Quando cheguei à cidade de Aleil, capital do reino Andrya o dia já findava e eu estava muito cansada, pois o frio era mais intenso naquela cidade por causa do mar que a rodeava. Eu tinha passado o dia correndo e minhas pernas queimavam, mas então encontrei um camponês que estava levando parte de sua colheita até o porto na cidade de Aleil, ofereci a ele duas moedas de prata que pertenciam a seu reino e ele aceitou me levar até a cidade. O dinheiro élfico valia muito nos reinos humanos e eu não era tola de gasta-las tão fácil, mas se não estivesse com o saco de moedas que aqueles élficos deram a meu pai para atrai-lo para uma armadilha, minha carona teria saído muito cara.

A cidade era grande e dividida pelo rio Kash. O castelo ficava numa colina que provavelmente era um penhasco e sob ele estava o mar.

O camponês me deixou logo na entrada da cidade e seguiu para o porto, já eu precisava encontrar um lugar para passar a noite e comprar roupas para me disfarçar e tentar achar um plano de entrar naquele castelo.

As ruas eram sinuosas e estreitas. Segui por uma até chegar a uma ponte que atravessava o rio. Não havia muitas pessoas transitando por ali, certamente estavam em suas casas em frente a uma lareira. Enquanto atravessava a ponte observei as águas turbulentas do Kash. Era um rio de águas negras e violentas. Ele nascia nas montanhas no reino de Nuska próximo a fronteira com o Deserto Negro e desaguava no mar ali em Aleil.

Continuei caminhando por ruas de comércios. Os comércios eram feitos de barro e pedra e tinham mais que um pavimento. Presumi que os comerciantes residiam nos pavimentos superiores. Ali estava mais movimentado. Naquele ponto um pouco mais alto podia ver os navios do porto e a confusão de pessoas tirando e colocando cargas daquelas monstruosidades flutuantes. Passei por restaurantes e me lembrei de que também precisava comprar comida, mas depois.

Eu continuava caminhando pelas ruas de comércio, porém agora estava mais próxima do castelo. Havia uma praça com uma fonte que não estava funcionando. Aquele era um bom lugar para ficar, só teria que achar uma estalagem, pois havia uma estrada que seguia direto para o castelo e seria mais fácil monitorar quem entrava e saia de lá. Caminhei pela calçada e avaliava as vitrines com vestidos da moda de inverno. Em algumas haviam mulheres fazendo suas compras, já em outras não havia ninguém, mas não havia me interessado por aqueles vestidos expostos na vitrine. Avistei uma loja do outro lado da praça que havia um vestido bege simples e discreto. Perfeito. Atravessei a praça e quando cheguei para entrar na loja uma mulher de cabelos castanhos e muito bem agasalhado surgiu.

—Desculpe já estavam fechando. -Disse ela saindo da loja.

—Por favor, eu estou vindo de longe e com essas roupas — abri a capa apenas para ela observar minha calça marrom velha e uma bata cinza — não conseguirei passar mais um dia nesse frio.

A mulher estava com a mão na maçaneta e me observou por um tempo. — Está bem, mas vou cobrar um adicionou pelo horário.

—Eu pago. — Com apenas uma moeda de ouro élfico daria para comprar uns três vestidos, coisa que seria impossível com as moedas de prata que provavelmente não dariam para comprar um vestido.

Ela abriu a porta e entrou. Entrei logo atrás. A loja cheirava a jasmim e menta. Nas paredes havia araras recheadas de vestidos e no meio da loja também. No fundo estava um balcão e atrás alguns nichos estavam expostas com malas, chapéus e sapatos. Um candelabro pequeno pendia do teto no centro da loja.

—O que você deseja ver? — Perguntou a mulher com uma voz não muito educada.

—Aquele vestido. — Eu apontei para o vestido bege que estava na vitrine.

Enquanto a mulher buscava o vestido bege procurei por mais vestidos, não sabia quanto tempo iria ficar naquela cidade ou até mesmo se precisaria me disfarçar em outras cidades. Mulheres vestindo calças, camisas e botas não eram bem vista pela sociedade. Eu não estava nem ai para isso, mas naquele momento era necessário se pensar na aparência.

