Blood Moon: A ascensão
3 Capítulo 03: Faíscas
Notas iniciais
... Syndra ...
Os feixes de luz ''piscam'' aos meus olhos conforme eu continuo caminhando pelo mercado central de Abnara. Olho para cima, entre os panos que cobre o corredor entre as barracas o sol brilha forte, forte demais para minha pele pálida, banhada pela lua.
Estou no Distrito da Luxúria, onde vende jóias e artigos de luxo para casas. A cor dos panos e de toda decoração aqui é roxo para simbolizar o luxo e a riqueza. Sinto calor e então desamarro o pano que cobria minha cabeça, meus longos cabelos se soltam e cai até a altura da cintura. Paro de andar e contemplo os arredores, me distraio com todo o brilho, com todo o dourado. Me imagino com uma vida completamente diferente, longe da pobreza, sem preocupações e fazendo compras aqui.
Sou despertada do devaneio por uma velha gorda que colidiu comigo, percebo então que estou no meio do corredor atrapalhando a passagem. Continuo então caminhando até o final deste corredor e viro à esquerda chegando as escadas. Daqui de cima consigo enxergar as flores que cobrem os corredores como um teto. Desço os degraus e chego ao Distrito Verde.
Ando até o final o final deste corredor e viro à direita chegando à barraca de um amigo.
– Syndra! Que bela surpresa! Quer dar uma olhada nessas cenouras? — Ele pega uma cenoura e a aproxima de mim — Ou talvez essas beterrabas. — Com a outra mão pega uma perfeita beterraba e balança, com um sorriso no rosto.
Reparo em seus olhos cor de mel em destaque com a longa barba branca.
– Olá Sylneth, obrigada, mas hoje estou à procura de uma abóbora. — Sorrio de volta para o velho.
Sylneth agaixa e com esforço se levanta com duas abóboras, uma em cada mão.
– A pequena ou essa grandona senhora?
– Vou ficar com essa menor.
– Como está sua filha? — Pergunta enquanto me entrega a abóbora e guardava a outra.
– Resfriada. Por isso o legume, acho que uma sopa cairia bem. Obrigado por perguntar.
Pago o vendedor de legumes, me viro e continuo a andar pelo corredor à procura de uma saída. Vários guardas passam por mim correndo, me assusto, pois nunca vi tantos guardas no mercado, ainda mais correndo. Bom, eles devem estar perseguindo um ladrão qualquer.
Finalmente acho uma saída no Distrito Verde. Ela leva até a grande praça central, próximo aos grandes portões do castelo do rei Gareli. A feira fica em um nível elevado que a praça, antes de chegar à escada de madeira eu ouço gritos, sons de chicote, súplicas por piedade.
Acelero meus passos, chego a escada e vejo tudo.
Uma fila de mulheres acorrentadas, algumas sendo chicoteadas, outras arrastadas, crianças presas em gaiolas de madeira e muitas largadas no chão. Reconheço várias delas.
Os guardas correndo no mercado, eles não estavam procurando um ladrão. Estou paralisada, tremendo medo. Eu sei muito bem o que tudo isso significava. Estamos sendo caçadas, nossa raça sendo caçada. Aquelas mulheres pertenciam a uma classe inferior, são fracas e por isso não conseguiram reagir.
Lembro-me de minha filha, sozinha em casa. Estou desesperada! De longe tento procurar ela e felizmente ela não está lá. Largo minha sacola e corro na direção de casa, tomando cuidado para não chamar a atenção dos guardas.
A vila estava vazia, todos trancados em casa.
Atravesso becos, ruas estranhas, desço barrancos e em uma ruela encontro quatro guardas armados.
– Malditos corvos. Sempre nos seguindo. — Sussurro enquanto diminuo a velocidade de meus passos.
Meu desespero é obvio. Estou descabelada, suja e com as roupas rasgadas. Eles acham que encontraram mais uma das mulheres que o rei mandou matar. Dois deles se aproxima.
– Em nome do rei Gareli fique onde está mulher! — O mais alto deles grita apontando para mim.
– Pois não? — Respondo. É impossível mascarar meu medo.
– Você está sendo...
– Ela não precisa saber o destino dela, idiota. — O outro guarda interrompe.
– Mas é claro que precisa, isso seria falta de ética! — Responde o guarda alto.
– Calem a boca! — Uma voz diferente surge ao longe e ela pertence a um dos guardar do fundo.
