Bloody Bound
1 O Ritual
A escuridão tomava conta do lugar, o amplo salão ecoava o uivo da brisa noturna que espalhava por cada canto o cheiro metálico que o fluido derramado sobre o chão, móveis e paredes exalava. Em pé, próximo a janela, um vulto negro observava a lua cheia que brilhava sendo a única iluminação visível do lado de fora, virou-se para observar, dispersos no chão pedaços rubros e macios de carne. Humana. O bufar lento e pesado da criatura, que agora afastava-se da iluminação natural do satélite para ocultar-se nas sombras quebrava o sibilar que até então tomava conta do local. As garras grossas riscavam o chão, era difícil manter-se de pé, a anatomia exigia que andasse nas quatro patas. Aproximou-se de um dos corpos, era pequeno, jovem, o rosto pálido tinha grandes olhos azuis, que outrora foram brilhantes e vivazes, mas agora estavam estáticos, opacos, sem vida. Cheirou os cabelos encaracolados em tom de dourado, era um aroma doce, misturado ao amargo sangue que lhe manchava o traje branco, bem alinhado, com alguns babados e um lindo cravo na lapela. A cabeçorra do animal ergueu-se para um uivo doloroso, os longos pelos, também manchados pelo fluido que esvaiu-se de cada ser vivo presente até que lhes findasse a vida, começou a diminuir. Os grandes olhos amarelos marejaram, vertendo tímidas lágrimas do resquício de humanidade que agora ganhava força à medida que seu estado se alterava. Engoliu em seco, as longas garras retraíram-se em unhas e o tamanho tornava-se proporcional ao de um humano do sexo masculino saudável.
- AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHH!!
O homem urrou de dor, não física, algo lancinante, profundo, o suficiente para que o fizesse perder as forças e cair inerte ao lado do corpo sem vida do filho de apenas seis anos, que matara durante seu ataque de insanidade, causado por uma transformação da qual só tivera ciência quando a fúria incontrolável da besta que havia dentro de si se dissipara. Inconsciente, não viu que sentada calmamente em uma das poltronas havia outra criatura, mais velha, forte, o suficiente para manter sob controle sua animalidade. Apenas observara o massacre da família, em plena festa de casamento de um dos parentes do outro, homens, mulheres, crianças, animais, nenhum foi poupado. Bufou e desceu de seu assento enquanto a enorme figura lupina convertia-se em uma silhueta humana, grande, musculosa, um verdadeiro exemplar de atleta grego. Os olhos de um azul pálido vislumbraram a imensidão vermelha e então curvou-se sobre o recém desacordado, pegando-o para após, jogá-lo sobre o ombro. Saiu pelo grande portal, ainda adornado pelas rosas brancas e seu doce aroma floral, que apenas podiam ser percebidos quando se estivesse perto, tão forte era o odor da morte. Com um sorriso sádico de canto o homem de cabelos acobreados deu uma última olhada para trás, um montinho enrolado em muitas mantas e cobertores agora chorava a plenos pulmões. A voz aguda do bebê ecoou pelo local completamente deserto, era o filho mais novo.
- Sobrevive apenas o próximo da sucessão...
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