Blood, Love and Sand.
7 Conexões Inquebráveis.
Notas iniciais
Sabem quando estamos com muita raiva e nossa visão fica turva? Não sabemos o que estamos fazendo e agimos por total impulso. Então, é uma droga. Parece algo normal, mas pra mim não devia ser. Não pra um pretor, filho de Júpiter. Somos ensinados a ter calma e agir por estratégia, ordenando os pensamentos. Seguir o plano. Agir por impulso é algo tão... Andrew. Andrew. Aquela puta disse na hora do jantar que queria falar comigo. Espero que não seja sobre eu ter me inscrito no torneio, porque fui cuidadoso o bastante parar colocar meu nome quando ninguém estava vendo. Sentado em minha cama, começo a afiar minhas cimitarras num esforço inútil, porque elas nunca perdem o fio de corte. Meu aparelho de som, antigo e antiquado, está tocando Time, do Pink Floyd. Meu quarto está uma zona, como sempre. Roupas jogadas por ai, um guarda roupa, uma escrivaninha, meu notebook, minha cama. Um quarto simples, sem muitos detalhes ou mobília. Ele era de um azul celeste, a cor dos céus ao anoitecer. Levanto-me e tiro uma pedra de amolar de alguma gaveta, provavelmente deixada lá por mim há muito tempo. Deslizo pela lamina, primeiramente com suavidade e depois com um pouco mais de força. Os ruídos ecoam pelo quarto, entrando em harmonia com o solo de David Gilmour. A luz do quarto está desligada, mas a luz do luar entra pela janela e ilumina todo o quarto, num contraste bonito e eufórico. Sou tomado novamente pelos mesmos pensamentos que não me dão paz. Marie, Marte, Jason. Anna, na qual eu não vi desde a festa. Preciso ver se ela está bem. No torneio, que agora como inscrito, meus dias de vida estão em jogo. As palavras de Marte ecoam em minha mente. “Na arena, só existe sangue e areia”. Mesmas palavras de meu pai em meu sonho. Precisava treinar, precisava vencer. Por Marie. Ela não merece morrer por algum idiota como eu. Ela merece viver e ser feliz. Ela não tem culpa nenhuma, apenas está sendo usada. E isso me traz uma raiva sem igual. Sendo usada pela diversão dos deuses, do mesmo jeito que era na antiga Roma, entre escravos e romanos. Será que era esse sentimento que tomava o coração dos escravos? Um misto de ódio, mágoa e tristeza. A vontade de socar uma parede até quebrar o pulso ou ela, enquanto chora. Quando dou por mim, estou passando a pedra com tanta força que se fosse uma espada comum, estaria totalmente danificada. High Hopes está tocando, também do Pink Floyd. Ouço um barulho e uma sombra pula por minha janela. Era Andrew, com uma sacola em mãos. Ele olha pra mim e diz:
–Pink Floyd? Ótimo gosto musical o seu. Isso aqui ta parecendo um cenário gótico e depressivo, anda se cortando também? Espero que não, porque trouxe alguns presentinhos pra mim e você – Ele tira da sacola uma garrafa, que ao me aproximar mais, vejo que é Black Label. – Você tem copos aqui, cara?
– Tinha me esquecido que você nunca usa a porta. Enfim, não tenho copos cara, devia ter passado no refeitório e roubado alguns. Mas bebemos no gargalo mesmo, e foda-se. Ou você é muito mocinha pra dividir o gargalo comigo?
– Vai se fuder, cara. – Ele sorri e senta ao meu lado. Depois de abrir a garrafa, ele bebe dois goles e passa pra mim, que tomo um longo gole, só para começar.
–Então, como anda a vida irmão?- Pergunto.
–Sei lá cara, tudo no mesmo. Ando treinando muito, ando pensando muito. Ando confuso, entende? Não sei o que acontece.
–Isso está me cheirando a amor- solto uma risada curta- Diga-me, quem é a garota?
–Charlie Malfie, uma garota filha de Plutão. Parece ter chegado há pouco tempo. Vi ela quietinha, sentada na mesa da 5°coorte. Cara, sabe aquela menina que atrai seu olhar, mesmo no meio da multidão? Então, foi assim com ela. Ela é morena, cabelos negros e um olhar inocente e safado ao mesmo tempo. Fui conversar com ela, mas ela meio que me rejeitou. Sei lá cara, essa garota não sai do meu pensamento.