Reviro meus olhos. São quatro idiotas. Graças a Lua não sou inútil igual as mulheres da praça.
– Peguem ela logo!!! — Grita a voz distante.
Os dois guardas da dianteira se aproximam em passos rápidos. Nem puxaram suas espadas da bainha. Ambos tolos me menosprezando, achando que sou inofensiva.
Fecho os olhos, me concentro e ao abrir novamente os olhos elevo minhas mãos. Duas esferas negras, do tamanho médio de uma melancia, brotam no ar. Tinham aparência firma mesmo com a energia negra se movimentando dentro delas, provocavam a curiosidade.
Os dois guarda pararam e os quatros num tom só retiraram suas espadas de suas bainhas. O guarda gordo continuou avançando enquanto o mais alto parou e passou a admirar as esferas. Observei os outros ao fundo, eles também começavam a vir em minha direção.
– Tolos. — Clamei em meio a uma risada.
Com movimentos leves, abro meus braços e os projeto para trás. Sorrio de um lado só da face, um olhar misterioso e então lanço meus braços para frente. Ambas as esferas acompanham o movimento, colidem com os homens lançando-os para trás. Os outros três ainda avançavam com suas espadas em mãos, destemidos. Volto a mexer meus braços, dois movimentos rápidos semelhante a tapas, primeiro o primeiro o braço esquerdo e depois o direito. As esferas deram uma volta em cada um dos guardas e os acertaram na cabeça. Ambos caem no chão.
Vou até um dos homens caídos e roubo sua espada, me viro e continuo correndo até minha casa
...
– Kesar? — Grito por ela enquanto empurro à porta com as mãos
Fico surpresa ao entrar em casa. Estava tudo exatamente aonde eu tinha deixado quando eu fui ao mercado, as longas toalhas vermelhas cobrindo a mesa, as botas da menina ao lado da porta, os copos ajeitados dentro do armário. Isso pode ser bom ou insignificante pois, ela pode ter sido pega fora de casa enquanto brincava.
– Kesar?! — Grito novamente, mal posso perceber mas já estou desesperada de novo.
Entro em seu quarto com força e vejo que a menina está dormindo. Respiro aliviada, estou livre desse pesadelo... Mas não tão cedo.
Kesar é de uma linhagem de mulheres fortes, fortes não só na personalidade, mas como em seu poder. Em nossa família houve duas supremas. Supremas são mulheres com grande domínio em seu poder, destinadas a governar a nossa raça. Mas, minha filha ainda é jovem e ela não descobriu toda a sua força.
Anos e anos que não temos uma suprema. Minha avó dizia que a última viveu por volta de 250 anos atrás no oriente e com certeza não foi uma boa líder visto que hoje estamos separadas e fracas. Foi também minha avó que disse que eu estava destinada a dar a luz à próxima principal filha da Lua.
Não faltava muito até os guardas chegarem à minha casa. Malditos corvos, nos seguem por aonde vamos. Sentei na ponta da cama de Kesar, olhei para ela e pensei. Eu não sabia o que fazer.
– Não posso simplesmente me entregar... Eu morrerei como uma inútil. — Falo em um tom baixo para não acordar a menina.
Lá fora, o sol abaixava lentamente enquanto do outro lado a lua tomava sua posição, vejo tudo isso pelas brechas da janela.
– Não tenho muito tempo. Maldita vovó, sempre certa, ela disse antes de morrer que um dia os servos do Sol iriam descobrir nós nesse reino e que seria um desastre. — Estou falando sozinha.
Penso por mais alguns minutos e chego a uma conclusão: Proteger a minha filha.
– Eu não morrerei feito uma tola, nem você Kesar. Eu tenho um plano, não se preocupe. — Acaricio o rosto de minha filha que ainda está em sono profundo.
Me levanto e vou até a cozinha. Preciso de uma faca. Abro a pesada gaveta de madeira e lá encontro a faca. Uso para cortar legumes, mas essa serve. Pego com a mão esquerda e volto para o quarto.
– É tudo para o seu bem querida. — Percebo que o que vou fazer é loucura. Realmente é, mas é um ato necessário.
Fico olhando para ela na cama, perplexa, completamente sem iniciativa. Respiro fundo e vou em frente. Tiro a coberta da garota, ela continua dormindo e então agarro ela pela camisa e a tiro da cama. A menina acorda.
– M-mãe? O que foi?! — A voz da menina é interrompida várias vezes com o meu puxão.
