Blood Town
2 A lua se revolta e o fogo renasce.
E enquanto Sebastian voava pelas escadas – sim, voava- pois ele corria tão rápido em direção a saída que seus pés nem ao menos tocavam o chão. Porém sua euforia cessou quando no meio do caminho ele a avistou.
Caliope Drew.
Ele quase não acreditou quando viu, só admitiu ser mesmo ela quando os olhos dos dois se encontraram o que não aconteceu por muito tempo já que Sebastian olhou incrédulo para Alay, que descia a escada normalmente, mas que logo depois se direcionou a Sebastian.
– Algum problema? — perguntou Alay ironicamente.
– Não me diga que... — disse Sebastian e logo depois suspirou passando a mão pelos cabelos brancos.
Caliope permanecia imóvel em frente à grande porta de saída. Ela parecia nervosa. Que ia explodir magia para todos os lados daquele grande castelo. Também não se podia esperar coisa diferente dela, era Caliope.
Sebastian a observou disfarçadamente. Ela usava botas e um doce vestido lilás que ia até os joelhos, se parecia com sua mãe, mas só um pouco mais jovem talvez.
Depois disso Sebastian passou a andar mais para trás de Alay. E então eles se aproximaram da menina.
– Bom dia meu senhor- Caliope fez uma breve reverencia- Ei Sebastian — falou e acenou com a cabeça para ele.
Os dois estavam desconfortáveis.
– Ei Drew — respondeu Sebastian sem emoção, colocando a mão dentro do bolso de sua calça surrada e desviando o olhar para o chão.
– É ótimo saber que vocês já se conhecem. -disse Alay, e então Caliope e Sebastian direcionaram um olhar desconfortável a ele.
– É. — murmurou Sebastian.
– Sebastian, como você pode perceber Caliope o acompanhará ate o Mundo Humano. As regras são bem claras, eu não quero saber de problemas entre vocês. — Disse Alay sério, mas logo depois colocou um sorriso no rosto. -Vocês formam um belo par.-brincou.
– Não. — disse Sebastian sério. Ele não suportava as piadinhas infames de Alay, isso era certo.
– Vocês vão precisar disso. — Alay estendeu duas longas capas pretas a cada um deles. – O inverno se aproxima, então estejam preparados. — avisou.
– O frio não é um problema para mim. – declarou Sebastian. Calíope simplesmente os ignorou e vestiu a capa, que se arrastava no chão com qualquer movimento seu.
Alay largou a outra capa sobre o ombro de Sebastian e se virou, ficando de costa para os dois. E então suspirou e balançou sua cabeça levemente para os lados. Parecia decepcionado.
– Vamos indo. – disse Sebastian se direcionando a Caliope.
– Adeus, Alay. – Se despediu Caliope. Sebastian vestiu sua capa rapidamente e jogou o capuz sobre a cabeça.
O garoto já estivera no mundo dos humanos, mas foram só algumas vezes. Podia se dizer que um dos seus principais hobbies era roubar bolsas de sangue de humanos. Porém, todos sabiam do passado complicado de Sebastian como um “matador direto”. Nada era melhor do que ver sua vítima sofrer diante dele.
Caliope e Sebastian seguiram descendo as grandes escadas da saída, e Caliope logo tratou de colocar seu capuz, e enquanto fazia isso não pode deixar de olhar para Sebastian a seu lado. Ele estava completamente pálido e isso não parecia ser resultado apenas do frio, mas também da sede de sangue.
– Você está péssimo. – disse Caliope enquanto olhava os degraus da escada para não cair.
– Também é muito bom te ver, Drew. – falou Sebastian ironicamente. Nenhum dos dois se permitiu olhar para o lado. Sebastian nunca confessaria isso, mas os olhos de Caliope o deixava estranhamente desconfortável. Além disso, ele nunca estivera tão perto dela. Agora mesmo seus ombros estavam a centímetros.
– Não se dirija a mim com esse seu tom arrogante. – mandou Caliope. – Eu nunca vou esquecer o que você fez.
– Okay! – Sebastian parou de descer as escadas e então Caliope o olhou. – É completamente maluco da minha parte falar isso, mas eu preciso da sua ajuda. Por favor, Caliope.
– Uau, você está mesmo desesperado. – Caliope colocou no rosto um sorriso tímido. Ela realmente odiava Sebastian, mas sempre se perguntou se dentro daquele coração frio existia um pouco de amor.
