Blood Red

5 Você é uma Cervenka.


– Ops! Ninguém deveria ver vocês em um momento tão íntimo – Rebecca largou meu pulso no mesmo momento em que ouviu aquela voz – Por que não trancou a porta, vermelhinha? – ele riu – Pensei que fosse mais cuidadosa.

Era o cara fantasiado de Capitão América, mas agora ele estava sem máscara e eu podia ver seu rosto. Os olhos dele eram verdes, bem parecidos com o da garota vampira. Como ele havia aberto a porta sem fazer nenhum barulho? Ou apenas não tivéssemos ouvido o barulho por causa do êxtase da situação em que nos encontrávamos.

– Seu idiota – minha namorada riu, virando seu rosto em direção ao cara na porta – Não estou bebendo o sangue dele; Acabei de estancar os ferimentos que ele tinha. Essa verdinha aí tentou matá-lo – ele finalmente percebeu a garota morta no canto de trás da porta – Era das suas?

– Tracy... – comentou, observando o corpo inerte e sangrento da garota fantasiada de Sif – Era novinha, só tinha 47 – deu de ombros – Ela sempre foi um tanto quanto desrespeitável, digamos assim.

– Então não vai fazer falta – minha namorada disse e eu arqueei a sobrancelha; Eles eram estranhos.

– Nem um pouco – o outro concordou, antes de virar-se para sair.

– Ryan, espera – Rebecca o chamou de volta antes que ele saísse – Tay te falou?

– Estou preparado. Já conseguiu ajuda? – ele voltou seu olhar para mim assim que acabou de proferir aquelas palavras.

– Estou caminhando para isso – ela garantiu e então ele realmente foi.

– Você também o conheceu quando tinha cabelo vermelho? – provoquei e ela ohou-me sem entender – Ele chamou você de vermelha.

– Eu acho que você conhece a resposta para essa pergunta.

– Não tenho tanta certeza disso – falei enquanto a observava andar de um lado para o outro. Quando ela parou, percebi uma coisa que me fez arregalar os olhos. Que droga era...?

– Por que está me olhando assim? – ela perguntou sem entender.

– Seus olhos estão vermelhos – assim que falei, ela os esfregou com força.

– Eu sei, por isso estou andando de um lado para o outro, nervosa – ela abriu os olhos novamente – Já estou enxergando vermelho. Preciso fazer isso. Por favor, Dylan, me desculpe.

Ela virou as costas e saiu no corredor. Levantei rapidamente, agora que eu já me sentia melhor e fui até a porta. Eu tinha que ver o que ela iria fazer. Cheguei apenas a tempo de ver ela com a boca grudado no pescoço de alguma pessoa qualquer que ue não conhecia. Eu só tinha certeza de uma coisa: era um humano. E ela estava sugando todo o seu sangue. Então ela soltou, deixando a vítima estirada no chão. Limpou a boca com as costas da mão e começou a puxar aquele corpo para dentro de um dos outros quartos. Meus olhos agora estavam arregalados. Eu só não queria acreditar. Ela havia matado sua sede. Eu realmente estava perdido e agora tinha plena certeza disso. Ela voltou-se para mim, seus olhos estavam arregalados e não mortos – estavam bem vivos, mas não tinham mais aquela cor vermelha. Ela era um deles. Eu observava cada movimento dela enquanto voltava a se aproximar de mim, com aquele sangue em suas mãos e em seu rosto. Ela era Vermelho Sangue.

– Você é uma Cervenka – meu queixo caiu quando finalmente constatei aquilo; ela permaneceu em silêncio, lambendo seus lábios ainda sangrentos e me observando – Você deveria ter me avisado que você era Vermelho Sangue.

– E como eu poderia fazer isso? – indagou, soltando uma risada irônica – Hey, amor, olhe para mim; Sou Vermelho Sangue, uma das vampiras sanguinárias sobre a qual você está lendo nas últimas semanas nesse livro gigantesco. Eu não podia fazer isso.

Não podia acreditar nisso, eu não queria. A mulher por quem eu estava apaixonado era um dos piores vampiros que já existiram no mundo... E eu teria que matá-la, de um jeito ou de outro. Aproveitei que a atenção de Rebecca estava voltada para a janela e abaixei-me para pegar a espada da fantasia da vampira morta. Parecia uma fantasia realista, afinal, a espada não era de plástico e bem, ela estava afiada. Rebecca pareceu surpresa ao virar-se e ver aquela espada em minha mão. Ela veio até mim tão rápido que eu mal pude perceber. Prendeu-me contra a parede outra vez, segurando minha mão com tanta força que, logo que ela soltou, a espada caiu no chão. Ouvi aquele barulho e fiquei frustado. Ela tinha acabado com as minhas chances com tanta facilidade.

