Na manhã seguinte me levantei e fui para a cozinha decidida a contar que partiria na manhã seguinte. Ao chegar me deparei com toda a família de Gustav sentada a mesa. Eles me encararam quando entrei na cozinha e fiquei para na soleira da porta.

—Bom dia Charlotte. – Cumprimentou a Sra. Mellyn.

—Bom dia. – Respondi ainda parada na soleira da porta.

—Está tudo bem? – Perguntou Sam.

—Sim. – Mordi o lábio inferior. – Bom, aproveitando que estão todos aqui eu queria lhes informar que estarei partindo amanhã de manhã.

Gustav se engasgou e começou a tossir.

—Mas você acabou de chegar? – Questionou o Sr. Mellyn.

—É verdade, mas eu não vim para ficar por muito tempo. Apenas vim cumprir a promessa que havia feito aos pais de Sam e pude notar que ele está muito bem. – Respondi com a maior cara de pau do mundo.

—Mas é inverno. – Comentou Gustav. Cof. Cof. Cof.

—Não me importo e não tenho pressa quando estiver muito frio eu paro e me aqueço em algum lugar. – Respondi me lembrando das cavernas em que eu e meu pai sempre ficávamos.

—Se você realmente está decidia a partir não podemos impedi-la. – Disse a Sra. Mellyn se levantando e caminhando em minha direção. Ela parou na minha frente e pôs a mão direita sobre meu ombro. – Apenas tome cuidado em sua jornada. Ficamos muito felizes em saber que Sam tem alguém se sangue que se importa com ele e por isso peço que venha nos visitar quando quiser. – A mulher tinha uma voz doce que me fazia sentir vontade de abraça-la.

—Eu é que agradeço pela hospitalidade de todos e prometo que venho lhes visitar quando possível. – Eu disse olhando em seus olhos verdes como os de Gustav.

Ela sorriu e se voltou para a mesa de madeira onde os outros estavam.

—Sam e Gustav vocês ficam responsáveis em arrumar mantimentos para a partida de Charlotte. – Ordenou a mulher. Os garotos assentiram. – Venha tomar o café.

Fui em direção à mesa e me sentei.

Durante a tarde fui à lavanderia para poder lavar minhas velhas roupas surradas e fedorentas. Por sorte não havia ninguém e pude lavar minha calça e bata sem precisar ficar dando explicações sobre elas. Após lava-las as levei para o quarto e improvisei um varal em frente à lareira para que elas secassem mais rápido, pois voltaria a usa-las na manhã seguinte.

Quando abri a porta de meu quarto para procurar por Sam e Gustav e saber se eles já haviam feito o que a Sra. Mellyn lhes ordenara, eu dei de cara com Vikhy.

—Vikhy. – Eu disse surpresa ao vê-la ali parada.

—Eu soube que vai partir. – Disse ela segurando as próprias mãos.

—Sim, eu irei... — Ela me abraçou fortemente e depois me soltou.

—Quero que saiba que foi um prazer lhe conhecer. – Disse ela sorridente.

—Digo o mesmo sobre você, mas não se livrará assim tão fácil de mim, pois voltarei para visita-los. – Também disse sorrindo. Apesar de ser maluca, Vikhy havia sido gentil comigo.

—Que bom. Tenho que voltar pra cozinha, até breve. – Disse ela já caminhando em direção à cozinha.

—Até.

Todas aquelas despedidas estão ficando cada vez mais difíceis e chatas. Eu odeio despedidas. Acho que é por isso que sempre corto os pescoços das minhas vitimas antes mesmo delas se darem conta que irão morrer.

Procurei Sam e Gustav por todo o castelo e não os encontrei e ninguém sabia do paradeiro de ambos. Soube por alguns criados que limpavam o salão principal que por sinal ouvi enquanto procurava pelos garotos, que Jansen estava melhor. Ainda bem e mais a noite iria me despedir dele e verificar se realmente ele não se lembrava de nada que havia acontecido na noite anterior.

A noite veio rápido quando desci para o jantar Sam e Gustav não estavam e apenas deixaram um recado dizendo que iriam fazer uma surpresa para mim e que eu não me preocupasse, pois eles estavam cuidando de tudo. Algo me disse que estavam aprontando algo e a Sra. Mellyn que também não sabia o que os malucos estavam planejando, mas me alertou que daqueles dois poderia esperar qualquer coisa.

