Blood Red
6 Ou você mata, ou morre.
Minha consciência voltou a mim antes mesmo que eu abrisse os olhos. Eu não sentia mais dor como antes. Será que tinha morrido ou havia me transformado em um monstro? Abri os olhos lentamente. Usei minha mão para bloquear a claridade – a pouca luz do local já incomodava meus olhos. Olhei ao meu redor, vendo que estava no mesmo quarto de antes. Tudo estava estava igual, até o corpo da outra garota estava estirado ali. Só havia uma coisa faltando ali, uma pessoa. Rebecca havia me explicado por cima – e apenas o que ela queria. Havia deixado muitas pontas soltas. Olhe o que ela fez. Eu não entendia como isso podia ser assim. Além de tranformar-me em algo que eu temia, ela havia me deixado aqui sem saber o que fazer. Por que ela não foi mais clara quanto ao que ela realmente queria? Por que ela sempre tinha que fazer tudo no escuro? Okay, essa foi uma expressão que eu não deveria ter pensado. Eu sentia como se ela tivesse me atropelado e fugido logo em seguida. Estava totalmente desnorteado. Ela havia jogado tudo o que nós tínhamos fora... Era isso? Talvez tudo fosse apenas fingimento e agora os jogos deveriam terminar. Bem, eu acho que ninguém vence.
Levantei sem nenhum esforço, eu parecia mais leve do que normalmente. Desliguei a luz, percebendo que eu enxergava bem, mesmo com a luz apagada. Andei até o outro lado do quarto, onde tinha um espelho grande. Ri brevemente ao ver meu reflexo. Rídiculo. Era muito irônico estar fantasiado de vampiro quando você era um. Nunca pensei que minha pele mudaria tanto o seu tom. Tudo bem que, antes de sairmos de casa, Rebecca tinha maquiado meu rosto para que eu parecesse mais pálido como um vampiro. Só que agora eu era um... E minha pele estava de acordo. Meu rosto era muito mais pálido do que a maquiagem havia o feito parecer. Pensando bem, meu tom de pele estava exatamente como o da minha namorada. É, com certeza eu era um deles agora. Soquei a parede, odiando tudo aquilo. Era estranho o fato de eu não ter sentido quase nada de dor ao fazer tal ato. Havia me tornado tudo o que eu tinha medo e até odiava, mas agora eu não tinha mais opção.
Talvez eu devesse descer e ver o que está acontecendo. Peguei uma peça de roupa no guarda-roupas e a usei para limpar o meu pescoço, que estava sujo de sangue por causa da mordida. Espero que Audrey não fique brava comigo; E se ficar, eu não ligo mesmo. Observei que não tinha mais ferimento no local da mordida – legal! Virei-me para sair e só então percebi o estrago na parede, ao lado do espelho. Espera, isso foi eu? Estava tão forte assim? Talvez eu devesse tentar outra vez. Não, melhor não. Deixa para lá. Odiava o fato de ainda não saber como controlar minha força. Saí do quarto e dei de cara com um garoto que eu não conhecia – nossa, que novidade, não conheço ninguém nessa merda.
– Ai, cara – o garoto arregalou os olhos ao me ver ali – Sei que é Halloween, mas foi muito estranho você aparecendo do nada.
– Não quis assustar – eu disse, segurando-me para não rir da cara dele.
– Você viu o que está acontecendo lá em baixo? – ele parecia estar com medo – Parece que começaram uma briga das feias. Corri aqui para cima e já estou aqui faz um tempo. Essa merda não acaba nunca!
– Ãhn.. O que? – eu estava sentindo alguma coisa estranha, que nunca havia sentido antes – Ah, não; Não vi.
Não havia aprendido nada ainda, mas eu não podia ignorar o que meus sentidos me mostravam. O garota parado bem à minha frente era humano.. E devo dizer, seu cheiro era bom. Agora que entendia o que a verde sentia no momento em que falou do meu cheiro quando eu ainda era humano. Eu tentava pensar em outra coisa, mas não conseguia. Aquele barulho constante não me deixava. Eu podia ouvir claramente o sangue dele pulsando pelas veias. Quase claramente eu via a veia saltar – provavelmente era só impressão. Porém, eu nunca poderia negar o barulho e o que aquilo fazia comigo. Soava tão saboroso. Minha visão começou a ficar em um tom avermelhado e aquilo era totalmente novo para mim, mas eu ainda só conseguia concentrar-me no som do sangue dele.
– Seus olhos – o garoto se afastava, parecendo aterrorizado – eles estão vermelhos.
