Blue

2 Capítulo 2


Aquele dia não fui à escola, o que resultou em uma discussão entre mim e minha mãe.

Minha mãe era o melhor ser humano do mundo, sempre cuidando de mim a todo momento, ela deixara tudo por mim, teve que parar de trabalhar para ficar ao meu lado, mas nunca reclamou, eu fazia de tudo para não a contrariar, mas aquele dia eu queria muito ir à escola.

Queria conversar com Beny novamente, queria perguntar coisas sobre ele.

Quando nasci fora um choque para minha família descobrir que eu não enxergava e ainda mais saber que minha cegueira era irreversível, para mim nem tanto, eu nunca soube o que era ver, então não fez tanta falta, até eu chegar a minha adolescência e querer ser como todo mundo.

"Mãe como eu sou?" Lembro de perguntar.

Bom eu sei que tenho cabelo extremamente compridos, eles batem no rumo da minha bunda, são bem lisos, mas ondulados nas pontas, minha mãe diz que ele tem um lindo tom de ruivo, segundo minha mãe é um vermelho meio alaranjado, meus olhos são de um tom de azul bem claro, isso é o que dizem, sei que meus cílios são longos, posso senti-los, sou magra, mas não demais, minha mãe costuma dizer que tenho um corpo incrível, mas provavelmente nunca saberei, é estranho não saber exatamente qual é minha própria aparência, mas você acaba se acostumando.

Apesar de a respostas serem sempre as mesmas, a cada semestre eu vou ao médico para consultas, e tinha caído exatamente naquele dia, eu passaria o dia todo fazendo exames e não iria para aula.

Aqueles exames eram complicados, demoravam semanas para que ficassem prontos, mas eu tinha que estar sempre tendo que ir ao médico.

O dia passou bem devagar enquanto aquele médico examinava minha cabeça de todos os modos possíveis, as vezes eu quase adormecia, mas aquela cama era terrivelmente desconfortável.

Cheguei exausta em casa e logo fui para cama, seria sexta-feira amanhã, e eu teria aula até as 15h.



Acordei e me arrumei rapidamente para escola, minha mãe me deixou na porta e eu me guiei rapidamente para dentro com ajuda da minha bengala, aquele dia as aulas passaram lentamente, quando mais parecia se aproximar, mas demorava para que a aula de teatro chegasse, e quando finalmente deu o horário arrumei meus materiais correndo.

—Hey El, quer que te acompanhei até a sala de música? -Luma, minha melhor amiga perguntou.

—Não tudo bem, a gente se encontra mais tarde.

Fui diretamente para sala de música e sentei no mesmo banco de sempre e em seguida peguei meu livro.

—Olá Eleanor. -Escutei a voz dele e me assustei deixando o meu livro cair.

—Oh desculpe-me -Ele disse e escutei seus passos se aproximando de mim enquanto eu tentava achar o livro.

—Aqui senta, eu pego pra você. -Ele falou me ajudando a sentar.

—Não ouvi você chegar. -Digo franzindo as sobrancelhas.

Ele me entrega o livro e escuto seus passos se afastando em seguida.

—Eu já estava aqui, estava esperando para ver se você ia chegar para depois trancar a porta. — Ele falou e escutei a porta sendo trancada e logo em seguida seus passos em minha direção.

Ele se senta ao meu lado e de repente parecemos estar em um silêncio constrangedor.

—Você não veio para sala de música ontem.

—Ah sim, não vim à aula, tinha consultas no médico.

—Fiquei esperando, queria saber mais sobre você.

—Pois estou aqui, é só perguntar.

—Tipo qualquer pergunta? Algo aleatório?

—Sim, qualquer coisa.

—Tá bom, comida favorita?

—Pizza de queijo e a sua?

—Lasanha.

—Ah que clichê. -Eu disse — Esperava mais de você!

—Não gosta de lasanha? -Ele disse em um falso tom chocado.

—Não!

—Isso é quase um crime!

—Não mesmo! Cor favorita?

—Ei, era minha vez, mas azul, tipo seus olhos, eles são extremamente azuis.

—Que cor são os seus?

—Foram três perguntas seguidas! Me diz você primeiro, música favorita?

—Gosto de ouvir você tocando piano. -Eu disse e ele ficou calado por um tempo, naquele momento, não pude descobrir o que ele sentia.

—Azul, meus olhos, também são azuis. -Sorri ao ouvir sua voz e pude ter certeza que ele sorria também.

—Sua vez. -Eu disse.

—Difícil, o que gosta de fazer no seu tempo livre?

—Ler, acho que da para perceber. Qual a cor do seu cabelo?

—Também gosto de ler, e meu cabelo é preto.

—Sua vez novamente.

—Doce favorito?

—Chocolate, claro, e o seu?

—Chocolate, você gostaria de aprender a tocar piano?

—Muito! Mas é praticamente impossível.

—Claro que não é! Vem, eu vou te ensinar. -Ele disse e pegou minha mão me puxando para o lado que ficava o piano.

—Tem certeza disso? -Questionei.

—Sim! Sente-se aqui. -Ele disse me guiando e logo se sentou a meu lado.

Ele segurou minhas mãos me abraçando por trás e uma sensação estranha me atingiu, na verdade tudo aquilo era muito estranho. Ele passou meus dedos por todas as teclas do piano e logo em seguida passou de novo apertando cada uma para que eu pudesse identificar o som de cada uma.

—Está vendo? Você apenas tem que decorar onde fica cada tecla.

—Mas como farei isso se não posso enxerga-las?

—Pelo som. -Ele disse em um sussurro próximo a meu ouvido.

—Pelo som?

—Sim, eu toco de olhos fechados, porque sei exatamente onde cada tecla está. -Ele disse e então soltou minha mão.

Ficamos em um silêncio agradável por um instante e eu podia ouvir o som da sua respiração ali a meu lado.

Senti sua mão tocando meu rosto e o virando para seu lado, em seguida passou sua mão não minha bochecha como se fizesse carinho.

—Você tem sardas, eu acho isso lindo.

—Tenho? Não sabia.

—Sim, elas são lindas.-Ele falou retirando mão do meu rosto, mas eu queria dizer para que ele continuasse.

—Posso tocar seu rosto? Sabe, para eu saber como você é, é meu modo de conhecer as pessoas.

Em vez de responder ele segurou minhas mãos e colocou sobre seu rosto.

Aquela era minha forma de conhecer, pelo meu tato.

Passei minha mão todo seu rosto, sua pele era lisa e sua sobrancelha era grossa, seus lábios pareciam ser carnudos, mas finos, seu nariz era pequeno, seus cílios eram grandes assim como os meus, seu cabelo também era liso, enquanto estava com as mãos em suas bochechas pude senti-lo sorrir, e buraquinhos surgir na suas bochechas.

—O que é isso? Esses buraquinhos. -Perguntei e escutei-o gargalhar, o som era maravilhoso.

—São chamadas de covinhas.

—Parecem ser fofas.

O sinal para a próxima aula tocou e eu me levantei abruptamente para ir até o banco pegar minhas coisas.

—Eu te ajudo. -Ele disse me guiando.


Peguei minhas coisas e ele destrancou a porta para mim.

—Até a próxima aula de teatro, Beny.

—Até lá Els. -Ele disse e ouvi seus passos se afastando.

Eu só sabia que eu já estava completamente ansiosa para que a próxima aula de teatro chegasse logo.