Peguei mais dois vestidos, um cinza com bordados na barra da saia e nos punhos das mangas longas e um azul e branco sem ornamentos e ainda mais simples do que o bege de mangas longas. Peguei também uma mala de couro. Com uma moeda de ouro élfico e cinco de prata de Andrya consegui compra-las.

A mulher pareceu surpresa ao ver a moeda de ouro, mas não questionou. Sai da loja e fui em direção a uma estalagem que a vendedora da loja havia me indicado quando perguntei a ela sobre um lugar para passar a noite.

Já estava escuro e a iluminação das ruas não era tão boa. Sai da praça e entrei há esquerda e depois de dois quarteirões peguei a esquerda de novo e depois à direita. Ali estava a estalagem. Não era grande, mas era aconchegando. Sua fachada era pintada de branca e as janelas e a porta de entrada eram de cor azul. Entrei na estalagem e uma lufada de ar quente me recebeu. Agradeci. Uma mulher de cabelos grisalhos e olhos azuis veio até mim. Logo na entrada havia um pequeno balcão com um armário baixo de livros atrás e além dele algumas mesas estavam dispostas, presumi que as refeições eram servidas ali.

—Posso ajudar? — A senhora era alta e tinha voz firme.

—Sim. — Abaixei o capuz e pus a mala que havia comprado no chão. — A senhora tem um quarto disponível?

A mulher me olhou dos pés a cabeça e não fez questão de disfarçar. Seu olhar era de reprovação.

—Venho de longe. Por isso estou nessa situação. — Eu disse fingindo estar envergada quando na verdade queria voar no pescoço branco daquela mulher.

—Pretende ficar muito tempo?

—Três dias. — A mulher ergueu uma sobrancelha. — Eu pago bem.

—Tenho um quarto disponível no terceiro andar, as refeições são servidas aqui, — ela apontou para as mesas atrás dela — mas o pagamento é adiantado.

Me segurei para não pegar aquela espada e lhe cortar a cabeça por ter me tratado com tanta arrogância.

Peguei duas moedas élficas e coloquei sobre o balcão. — Isso deve dar.

A mulher olhou para as moedas e depois para mim e assentiu. Ela se virou e pegou as chaves em seguida foi em direção a uma escada que ficava no lado direito da sala onde as mesas estavam. Subimos até o terceiro andar e seguimos por um corredor cheio de portas azuis. Caminhamos até o final do corredor à esquerda e ela abriu uma porta.

Ela me entregou a chave e disse — O jantar será servido em meia hora. — Ela deu meia volta e saiu.

Entrei no quarto. Havia uma cama de casal encostada na parede oposta à porta de entrada, uma janela ao lado direito que tinha vista para a rua e ao lado esquerdo havia uma porta azul onde estava o banheiro. No lado direito a porta havia uma pequena escrivaninha de madeira. O quarto era todo branco e os lençóis da cama também eram azuis, mas eram mais claro que a janela e as portas. Do lado esquerdo a porta de entrada estava uma lareira.

Retirei minha capa e joguei sobre a escrivaninha. Acendi a lareira e fui para o banho. O banheiro era pequeno, os azulejos eram bege e desgastados e havia uma banheira que eu a enchi com água quente e entrei. Senti meu corpo agradecendo. Já fazia muito tempo desde que eu havia tomado banho em uma banheira.

Já passava do meio dia e eu estava em cima do telhado de uma casa que ficava próxima a rua de acesso ao castelo. Depois da noite maravilhosa de sono que tive ficar sentadas horas naquele telhado não me fez cansar. O vento frio continuava a sobrar e a neve tinha se acumulado no telhado, mas ali estava eu verificando quem entrava e saía do castelo. Havia uma movimentação intensa de carruagem chegando ao palácio. Imaginei que teriam alguma festividade para comemorar o solstício de inverno que seria em dois dias.

