Bloodless
1 Capítulo 1
Foi numa manhã, no solstício de inverno, que seus pais foram brutalmente assassinados e ele se viu perdido e sem rumo. De família rica e de posse de uma propriedade privilegiada, os Bloodless eram donos de uma estrada capaz de poupar viajantes de até quase dois dias de viagem, entre uma cidade e outra, na região de Cascaverde. O dinheiro da família vinha principalmente dos pedágios que eram cobrados, e foi por causa deles que o nome Bloodless caiu no esquecimento.
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O vento forte arrastava os galhos da mais alta árvore ao redor da casa e o som que faziam na janela de madeira fascinava Simmon. O fogo ardia na lareira bem trabalhada, em pedra negra, e a conversa dos seus pais e irmão no andar de baixo completavam o dia que nascera perfeito. Se trocou e desceu o mais rápido que pôde, saltando até três degraus de cada vez. A cozinha cheirava a ovos cozidos e manteiga quente, perfeitamente juntos no típico prato da manhã-de-la-serra. Era o dia em que precisariam de mais energia: A mãe teria de preparar a casa para a festa no dia seguinte, o sr. Bloodless cuidaria dos pedágios e os filhos tinham de levar os condimentos para serem vendidos na estrada.
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— Pois não? — O mais jovem perguntou ao abrir uma fresta na porta. Não eram comuns visitas naquela hora da manhã, principalmente no dia que antecedia a grande festa. Curioso o jovem forçou o rosto pela porta. — Quem está ai?
O grito que ele soltou tirou todos da mesa.
— Mãe! — O menino berrou enquanto se contorcia nos braços fortes que o prendiam pela cintura. — Mãe, pai! Ajud... — E então seus gritos logo foram sufocados por uma mão enluvada e foi aí que o Pai saltou sobre o invasor. Simmon não teve muito tempo para pensar, sua mãe logo o puxou pelo braço e o jogou para trás enquanto ajudava o marido, principalmente para tentar resgatar o filho mais novo. A luta nada desigual tornou-se sangrenta. O homem sacou uma espada curva, que até então não havia sido usada, e levou-a até o pescoço do pai com tamanha força que sua cabeça se virou em um ângulo grotesco e assustador. Partiu para cima da mulher e a atravessou com a mesma lâmina, vermelha e pegajosa, usada em seu falecido marido. A mulher em seus últimos segundos levou a mão ao buraco recém aberto em uma tentativa desesperada de tapar o sangue quando sua barriga se abriu, enchendo o ar com cheiro de vísceras e a pobre mulher caiu, inerte.
Simmon vomitou os ovos que havia comido e quando levantou os olhos viu-se de frente ao homem. Finalmente pôde olha-lo de perto: Era alto e forte, com uma roupa que parecia ser usada por quem não gostaria de ser visto. A lâmina que segurava era negra e curva, com sua extremidade banhada num vermelho espesso e de cheiro podre, mas de qualquer forma o que mais lhe chamou a atenção eram os olhos brancos e fundos. Sorriu para ele, enquanto sujava as próprias mãos na lâmina da espada e a levava a boca.
— Sua vez. — Disse numa voz gutural, com dentes cerrados. Girou o punho e com o pomo da espada acertou o garoto na cabeça.
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Naquela época não passava dos 12 anos. Era um garoto de mãos hábeis, que tinham serventia tanto para a mãe, nas tarefas de casa, quanto para o pai, na colheita e ordenha de grandes animais. Sempre fora tratado como uma criança normal, mesmo que todos soubessem que era dotado de uma inteligência maior do que esperado para a idade. Tão novo quanto era, Simmon já tratava de animais, trabalhava da Iatrica da cidadezinha, cuidando dos enfermos, e era tido como o "com as melhores mãos para criar um curativo". Seus enxertos davam certo e dificilmente alguém sofria de um pós-inflamatório, depois de ser tratado com ele.
Naquele dia, porém, nada disso o ajudou.
Quando acordou já havia anoitecido. Instintivamente levou a mão à cabeça, tentando avaliar o dano que lhe havia sido causado e percebeu que não precisaria de mais do que seis pontos, o corte não havia sido fundo, felizmente. Sabia o que tinha acontecido, sabia que não tinha o que fazer. Se levantou, nada surpreso de não tropeçar em nada e saiu em direção a porta, a única fonte fonte de luz pálida que pode ver.
