O sol estava finalmente se pondo, dando lugar a lua no céu noturno, ligeiramente carregado de nuvens ainda. Além dos cada vez mais fracos raios solares, a única iluminação vinha dos postes de rua e dos letreiros de neon de alguns lugares. Mesmo assim, tanta claridade o incomodava.

Estava parado em um muro baixo no terraço de um prédio alto o suficiente para que pudesse ver a cidade toda dali. Havia muitas casas, muitos prédios, muitos lugares onde ela podia se esconder. Ora, mas porque se importava com aquilo? Não podiam ter mandado outro?

Levantou o rosto fino para o céu pensativo. Ele era alto, e esguio, parecendo flexível, perigoso e elegante como uma pantera. Sua pele era desprovida de cor, marcada por fundas olheiras em tom de hematomas; seus cabelos eram negros e lisos, batendo em seus ombros. Suas roupas eram incomuns, calças rasgadas, botas de combate, um sobretudo fechado até o pescoço. Nesse repousava um colar com um pequeno pingente de prata, e um rubi no centro; e na mão esquerda trazia um anel adornado com uma caveira de mesma cor.

Voltou novamente os olhos para a cidade abaixo. Eram de um vermelho vivo, como rubis mergulhados em sangue, porém tinham um brilho maligno. Pareciam velhos demais para alguém que não aparentava mais de vinte anos. Então fechou-os, concentrando-se.

Cada vida naquela cidade veio até o jovem, primeiro as que estavam quase ao fim, depois as que recém haviam começado. Um sorriso sarcástico plantou-se em suas feições, quando voltou a abrir os olhos. Sim, a havia encontrado. Então inclinou-se para baixo até cair, o vento da queda farfalhando seu sobretudo e os cabelos. Quando estava prestes a cair, a escuridão a sua volta se adensou e tomou duas formas de penas negras. Com uma leve batida das asas, lançou-se para o céu novamente.

Uma batida na porta fez Adam acordar assustado. Estava sentado em uma poltrona, de volta a casa. Justin estava em outra, afiando o fio de sua faca tanto que parecia que a lâmina cortaria qualquer coisa. Ele se virou para Adam, ainda com os fones de ouvido e deu de ombros. Adam levantou-se e Justin lhe jogou a faca. Ele se aproximou da porta e levantou a arma antes de abri-la de um movimento.

— Deus, você sempre recebe as pessoas com facadas? – esbravejou Rachel, dando um passo para trás.

— Quem é você? – perguntou Adam, cauteloso, sem afastar a faca nem um centímetro.

— Rachel Williams – ela retrucou. – Estou procurando Adam Jackman.

— Por que está procurando ele?

— Hey, Adam, quem é a sua amiga? – gritou Justin de dentro, chamando a atenção de Rachel.

— Seu amigo não é dos mais discretos. – disse, e depois cruzou os braços. – Hey, não sou um demônio, vim ajudar.

Adam afastou-se, permitindo que Rachel entrasse. Ela passava por ele em silêncio, colocando o colar dentro da blusa que usava antes de entrar na sala.

— Se importa de nos deixar a sós...

— Justin. – ele deu de ombros e se levantou, batendo no ombro de Adam quando passava por ele e falando num tom nada baixo. – Comportem-se, crianças.

— Ele é sempre assim? – perguntou Rachel, quando Adam fechava a porta.

— Sempre. – ele se aproximou da porta fechada. – Então...

— Eu preciso da sua ajuda, e pelo visto, você da minha. – cortou Rachel, falando rápido. – Os demônios estão atrás de mim.

— Por que?

— Porque ela roubou algo que pertence a Lúcifer. E ele quer de volta. – disse uma voz fria e aguda, até então desconhecida.

Um vento frio surgiu de dentro da própria casa, fazendo as portas e janelas se fecharem com força, seus vidros se quebrando. As lâmpadas se apagaram, mas logo depois voltaram a funcionar, revelando o estranho que procurava por Rachel, escorado na parede, os braços cruzados, uma expressão de triunfo.

— Quem é ele? – perguntou Adam, levantando a faca.

— Eu não sei, — respondeu Rachel, sacando sua pistola. – mas não parece com os demônios que vêem atrás de mim.

— Olá Rachel. Você deve ser o Adam. – disse o estranho, indiferente as armas apontadas em sua direção. – Você tem razão, não sou um demônio qualquer. Eu sou Hod Raze Bhaal, o anjo da Morte. Mas podem me chamar de Raze. – ele dava um sorriso torto, como se estivesse se divertindo.

— Já que você gosta da morte, Raze, experimente-a. – disse Rachel, atirando. A bala foi em direção ao seu rosto, mas parou no meio do caminho em pleno ar, antes de cair no chão com um estrépito.

— Você achou mesmo que podia me matar? – Raze deu uma risada aguda. – Eu sou a Morte, não posso ser morto. Mas – ele ficou sério, um pouco desanimado. – ele não me mandou aqui pra matar vocês, e sim para fazer um acordo.

— Que tipo de acordo? – perguntou Adam, sério.

— Sua amiga tem algo que Lúcifer quer muito, o Colar de Junne. – ele apontou para ela, e o colar levitou alguns centímetros, ficando visível.

— E porque eu daria a ele o colar? – rebateu Rachel, puxando o colar de volta.

Raze abriu mais o sorriso sarcástico e levantou o próprio colar, o rubi próximo ao seu rosto. A pedra brilhava, graças a luzes bruxelantes em seu interior. Se olhasse mais de perto, parecia que ela até tomavam formas. – Como Anjo da Morte, tenho algumas almas em meu poder, alguns dos inimigos de Lúcifer. Algumas delas vocês devem reconhecer... Seus pais, Rachel, o do Adam... Stuart...

— Desgraçado! – gritou Adam, mas Rachel colocou a mão a sua frente antes que fosse para cima do demônio.

— Eles agora estão no Tártaro, a prisão do Inferno. Condenados a passar a eternidade nas piores torturas... – continuou Raze. – Mas, sabe, eu poderia mudar isso. É só me entregar o colar, que eles estão livres. Caso contrário...

— Lúcifer nunca vai por as mãos no colar! – gritou Rachel, furiosa.

— Eu adoro quando vocês dificultam... – retrucou Raze, erguendo a mão. As sombras se uniram e tomaram a forma de uma longe foice, de cabo negro e a lâmina em meia lua escarlate.

Ele segurou a arma com ambas as mãos, enquanto saltava e caía a frente de Rachel. Adam ergueu a faca, mas as asas negras do demônio surgiram, jogando-o longe. Raze ergueu a foice e desceu em um golpe que teria cortado o pescoço de Rachel, mas a lâmina se chocava contra o pingente em forma de trevo, criando um pequeno clarão e jogando-o alguns metros para trás, onde caiu de pé e furioso.

— Cansei de brincar, to partindo pra ignorância! – ele ergueu a lâmina, pronto para avançar mais uma vez, mas parava de súbito. Para os caçadores, aquilo era estranho, talvez porque a voz só falava com o anjo da Morte. – Como queira, mestre. – disse, de mau humor, antes de se voltar mais uma vez para eles. – Vocês tiveram sorte dessa vez, mas não se preocupem... logo nos veremos de novo.

Raze fechou as asas e as luzes voltaram a se apagar. Quando se acenderam novamente, ele havia sumido. Adam abaixou a faca e observou Rachel guardar a pistola, tão séria quanto ele. Parecia seus problemas estavam apenas começando.

— Acho que você tem algumas explicações a dar.