amon "misteriosamente" desaparecia de vista. Mas algo me dizia que eu deveria dar uma chance. Uma chance de sair da caixa.

Algo ou alguém.

Peguei o copo e bebi tudo de uma vez. Senti o álcool descer pela minha garganta e eu tossi com a ardência que veio em seguida. Amon sorriu como uma criança e me levou de volta para a multidão.

— Às vezes se misturar significa se tornar outra pessoa! — ele tentou gritar, tentando soar mais alto que as caixas de som bem acima de nós.

E foi isso que eu fiz a noite toda. Bebi e me tornei uma outra pessoa. As luzes e a música invadiam a minha cabeça. Soltei a trança e comecei a rebolar junto com a galera.

Olhei em volta e Amon já havia sumido. Reparei também que alguns garotos olhavam para mim, outros estavam se aproximando. Sorri para um deles enquanto dançava, ele veio em minha direção com o mesmo sorriso, mas eu sabia o que se passava em sua cabeça. Sempre soube, porque todos eram iguais.

Ele veio por trás e dançamos, provocando um ao outro. De repente eu vi um par de olhos azuis me observando de longe. Não qualquer tom de azul, mas o dele.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!