Adam encarava Rachel, enquanto andava de um lado para o outro inquieto, de braços cruzados, com pequenos e leves passos, que mesmo assim criavam pequenos barulhos no chão devido ao impacto. Rachel após ouvir tais palavras do garoto, pegou o colar com uma das mãos, e o apertou bem, abaixando a cabeça.

— Eu achei esse colar em uma ruína antiga, eu juro que não roubei de ninguém. – ela levantou a cabeça, olhando o rapaz como se quisesse perdão.

— Ah claro, e como eu posso saber se isso é verdade? – falou sério.

— Simples, apenas confie em mim...quem sabe eu não faça algum favor para você, Adam.

— Como vou confiar em alguém que eu nunca vi na vida?!

Rachel se levantou, indo até ele, o olhando nos olhos, enquanto rodeava-o deslizando suas mãos desde o peitoral do rapaz até sua nuca, aproximando seu rosto do dele, e falando baixo no ouvido dele.

— Eu estou aqui, nada mais justo que você me ajudar oras...eu também estou na mira de Lúcifer. – ela suspirou enquanto voltava a olhar a janela, entre as frestas.

— Você sabe que não é uma boa idéia provocar o demônio. – falou sorrindo sarcasticamente.

— Você não me respondeu, aceita ou não?

— Ta, ta, eu vou topar, mas só dessa vez. – O rapaz rebateu meio desconfiado.

Os dois se olharam por um minuto, e logo então o rapaz ia até a geladeira, retirando duas garrafas long-neck de cerveja, olhando a menina, que nesse momento andava até o balcão da cozinha, sentando-se em um banco.

— Obrigado, muito obrigado mesmo...

Adam estava intrigado, como é que ela podia se preocupar em ficar com o colar enquanto os pais dela estavam presos no Tártaro? Mas caso eles entregassem o colar de Junne, Lúcifer poderia ficar invencível e acabar dominando a tudo e a todos.

— Não agradeça, estou fazendo isso para poder salvar as pessoas que eu quero... – falou sério.

— Será que não tem outro motivo, Adam? – a bela mulher sorriu levemente, pegando uma das garrafas, e tirando a tampa, bebendo em seguida um pouco da cerveja.

— Não sei, quem sabe? – ele sorriu, retirando a tampa da sua garrafa, e bebendo também um gole da cerveja, enquanto olhava pensativo para o relógio, já era bem tarde.

— Adam, vamos achar um jeito de resgatar nossos amigos... — Rachel segurou o colar, mostrando uma esmeralda verde atrás do mesmo, com uma energia concentrada, presa naquela pedra. – Temos que tomar cuidado, esse colar se for usado incorretamente, pode explodir... o problema é, sua explosão é tão poderosa que chega a ser pior que uma bomba atômica...

— Não brinca... – Adam olhou assustado, se perguntando como é que um colar daquele poderia destruir praticamente o mundo inteiro apenas com uma explosão.

— Não brinco, eu falo sério. – ela respondeu séria.

— Já que diz... qual o plano?

Enquanto isso, Justin fechava a porta do quarto de Adam, antes de se deixar cair em sua cama. Tudo bem, ele sabia que isso era errado, mas ele estava ocupado com sua amiga, então não ia se importar. Passou as mãos atrás da cabeça, fechando os olhos. Mas no segundo seguinte voltou a abri-los irritado.

Da janela do quarto, vinham batidas insistentes e repetidas contra o vidro. Ele se levantou, esperando o aparecimento de algum demônio, mas não havia ninguém ali além dele. O que batia no vidro era um pequeno pássaro preto, um corvo, com um envelope preso a uma das pernas. Ele abriu a janela, e o pássaro tentou se afastar, mas Justin segurou-o com força na palma da mão. Arrancado o envelope do corvo, soltou-o, que grasnou indignado e disparou janela afora.

O demônio olhou para a mão, as bicadas do corvo já se fechando, com um mau pressentimento. Os corvos eram os mensageiros dos demônios, e nada que viesse de um era bom. Virou a carta, onde estava escrito Adam Jackman em uma caligrafia fina e floreada. Teria deixado aquilo de lado ou ido chamar o amigo, se não conhecesse aquela letra tão bem. Em vez disso, rasgou o envelope e puxou o bilhete dentro dele.