Eu ajudei a lavar toda a louça do jantar e antes de sair da cozinha eu a observei por alguns segundos. Sentiria falta pela primeira vez de algum lugar.

Não estava com sono e resolvo ir até a sala onde havia ido beber vinho com os rapazes alguns dias atrás. Não havia ninguém, então me deitei no sofá e fiquei observando aquela pintura que Jansen havia dito ser presente do rei élfico, Aiken.

Eu mostrei a língua para aquela pintura maldita.

Ouvi passos vindo do lado de fora e eu me endireitei no sofá. A porta se abriu e Jansen entrou.

—Charlotte!? – Disse ele espantado a me ver.

—Jansen. – Eu disse. – Está melhor?

—Sim. – Respondeu ele fechando a porta e indo em minha direção. – Aquele chá que você me levou ontem a noite foi ótimo.

Engoli em seco.

—Que bom – Eu disse me levantando.

—Está indo embora e não vai se despedir de mim? – Questionou Jansen se colocando na minha frente e impedindo minha passagem.

—Não gosto de despedidas e além do mais eu voltarei para visita-los. – Respondi olhando nos olhos e percebi como ele era mais alto do que eu.

—Fico feliz em saber que não irá nos abandonar. – Disse ele sorrindo.

—Não faria isso com as pessoas que me acolheram tão bem.

—Você está em Andrya, o bom reino. Aqui a hospitalidade e gentileza é a nossa maior riqueza. – Discursou ele.

—Por que vocês da realeza gostam tanto de fazer discursos? – Brinquei sorrindo.

—Sinceramente eu também não tenho ideia. – Disse ele gargalhando.

Eu o observei e percebi o quão fácil era conversar com ele, mas será que o chá havia funcionado?

—Tenho certeza que você será um ótimo rei. – Comentei por fim.

—Obrigado. Sabe Charlotte, você daria uma ótima rainha. – Droga, de novo esse assunto.

—Tenho certeza que não. Não tenho bons modos à mesa, não sei dançar, tocar instrumentos musicais e acho responsabilidade demais cuidar de reino. Eu definitivamente não quero isso para mim. – Sim, tudo verdade.

—Tudo se aprende. – Disse ele dando um meio sorriso.

Não, ele não se lembrava da noite anterior.

Eu acho.

Ele passou os braços envolta de minha cintura e me puxou para um abraço. Eu correspondi.

—Nunca achei que abraçaria um príncipe. – Comentei com a cabeça repousada em seu peito.

—Então aproveite a oportunidade, pois eu não costumo abraçar plebeias. – Brincou ele e beijou o alto de minha cabeça.

Eu me afastei o suficiente para observa-lo.

—Foi um prazer conhece-lo. – Eu disse me desvencilhando dele.

—O prazer foi todo meu. – Disse ele pegando minha mão e dando um leve beijo.

Eu sorri e sai da sala em seguida.

Eu sentiria muito falta daquele lugar e de Jansen também.

Voltei para meu quarto e tive uma péssima noite de sono por estar ansiosa em partir dali.

O dia mal havia amanhecido e eu já estava de pé. Vesti minhas velhas roupas e me senti muito mais confortáveis. Coloquei meus vestidos na mala, peguei todas as minhas armas e as escondi pelo meu corpo e coloquei a espada Grunn escondida na capa.

Assim como havia feito antes de sair da cozinha, eu me virei e observei aquele quarto por alguns instantes e depois sai.

Sai do castelo e segui para o estábulo onde a Sra. Mellyn havia dito para encontrar os rapazes.

Ao chegar no estábulo me deparei com três cavalos selados. Três? Como assim?

Sam saiu de dentro de uma baia carregando algumas sacolas com mantimentos.

—O que está acontecendo aqui? – Perguntou confusa.

—Nós vamos com você. – Respondeu ele colocando o mantimento na bolsa de uma sela de um cavalo marrom.

—Nós? – O que estava havendo ali?

—Sim. – Respondeu Gustav vindo de trás do estábulo. – Vamos com você nessa aventura por Wydder.

—Não. Nada disso. Ninguém além de mim vai sair desse castelo. – Eu disse trincando os dentes.

—Não estamos pedindo sua permissão para ir, estávamos apenas lhe informando que iremos com você. – Comentou Sam com uma calma profunda. E não era ele que queria me ver longe dali?

—Que roupas são essas, Charlotte? – Questionou Gustav.

—Não te interessa. – Brandi em resposta.