Penso em como ela está grande e como isso vai ser difícil.
– Desculpa minha filha, não sou o suficiente para te proteger. — Minha voz está tremula, lágrimas escorrem pelo meu rosto, mas eu preciso ser forte, afinal sou uma Erkert.
Solto a garota na cama e rasgo sua roupa. Ela grita apavorada. Agarro seu braço e braço sua mão.
– Isso é para o seu bem Kesar. — Ela interrompe com gritos. — PARE DE GRITAR! — Ela não para.
Com a faca, abro um corte fundo em sua mão esquerda e depois em minha mão direita. Entrelaço nossos dedos, nossos sangue se tocando e misturando. Nesse momento somos uma só.
Fecho meus olhos e solto a faca, o barulho do objeto caindo no chão não me incomoda, pois agora minha concentração é total. Direciono toda minha energia e poder espiritual na mão esquerda. Não ouço mais gritos vindos da menina, provavelmente a este ponto ela está perplexa.
Abro a mão esquerda e separo bem meus dedos, eles ardem como o fogo. Abro meus olhos, meu olhar é determinado. Antes de realizar o ato olho nos olhos de Kesar, sinto seu olhar profundo mirando em mim.
– É a única solução, me desculpe.
Ela não responde.
Olho para minha mão esquerda, meus dedos brilham com uma mistura de azul e verde com tons de vermelho. Olho pro rosto de Kesar, a destinada pela última vez.
Num movimento rápido e sem compaixão eu enterro meus cinco dedos na barriga de Kesar, perto do umbigo. A menina novamente grita, grita de dor, sua alma dói. O rosto da garota fica branco, suas veias saltam no pescoço. Sua boca que já estava aberta pelos berros assombrosamente abre mais.
Não é água, não é ar que sai da boca da menina. A aparência é a das duas anteriores, mas junto com isso saí sussurros, imagens e sensações. Estou sugando a sua alma.
Minha boca também abre sozinha, não estou mais no controle.
A alma da menina entra em meu corpo, se mistura com a minha. Agora ela sou eu, e eu sou ela. Memórias, sentimentos e emoções invadem minha cabeça, tudo passa como um flash. Eu não aguento e caio no chão.
...
Desperto poucas horas depois, quando a lua dominava o céu. A noite estava quente e silenciosa. Fico em pé lentamente, com certo esforço. Olho para o lado e vejo que a menina ainda estava desmaiada.
Ela não se lembrará de nada. Nenhum sentimento, nenhuma recordação. Ela perdeu tudo.
– Você não pode se parecer como uma menina que tem onde cair morta... — Falo com a menina caída na cama.
O lençol está cheio de sangue e isso me incomoda. Decido então arrancar ele da cama e jogar no canto do quarto. Pego a faca ensanguentada do chão, me dirijo até a cozinha e mergulho ela num balde com água. Nada mais importa.
Seco a faca em minhas roupas e volto ao quarto. Pego a menina com cuidado e a ponho sentada. Toco em seus cabelos, passo meus dedos entre as mechas enquanto lágrimas saem de meus olhos e escorregam em minhas bochechas.
– Você é linda.
Ergo a faca e começo a desfiar o cabelo da menina nas laterais, na parte de trás e na da frente. A intenção é que ela pareça um menino abandonado na rua. Ninguém pode reconhecê-la.
Agora o cabelo de Kesar estava na altura da orelha e completamente bagunçado. Com cuidado para ela não despertar a visto a primeira camisa que encontro em sua gaveta e abro um furo nela para parecer desgastada. Ela está pronta, pronta para ser abandonada.
Atravesso a porta de casa com a menina em meus braços e silenciosamente caminho para o outro lado da vila. As casas estão apagadas, silenciosas, parecia que não havia outras pessoas na rua a não ser eu e Kesar. Ando no escuro.
Depois de bastante caminhar vejo que aqui é um lugar bom. Coloco Kesar com cuidado no chão e beijo sua testa, pela última vez.
– Que a Lua te proteja e guie. Você ainda é uma de nós. — Sussurro.
Decido não olhar para trás. Decido ser fria. Ouço corvos grasnando por ai, o único ruído dessa dolorosa noite. Caminho de volta para casa, tenho planos a cumprir agora.
Vejo a casa de longe, é a única da ruela com lampiões acesos. Ainda penso em Kesar e em tudo o que eu tiver que abandonar. Barulhos de passos com botas surgem ao meu ouvido, imediatamente olho para trás, péssima escolha. O barulho de metal batendo explode em meus ouvidos.
