Blood Queen
1 Capítulo 1
Depois da milésima vez em que me levantei para olhar pela entrada da pequena caverna se meu pai já estava vindo com nosso jantar, percebi que ele iria demorar. Com a aproximação do inverno a caça estava fincando cada dia mais difícil. Eu voltei e me sentei num pedaço de tecido grosso que servia como cama no fundo da pequena caverna onde já se fazia uma semana que eu e meu pai estávamos. A fogueira no centro da caverna aquecia o lugar, mas no auge do inverno ficaria mais difícil achar um lugar confortável para passar a noite em meio a Floresta Gwyrltt.
O pouco de dinheiro que eu e meu pai havíamos conseguido com o último serviço já não daria para pagar uma hospedaria durante todo o inverno.
Definitivamente precisávamos de um novo serviço.
Já estava me levantando para ir até a entrada da caverna quando ouvi os leves passos de meu pai, ele caminhava tão lentamente como um gato quando está prestes a pegar um rato. Ele apareceu na entrada da caverna e retirou um coelho já sem pelo de dentro de uma sacola. Eu me apressei e peguei algo para espeta-lo e em seguida o coloquei sobre a fogueira.
Pelo menos tínhamos o que comer esta noite.
Enquanto terminava de colocar o coelho sobre o fogo, meu pai abaixou o capuz e se sentou em outro tecido que ficava no lado oposto ao meu.
—Filha, consegui um bom serviço – ele falou com um pequeno sorriso que já me dizia que iriamos conseguir um bom dinheiro.
—Onde e quando? – falei enquanto ocupava meu lugar no tecido.
—Combinamos de nos encontrar amanhã aqui na floresta próximo ao reino élfico.
Eu semicerrei os olhos e disse -Não acha que é uma armadilha?
Ele pegou algo no bolso do casaco e jogou para mim. Era um saco com algumas moedas do reino de Andrya.
—Andrya!? – Falei surpresa e olhando para meu pai que olhava tranquilamente para o coelho que estava assando.
—Pois é, parece que não são incorruptíveis. — Disse ele.
O reino de Andrya era o único até então a não contratar os meus serviços. Eles eram pacíficos e o rei era adorado pelo povo.
O cheiro da carne assada já começava a se instalar no interior da caverna e isso fazia meu estomago praticamente pular de alegria. Meu pai retirou o coelho já assado de cima da fogueira e o cortou ao meio cortou ao meio com uma faca e me entregou uma metade.
—Espero que amanhã consigamos jantar, — eu disse avaliando minha refeição.
—Eu também.
Meu pai permanecia com aquele olhar distante, preocupado e atento.
Na manhã seguinte saímos cedo e fomos até o local marcado.
Chegamos um pouco adiantados.
Anos vivendo na floresta nos permite conhecer atalhos e lugares desconhecidos por muitos. A Floresta Gwyrltt era o único acesso a praticamente todos os reinos. Muitos mercadores e viajantes passavam por ali, porém poucos se aventuravam além de suas estradas conhecidas. Muitos acreditavam que haviam criaturas amaldiçoadas e perigosas vivendo ali. De fato deve haver, mas nunca vi. Apenas as criaturas horripilantes que às vezes se aventuram por esta floresta são os Orcs, essas criaturas verdes de nariz achatado e dentes afiados de uma vez ou outra saem do seu território para atacar as pessoas e as levarem como escravos para seu reino, isso se tiverem sorte.
Um farfalhar de folhas me retirou dos meus pensamentos. Eu estava sentada num galho grosso de um carvalho que se erguia na pequena clareira. Meu pai estava em outro carvalho, ele usava o habitual traje de negócios: uma bandana e um chapéu marrom. Ele estava mais alerta certamente também ouvira algo.
Então dois homens com capuz pesado apareceram na clareira.
Humanos.
Meu pai desceu do galho e caminhou até onde os homens estavam.
—Bom dia cavalheiros – meu pai fez uma pequena reverencia.
Eu desci do carvalho e continuei perto do tronco. Eu estava com um capuz que praticamente escondia meu rosto, porem me permitia ver meus oponentes.
Os homens desviaram o olhar para mim.