—Não fale assim com Gustav. – Retrucou Sam.

—Eu falo do jeito que eu quiser. – Esbravejei.

—Será que vocês querem calar a boca e me explicar o que está acontecendo aqui? – Perguntou Gustav perplexo.

Eu e Sam desviamos nossa atenção para ele.

Eu o observei por uns instantes logo tive uma ideia, gritar e espernear contra aqueles dois ali não adiantaria em nada e só estava me atrasando, então eu deixaria que eles viessem comigo e depois eu contaria para Gustav algumas verdades sobre mim e sendo assim, acho eu que ele não irá querer seguir viajem junto de uma mentirosa, Sam não sabia que eu era uma assassina e quando eu começassem há contar um pouco sobre as mortes que eu causava certeza também iria desistir de minha presença.

—Tudo bem. – Eu disse por fim. – Podem vir comigo, mas vou logo avisando que não irei me responsabilizar pelo o que acontecer com vocês durante essa jornada. – Eu segui até uma égua malhada que já estava selada e amarrei minha mala na sela e depois montei.

—Vocês não vão me contar o que está acontecendo aqui? – Repetiu Gustav ainda parado perto dos outros cavalos.

—Não tem nada para ser explicado. – Respondi.

—Como não? Até ontem de manhã você era uma garota doce e sempre arrumado com belos vestidos e agora está grossa e essas roupas... — Gustav parecia contrariado.

—Gustav, se você vai ficar me questionando é melhor ficar por aqui. – Pelo menos Sam não havia contado nada a ele.

—Ela está certa. Vamos Gustav. – Disse Sam montando no cavalo marrom.

Gustav fechou o semblante e montou num cavalo preto.

—Temos mantimentos para quantos dias? – Perguntei.

—Uns dez. – Respondeu Sam.

—Para onde vamos? – Perguntou Gustav em tom rude.

—Irei seguir o curso do rio Kash. – Respondi e dei leves apertos com os calcanhares na barriga da égua e ela começou a trotar.

Depois de algumas horas cavalgando próximos a margem do rio Kash e fora da cidade o silêncio foi quebrado.

—Será que podemos parar pra comer? – Perguntou Gustav em tom áspero.

—Não. – Respondi fitando o caminho coberto pela neve que havia caído durante a noite e fazia a paisagem parecer solitária e sombria.

—Sam, — Gustav chamou baixinho para que eu não o ouvisse. – por que estavam discutindo daquele jeito?

—Todos dizem que somos chatos, não é mesmo? – Eu respondi. – Tanta chatice junta gera algumas explosões de vez enquanto.

—Sabia que é feio ouvir a conversa alheia. – Disse Sam. Ele e Gustav cavalgavam atrás de mim.

—Não, obrigada por me informar. – Comentei sarcasticamente.

—Vocês não se tratavam assim no castelo. – Gustav insistia.

Eu puxei as rédeas e virei minha égua para ficar de frente com os rapazes.

—Não fazíamos isso por pura educação, mas essa é nossa relação. – Aquele assunto já estava me estressando. – Gustav, pare de ficar falando nisso, por favor. – Forcei um sorriso falso.

—Ela tem razão Gustav. – Sam comentou me fuzilando.

—Tudo bem, mas me diga por que estava seguindo o Kash? – Gustav continua com suas perguntas e eu respirei fundo.

—Porque eu quero. – Respondi e virei para seguir o caminho.

—Se vamos seguir o Kash então vamos para Nuska. – Conclui Gustav. Ele poderia ser legal, mas já estava irritando.

—Sim, — Disse Sam e antes que ele falasse mais eu apenas afastei a minha capa e puxei o cabo de uma faca que estava em minha bota apenas para lhe alertar. – Eu acho. – Finalizou ele depois de uns segundos. Abaixei a faca e puxei a capa de volta.

—Ali é um bom lugar para comer não acha? – Perguntou Gustav apontando para uns tronos caídos.

—Se comer irá calar sua boca, então vamos parar. – Eu disse já impaciente.

Amarramos nossos cavalos nas árvores e nos sentamos nos troncos caídos para comer pão e beber vinho.

—Vocês conseguiram mantimentos para quantos dias? – Perguntei após um gole de vinho.

—Dez dias. – Respondeu Sam.

Isso era mais que o suficiente já que levaríamos no máximo sete dias para chegar até o templo. Tudo isso dependia do tempo afinal viagens durante o inverno são sempre lentas.

