Blood Queen
6 Capítulo 6
Acordei tremendo de frio e me dei conta que não havia acendido o fogo da lareira. Olhei pela porta da sacada e vi que o dia já havia amanhecido. Depois de tomar banho e me trocar, escondi a espada Grunn e todas minhas facas debaixo do colchão. Um esconderijo óbvio, mas as pessoas nunca procuram pelo óbvio. Eu não tinha procurado pela biblioteca como havia planejado antes de entrar no castelo, mas agora que tinha conquistado a confiança de todos e eu poderia andar pelo castelo sem que ninguém desconfiasse de algo. Eu tinha que ser rápida, pois cada dia que passava meu pai poderia ser torturado naquelas masmorras.
Vesti meu vestido azul e branco e desci para tomar café.
Havia menos pessoas ali do que no dia anterior e já estavam preparando o almoço. Depois do café a Sra. Mellyn me dispensou para conhecer o castelo e disse que já havia muita gente na cozinha. Agradeci e sai.
—Bom dia. — Cumprimentou Gustav a me ver no hall de quadros.
—Bom dia. — Respondi sorridente.
—Minha mãe lhe dispensou?
—Sim, ela disse que eu posso conhecer o castelo.
—Esse castelo é gigante. — Ele deu um passo em minha direção. — Conheço esse castelo como ninguém. Gostaria de companhia? — Ele me ofereceu o braço.
Pensei que seria interessante passear com Gustav pelo castelo, assim chamaria mesmo atenção e ele era divertido.
—Aceito. — Eu disse segurando seu braço.
Começamos a caminhar pelo corredor que dava acesso ao meu quarto.
—Você mora há muito tempo aqui? — Comecei a puxar assunto. Gustav gostava de falar e talvez eu conseguisse algumas informações importantes.
—Eu nasci aqui. Meus pais eram camponeses e moravam num vilarejo próximo a fronteira de Nuska, mas no ano em que se casaram houve um inverno extremamente rigoroso que devastou toda a plantação. — Eu me lembrava perfeitamente desse inverno, na época eu estava trabalhando na casa de uma família nobre no reino de Ballard, eu era uma arrumadeira e trabalhei todo o inverno naquela casa, assim que a primavera iniciou eu matei o patriarca e sua mulher. Ganhei um bom dinheiro com esse serviço. — Meus pais largaram a vida no campo e vieram para a cidade e buscaram emprego aqui no castelo. — Continuou Gustav. — Os monarcas contrataram meus pais, minha mãe seria arrumadeira e meu pai cuidaria dos estábulos.
—Sua família é bem próxima dos reis, não é mesmo. — Comentei interessado na história.
—Sim. Meus pais conquistaram a confiança deles e hoje são amigos. — Sorri ao imaginar os reis amigos de criados.
—Essa amizade também foi passada para os filhos, eu pude perceber.
—Com certeza. Jansen é um mês mais velho que eu e algumas semanas mais velho do que Sam.
—Nossa, tenho pena dos criados desse castelo só de imaginar três crianças levados correndo por ai. — Comentei sorrindo.
—Éramos odiados por eles. — Disse Gustav e gargalhou.
Seguimos por outros corredores e Gustav disse que eram salas de reuniões e salas particulares da família real. Continuamos nossa caminhada.
—Como Sam foi encontrado? — Perguntei.
—Minha mãe diz que ele foi deixado na porta do castelo e estava dentro de uma cesta. — Ele pareceu desconfortável.
—Imagino que não foi fácil para sua mãe cuidar de dois bebês.
—Não foi, mas a rainha foi extremamente generosa e também cuidou dele. — Eu o encarei surpresa. Uma rainha cuidando de um órfão não era nada comum. — Minha mãe não tinha muito leite e a rainha foi ama de leite de Sam. — Eu parei de caminhar. Não consegui acreditar no que tinha ouvido. Em todos os reinos que estive nenhum era como aquele. Bondoso. Uma rainha sendo ama de leite de uma criança que foi abandonada na porta do castelo...
—Está tudo bem? — Gustav pareceu preocupado.
—Acho que sim. É que o reino de Andrya é muito...
—Bom?
—Sim. — Agora eu tinha quase certeza de assim que meu pai fosse liberto eu viveria ali. Um reino respeitado e bondoso. Eu não era assim, mas talvez fosse hora de me aposentar como assassina e viver como uma cidadã comum.
Continuamos nossa caminhada e nada de encontramos a biblioteca. Passamos pela ala dos aposentos da família real, era grande e quente e também muito mais ornamentada do que o restante do castelo. Seguimos adiante e subimos uma larga escadaria. No alto estava um patamar de mármore verde e em toda a parede do lado direito havia janelas com vista para o mar. Estávamos na ponta do penhasco. Aproximei-me da janela e pude ver as ondas baterem violentamente na base do penhasco. O corredor seguia para a esquerda e no final estavam duas portas altas de madeira. Deveria ser a sala do trono.