Olhou pra trás e cometeu o primeiro grande erro. A pouca luz o poupou de grande parte do horror que era a cena, mas mesmo no escuro ele pode ver o vulto dos corpos estendidos no chão e correu até eles. Ver o pai naquela situação era horrivel, mas a mãe... Suas mãos pousadas no abdômen aberto, suas viceras espalhadas ao seu redor e seu corpo dobrado ao meio, numa forma impossível de ser alcançada enquanto viva. Ela não merecia aquilo.
Fechou os olhos e tornou sua respiração ritmada. Teria de evitar a tremura, se fosse fazer aquilo, ou apenas deixaria as coisas piores e se sujaria mais, se isso fosse possível. Ergueu o corpo da mãe apenas o suiciente para poder deita-la de costas e começou o trabalho: recolocaria os orgãos no lugar, fecharia o corpo e a limparia da melhor forma possível. No pai o serviço seria ainda mais simples, apenas teria de colocar a cabeça no lugar.
Se não fosse as lagrimas e os soluços o tempo que gastaria se reduziria à metade, mas fizesse o que fizesse ele não conseguiria. Nunca chorou tanto, nem quando sem querer o pai matou seu primeiro cachorrinho. Bob. Tão pequeno foi esmagado pelo cavalo que trotava em direção ao bezerro fugido. Na época pensou que nunca conseguiria superar, que não lhe sobrariam lagrimas, que veria seu rostinho desforme sempre que olhasse para o nada. Se enganou.
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Longe dali, vendo ao longe as chamas de uma pira de fogo gigante, ele se deitou sob uma árvore o mais longe da estrada que pode chegar.
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Talvez a maior dificuldade que nossas mentes possuem é a capacidade de lidar com a dor. Pensamentos clássicos nos ensinam sobre as quatro portas da mente, que todos se move através delas de acordo com as suas necessidades. Primeiro é a porta de sono. Sono nos oferece uma retirada do mundo e de toda a sua dor e as marcas. O sono faz passar o tempo, dando-nos a distância das coisas que nos feriram e Simmon se deixou levar por ela com tanta facilidade que mal conseguiu se acomodar.
Entrou na segunda porta quando acordou, a porta do esquecimento. Algumas feridas são profundas demais para curar, ou profundo demais para curar rapidamente. Além disso, muitas memórias são simplesmente dolorosas de mais, e não há nenhuma cura para ser feita. Por isso, quando acordou ele já não conseguia se lembrar totalmente do que havia acontecido. Não sabia quanto tempo havia dormido, não sabia há quanto tempo as chamas pararam de tomar conta da casa, nada. Simplesmente saiu com a roupa do corpo e partiu em direção ao nada.
A história de como sobreviveu, roubou e matou para conseguir comida e como passou os próximos meses não é importante, não para agora. No fim, ele chegou em uma cidade já na terceira porta, a porta da loucura, onde há momentos em que a mente é tratada com um golpe, então ela se esconde na insanidade.
Há momentos em que a realidade não é nada além de dor, e para a mente escapar dessa dor deve deixar a realidade para trás. Viveu os próximos anos vagando em sua própria existência, com devaneios, gritos de pura dor e choros insessantes, mesmo que no fim não soubesse o motivo claro. Antes de entrar na ultima porta foi socorrido e levado ao hospital. Última é a porta da morte. O último recurso. Nada pode ferir-nos depois que estamos mortos, ou assim nos disseram.
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O tempo passou mais rápido no hospital do que em qualquer lugar desde o incidente. Seu tratamento foi praticamente todo voltado aos seus problemas psicológicos, tendo em vista que ele mesmo se tratou fisicamente. Cortes haviam sido costurados, queimaduras tratadas, ossos colocados no lugar. Não havia nada que ele não soubesse fazer e essa notícia logo se espalhou por todo o hospital. Sabiam que se conseguissem cura-lo mentalemente o jovem, até então sem nome, seria de grande ajuda na medicina local. Era esperto, rápido e preciso, só não era confiável.
Durante quase dois anos ele morou no tratamento, literalmente. O hospital lhe havia construído um quarto, todas as suas necessidades podiam ser supridas lá dentro e ele até mesmo possuía seus próprios pacientes, um fato claro de que havia melhorado. Haviam descoberto seu nome, Simmon, e logo até pessoas que não precisavam de um tratamento iam ao hospital para ver de relance o jovem misterioso ou ter a sorte de conversar com ele mesmo que por pouco tempo. Sempre muito sério, raramento o viam sorrindo — exceções ao momento em que um de seus pacientes saia de um estado terminal, por exemplo -. Fora isso, nada. Sua mente vagava longe, em busca de algo que ele no momento não conseguia alcançar: vingança.
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