O rio Kash seguia a poucos metros de onde cavalgávamos, suas águas violentas batiam nas margens e faziam o único som que se espalhava pela floresta ao seu redor. Ali a umidade e o vento eram dilacerantes e o sol já começava a dar sinais que desapareceria em breve e a neve voltaria a cair.

—Logo vai escurecer de vez e ficará muito mais frio, precisamos encontrar um lugar para passar a noite. – Avaliou Sam.

—É verdade, mas por essas bandas não me lembro de ter algum vilarejo. – Disse Gustav em seu tom normal de voz.

—Então teremos que achar uma caverna. – Comentei puxando as rédeas e parando a égua.

—Caverna!? Mas é inverno e devem estar cheias de animais hibernando nelas. – Disparou Sam parando o seu cavalo marrom de frente para mim.

—E como vamos achar uma caverna? – Gustav parou ao lado de Sam.

—Vocês quiseram vir comigo agora estão com medo de dormir em uma caverna? Bom, se quiserem podem passar a noite em meio à floresta, mas com essa neve que está caindo durante a noite não tenho certeza de que uma fogueira irá se manter acesa por muito tempo. – Eu disse os fitando.

—Tudo bem, vamos procurar uma caverna. – Disse Sam em tom nada contente.

—Certo, procurem aqui por perto e se acharem algo grite. – Eu disse fazendo a égua voltar a trotar.

—Aonde você vai? – Questionou Gustav.

—Procurar uma caverna. – Respondi e sai de perto deles antes que um deles se oferecesse para me acompanhar.

Por um momento pensei em seguir caminho e deixa-lo ali, eles iriam encontrar o caminho de volta para Aleil e eu poderia seguir em paz, mas algo dentro de mim não deixou. Nunca havia sentido isso, era como uma voz gritando na minha cabeça e dizendo que não poderia deixa-los. Mas por quê? Eram apenas dois humanos como tantos que eu havia decapitado. Quanto mais longe eu me afastava deles mais aquela voz gritava e parecia me puxar na direção contrária. Pare com isso, disse para aquela voz. Ela não parava e continuou mais aguda e então eu cedi.

Parei a égua e desci a amarrei num trono de árvore e me ajoelhei na neve fofa. Comecei a cavar a neve até encontrar a terra. Retirei minhas luvas e pousei minhas mãos sobre a terra fria. Senti um frio na espinha e um sussurro me cumprimentando. Sorri em resposta. Eu precisava encontrar uma caverna e aquela era a maneira mais fácil e rápida. A terra me direcionou a uma não muito longe dali e então eu ela falou comigo, — Não se esqueça de seus amigos. Não os abandone. – Eu me levantei um salto e assustada. Aquela voz que estava gritando na minha cabeça a pouco agora falara comigo e era a terra.

Terra.

Eu só poderia estar ficando louca. Sacudi a cabeça para tentar dispersar esse momento e coloquei minhas luvas de volta e montei. Voltei para encontrar os rapazes que me esperavam no mesmo lugar que eu havia os deixados.

—Encontrou? – Perguntou Gustav.

—Demorou, achamos que havia nos deixados sozinhos. – Comentou Sam.

Bem que eu queria, pensei.

—Encontrei uma caverna perto daqui e por sorte está vazia. – Respondi já direcionando para a caverna.

Quando chegamos à entrada da caverna o dia estava por um fio. A caverna era alta o suficiente para Sam que era o mais alto passar tranquilamente de pé.

—Vamos. – Eu disse fazendo menção em entrar na caverna.

—Não é melhor acender uma tocha primeiro. – Disse Sam olhando da para a escuridão que se formava dentro da caverna.

—Não. – Disse e entrei na escuridão. Eu sabia que apenas algumas aranhas inofensivas e insetos estavam por ali.

A caverna não era profunda tinha uns três metros apenas. Eu parei no centro da escuridão e olhei em direção a entrada e vi os dois cavalheiros corajosos e de pura bravura parados com medo de entrar na caverna escura.

—Francamente, se eu soubesse que tinha tanta coragem assim tinha deixados vocês passaram essa noite sozinhos. – Zombei enquanto saia da caverna.

—Para uma garota que nunca saiu da própria aldeia você se dá muito bem na floresta. – Comentou Gustav admirado.

Apenas olhei para Sam e formei um meio sorriso e disse – Peguem gravetos para fazermos uma fogueira.