Tinha perdido a hora e quando me levantei o café já havia sido retirado, mas não estava com fome. Tinha me alimentado o suficiente na noite anterior e eu já estava acostumada com apenas uma refeição por dia. Mas por ter me levantado mais tarde perdi a entrada e saída de quem trabalhava no castelo.

Desci do telhado por um encanamento preso a parede dos fundos da residência. Os moradores dali já haviam saído para trabalhar. Segui para a estalagem. Não estava em meus planos parar para o almoço, mas quando entrei e senti o delicioso cheiro de ensopado eu me rendi.

Depois de colocar meu vestido bege e me olhar no espelho do banheiro pude notar o quando estava magra. Soltei meus cabelos longos e sai. Deixei minhas roupas sujas com a dona da pensão, pois ela tinha dito que também lavava roupas para fora. Sorte.

Fui em direção aos comércios para ver se conseguia algumas informações sobre o que ia acontecer no castelo. A praça estava lotada, as pessoas caminhavam de um lado ao outro, entrava e saiam de lojas carregando caixas e nas ruas carruagens enfeitadas passavam. Me espremi entre as pessoas que passavam na calçada e segui em direção ao mercado.

Eu tinha percebido que naquela parte da cidade ficavam os comércios de roupas, perfumes e acessórios e mais próximo ao rio e seguindo para o porto ficavam os mercados de alimentos, ervas e restaurantes. Do outro lado do rio ficavam os teatros e as lojas dos artistas.

Entrei em um mercado de temperos e vi uma carruagem com uma insígnia de um leão dourado cravado no eixo. Pertencia ao rei. Continuei olhando os temperos, mas prestando atenção em quem conduzia a carruagem.

Dois jovens desceram. Ambos tinham cabelos escuros, um era mais alto e pouco mais forte do que o outro. Pareciam irmãos. O mais alto tinha olhos safira e o outro castanho. Não eram soldados. Eles entraram no mercado e pegaram algumas caixas e colocaram no baú da carroça. Um homem se aproximou deles.

—Como vão os preparativos para o Baile de Inverno Sam? — Perguntou o homem que provavelmente era dono da loja de temperos.

—Corridos. — Respondeu o mais alto. Sam.

—A uma coisa de positivo nesses bailes, — disse o mais baixa e franzino, ele se aproximou de Sam e deu-lhe uma cotovelada de leve, — as belas mulheres.

Os três riram e eu revirei os olhos.

Os garotos subiram na carruagem e saíram da loja. Sai logo depois já com um plano em mente de como entrar naquele castelo.

Segui os garotos até que eles voltassem para o castelo.

Depois de descobrir o nome do segundo garoto, Gustav, eu definitivamente tinha um plano e aquele baile não poderia ser momento melhor. Eu entraria naquela biblioteca na noite do baile.

Me levantei antes do dia amanhecer. Vesti minha calça e bata e coloquei minha capa. Eu tinha deixado a espada Grunn escondida dentro do guarda-roupa que ficava ao lado da porta do banheiro. A peguei e sai pela janela. Por sorte não passava ninguém naquela rua. A neve tinha encobrido à rua e minhas botas afundavam na neve enquanto eu caminhava em direção a um pequeno bosque que ficava do lado direito da rua de acesso ao castelo.

O dia começou a clarear e mesmo assim o frio era dilacerante. Meus ossos tremiam quando entrei no bosque e com dificuldade subi em uma árvore de galhos baixos. Eu já sabia o horário em que os garotos saiam e voltavam para o castelo, apenas tinha que torcer para aquele dia eles fazerem aquele mesmo trajeto.

Vi quando a carruagem foi em direção à cidade e estava com tanta sorte que apenas Sam estava nela.

Fiquei sentada numa galho até dar a hora dele voltar.

Ouvi barulho de cascos batendo na rua de pedra e desci da árvore. Afundei na neve. Me abaixei atrás de um arbusto e pude ver que Sam estava voltando. Comecei a gritar por socorro, mas não muito alto, pois outras pessoas poderiam ouvir. A carruagem parou e eu gritei mais.

