Blood Wings

1 O fim da Caçada


Era mais uma noite comum de verão, o ar estava parado, tornando o calor quase insuportável. As mariposas voavam a sua volta, junto com outros insetos, o zumbido de suas asas ecoando enquanto avançavam silenciosamente. Ela ergueu a mão e deu um leve tapa no pescoço, esmagando um mosquito que estava ali. Já era o quinto que matara!

- Jason, — disse em tom baixo, esfregando a pele para tirar o que restava do inseto de lá. – ainda falta muito?

- Só alguns metros. – ele respondeu.

Estavam andando já fazia quase uma hora, deixando o carro longe para seguirem de modo mais discreto. Jason ia a frente, mantendo a pistola abaixada, roçando no mar de grama alta em que estavam, mas de modo que pudesse sacá-la de um único movimento. E atrás ia Taylor, carregando sua faca de ferro, os anéis do cabo de couro marcando a palma de sua mão.

Olhando de perto, os depois ficavam mais parecidos. O mesmo cabelo escuro, os mesmos olhos castanhos e profundos, até mesmo o físico esguio, porém ligeiramente desenvolvido devido aos anos de fugas e caçadas. Suas roupas pretas os camuflavam na noite escura, embora parecessem sombras em meio as plantas claras.

- Aqui. – disse Jason, erguendo a mão para que a irmã parasse junto com ele.

Estavam diante de uma antiga serraria, e pelo estado decrépito em que se encontrava, devia estar desativada a um longo tempo. As paredes eram de concreto cinzento, sem pintura, o telhado era feito de telhas enegrecidas, com algumas faltando, e as janelas que não tinham os vidros estilhaçados estavam fechadas com tábuas. No entanto, sons indistintos vinham do lugar, abafados pela distância.

Jason virou o rosto para Taylor e assentiu, antes de se voltar para a frente de novo e começar a andar. Seu progresso foi muito mais lento e discreto, mas não levou mais do que alguns minutos para que chegassem até o local. Colocaram-se contra a parede, um de cada lado da janela, as armas em punho. Só então aproximaram o rosto do vidro para ver lá dentro.

A única iluminação vinha de uma lâmpada presa precariamente no teto, formando um círculo de luz. Nesse canto iluminado estavam paradas duas figuras altas, uma ligeiramente mais larga que a outra, porém como estavam virados de costas, não era possível ver seus rostos. Observavam alguma coisa no chão, fora do campo de luz, um vulto indistinto.

- O que é aquilo? – perguntou Taylor, desviando o rosto.

- Não sei, — respondeu Jason sem tirar os olhos da janela. – não consigo ver direito. Mas parece...

Ele parou de falar abruptamente e afastou o rosto. Provavelmente tinham ouvido algo, pois um dos homens virou-se na sua direção, os olhos totalmente negros lampejando. Disse algo ao companheiro, e se afastou com passos largos até a entrada principal, que se abriu com um rangido. Seguiu alguns passos, olhando para os lados, o rosto vincado a procura de algo. Os dois caçadores ficaram parados, mal ousando respirar, mas o demônio não os notou.

Dando de ombros, ele virou as costas e começou a voltar para a serraria, mas um estampido grave se seguiu. O corpo caiu na grama sem ruído, a coluna de fumaça negra subindo no ar em uma espiral e se afastando quase com... vida. Jason olhou para Taylor e assentiu, começando a correr. Ela o seguiu pela entrada, só parando quando já estavam a meio caminho do segundo demônio.

- Mas o que... – disse o homem, se virando confuso ao som dos passos. Seus olhos negros se arregalaram com o choque ao ver o cano da pistola de Jason apontado para seu rosto. – Humanos! Se vocês dão valor a vida...

Ele não terminou, pois nesse momento Jason apertara o gatinho e o projétil o acertara em cheio no centro do rosto. Nenhum dos dois esboçou qualquer reação ao ver o corpo cair, com os pedaços de carne tirados pela bala, ou o sangue que começou a cobrir o chão. Já tinham visto essas cenas e outras bem piores várias vezes. O silêncio caiu depois disso, interrompido somente pelo som dos grilos lá fora. Taylor então se aproximou do vulto no canto escuro ao lado, parando um pouco surpresa.

- Jason... – disse hesitante. – Isso é...

O rapaz se afastou do corpo e foi em direção a irmã. Parou ao seu lado, e finalmente viu do que se tratava aquele vulto; era uma pessoa. Um garoto da mesma idade de Taylor, dezesseis, dezessete anos, com cabelos loiros claro e despenteados. Não dava para ver seus olhos, pois estavam fechados, mas eram demarcados por fundas olheiras em tom arroxeado. Suas roupas eram simples, mas estavam rasgadas e surradas. Seus braços, pálidos e musculosos, eram cobertos por tatuagens negras, linhas verticais de símbolos desconhecidos. Havia uma trilha de sangue seco de sua testa até o queixo, mas os fios loiros escondiam a causa.

Jason levou a mão até o cinto, sem soltar o gatilho da pistola, e pegando uma pequena garrafa esférica e fina. Habilmente tirou a tampa e jogou um pouco do líquido transparente no desconhecido. Nada aconteceu.

- Parece que não é um demônio. – disse ele, voltando a tampar e guardar a garrafa.

- O que vamos fazer com ele? – perguntou Taylor, hesitante. – Ele deve ser de alguma importância para aqueles demônios.

- O que você sugere? – retrucou Jason, com uma pontada de irritação. – Levar ele com a gente?

- Bem, eu ia dizer para chamar a polícia... mas sua idéia é bem melhor!

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.