Blue Eyes
1 Capítulo 1
Parei por um momento e fiquei esperando que alguma câmera aparecesse como em um programa de piadas. Mas isso não aconteceu, Nathan apenas continuou parado no mesmo lugar que estava, com as bochechas coradas e um sorriso nervoso.
“Então, deixe-me ver se entendi. No dia que você estava conversando comigo sobre a cola de matemática que eu te dei, sua tia estava aqui.” Pausei e o esperei confirmar antes de continuar. “Ela nos viu juntos.”
“Certo”
“E agora toda sua família acha que eu sou sua namorada.” Eu pensei que Nathan não fosse o tipo de cara que desviava o olhar quando estava envergonhado. Na verdade, na minha cabeça, Nathan Cooper nem sequer ficava envergonhado. “E faz questão de que eu vá à festa, desculpe, melhor dizendo, vá À festa para que toda a sua família possa me conhecer.”
Ele me deu um sorriso pequeno, tímido demais para aparecer completamente. “Exatamente isso.”
“Você está brincando comigo? Isso é alguma daquelas apostas ridículas que meninos fazem?” Me recostei na carteira, mas o que eu queria na verdade era apenas um banho quente. Já estava acostumada com essas brincadeirinhas sem graça que os moleques do time de futebol costumam fazer. Na segunda série eles pegaram minha boneca e desenharam dois óculos fundo de garrafa com canetinha preta e trocaram o vestido rosa-glamour por uma roupa do Ken. Minha sorte mudou porque os meninos foram crescendo e foram me esquecendo aos poucos, agora eu não passava de uma zé-ninguém que dava cola para metade do time de futebol.
“Infelizmente, não” Os olhos azuis dele tinham um brilho opaco e ele parecia um pouco cansado. Ele tinha treinos correntes, não era o capitão do time, mas era o artilheiro e recebia uma pressão enorme do treinador. “Escuta, eu sei o que você está pensando ‘Por que eu simplesmente não desminto? ’, certo?” Ele fez uma pausa quando ouviu um barulho próximo, no corredor. Ótimo, ele estava com vergonha de ser visto sozinho comigo. Só podia ser brincadeira. “Eu tentei, de verdade. Quero dizer, não é que eu não queira levar você à festa, mas...”.
“Certo, não precisa continuar.” Tudo o que eu não precisava era que ele continuasse. “E você acha que me levando para essa festa eles vão parar?” Então ele olhou para qualquer outro lugar menos para mim. Era óbvio que ele não queria mesmo que eu fosse a sua acompanhante. Eu não podia mentir e dizer que eu não estava adorando tudo aquilo. Primeiro, simplesmente, por que eu sempre quis ir a essa festa. E segundo, por que foi Nathan que pintou minha Barbie na segunda série. “Por que você não deixa isso para lá? Daqui a pouco todos esquecem.”
Ele tinha a mania de bagunçar os cabelos quando ficava nervoso com alguma coisa que ele não podia resolver. Eu tinha percebido isso porque era sinal de que ele estava indo mal em alguma prova e que eu estava prestes a ser chamada. Ele se levantou, os cabelos arrepiados davam um ar depressivo a ele, como se não estivesse dormindo há dias. E talvez não estivesse, ouvi dizer que o treinador estava estendendo os treinos por causa da chegada do campeonato. Ele parecia um caco.
“Escuta, Anna, vou ser sincero com você, ok? Meu avô está morrendo e todas as meninas que eu levei para ele conhecer, nenhuma sequer conseguiu arrancar um sorriso dele. NENHUMA!” Ouch. Eu conhecia a história de Nathan. Todo mundo na cidade conhecia. Ele havia sido criado pelos avós e toda aquela coisa de família era em importante na casa dele, ele era um das três grandes casas. Nathan estava falando sério, não colocaria o avô no meio se não fosse.
Ele se encostou na mesa do professor e ficou virou para a janela. Era final de tarde de um dia lindo, o sol parecia estar se pondo mais cedo e a escola estava se preparando para o fechamento dos clubes em meia hora. Éramos apenas nós dois na sala de ciências, o sol batia em seu rosto e o fazia parecer uma pintura. Nathan certamente estava cabulando o treino. Ajeitei meus óculos e tentei me manter o mais receptiva possível. Foi um movimento quase imperceptível quando eu finalmente relaxei os ombros, mas eu sei que ele notou. “Nenhuma delas arrancou um sorriso dele. Mas quando minha tia a descreveu e ele me pediu que eu a levasse... Eu tentei desmentir, mas não consegui. Essa é a verdade.”.
Nós ficamos calados. Ele ainda não olhava para mim e eu muito menos pra ele. Eu não fazia ideia no que ele estava pensando. Talvez fosse alguma coisa sobre como seria vergonhoso ele aparecer comigo por lá, ou se realmente o avô dele me aprovaria se ele me apresentasse a ele. Para ser bem sincera, eu queria que o avô de Nathan me aprovasse; quem sabe assim ele poderia partir em paz sem se revirar no caixão achando que seu neto caçula estava nas mãos de uma Sandra Carter da vida. Para aqueles que não a conhecessem, Sandra Carter é a figura mais caricaturada da face da Terra. Loira, rica, mimada, magricela, líder de torcida, aluna nota dez e colecionadora fiel de tudo que seja cor-de-rosa. E também ex-namorada de Nathan e atual “complicado” na frase “é complicado para caramba”.
Mas naquele momento eu estava, particularmente, pensando na festa. A festa era algo de família que se tornou atração para a alta sociedade da cidade. Ninguém sabe ao certo qual família foi a responsável por isso, mas com certeza foi uma das três grandes: Cooper, Carter ou Lewis. Ser bolsista na minha escola quer dizer que você não faz parte da lista de convidados. Eu fui a única bolsista nessa escola durante vários anos seguidos e sei muito bem do que estou falando. Não é uma festa com convites e se você estiver de fora, só é possível entrar com um acompanhante do sexo oposto. A regra é bem clara, porque assim eles conseguem evitar que amigas levem outras amigas e acabe tornando o lugar cheio de “crianças gratuitas”, como eles costumam chamar quem não paga por uma aula na escola Golden Tree.
“Então, você vai?” A voz rouca dele me trouxe de volta à sala de aula. Ele continuava recostado na mesa, mas com os olhos virados para mim e não para a janela. Nunca pensei que fosse ver Nathan Cooper tão frágil quanto naquele momento, porém lá estava ele diante de mim com um olhar de cachorro morto e ombros encolhidos. Senti uma leve pontada no peito e me amaldiçoei por isso.
“Me busque às 19h, ok?” Foi tudo o que eu pude dizer.
Ele apenas me encarou, não parecia ressentido, sofrido ou surpreso, apenas me encarou, assentiu e foi embora. Fiquei mais uns minutos sentada, apenas pensando em absolutamente nada antes de me levantar e sair.
Era hora de a escola fechar.
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