O papel caiu de suas mãos quando terminou de ler, mas ele não se importou. Com o bilhete caído e meio dobrado, a única coisa visível era a assinatura na mesma caligrafia fina. Lilith. Justin deu as costas à carta e abri uma gaveta da cômoda do quarto. Como esperava, havia uma pistola de reserva ali. Bem, sempre preferira uma faca ou adaga, mas sua melhor arma estava com Adam naquela hora.

Então escondeu a arma no cinto, puxou para cima o capuz do casaco e pulou pela janela. Ora, essa era a sua especialidade. Apesar da hora da noite, não encontrou ninguém em seu caminho, o que devia ser bom. Mas era difícil dizer, considerando para onde estava indo.

Cerca de uma meia hora depois, chegou ao lugar indicado. Olhou confuso para o letreiro acima. Um albergue, daqueles onde alunos da faculdade ficavam às vezes. Não era bem o que esperava, mas mesmo assim empurrou a porta e subiu lentamente as escadas. Sem porteiro, sem empregados. É claro, Lilith já havia cuidado disso.

Continuou seguindo pelo corredor, observando os números dos quartos. 203, 204, 205... Até que estancou no meio do caminho e se virou rápido, puxando a pistola. O corredor estava vazio, mas tinha certeza de que ouvira alguma coisa passar correndo por ali. Talvez estivesse só imaginando coisas, pensou, dando de ombros e voltando a seguir. Finalmente chegou a porta de número 213, e, segurando com mais força a pistola, empurrou a porta e entrou.

Foi talvez a coisa mais idiota que já fizera em morte. Lilith de fato estava lá, sentada com as pernas cruzadas em uma poltrona, fazendo com que seu vestido ficasse bem mais acima do normal. Ostentava uma expressão de sarcasmo frio, mas quando reconheceu a pessoa que entrara, começou a rir estridentemente.

— Você?! – ela controlou um pouco o riso. – Achou mesmo que ia ter alguma chance comigo sem seus amiginhos humanos?

Justin não respondeu, mas ergueu a pistola apontada para o rosto da demônia. Se seria capaz de atirar ou não, nunca se soube, porque naquele momento vários rosnados tomaram o ar, fazendo com que o demônio erguesse o rosto. Seu queixo caiu quando viu o que tinha no teto. A parede agora estava toda tapada por pares de asas encouraçadas negras, que pertenciam a muitos, muitos...

— Impressionante, não? – disse uma voz fria e aguda. Justin forçou o rosto a se voltar para baixo. Recostado pelo braço esquerdo na poltrona, despreocupadamente, estava Raze, com um sorriso sarcástico ainda pior do que o de Lilith. Entretanto, ele olhou para cima, para as estranhas criaturas no teto. – Já sabem o que fazer.

Todas as garras se desprenderam do teto, enquanto todos os seres avançaram em bando contra o demônio. A pistola até derrubou uns dois deles, mas de nada importou. Era quase uma legião de criaturas negras.

Adam olhou espantado para seu celular, que tocava sem parar. Rachel abaixou os olhos da cerveja e olhou para ele de modo inquisidor. Com um suspiro, ele puxou o aparelho e murmurou um Alô. Se tivesse visto o número, perceberia antes o que estava acontecendo. No segundo seguinte, levantou-se de um salto, derrubando sua garrafa.

— Você está aí sozinho?! – ele respirou fundo. – Ok, e o que são essas coisas? Não, eu não consigo escutar com esse barulho todo aí atrás, o que eles são?!

— Espectros!! – berrou a voz de Justin no telefone, tão alto que até Rachel conseguiu escutar. – Eles são muitos e...

— Justin? – disse Adam, mas tudo o que teve em troca foi silêncio. – Justin?!

O celular caiu no chão do corredor, soltando pequenas faíscas depois de ter sido esmagado na perfeita forma daquela mão branca. Um riso baixo se formou, desprovido de humor, mas provido de maldade, logo depois. Os olhos vermelhos se voltaram para Lilith.

— Eles estão vindo.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.