– Cara... Vai atrás dela. Você chega nas meninas bancando o garanhão e funciona em algumas, mas ela está em outro nível. Precisa ser você mesmo e conquista-la, pouco a pouco. Se precisar de ajuda, eu to aqui. Sou um Dom Juan, lembra? – Sorrio.
–Já mandei se fuder hoje? – Ele sorri de volta. — Só tenho medo do que vão dizer. O comandante da 1°coorte com uma garota desconhecida da 5°coorte. Tenho medo de boatos e até mesmo fofocas atrapalharem a gente. Você sabe como é, lideres andam constantemente na boca de soldados e outros mais.
–Fica suave, brother. Primeiro pense em conquistar o coração dela. Depois você pensa nisso. — Pego a garrafa e tomo outro gole, então passo para ele, que toma um gole e coloca a garrafa no chão, do lado da cama.
–Então, dom Juan é bom em batalhas de amor? E batalhas de verdade, será que ele é bom? – Ele me empurra da cama, fazendo-me bater as costas na outra parede. Ele puxa algo do pescoço, e percebo que é seu segundo amor depois de mulheres: Makhai. Em sua forma desativada, é apenas um projetil de 9 mm, que fica num colar em seu pescoço. Mas quando ativado, se transforma em uma lança de batalha, presente de Marte quando Andrew fez 16 anos. Usar uma lança em espaço fechado pode parecer idiotice, mas se pensar assim contra Andrew, provavelmente morrerá. Sua lança é especial, pois ela se divide em 3 pontos. Como um sistema de dobrar, que pode a fazer ficar do tamanho de uma espada. Realmente uma arma mágica muito poderosa. Andrew deu esse nome em homenagem ao demônio Makhai, que em batalhas, percorre a carruagem de Marte Ultor.
– Filho da puta, ativou Makhai, a coisa vai ser séria então. – Sorrio e ativo Optimus e Maximus. As duas cimitarras surgem em minhas mãos, com suas marcações em latim e seu dourado capaz de iluminar no escuro. Fico em posição de defesa e digo. – Me ataque, vadia.
– Você que manda. – Ele vem em minha direção com uma estocada, fazendo me desviar para o lado. Porém ele é mais esperto e dobra a lamina na parte de trás, e com um giro, mira em meu peito. Me abaixo e com um golpe, atiro uma ponta pro ar e faço um pequeno corte em sua coxa. Um fio de sangue escorre e ele recua. Aproveitando a oportunidade, vou com toda velocidade em sua direção, preparado para acertar sua outra perna, quando em um movimento rápido, ele tira seu isqueiro do bolso. Mal consigo soltar um palavrão e me encontro com uma verdadeira parede. Lá está Hysminai, seu escudo de legionário, também presente de Ares, mas pelos seus 18 anos. Ele era enorme, feito com 4 camadas: madeira, duas camadas de cobre e uma de aço. Na ultima camada estava gravado as diversas batalhas pela qual ele lutou até seus 18 anos. A maioria eu estava junto, pois não nos separamos nem em batalhas. Hysmanai era o outro demônio que nas batalhas, estava sempre ao lado da carruagem de Marte. Makhai queria dizer Batalhas e Hysmanai queria dizer Carnificina. Nomes bem legais para se colocar em animais de estimação. Sinto o gosto de sangue na minha boca, causado pelo impacto. Cuspo no chão e digo:
–Que droga, sempre esqueço que Makhai não é sua única arma.
– Eu sei, e usei isso como vantagem. Mas você sabe que com Hysmanai, não tem como usar Makhai em sua forma completa, dobrando ela e tudo mais. Preciso das duas mãos pra isso.
– Eu sei, e nisso está minha vitória. – Falando isso, vou em sua direção. Ele me ataca com a lança, que facilmente desvio e ataco sem sucesso, pegando em seu escudo. Precisava abrir uma brecha nele, mas não sabia como. Olho ao meu redor e tenho uma ideia. Recuo e vou em direção ao guarda roupa. Ela me segue, convicto de que vai me vencer. Faço um sinal com os dedos, indicando pra ele vir pra cima. Como um touro, ele se aproxima com uma estocada pronta. Novamente cruzo as cimitarras e abaixo, fazendo que a golpe mude a direção para o guarda-roupa. Assim que a lança entra na madeira, fica presa, abrindo espaço pra mim. Ele tenta me atacar com o escudo, faço uma finta e vou para suas costas. Coloco uma lâmina em seu pescoço e outra na altura do seu coração. – Fim de jogo.