– Você realmente quer tentar lutar comigo? – sorriu com divertimento enquanto eu me debatia, tentando sair dali; ela chutou a espada para o corredor e fez o mesmo com a porta, a fechando – Talvez você até conseguiria pelo menos me machucar normalmente, mas não com a minha irmã aqui, no mesmo ambiente que eu.

– Sobre o que você está falando?

– Ah, Dylan, qual é? – ela revirou os olhos – Você não leu o livro?

– Claro que não. Toda vez que eu tentava prosseguir com a leitura, você aparecia do nada e me interrompia.

– Ah, certo. Você parou antes dessa parte – ela riu, soltando-me e distanciando-se um pouco – Quer que eu cite o que estava escrito? Foi um amigo meu que escreveu.. O Ryan. Para falar a verdade.

– Isso não é possível.

– Claro que é. As aparências enganam. Quantos anos acha que eu tenho, amor? – ela riu, debochada – Tenho 136, sou do Século XIX; De 1878, para ser mais precisa. Sou a sobrevivente mais velha. Audrey é a outra, minha irmã, e ela tem 119; É por isso que ela parece um pouco mais nova que eu.

– O livro – a lembrei. Queria saber o que o livro dizia, não curiosidades sobre a vida que eu nunca conheci da minha namorada.

– No início do século XX, pouco antes de formarem a República da Checoslováquia, essa família fora quase totalmente extinta – ela começou a citar o livro, mas fiz sinal para ela parar.

– Essa parte eu já li – falei à ela – Diga algo útil.

– Cale a sua boca e me deixa citar o que vi Ryan escrever – xingou-me e eu apenas revirei os olhos – Sobraram apenas três de sua espécie para contar a história; Três irmãos. Cuidado! Dois deles, quando juntos, podem ser muito mais fortes do que qualquer pessoas possa imaginar; As irmãs Cervenka. Você nunca deve subestimar as irmãs Cervenka, pois juntas, elas são mais fortes que os outros da família eram – por isso ainda sobrevivem até hoje. Quando juntas, seu poder e força crescem ainda mais. Acredite em mim, eu já vi; Você não pode detê-las.

– Sempre digo que todo mundo tem uma brecha – a lembrei.

– E eu concordo. Todos temos uma brecha – ela abriu um sorriso mínimo – Quer saber a verdade sobre os seus pais, amor?

– Não me chame de amor.

– Mas você é meu amor, mesmo me odiando nesse exato momento – ela pareceu pensar – E pelos motivos errados, devo dizer.

– Seus olhos quando está com sede – eu disse, cerrando os olhos – Eram exatamente iguais aos que eu vi. Eu me lembro.

– Ah, querido – estapeei sua mão quando ela tentou tocar meu rosto – Ah, agora você não vai deixar eu encostar em você? – ela revirou os olhos – Não é como se eu fosse te matar apenas com um toque. Bem, a não ser que fosse com meus dentes e...

– Só fala – grunhi, dando um passo para trás, me afastando.

– Não foi eu – garantiu-me – Nem a Audrey. Você leu o livro, não éramos as únicas.

– Prossiga.

– O nome dele era Dominik Cervenka, nosso irmão mais velho – ela disse – Ele estva ficando cada vez mais fora de controle e... Não tenho certeza, mas acho que seu pai havia tido uma briga com ele.

– Onde ele está? – levantei minha voz; Eu tinha raiva, muito raiva. Finalmente tinha um nome pelo qual procurar e agora eu poderia ir atrás dele e matá-lo.

– Nem se incomode tentando encontrá-lo – minha namorada disse, eu já estava ficando farto desse tipo de papo dela.

– Onde? – gritei.

– Baltimore National Cemetery.

– Ele está morto? – eu não podia acreditar nisso.

– E enterrado – confirmou – Próximo ao monumento de Edgar Allan Poe, vale lembrar.

– É, combina – eu tive que rir daquilo, por mais idiota que fosse.

– Ainda que me matar? – questionou-me.

