Blue
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Lá estava eu novamente sentada no mesmo banco no horário da aula de teatro.
E porque afinal eu não estava na aula de teatro, você deve estar se perguntando. Eu não à fazia, normalmente ela seria obrigatória, e deuses, havia todos os dias da semana, mas quando se é cega você tem algumas prioridades, por exemplo não comparecer a aulas de teatro.
Faltava cinco minutos, e eu contava os segundos, eu ficava ali na sala de música esperando que ele aparecesse, ele sempre vinha, todos os dias, no mesmo horário, não dizia uma só palavra, só entrava, trancava a porta e então tocava aquelas lindas melodias. Como eu sabia que era um garoto? Ele havia falado comigo uma vez, me lembro bem.
"-Você se importa se eu trancar a porta da sala de música? Sabe, até o fim do horário.
Ele parecia estar escondendo algo, mas não perguntei.
—Sim, tudo bem, se você puder abri-la para eu sair depois."
Essa foi nossa única conversa, e a única vez que ouvi sua voz, e então após isso ele entrava, trancava a porta e tocava e então eu lia algum livro enquanto apreciava a linda melodia que seus dedos proporcionavam.
Cinco minutos em ponto se passaram e então ele adentrou pela sala, pude ouvir a tranca da porta e seus passos até o piano, e logo a linda melodia se espalhou pela sala.
Se passou meia hora e ele tocou sem parar como de costume, eu lia um bom livro em braille e as vezes parava para simplesmente apreciar a canção.
Se passou mais alguns minutos e agora eu estava com os olhos fechados, minha cabeça se escorava na parede, era relaxante ficar ali a ouvi-lo, mas a música parou abruptamente e eu me assustei.
—Você não se incomoda? -Ele perguntou e pude ouvir sua voz melodiosa e firme depois de tanto tempo.
—Com o que? -Questionei de volta.
—Com a música sabe? Todos os dias você está aqui, e nunca reclamou uma só vez de me escutar tocando durante um horario de aula inteiro.
—Não, de modo algum, eu venho para cá porque gosto de ouvi-lo tocar, mas e você não se incomoda com minha presença enquanto toca?
—Não, você não sabe quem sou, é bom sabe? Ser você mesmo as vezes sem que os outros te julguem.
—Mas você não devia se importar sabe? — Eu disse franzindo a testa — Com o que os outros pensam, devia ser sempre você mesmo.
—Eu queria ser assim. -Ele disse e sua voz parecia abalada.
—Sabe não devia se importar com as opiniões, se são seus amigos vão estar do seu lado.
—Você dizendo parece tão simples.
—Mas é simples, não tem dificuldade em ser você mesmo.
—Você nunca teve curiosidade? Sabe, de saber quem era o garoto que tocava todos os dias enquanto você lê um livro? Porque eu te vejo e sei como você é, você não acha isso estranho?
—Mas eu sei quem é o garoto, posso não saber seu nome, ou aparência, mas você demostra o melhor de você quando esta tocando, o amor, seu amor pela música, e seus sentimentos, posso perceber quando você está triste e quando esta feliz, posso sentir quando esta preocupado ou quando esta confuso.
—Só pelo modo como eu toco?
—Dizem que quem não tem todos os sentidos, tem o costume de ser melhor que os outros com os que tem.
—Você é diferente do que eu imaginava.
—Posso ser muitas coisas, mas sou eu mesma, não gosto de mentiras, ou de esconder quem sou, não gosto de me esconder, não gosto que achem que sou menos por ter uma deficiência, ou que sintam pena de mim pelo que sou.
—Você não merece pena, é como todos os outros aqui.
—Fico feliz que pense assim, nem todos pensam.
—Mas como você mesmo disse, não deve se importar com o que os outros pensam.
—Acho que essa é a essência da vida, viver para você mesmo, não para os outros.
—Mas afinal, qual seu nome?
—Eleanor e o seu?
—Me chame de Beny.
Ele voltou a tocar em seguida, preenchendo a sala novamente com sua melodia, mas o horário logo acabou e então eles se despediu de mim naquele dia, dizendo que nos veríamos amanhã.
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