Sebastian reconheceu aquele sorriso como uma pequena oferta de paz.
O sorriso de Caliope foi logo substituído por uma expressão de preocupação, e logo seguido por um longo suspiro.
– Certo a primeira coisa a se fazer é achar Kaleb. – falou. — O que não vai ser um problema já que eu sou uma feiticeira. – completou, pegando a bolsa que carregava e puxando de lá um papel meio amarrotado.
– O que é isso? – perguntou Sebastian. Ele não era muito ligado a assuntos de feitiçaria.
– Um feitiço de teletransporte especial. – explicou. – Eles são bem singulares, então eu preciso ler o que esta escrito enquanto me concentro. E bem... essa é a parte difícil.
– Me deixe adivinhar, você tem uma varinha? – brincou Sebastian com uma das sobrancelhas erguidas.
– É obvio que sim. Mas não vou precisar dela agora. – respondeu sem devaneios.
– Certo. – Sebastian falou enquanto cruzava os braços e esperava Caliope terminar de se preparar.
A garota posicionou a folha encima de uma pedra, ergueu as mãos e sussurrou palavras desconhecidas.
No mesmo instante uma rocha se ergueu da terra e dentro desta havia uma enorme luz branca. Era possível ver sombras pela claridade dela. As pessoas normais.
Já havia se passado anos desde que Sebastian estivera lá. Mas ele ainda se lembrava do fato de que nada de bom acontecia naquele lugar.
Para ele humanos não eram nada além de almas perdidas, sem salvação. Bolsas de sangue ambulante. Nada mais, nada menos.
Já Caliope era fascinada por aquele mundo desconhecido. Pelos animais e pelos humanos. Ela sempre imaginou a vida fácil deles comparada a dos seres sobrenaturais.
A animação dos dois era evidente, os motivos porém eram totalmente diferentes.
– Okay, me dá a sua mão. – pediu Caliope direcionando sua mão a de Sebastian, que deu um passo para trás desconfiado.
– Por quê? – perguntou Sebastian. Ainda que fosse feiticeira, Caliope ainda era pelo menos um por cento humana. O que significava sangue correndo por suas veias. Sebastian não podia com isso, por isso tratava de estabelecer algumas regras de segurança entre eles.
– Feitiço de invisibilidade. Nós dois vamos dar muito na cara aparecendo assim bem no meio do Central Park. – explicou rapidamente. – É rápido não se preocupe, Snow.
A mão de Sebastian tocou a de Caliope lentamente. Dedos entrelaçados era coisa nova para ela que ficou surpresa pela mão incrivelmente gelada do garoto.
Mas ela simplesmente esqueceu isso, fechou os olhos e sussurrou.
Atos Ocultos
– Nós dois conseguimos nos ver, os outros não, então eu irei tirar o feitiço quando encontramos com o Kaleb.
Caliope olhou para baixo e reparou que ainda segurava a mão de Sebastian, e sem nem pensar separou as mãos e disse:
– É agora a parte em que a gente entra no portal mágico.
– Tudo bem, já tava começando a sentir falta disso. – falou. – Primeiro as damas. – ele ergueu a mão em direção ao portal.
Caliope se dirigiu a luz e depois de alguns segundos desapareceu dentro dela. Em seguida foi a vez de Sebastian.
O único cheiro que sentia era de água. A neve que caia no chão e desaparecia era sem dúvida uma das melhores coisas que Snow via por ali.
– Central Park, não é? – ele falou a Caliope que se encontrava com os olhos brilhando e um grande sorriso no rosto. Sebastian apenas bufou entediado e seguiu em direção ao leste.
– Não é essa a direção seu idiota! –Ela gritou a Sebastian que se encontrava muito mais na frente. Mas ele deu meia volta ao escutar a voz dela e seguiu na direção oposta. Caliope conseguiu alcançá-lo depois de aumentar os passos.
– Como você pretende encontrá-lo nesse mar de pessoas?- perguntou Sebastian.
– O feitiço de teletransporte que eu usei é diferente. Ele faz a pessoa que você tiver pensando na hora, brilhar como um vagalume. E como feiticeira eu consigo sentir meu feitiço. Ele não esta muito longe daqui. – disse a garota.
– Essa parte já esta certa. Agora só falta um plano pra atrair ele pra perto da gente. E depois remover o selo de memória. – Sebastian retirou o capuz. Ele adorava sentir a neve cair sobre sua pele. O momento que mais temia e ao mesmo tempo mais esperava estava chegando.