– Um pouco.

– Defina um pouco.

– Sua família matou a minha família – expliquei.

– É, minha família, não eu.

– Exatamente.

– Então não tem raiva de mim? – perguntou, incerta.

– Não o suficiente para tentar te matar.

– Acho que você vai ter raiva de mim daqui a cinco minutos.

– O que? Do que você está falando?

– Tenho que fazer isso – ela veio para perto de mim e eu hesitei.

– Você quer me transformar? – a olhei sem acreditar.

– Não é nada agradável passar a eternidade sozinha, amor.

– Como pode me chamar de amor querendo fazer isso comigo? – eu negava com a cabeça – Eu não quero isso, não quero virar vampiro.

– Eu nunca tive uma escolha, porque eu já nasci assim. Não vou te dar uma escolha – ela me empurrou contra a cama e veio em cima de mim, segurando meus braços e me deixando imobilizado outra vez – Não consigo ser tão justa assim. Eu nunca tive o privilégio de escolher, então você também não vai ter.

E então ela mordeu meu pescoço. Foi tudo muito rápido e eu só tive tempo de sentir a dor que a mordida me causou. Então Rebecca saiu de cima de mim.

– Por que não me mata de uma vez? – indaguei irritado.

– Porque eu preciso de você.

– Você não pode estar falando sério.

– Desculpe-me, Dylan, eu precisei fazer isso – ela suspirou pesadamente – Vai ter algum tipo de luta aqui, Taylor me alertou sobre isso.

– O cara fantasiado de Gambit? – perguntei incrédulo – Eu não acreditaria em uma palavra aque ele diz apenas pelo fato de ele estar fantasiado de um personagem que é um traidor.

– Ele é um bruxo poderoso e ele sabe de muitas coisas – explicou-me – Sinto muito por fazer você sofrer. Sei que odeia vampiros por causa do babaca do meu irmão e realmente sinto muito por isso – ela sentou-se ao meu lado na cama, segurando minha mão, o que me fez a olhar com desconfiança – Preciso de mais alguém com as mesmas forças que Audrey e eu.. Ou pelo menos quase a mesma, já que nunca transformei ninguém antes para saber que força teria um vampiro que veio de um Vermelho Sangue.

– Você nem sabe se eu vou sobreviver a isso – a lembrei – E o que diabos vai acontecer aqui, afinal?

– Vou te atualizar. Audrey e eu somos as últimas Vermelho Sangue, mas isso você já sabe – explicou – Ryan está do nosso lado e eu confiaria minha vida a ele. Ele é um vampiro também, de outra espécie, obviamente.. Gosto de chamá-lo de verde. Taylor, o bruxo, também está do nosso, já que foi ele quem nos avisou disso tudo, certo?

– Se ele não estivesse, por que nos avisaria? – completei seu pensamento e ela concordou, voltando a falar logo em seguida.

– Nunca confie no Tyler e nos amigos dele – alertou-me – Temos um trato, mas ele é um lobisomem e deveríamos ser inimigos mortais. Você me ouviu? Nunca confie em um lobisomem. Você aprender a sentir o cheiro deles de longe, eu vou te ensinar tudo nos próximos dias – ela pareceu pensativa – Isso se você não sumir e nunca mais quiser me ver, é claro.

– Onde você vai? – perguntei no mesmo momento em que ela levantou.

– Vou descer e ver se descubro algo – deu de ombros e então me olhou com uma expressão séria – Lembre-se, lobisomens nunca. Audrey, Ryan e os amigos dele e, ao que tudo indica, Taylor. Nada de Tyler, nada de lobisomens.

– Espera, por que você fez isso? – perguntei, apontando para a mordida – O livro diz que Vermelhos Sangue não mordem ninguém para não sujar o sangue deles.

– Por que preservar o sangue da minha família se só restaram duas de nós?

Isso foi tudo o que ela disse antes de sair. Ela fechou a porta atrás de si, me deixando ali no quarto. Ajeitei-me na cama. A dor estava cada vez mais forte. Tudo isso era novo para mim. Tudo bem, eu sabia da existência de vampiros e imaginei que existissem outras coisas do tipo.. Mas agora estavam todos aqui nessa festa maluca da Audrey. A dor consumia mais as minhas forças a cada segundo que se passava. Era uma dor excruciante, um tipo de dor que não me fazia pensar que eu aguentaria. E então tudo ficou escuro.