Blood and War
1 Capítulo 1
Eu acordei cedo com o desconforto. O sol ainda estava escondido à leste mas já dava pra ver seus raios surgindo.
Mesmo duas semanas depois eu continuava dormindo de bruços, mas pelo menos as ervas que Bran colhia estavam ajudando a aliviar a dor. Me sentei devagar sobre a cama, que era composta apenas por umas tábuas velhas, muita palha espalhada — essa era uma das vantagens de dormir no celeiro — e alguns lençóis que Rose, a castelã, havia me dado para cobrir-me à noite.
Desci as escadas e atravessei o pátio em direção à cozinha. Estava completamente silenciosa mas isso era explicável devido aos últimos fatos. Meu tio acabara de falecer. Há muito ele apresentava sinais de fraqueza, já havia perdido boa parte da memória e não reconhecia nem a pobre Rose, que cuidara dele desde que ele era jovem. Com a ajuda de Bran, o rapaz que trabalhava no castelo cuidando dos cavalos, Rose conseguia fazer com que meu tio comesse todas as refeições servida em seu quarto. Ninguém entendia o mistério mas sempre que meu tio estava naquele seu transe, preso com seus demônios, delirando, bastava chamar Bran para que ele se acalmasse. O rapaz era conhecido como "o filho que Lorde Swan nunca teve" o que fez com ele logo assumisse o título de Bastardo. Não que alguém ousasse falar isso em sua presença.
Bran é apenas dois anos mais velho que eu, ele é alto, com braços fortes e pele cor de oliva, seus olhos são negros assim como seu cabelo rebelde. Não sei como alguém pode dizer que tem algum parentesco comigo. Se eu não tivesse ouvido de sua própria boca jamais poderia acreditar pois ele não se parece em nada com meu falecido tio. Minha mãe, que morreu quando eu ainda era bem pequena, era ruiva assim como os Swan anteriores.
Quando cheguei aqui em Welleif e fui levada onde meu tio estava a primeira coisa que ele fez foi dizer "Lyanna, você voltou". E todos que conheceram minha mãe concordaram que eu era sua filha, segundo eles era como se Lyanna nunca tivesse fugido — e morrido na noite que completou dezesseis anos, como acreditavam -.
Eu discordava deles. Minha mãe era linda, alegre e esbelta, qualquer um ficaria facilmente apaixonado por ela, enquanto eu sempre fora pálida e magra. Meus ombros que eram repletos por pequenas sardas, agora, juntamente com minhas costas, estão cobertos por marcas cicatrizando. Meus seios são pequenos, do tipo que não fica bem em nenhum vestido. Meus cabelos caem em cachos até a minha cintura e foi a única coisa que eu realmente herdei da minha mãe. Meus olhos castanhos vieram de meu pai, que morreu logo depois que sua amada. Por outro lado meu irmão mais velho, Eric, de quem eu sinto mais falta, havia puxado todo o lado da família paterna.
– Hell*, o que está fazendo fora da cama ? — Eu dou um pulo pega de surpresa e derramo um pouco de chá na roupa. Não preciso me virar para saber quer ele está furioso.
– Eu acordei faminta, só vim preparar um chá. É de camomila, você aceita? — Sirvo uma xícara antes que ele responda.
Bran pára e me olha de cima a baixo antes de pegar sua bebida.
– Ainda sente dor ?
– Às vezes, depende de como me movimento. Mas graças a você já está bem melhor. — Eu sorrio para ele pois sou incapaz de deixar passar o quanto ele me lembra Eric no seu modo protetor. — E quanto a você ?
– Vá para cama, só saia de lá se precisar de mim para alguma coisa. — Ele disse aquilo quase como uma ordem, o que me fez vacilar.