—Socorro! Alguém me ajude, por favor!

Ouvi-o descendo da carroço e entrando no bosque.

—Quem está ai? -Perguntou ele entrando com passos desconfiado e voz trêmula.

—Socorro! -Gritei novamente e consegui ver que ele não estava portando nenhuma arma. Idiota.

Esperei até que ele chegasse mais perto de onde eu estava escondida. Então saltei para fora do arbusto em direção às costas dele já empunhando uma faca. Eu chutei sua perna e ele caiu de joelhos na neve. Antes mesmo dele perceber o que estava acontecendo, com uma mão eu segurei os cabelos dele e os puxei para trás expondo seu pescoço e com a outra mão empunhava a faca que rocava o pescoço dele.

—Por favor, não faça nada comigo. Pode levar a carga se quiser. -Ele tremia ao implorar.

—Cale-se! — Eu disse em voz firme. — Não quero a sua carga.

—Eu não tenho dinheiro. Não sou ninguém.

—Estive observando você, Sam — Ele congelou. — e seu amigo Gustav...

—Por favor, diga o que quer, mas...

—Já disse para calar a boca. — Eu disse puxando sua cabeça mais para trás.

Ele tinha voltado a tremer de medo e frio.

—Não quero mata-lo, ainda. — Eu disse com um tom de brincadeira na voz. — Quero lhe propor um acordo e se você cumpri-lo ninguém morre.

—Eu aceito. Apenas me diga o que tenho que fazer. — Ele estava desesperado.

Eu me aproximei até seu ouvido e disse — Quero que me coloque dentro do castelo.

—Não.

—Não? — Eu aproximei mais a faca de seu pescoço.

—Você disse que ninguém morria, mas quer entrar no castelo e com certeza não tem boas intenções com isso.

—As minhas intenções são as melhores.

—Me peça qualquer outra coisa. Mas não toque em meus amigos. Por favor.

Fiquei em silêncio por alguns estantes. — Você não tem o direito de exigir nada. Eu quero entrar naquele castelo e você vai me ajudar. -Voltei a me aproximar de seu ouvido. -Ou posso fazer com que apenas sua cabeça chegue ao castelo.

Ele estremeceu ainda mais. — Por que quer entrar no castelo?

—Preciso entrar na biblioteca.

—O que!?

—Sim, bi-bli-o-te-ca. Preciso encontrar algo que está lá.

—Me diga o que é e eu trago até você.

—E qual a graça nisso? Não. Você vai me colocar dentro daquele castelo.

—E qual a garantia que tenho que você não vai matar ninguém?

—Simples, só matarei alguém se você contar o motivo pelo qual estou no castelo... e você será o primeiro a morrer.

—Mas...

—Não confia em si mesmo?

—O que direi aos outros sobre você?

—Não sei. Pense em algo.

—Quanto tempo vai ficar no castelo?

—Tempo suficiente para encontrar o que procuro.

—O que...

—Chega de perguntas. Vai me colocar dentro do castelo ou não? — Eu já estava começando a me irritar.

Ele engoliu em seco. — Vou.

Eu o soltei e ele se levantou aos tropeços. Seus olhos estavam arregalados de medo e seu corpo ainda tremia.

Guardei minha faca.

—Acalme-se. Não matarei ninguém naquele castelo a mesmo que você abra a boca. Prometo.

Ele continuou me olhando, tentando se conseguia ver meu rosto sob o capuz. E não disse nada.

—Certo. Me encontrei na estalagem da Sra. Medley em meia hora. Caso o contrario vou atrás de você e arranco sua cabeça.

—Tudo bem. — Ele ainda estava amedrontado e não tinha se movido.

Deixei ele no bosque e segui para a estalagem. Agradeci ao deus terra mais uma vez. Eu tinha conseguido. Em breve estaria indo atrás do primeiro conjurador e quem sabe encontrasse um livro que me ajudasse a encantar a primeira gema com o poder da terra.