Eles se viraram para caçar gravetos e eu fiquei parada na entrada da caverna. Depois de conseguir madeira suficiente para nos aquecer durante a noite entramos na caverna e fiz uma fogueira ao centro. Pedi que deixassem os cavalos na entrada da caverna e assim o fizeram.

Ali sentada no chão da caverna eu observei Sam e Gustav enquanto devoravam um pedaço de carne seca que haviam levado. Dois malucos. Dois amigos. Dois irmãos. O que tinham de especial para que a terra me pedisse para não abandona-los? Eles eram inofensivos e presas fáceis. Eu não sabia o que teria que enfrentar para conseguir a liberdade de meu, mas sabia que não poderia leva-los comigo. Uma jornada perigosa demais para inexperientes e simples aventureiros. Um alegre e destemido e outro medroso e pessimista.

—O que foi Charlotte? – Questionou Gustav me retirando dos pensamentos.

—Nada. – Respondi e voltei a comer aquele pedaço de carne e esfriava em minhas mãos.

—Espero que todos no castelo nos perdoem. – Comentou Sam sem retirar sua atenção da carne em suas mãos.

—Vocês não contaram para ninguém!? – Indaguei um pouco preocupada demais e sem entender o motivo dessa preocupação. Me senti confusa.

—Deixamos um bilhete. – Sorriu Gustav.

—E desde quando você se preocupa com isso? – Questionou Sam agora me encarando.

—Desde que... -Eu não sabia a resposta, mas estava na hora daquilo acabar. – Gustav – Eu me levantei e o encarei. – Preciso lhe contar algo.

—Pois diga. – Disse ele.

Eu não ousei olhar para Sam, mas eu conseguia senti-lo me fuzilando com sua cara de espanto.

—Eu e Sam não somos primos, nem coisa alguma. – Eu disse por fim.

Gustav me olhou sem expressão por um tempo e esperou que talvez disséssemos que era brincadeira. Ele olhou para Sam que provavelmente não parecia estar brincando.

—Que tipo de brincadeira é essa? – Questionou Gustav em tom sério e uma pitada de medo.

—Não é brincadeira, é verdade. – Eu disse o mais calmo que conseguia. Por mais que eu queria eles longe de mim nessa jornada eu não queria magoa-los. Estranho, nunca havia me importado com isso antes.

—Como você sabia que Sam é órfão e... — Ele não terminou a frase e encarou o amigo com o semblante triste e eu senti vontade de abraça-lo, mas estava funcionado e eu me livraria dos dois em breve.

—Eu precisava entrar na biblioteca do castelo e vocês eram as iscas perfeitas. – Comecei.

—Vocês!? –Questionou Gustav surpreso.

—Sim. Assim que cheguei à cidade eu procurei presas fáceis e encontrei vocês que saiam e entravam do castelo toda manhã e quando resolvi por meu plano em pratica por sorte apenas Sam foi à cidade no dia. Seria bem mais fácil, assim não teria que enfrentar vocês dois. – Continuei em tom calmo e olhei para a fogueira.

—Sam como você pode colocar alguém desconhecido dentro do castelo? – Disparou Gustav praticamente gritando e isso ecoou pela caverna.

—Não tive como...

—Ela poderia ter matado o rei e a todos nós. – Continuou Gustav ainda mais irritado.

—Ele tem razão. – Comentei serenamente apenas para causar mais intriga.

—Cala a boca. – Berrou Sam em minha direção. – Você colocou uma faca em minha garganta e me obrigou a mentir. – Ele se aproximou de Gustav. – Ela ameaçou matar todos se eu contasse alguma coisa e...

—Como você pôde fazer isso? Nós te acolhemos como um membro da família. Charlotte... esse é mesmo seu nome? – Gustav estava contrariado e incrédulo.

—Esse é meu nome. – Respondi em seco.

—Será? – Duvidou Sam.

Dei de ombros e não respondi.

—Eu... eu nem sei... — Gustav parecia perdido e começou a andar de um lado para o outro da caverna.

—Por que contou a ele só agora? – Sam se virou para me olhar.

—Porque me deu vontade. – Menti.

—Não, não foi isso. – Ele parou de falar e voltou a olhar para Gustav que estava me encarando. – Você quer que brigamos e resolvemos te deixar sozinha. – Concluiu Sam e voltou a me encarar.

Droga.

—O que deu em você, afinal não via a hora de me ver bem longe de Aleil? – Questionei aumentando o tom de voz.