Eu já estava prestes a começar meu caminho quando uma ideia me ocorreu. Era a primeira vez desde que Lorde Swan havia morrido, duas semanas atrás, que nós estávamos realmente dispostos a conversar. Eu pude sentir. Nos primeiros dias depois de sua morte eu não acreditei e fiquei no celeiro dias e noites com as costas ainda sangrando e com muita dor que não vi o que aconteceu com o corpo. E depois ninguém quis dizer como foi. O de sempre, era o que repetiam. Bran vinha, subia as escadas, e cuidava de mim. Em nenhuma vez ele emitiu qualquer palavra.
– Eu estava pensando... — Bran olhou pra mim já sabendo o que viria a seguir — Se eu podia ir ao rio, acho que me faria bem.
Na direção sul, atravessando o Bosque dos Cervos pelo lado direito e descendo com cuidado as rochas molhadas há lago — que Bran e eu chamamos de rio. Naquele lugar não é bom pra pescar, Bran me disse uma vez, mas a água está sempre fresca e ninguém vai ali se não conhece o caminho, o que Bran sabe de cor. Ele costumava me levar ali diariamente. Nós ficávamos conversando sobre tudo, trocando confidencias, e foi num dia ensolarado que Bran me contou sobre sua mãe. Ela era uma mulher da vida. Dormia com homens em troca de prata mas conservava uma beleza divina. Lorde Swan havia se apaixonada por ela, mas nunca conseguiu admitir. Quando ela morreu trazendo Brandon a esse mundo meu tio só o acolheu pelo mesmo motivo que me deixou ficar, nós parecíamos demais com nossas mães, as únicas mulheres que meu tio já amou.
– Sem chances, se você quiser um banho eu posso conseguir uma banheira. — Sua voz continuava fria.
– Eu posso ir sem você — Larguei minha xícara sobre a mesa e saí da cozinha sabendo que iria ser seguida -, já aprendi o caminho.
Eu não estava nem na metade do caminho quando ouvi ele se aproximando. Bran nunca fora de me tratar friamente. Seus pai estava morto e ele estava evitando ficar perto de mim pois sabia que eu perguntaria como ele estava se sentindo.
Quando cheguei aqui nós nos tornamos amigos logo de cara e isso veio muito naturalmente. Eu me sinto segura com ele por perto.
Finalmente chegamos às rochas molhadas. O lugar é de tirar o fôlego. A água é de um azul profundo e está cercada por essas rochas que nos permite sentar e ficar observando a natureza sem nunca se cansar. As árvores que rodeiam o lugar são de um tom alaranjado e vermelho e são altas o suficiente para proteger nosso pequeno paraíso. Bran vai na frente e segura minha mão para que eu desça. Caminhamos por cima das pedras com cuidado até encontrar nosso lugar favorito: em meio a uns arbustos que só se lembraram agora que estamos no outono. Bran deita-se em meio as folhas e solta um suspiro exasperado. Seus olhos negros brilham como ágatas enquanto me observam. Eu me ajoelho ao seu lado para que possamos conversar melhor.
– Achei que você quisesse nadar — Ele começa.
– Talvez depois. Eu só queria ter certeza que você estava bem.
Bran suspira e pega minha mão. Uma onda de calor percorre meu corpo mas eu esforço para parecer indiferente ao seu toque.
– Não quero que você se preocupe comigo.
– Não precisa ser assim, você sabe. Não tem que fingir que isso não te afeta. Não para mim. Ele era seu pai...
– Mas nunca agiu como tal — Ele me interrompe.
– Pelo menos você tinha um!
– Helewyse, olha o que ele fez com você! — Ele se senta para ficarmos na mesma altura, olho com olho — Não o defenda, Hel. Não depois de tudo.
Eu não consigo mais olhar para ele. Sinto tanta vergonha que as lágrimas alcançam meus olhos.