Antes que ele pudesse dizer sequer mais uma palavra, eu o ataquei. Era incrível a força e agilidade que eu tinha. Era como se eu tivesse feito aquilo a minha vida inteira... E eu me sentia tão bem. Minhas presas saíram naturalmente e eu mordi o pescoço da minha vítima, sugando seu sangue e o saboreando ao máximo. Quando acabei, apenas larguei seu corpo inerte no chão do corredor mesmo. Finalmente minha sede havia passado, eu estava satisfeito. Definitivamente, eu havia me tornado um monstro, mas – por incrível que pareça – não tinha me arrependido do que havia acabado de fazer. Foi tão bom. Só então eu consegui ouvir os barulhos de luta. Então o que o bruxo fantasiado de Gambit havia falado era verdade. Como ele se chamava mesmo? Taylor? É, acho que é isso – mas de qualquer modo, não importa.
Desci as escadas lentamente, tentando observar tudo o que acontecia ali. Estava uma completa confusão e cheio de gente morta. Por quanto tempo eu tinha ficado desacordado, afinal? Pelo que estava acontecendo aqui em baixo, eu diria uma eternidade. A primeira pessoa conhecida que avistei foi Audrey, e ela estava lutando contra três pessoas – dois homens e uma mulher – que estavam em volta dela. Apesar de eu implicar muito com ela, espero que se dê bem nessa luta. Os números não estão a favor dela. Saí dali, eu não ia ajudar ninguém. Não ia me meter em briga a não ser que viessem para cima de mim. Vi o cara que estava com com Audrey no início da festa – aquele que Rebecca disse que eu nunca deveria confiar. Ele virou seu rosto para mim, mas então me ignorou. Naqueles poucos segundos em que ele me olhou, pude ver que a cor dos seus olhos não eram mais as mesmas; Seu rosto estava diferente e com mais pelos que o normal. Ele era um lobisomem e eu não deveria confiar em lobisomens. No meio de todo aquele barulho de luta, ouvi um grito mais alto e virei-me automaticamente para aquele lado. Achei minha namorada bem a tempo de vê-la bater as costas contra a parede e cair no chão. Então vi um homem andando até ela e a atacando com uma faca. Percebi pela roupas que era o tal do Taylor que havia feito isso. Ele não estava do lado delas? Ah, agora faz sentido. Fantasia de Gambit – um traidor – para outro traidor; É, combinava.
Eu realmente não queria me meter em nada, mas não podia deixá-la morrer ali. O problema era que eu não sabia me controlar. Ela parecia não ter mais muita força para revidar. Antes mesmo que eu me movesse para ir até lá, Ryan – o cara vestido de Capitão América – apareceu, ficando entre Rebecca e Taylor. Ele empurrou o traidor para longe dali, o puxando para uma outra briga e deixando minha namorada sozinha. Segui meu olhar para onde os outros dois haviam ido e percebi que mais uma mulher havia se juntado à briga – ela era amiga de Taylor. Eu deveria ajudar, mas precisar falar com Rebecca. Aproveitei a brecha e corri até ela.
– O que você...? – ela arregalou os olhos, então eu limpei um pouco de sangue que ainda escorria da minha boca – Okay, esquece.
– Eu não sei como controlar nada disso, não posso ajudar – percebi que ela estava pressionando sua barriga, onde estava sangrando – Aquele filho da puta! Você está bem?
– Controle é superestimado, Dylan – ela disse quando agachei-me em sua frente – Isso é tudo o que você precisa saber agora. Não é difícil.
– O que você precisa que eu diga? – fiz careta – O que quer que eu faça?
– Você precisa me escutar – ela segurou meu rosto com sua mão ensanguentada – Ou você mata, ou morre – ela hesitou um pouco – Ou simplesmente vai embora.
Levantei, andando de costas e distanciando-me dela. Só parei quando ela estava fora de vista. O que eu deveria fazer? Eu estava confuso com meu novo corpo e minha atual força; Minha sede de sangue não ajudava muito – apesar de eu não estar com sede agora; E aquela parte de mim que não sentia remorso pelo que havia feito com aquele garoto lá em cima era a pior de todas. Confesso que considerei por alguns segundos a opção de ir embora. Era mais seguro, certo? Claro que era. Mas então eu vi aquela mulher ferida e – não importa se na superfície ou lá no fundo – eu não podia negar o que eu sentia por ela e nem o que e como ela me fazia sentir. Não podia deixá-la para trás, independentemente de se ela fosse morrer ou sobreviver. Ela era minha namorada, ou agora, talvez até algo mais importante do que isso; Eu ainda não entendia, mas sabia que existia algo a mais. Então eu olhava naquela direção e seus olhos estavam fixos nos meus, apesar da distância. Diante daquilo, tudo o que eu conseguia pensar era: Como eu posso ir embora quando você está me implorando para ficar?
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