—Ali — apontou Gustav para as portas — é a biblioteca real.
Sorri e quase saltei de alegria.
—Você gosta de ler? — Perguntou ele ao ver minha reação.
—Sim. — Mentira, eu não sou uma amante da leitura, prefiro a prática ou invés da teoria.
Gustav sorriu e me conduziu até as portas, ele as abriu e entramos. A biblioteca era gigante. Tinha uns três andares recheados de prateleiras e no centro haviam dezenas de prateleira. No teto alto a iluminação era feita por uma claraboia central. As janelas que havia naquele corredor continuavam ali dentro. Eu demoraria meses para encontrar os livros dos conjuradores.
—É magnifica! Mas não tem ninguém para cuidar disso tudo? — Perguntei quando notei uma escrivaninha que deveria pertencer ao bibliotecário estar vazia.
Gustav passou a mão pelo pescoço. — Tem, mas não no momento.
Merda.
—Como assim?
—Já fazem algumas semanas desde que o Sr. Tallnh voltou para Nuska para cuidar de seu pai adoentado. Mas assim que ele melhorar retornará.
Eu não tinha tempo para isso. Teria que fazer da forma mais difícil: procurar livro por livro.
—Sem problemas. Eu espero. — Eu disse fingindo animação. -Gustav será que podemos retornar? Estou com fome.
Ele sorriu e assentiu.
Eu voltaria naquela biblioteca durante a noite e depois de passar por tantos corredores eu tinha que conseguir um caminho mais curto. Pedir a Gustav para voltarmos porque estava com fome me ajudaria nisso, pois certamente iriamos direto para a cozinha e para perto de meu quarto.
De fato retornamos por um caminho bem mais curto e saímos num salão próximo à entrada do castelo e entramos no corredor de quadros e estavam na cozinha. Todos já estavam almoçando. Gustav e eu não havíamos nos dado conta do tempo que havíamos passado perambulando pelo castelo.
Passei à tarde ao lado de Vikhy enquanto a ajudava a arrumar os quartos onde nobres haviam pernoitado no castelo. Ela tagarelava sem parar e era legal. Ela não fazia perguntas e não estava interessada em saber sobre minha vida. Mas talvez eu pudesse perguntar algo sobre ela já que não sabia nada além de seu nome.
—Vikhy, você mora com seus pais? — Perguntei para puxar assunto enquanto termina de colocar a colcha sobre uma cama de casal.
—Não, — Disse ela um pouco desconfortável. — Eu não sou desse reino. Sou de Singart. — Eu não pude conter meu olhar de espanto. Aquele reino era corrupto e totalmente o oposto de Andrya.
—Desculpe. — Eu disse ao perceber que ela me olhava desajeitada. — Você não tem culpa do que ocorre por lá.
—Tem razão e foi por isso que fugi. — Ora, ora. Pelo visto não era só eu que guardava segredos do passado. — Meus pais queriam que eu me casasse com o general. — Ela se sentou numa poltrona em frente à lareira. — Eu tinha apenas quinze anos e o general..., bom... é velho. — Eu conseguia sentir o nojo em suas palavras, pois ela estava de costas para mim. — Meus pais são bem influentes naquele reino maldito e um casamento com o general só ia aumentar o poder de minha família. — Eu caminhei até ficar ao seu lado. Ela chorava. — Eu fugi e mudei de nome.
—Quem além de mim sabe dessa história? — Perguntei surpresa com a sua revelação.
—Os monarcas e a família de Gustav.
Eu simplesmente não sabia o que fazer enquanto ela chorava. Nunca tinha passado por isso, mas eu conseguia sentir o seu medo e repulsa e sabia o que era fazer algo obrigada. Eu estava passando por aquilo. Estava indo atrás dos conjuradores obrigada, mas se não fizesse isso meu pai continuaria nas masmorras de um reino que ele odiava.
Eu senti um arrepio na espinha só de lembrar como era o reino de Singart. Miséria. Corrupção. Medo. A população vivia assolada com o medo constante da invasão dos Orc, pois o rei não estava nem ai. Ele pensa apenas em si e o que era bom para ele próprio e ao ver Vikhy chorando eu me comovi em pensar como os mais pobres sofriam, pois se ela era filha de nobres e estava sendo forçada a se casar, aqueles que não tinham nem o que comer provavelmente estariam dispostos a vender seus próprios filhos.
—Não precisa chorar, pois aqui você está segura. — Eu disse pousando minha mão sobre seu ombro.
Ela me olhou com os olhos cheios de lágrimas e sorriu levemente.
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