—Minha adorável filha. – Disse meu pai sorrindo para mim.
Os homens voltaram à atenção a meu pai.
—Vamos ao que interessa. — Disse o homem da direita.
Eu ouvi algumas folhas sendo varridas dentro da floresta e então retirei minha espada da bainha que pousava ao lado de meu corpo. Meu pai já empunhava o arco quando um bom número do exército élfico nos cercou na clareira. Caminhei lentamente até o centro do clareira de costas para meu pai.
Havíamos caído em uma armadilha.
—Até que enfim conseguimos te achar, falou um elfo de cabelos escuros dando um passo para perto de meu pai –se entregue e prometemos que ninguém vai se machucar.
—Nunca! — Disse meu pai entre dentes.
—Já que é assim... — Disse o elfo pegando sua espada e já partindo para a luta com meu pai. Outros elfos também começaram a nos atacar.
Droga.
Eu não poderia mata-los e isso significava que tinha que tomar cuidado com aqueles desgraçados. Dois elfos vieram para cima de mim e consegui os golpear, eles eram rápidos e certeiros. O exercito élfico era o mais temido de todos os reinos, mas não era por isso que eu não lutaria com eles. Mais elfos vieram para cima de mim e enquanto me defendia de um golpe vi meu pai em desvantagem. Eu golpeei dois elfos que me atacavam então comecei a correr em direção ao meu pai, porém uma parede de orelhudos se formou na minha frente e me impedia de ver o que estavam fazendo com meu pai. Mais elfos me atacaram então algo bateu forte na minha nuca e minha visão de escureceu e ouvi quando meu pai gritou por mim e caí.
Senti um vento frio e cheiro de folhas secas, abri os olhos e uma pontada forte me atingiu na cabeça. Passei a mão na nuca para verificar se havia algum ferimento. Nada.
Sentei-me no chão da clareira e percebi que o dia já se findava, principalmente na floresta aonde o crepúsculo chegava mais cedo.
Merda.
Havia passado o dia desmaiada e agora eu tinha que encontrar um modo de entrar naquele reino que muitos diziam ser impenetrável.
Mas não para mim.
Eu tinha que pensar em um ótimo plano para entrar, mas minha cabeça ainda latejava forte e meu estômago já reclamava. Tinha que arranjar comida e um lugar para passar a noite antes que o frio do fim de outono invadisse de vez a floresta.
Armei uma pequena armadilha com algumas frutinhas e subi num árvore para esperar até que meu jantar aparecesse. Esperei, esperei e esperei. Nada, nenhum animal apareceu.
Já estava escuro e um pouco difícil de enxergar quando desci da árvore e fui caçar frutas que ficavam perto de um riacho não muito longe dali. Caminhei pela floresta e então encontrei o riacho, me sentei em uma pedra e bebi até matar minha sede. Aproveitei para encher um cantil e depois tirei minhas botas e coloquei meus pés dentro da água deixando que a pequena correnteza tentasse levar meus pés. Inspirei o ar gélido da floresta e sorri para a noite sem luar. Sorri não por felicidade, mas por liberdade. A liberdade que eu tinha desde que sai do Labirinto e comecei a viver da floresta, ali não havia regras ou etiquetas que deveria seguir. Ali o mais forte vencia, ou você é o caçador ou você é a caça.
Eu decidi ser o caçador. Meu pai me ensinou a ser uma caçadora.
Meu pai.
Depois de lutar na guerra entre Orcs e elfos há um século e meio ele fugiu do reino élfico. O rei era cruel, principalmente com seus soldados. Barbáries foram cometidas por debaixo de panos, porém o povo o venerava como um deus. Meu pai sabia do que aquele rei fazia com aqueles que desobedeciam suas ordens, então fugiu.
Ele fugiu mesmo sabendo que seria caçado pelo resto de sua longa vida e se fosse pego acabaria como aqueles que ele viu morrem nas masmorras. Então quando o príncipe tomou o lugar do pai no trono meu pai achou que a caçada aos elfos que não queriam viver naquele reino de brutalidade havia acabado ele foi pego. Mas ele não ficaria naquele lugar. Não se eu pudesse impedir.
E eu iria.
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