Nem sempre eu dormi no celeiro. Três semana atrás eu ocupava os aposentos da minha mãe e três semanas atrás meu tio apresentou melhoras consideráveis. Ele estava forte e já conseguia caminhar pelo seu quarto. Uma noite enquanto eu dormia ele se esgueirou pela minha porta, amarrou minhas mãos na cama e chicoteou minhas costas até quase chegar na carne. Eu levei um tempo para sentir dor na primeira vez. Mas quando ela me atingiu eu gritei e berrei. Lorde Swan gritava ainda mais alto que eu "Você. Merece isso. Sua puta. Por destruir. Minha aliança. E fugir. Do seu. Casamento" A cada palavra era um golpe ainda mais forte que me atingia. Me lembro vagamente de Bran entrando pela porta e golpeando seu pai — só depois que acordei que vim a saber que fora ele a parar os golpes. Quando abri os olhos novamente já estava no celeiro, deitada de bruços com Rose ao meu lado cuidando dos meus ferimentos. Ela disse que Bran estava colhendo mais ervas para os meus ferimentos e que logo viria me ver e então eu fechei os olhos e adormeci, sabendo que Brandon estava por perto para cuidar de mim.
Ele envolve seus braços ao meu redor e eu apoio minha testa no seu ombro.
– Está tudo bem, ele não pode mais ferir você. — Bran beija o topo da minha cabeça. — Hel, tem uma coisa que eu preciso te contar.
No caminho de volta ao castelo eu não consegui tirar as palavras de Bran da cabeça. O que ele disse, o que ele fez... Eu não conseguia acreditar.
Antes mesmo de chegarmos nós os avistamos de longe. Um grupo de homens à cavalo, cinco no total, estavam no pátio conversando com os empregados mas apenas um não vestia sua armadura. Quando nos aproximamos eu pude notar a bandeira Real. Nós os cumprimentamos e o homem sem armadura foi o primeiro a falar.
– A senhorita seria Lady Helewyse Wolf, filha de Lady Lyanna Swan e Josef Wolf, sobrinha e herdeira das terras de Lorde Thomas Swan ? — Seu tom era extremamente formal embora sua voz fosse um pouco arrastada.
– Sim.
– Ótimo, o Rei tem um comunicado à sua pessoa.
– O Rei? — Eu reconheci o selo real mas não me passou pela cabeça que eu Rei teria algo a me dizer — Oh, por favor, vocês querem entrar ?
– Não será preciso, Milady. Serei breve. — O senhor que não quis se apresentar retirou o pergaminho de suas vestes e o leu — Venho por meio desta lamentar a morte de Lorde Swan e comunicar que devido as circunstancias é de minha vontade como Senhor do Reino Franco que as Casas Swan e Vaughan se juntem, jurando vassalagem a mim. O descumprimento dessa ordem sera tomado como ofensa grave e será punível com exílio. Sua majestade, Rei Dominique VII.
Todos os trabalhadores pararam para olhar. Todos os olhos estavam fixos em mim. Oh. Meu. Deus. Os Vaughan... NÃO!
Os Vaughan eram nossos vizinhos com quem estávamos em guerra desde que Jesus passou por aqui. Tudo bem que nas últimas décadas não houve enfrentamentos entre nós mas era só questão de tempo até que a faísca surgisse. Não importa quanto tempo passasse a briga entre as duas casas nunca era esquecida. E então o Rei sempre vivia momentos de tensão.
– Desculpa, o que foi que disse?
– Milady, você terá que casar-se com Destrian Vaughan para unir as duas casas. O casamento será realizado daqui a alguns dias pois seu futuro marido já está à caminho com um sacerdote que os unirá com a Graça de Deus.
Sinto minha cabeça doer. As pessoas estão girando ao meu redor, minhas pálpebras estão pesadas e eu cedo.
Acordo novamente no celeiro mas desta vez é Brandon que está ao meu lado. Eu pisco para melhorar a visão.
– Bran, você não vai acreditar com o que eu sonhei.
Ele olha para mim e sem dizer uma palavra eu percebo que foi tudo real.
– Isso não pode estar acontecendo — murmuro.
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