– Droga, nunca pensei que estragaria seu guarda roupa para vencer. – Ele diz, de forma frustrada.
– Nem eu, cara. Mas a oportunidade surgiu. Isso foi perigoso, acho que só idiotas como nós lutamos dentro de um quarto com armas mágicas, abençoadas por nossos pais. – Sorrio.
– Sim cara, e isso que faz nossa amizade ser foda. Conexão Gui Drei, lembra? – Ele sorri também e me estende o punho fechado, esperando eu fazer o nosso toque.
– É isso ai, sua puta. – Toco em seu punho e depois me jogo na cama. Nesse momento, Optimus e Maximus são apenas dois anéis em meus dedos – Eu nem sei como consegui lutar depois do Uísque. Acho que ele até ajudou um pouco. Sei lá.
– Sei lá cara. – Ele desativa sua lança e seu escudo, fazendo que o projetil volte de forma mágica para seu pescoço e que seu escudo seja nada mais que um isqueiro do Iron Maiden, sua banda preferida. — Sabe, amanhã vou ir treinar com nosso doctore. Já que a 1° é sua coorte de origem, pode treinar com nós. Pretendo melhorar minhas técnicas e principalmente, meus poderes. Vou vencer aquele torneio, custe o que custar.
– Você... Não pode ser. – De repente uma amargura toma conta de meu peito. Ele está no torneio. Meu melhor amigo. Não, eu não poderia mata-lo. Ele e Marie são tudo que tenho, prefiro morrer a matar um dos dois. – Realmente está no torneio?
–Eu disse que ia participar, cara. Já me inscrevi e tudo mais. Estou pronto para mostrar para meu pai do que sou feito. – Ele diz feliz, com convicção. Minha vontade é contar a ele tudo que aconteceu entre Marte, Marie e eu. Mas não posso. Não posso deixar Marie em perigo por algo assim. Preciso aguentar e segurar as pontas. Mais pra frente ele saberá.
– Eu sei, só que... – Na dúvida ainda, decido pegar a garrafa e virar até aonde conseguir de uma vez. Deixo um resto para ele e entrego a garrafa em suas mãos. – Vamos rezar por sua glória e por suas vitórias. Que seu nome seja lembrado por éons, irmão.
– Que assim seja irmão. – Ele bebe e se dirigi ao som, colocando uma música mais animada. Muda de músicas até parar em Balaclava, do Arctic Monkeys. Ele tira um maço de Marlboro do bolso e me dá um cigarro, pegando outro pra ele. Depois acende meu cigarro e o dele, e junto tragamos e soltamos, quase ao mesmo tempo. A música, a fumaça e o efeito do álcool deixam tudo muito insano e louco. Como vou fazer para matar meu irmão? Ou vou matar meu amor? Não sei. Foda-se, penso nisso amanhã. Vou tentar fumar e beber até morrer, para não passar por isso.
– Cara, sabe... Queria dizer que apesar de tudo, somos irmãos, certo? Irmãos de pais e mães diferentes, mas ligado por uma conexão. Uma conexão que não tem como explicar, que só eu e você sabemos como é. Aconteça o que acontecer, seremos irmãos. Suave cachorra? – Sorrio.
–Suave putinha. Conexão Gui Drei – Ele sorri de volta.
–Conexão Gui Drei.
–Bem cara, acho que depois desse efeito do álcool, é melhor eu ir dormir. Espere-me amanhã no Campo de Marte, só pra gente se divertir um pouco. Boa noite, durma bem. – Ele se levanta e sai novamente pela janela.
–Boa noite, irmão. Durma bem... – Digo, não sabendo se ele conseguiu ouvir. Decido adormecer também. Tiro minha camiseta e apenas de shorts, adormeço em meu quarto, que no momento cheira a cigarros e Uísque.
______________Narrativa de Annie Englert___________________________
–VOCÊ É PIORZONA, ANNIE. – Ela grita, com aquele jeito dela de ser a dona da razão.
–OBRIGADO LANA, OBRIGADO MESMO.
–Não te entendo. Você diz que me ama e que é minha namorada, mas fica por ai de papinho com as vadias.
–Que? Eu te amo, caralho. Estava apenas me divertindo com elas. Não entende isso?