O golpe veio da lateral, estou caindo no chão aos poucos, desnorteada. Primeiro caio de joelhos e depois encosto o rosto no solo. Tudo está rodando e fazendo um barulho estranho e eu não enxergo mais nada.
...
Gritos, barulho de fogo queimando, gritos, botas batendo ao chão, gritos, o som de correntes sendo arrastadas, gritos.
Tenho receio de abrir meus olhos, mas é necessário fazer isso. Vejo que estou sozinha trancada em uma gaiola e acorrentada pelos pés, no meio da praça. Minha cabeça ainda dói, tudo está girando lentamente.
Decido levantar. Há pesos amarrados nos meus pés, mas ainda consigo levantar. Toda cena se monta melhor em minha cabeça confusa. A praça está lotada, os civis carregam tochas e garfos gigantes usados na fazenda, gritos de motivação, gritos de dor, gritos pedindo perdão e compaixão. Eu não acredito que fui pega.
– Comandante, as cordas acabaram e ainda restam duas mulheres. — Voz de um homem, ela está bem próxima.
Viro para trás e vejo dois homens. Um deles era tão alto e grande que chegava a dar medo, sua armadura era vermelha com detalhes em dourado. Ele não usava capacete mas mesmo assim não consigo ver seu rosto.
– Isso não será um problema Kor'n, queime as outras duas direto. — O grandão responde.
– Jogo direto no fogo ou...
– Faça outra fogueira, uma menor. Jogar direto ao fogo não dará emoção. — Interrompe o outro.
– Sim senhor! — O guarda menor faz um sinal com a mão e some de vista.
O grandão se vira e olha para mim. Com passos lentos ele se aproxima até ficar cara a cara comigo.
– Está assustada? — Diz com um tom de deboche.
– Eu não irei responder. — Retruco ao homem.
– Já respondeu... Bobinha. — Ele solta uma gargalhada e se vira.
Não há nada que eu possa fazer. Estou presa, acorrentada. Eu simplesmente não absorvi os poderes de Kesar e vou utiliza-los automaticamente. Leva muito tempo de prática.
– E que venha a próxima!!! — Uma voz troveja
A população presente na praça grita, é como se fosse um espetáculo.
Homens se aproximam e abrem a gaiola, sou puxada para fora. Todos estão olhando para mim. Olho para os observadores e não reconheço ninguém da cidade. Enquanto sou direcionada para o lugar onde está acontecendo todo esse show contemplo os arredores, vejo muitos corpos caídos, crianças enforcadas ainda penduradas nas cordas, muitas pedras no chão em uma parte, muito sangue em outra. É realmente um show de tortura e morte proporcionada pelo rei e com certeza patrocinada pelo Sol.
– Nossas duas últimas atrações serão queimadas vivas! — A mesma voz anuncia.
Soltam os meus pés, mas meus braços agora estão presos pelas mãos dos guardas. Me empurram para um grande pedaço de madeira em pé preso ao chão. Ouço barulho de correntes e com elas sou presa à grande madeira.
– Últimas palavras? — Com um tom de mistério a voz forte pergunta.
Fico calada por alguns segundos, pensando se há como escapar disso.
– Desembucha mulher!
A população grita, vai ao delírio esperando a minha resposta. Um guarda da um tapa no meu rosto me forçando a falar.
– Com o fogo eu vou, mas com o fogo eu juro que vocês irão pagar! — Eu grito, o mais alto que eu posso. A praça se torna silenciosa por segundos, mas logo volta a gritar.
– Queeeeeimem!!! — A grande voz proclama.
– Queime! Queime! Queime! Queime! Queime! — Todos que estavam na praça gritavam em uma voz só.
Estou confusa, indignada, estou caindo na loucura. Não posso acreditar que vou morrer como uma inútil. Ao menos salvei Kesar desse show de horrores...
Alguém joga um líquido gelado em mim, provavelmente álcool ou outra coisa que ajude o fogo. Com uma tocha ascendem o meu corpo. Olho para os meus pés e vejo o vermelho tomar conta. Eu não aguento e grito de dor, mas eles são inválidos aqui.
De repente eu não vejo mais as chamas, eu vejo luz, um clarão tão claro que é capaz de cegar aqueles que observam. E eu não senti mais nada, nenhuma dor e nenhuma alegria. É como se eu não fosse absolutamente nada.
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