—Resolvi seguir o seu conselho e ser mais aventureiro. – Respondeu Sam entre dentes.

Semicerrei os olhos e bufei.

—Charlotte, por mais que você tenha mentido você resolveu me contar a verdade e isso quer dizer que não é tão má quanto parece. – Ele estava enganado. – Não vou deixa-la seguir essa jornada sozinha. – Gustav se virou para Sam. – Eu no seu lugar teria feito à mesma coisa.

O quê!? Eu não estava acreditando no que estava ouvindo.

—Obrigado meu amigo. – Agradeceu Sam. – Não importa o que você faça para tentar nos afastar nós vamos continuar te seguindo. – Ele disse me encarando novamente.

—Vocês são malucos. Dois inconsequentes. – Eu disse cruzando os braços.

—Só se vive uma vez e essa é nossa oportunidade de aventura que sempre sonhamos, melhor dizendo, que eu sempre sonhei. – Gustav disse em tom sonhador.

—Admito que não sou aventureiro, mas Gustav me convenceu e você de certa forma também Charlotte.

—Pelo menos vocês trouxeram uma espada para se defenderem. – Comentei em tom ríspido e voltei a me sentar num pano estendido que serviria como cama.

Eu tinha que me livrar daqueles malucos metidos a aventureiros o quanto antes, só não tinha um plano ainda.

Os dias passaram rápidos e congelados. Com certeza aquele era um inverno extremamente rigoroso e quanto mais próximo estávamos de Nuska mais difícil era encontrar uma caverna para passar a noite. Algumas vezes tive que conjurar uma caverna e isso me deixava uma esgotada, pois estava destreinada e tinha que me concentrar para que não causasse um tremor de terra e formasse uma avalanche. Eu não havia conseguido me livrar de Sam e Gustav toda vez que me afastava e pensava em abandona-los um zumbido agudo atingiu minha cabeça e parecia que eu iria enlouquecer e eu acabava voltando para junto dos rapazes. Gustav não havia me questionado sobre onde iriamos ou que eu estava fazendo. Sam praticamente não me dirigia à palavra e até que isso foi bom, pois uma viagem em silencioso era o que eu gostava.

Sete dias já havia se passado e entramos no reino de Nuska pela manhã, ali durante o dia o inverno era mais ameno graças aos seus desertos que ficavam cada vez maiores quanto mais nos aproximávamos das Montanhas de Areia. Seguíamos por um vale e próximos às margens do Kash e em volta altas montanhas nos cercavam. Tínhamos que chegar ao templo antes da noite cair, pois se durante o dia o inverno era ameno a noite era o inverso. As noites nos desertos de Nuska durante qualquer outra estação eram extremamente frias e no inverno eram bem piores do que nas florestas de Andrya e ainda mais que num deserto achar uma caverna era uma missão praticamente impossível. Fizemos uma parada rápida para o almoço e continuamos seguindo o caminho tortuoso que o rio fazia por entre as montanhas.

Faltavam poucas horas para o dia se findar quando avistei uma cadeira de montanhas de seguia enfileiradas, elas eram avermelhadas e pontudas. As Montanhas de Areia.

—Aquelas são as Montanhas de Areia? – Perguntou Sam parando seu cavalo.

—Sim. – Respondi parando ao seu lado.

—Do outro lado delas fica o Deserto Negro, não é mesmo? – Questionou Gustav com a voz um pouco rouca.

—Exatamente.

—Nós não vamos para o Deserto Negro, não é? – Gustav me olhou um pouco assustado.

—Não sou idiota de entrar naquele território. Quem se aventura por lá nunca retorna para dizer como é. – Respondi encarando as montanhas.

—Eu um dia quero conhecer um elfo, mas não um elfo negro. – Comentou Gustav também encarando as montanhas.

Eu concordei com Gustav, afinal se um elfo da luz como eram chamados pelo Outro Continente já faziam coisas terríveis, um elfo negro que habitava os Desertos Negros não eram seres de boa índole, pois ninguém sabia o que eles faziam em seu território.

—Estamos quase chegando. – Disse por fim.

—E onde estamos chegando? Eu só vejo montanhas e areia, nada de vilarejo. – Comentou Gustav olhando a sua volta.

—Não vamos a nenhum vilarejo, nós vamos para lá. – Eu disse apontando para uma montanha em que havia uma caverna alta de onde saia uma cachoeira.

O Templo da Nascente.