–Não, não entendo. Jamais entenderei. Eu não te entendo, Annie. O que você quer? Eu? Outras? Seria muito bom você decidir um lado, porque eu to no meu limite.
–Pelo menos as outras não fazem esse alarde... – Digo baixinho, apenas comigo mesmo. Infelizmente ela ouviu.
–Então tá. Já fez sua decisão. Simplesmente não sei o que você quer. Não sei se me quer. Eu não tenho certeza sobre seus sentimentos por mim e não sei se me vê como o amor da sua vida ou apenas mais uma no seu harém. Preciso de certeza que fiz a escolha certa em escolher você. Ou apenas me enganei de novo com o amor. Preciso de um tempo pra pensar, por favor, não me procure. – Ela diz isso e sai pela porta, rumo ao quarto da 3°coorte. Alguns companheiros de coorte me olham assustados. Mando todos se foderem e saio correndo com algumas lágrimas escapando de meus olhos. Porque era tudo tão confuso com ela? Eu nunca sei qual é a decisão correta a se fazer com ela. Ela era a menina dos meus sonhos. Não amava ela apenas como minha namorada, mas como minha amiga e minha irmã. Caralho, porque era tudo tão confuso? Sempre fui aquele tipo de pessoa que sabia o que estava fazendo até Lana aparecer. É uma droga. Olho ao meu redor e percebo que estou às margens do Pequeno Tigre, o rio que funciona como uma muralha de monstros para o acampamento e termina num lago em Nova Roma. A luz da lua reflete nas águas belamente. Em uma noite parecida com essa, tinha saído com o Gui. Aquele dia foi realmente louco. Precisava ir atrás dela pra gente conversar, pois não nos falamos desde o acontecido com Marie. Droga, ele perdeu Marie por ter saído comigo. Não foi culpa nossa, mas me sinto mal por não ter ido ver como ele está. Obviamente não está nada bem. Imagino se fosse comigo e Lana tivesse desaparecido. Eu escalaria montes e enfrentaria exércitos, só pra salvar ela. Talvez seja isso que quer dizer quando diz que preciso mostra-la que fez a escolha certa. Sei lá, é tudo tão confuso. Única coisa que sei é que temos uma conexão que é muito forte e não pode ser quebrada. Talvez eu deva lutar para mante-la.
–O que preocupa sua mente, minha garota? – Uma voz me assusta, então sai uma mulher nua da água. Não sei se o termo “mulher” definiria bem, pois aquilo só podia ser uma deusa. Ela era linda, realmente linda. Seu corpo parecia ter sido desenhado, com definições perfeitas. Infelizmente ela faz um movimento com as mãos e seu corpo fica coberto por um roupão vermelho. Droga, ela era tão gostosa.
–Quem é você? Aliás, já disseram que você é linda?
–Obrigado, garotinha. – Ela sorri de uma forma mágica, que faria até uma estátua se derreter toda e babar. – Mas qual o seu problema? Diga-me.
–Aah, problemas com minha namorada. Ela vive dizendo que ela precisa de certeza que fez a escolha certa em me escolher. Eu amo ela, mas vivemos brigando e eu odeio isso.
–Entendo... No que você pensa que seria essa certeza?
–Não sei. Esse é o problema. Tudo é muito confuso com ela.
–Entendo. Olha, eu posso dar uma ideia. Talvez você recuse de imediato, mas espere eu explicar meu ponto de vista. Entre para o torneio.
–QUE?
–Ouça-me, meu amorzinho. Ela precisa que você faça algo grande por ela. O que mais seria do que entrar no torneio e vencer, e depois doar a imortalidade pra ela? Essa talvez seja a maior prova de amor que alguém já fez. Essa seria a certeza de que ela precisa. Imagine o sorriso dela quando descobrir que você venceu o torneio por ela e pra ela. Imagine.
–Eu... Não sei se sou boa o suficiente pra vencer algo assim. – Digo, insegura.
–Olha... Já ouviu falar que o amor é a maior força de uma pessoa? Então, confie na força do seu amor. Você pode vencer. Treine e lute e você terá sua vitória. E você terá sua namorada. Pense com carinho em minhas palavras, minha pequena. – Ela sorri e se inclina em minha direção, pegando em meu queixo e dando um suave beijo em minhas bochechas. Então num piscar de olhos, ela desaparece, deixando um perfume apaixonante para trás.
–Obrigado... Eu acho. – Me levanto e, com convicção, me dirijo ao refeitório, rumo ao meu destino.
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