Naquela noite, depois de todo estrago feito no Mundo Sobrenatural por Sebastian e Kaleb. Uma proposta foi dada ao garoto das presas de gelo. Matar seu melhor amigo de todo infância — ou até mesmo vida – teria um ótimo preço. Era simplesmente fincar suas presas em Kaleb em um momento de distração. Seria fácil. Era isso que ele deveria achar. Sua mente estava sendo controlada por um ser perverso que quase conseguiu o que queria. E lá sobre a luz baixa do castelo os olhos de Snow que antes eram azuis agora eram vermelho como sangue. Kaleb não suspeitou, até quando Sebastian o segurou pelo braço e colocou a presa dentro da pele do pescoço de Kaleb. O sangue de lobisomem dele era tão fresco como água para um vampiro-impuro. Apenas por um momento, já que seu sangue se tornou impossível de engolir.
Então lá estava Sebastian agachado sobre o chão, com a boca coberta de sangue. E as únicas palavras que escutou antes de desmaiar foram:
– Seu maldito traidor. – seus olhos se fecharam e tudo ficou escuro de novo.
Isso era tudo o que se lembrava, além do fato de que Kaleb já estava preparado para esse tipo de situação. Nem mesmo seu amigo confiava nele. Mas do mesmo jeito Sebastian se sentia feliz com isso já que por pouco Kaleb não morreu.
– Nós já estamos chegando. Posso sentir. É naquela próxima rua.
Eles seguiram em frente, ficando cada vez mais próximos do momento que mais esperavam.
Os dois pararam em frente a uma vitrine de um café. Kaleb servia uma das mesas, vestindo o uniforme do local.
E no simples e automático movimento Sebastian sorriu da forma mais verdadeira que jamais havia feito.
A aparência de Kaleb mudou pouco, pelo que Sebastian se lembrava. Mas ainda sim era o mesmo de sempre. Cabelos pretos demais, olhos castanhos claro e um adorável sorriso.
Kaleb sempre foi na maioria das vezes o exato oposto de Sebastian, a aparência e a primeira impressão. Tudo bem que em alguns detalhes a semelhança chegava a ser assustadora. Esses fatos sempre o ajudaram quando o assunto era manipular pessoas, por que esse era sem dúvidas um dos costumes do garoto. A aparência boazinha enganava, era simples conseguir tudo o que queria.
Mas uma das maiores diferenças entre ele e Sebastian, era a sua calma e acredite se quiser, Kaleb tinha medos muito mais obscuros. Indescritíveis e surpreendentes. E isso fazia com que ele fizesse coisas impensáveis.
Mas é de se admitir que grande parte do tempo ele fosse uma boa pessoa.
– Escute bem Snow, você vai ficar perto da porta dos fundos, enquanto isso eu vou dar um jeito de atrair Kaleb para lá. – Caliope se aproximou da porta de entrada e sutilmente a empurrou. No instante em que a porta abriu Kaleb direcionou seu olhar curioso a ela. Enquanto isso, Sebastian deu a volta no estabelecimento parando perto da porta. O chão estava repleto de neve, assim como o parque. Uma imagem simples, porém com um efeito calmante.
Ele ouviu alguns passos abafados e então a fechadura se abrindo. Lá estava Caliope concentrando seu olhar nos olhos de Kaleb. Ele parecia hipnotizado, simplesmente olhando para frente. As mãos da garota se posicionavam no ombro de dele, o atraindo.
Quando ela parou, Sebastian se viu a frente de Kaleb. Parecia ilusão, Snow deixará de acreditar em tudo quando estava dentro da prisão. E agora isso o atingirá como uma bola de neve.
Caliope fechou os olhos, colocou a mão direita sobre a testa de Kaleb e pronunciou as palavras mágicas.
Contritum Sigillum
Em segundos os olhos de Kaleb se acenderam como fogo. Sebastian reconheceu aquele brilho, que logo depois escureceu. Como se em instantes uma fúria o dominasse, os olhos escureceram a ponto de ficarem negros. Isso também lembrava Sebastian de muitas coisas.
A cabeça de Kaleb se abaixou e então todo o movimento e barulho das ruas desapareceram e apenas se escutou o sussurro de um homem com sede de vingança.
– Sebastian Snow, você está morto.
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