.:Richard:.

Uma das desvantagens, pelo menos era o que ele achava, de se morar em Seattle, é que raramente fazia sol. Portanto, não era novidade para ele quando, ao acordar, se deparar com o clima nublado. O ambiente estava úmido, indicando que chovera há pouco.

Enquanto preparava seu café, ouvia distraidamente o noticiário no qual uma mulher com uma roupa formal preta e cabelos castanhos fazia uma reportagem perto da Moon Forest:

"As autoridades abandonaram completamente o local esta manhã. O pronunciamento foi que fora um ataque de um urso. O número de mortos anunciado foi de cinco pessoas. Como sabem, esta época os ursos saem à procura de comida antes de hibernarem, e o crescente desmatamento está reduzindo cada vez mais o seu habitat, forçando-os a se aventurarem na fronteira das grandes cidades..."

Sabendo da verdade, desviava o olhar. O seu trabalho na AVI era distorcer os fatos e resolver o real problema, sem comprometer a convivência pacífica dos seres humanos com os vampiros. A última coisa que queria era mais caos generalizado.

Enquanto estava em desjejum, seu celular vibrava ao seu lado. Na tela, via que uma mensagem fora recebida. Após ler rapidamente a mensagem, largava o aparelho. Lincoln sempre lhe informava ao chegar ao trabalho sobre o que teria que fazer hoje. Embora imprevistos sempre acontecessem.

Já no seu carro, no caminho do trabalho, Richard se pegava pensando no que tinha realmente acontecido na Moon Forest e o que incentivou aquilo. Porque um vampiro mataria cinco humanos sem nem ao menos se alimentar? Seria algum aviso ou vingança? E porque recolher os documentos? Nada naquela história parecia fazer sentido.

Saindo dos seus pensamentos, via a sede da AVI cada vez mais perto à medida que se aproximava. Era uma estrutura que se destacava naquele lugar. Seu design era moderno e dava um ar de segurança. Muitos recorriam para eles como se fosse um Posto de Polícia, mas o AVI não era exatamente uma polícia. Lá dentro, havia três Divisões: A Divisão Política, que cuidava das informações, o que era liberado para a imprensa e afins. A Divisão Policial, que, em parceira com a Polícia local, investigava crimes e delitos que envolvessem vampiros. E a Divisão Científica, que ajudava a Divisão Policial com recursos forenses e tecnológicos, tais como armas de fogo, serviços computacionais e etc.

Já estacionado, Richard saía do carro e caminhando rumo ao térreo. O guarda, que era um conhecido, lhe cumprimentou com um aceno de cabeça, murmurando um "Senhor". Imitava o gesto lhe dando um sorriso sem dentes. Não possuía muitos amigos, embora mantivesse contato com bastante gente. Os frutos do trauma do passado e sua profissão no presente necessitavam que ele fosse capaz de executar suas tarefas sem levar em conta seu lado emocional. Muitos o achavam frio demais, diante de tal pensamento, mas estava feliz como estava. Ou assim pensava.

Mal chegava ao térreo e era surpreendido com Lincoln caminhando apressado em sua direção, na direção contrária que funcionários, como ele, estavam chegando para o trabalho. A impressão que tinham era que o jovem sofria de hiperatividade. Muitos o olhavam estranho o seu visual excêntrico e chamativo, mas Richard o admirava pela coragem. Embora obviamente não deixasse explícito.

– Senhor! Ei! Opa... Desculpe-me, Liana. — Dizia Lincoln, quase derrubando um dos copos de café que carregava em uma agente da Divisão Científica.

Quando o outro finalmente chegava perto, o mesmo lhe dava bom dia, oferecendo-lhe um dos copos, enquanto sorria.

– Deveria moderar sua dose de café, Lincoln. — Lhe dizia enquanto pegava seu café e lhe cumprimentava de volta e seguia para a Divisão Policial com o outro em seu encalço.

– Senhor, possui três chamadas para responder e peguei suas cartas. Estão na sua mesa. — Ele dizia, olhando um pequeno caderno de anotações. – Ah, e John quer encontrá-lo o mais rápido possível.

John fazia o papel de ponte entre a Polícia Local e o AVI, informando-nos sobre os casos que a Polícia requisitava a ajuda por achar que havia interferência vampírica.

– Mande ele à minha sala. E descubra se o Caso de Moon Forest teve alguma atualização, e me informe. É só isso. — Dizia, sendo curto e direto.

Lincoln assentia, respondendo-lhe um “Sim, senhor” antes de se afastar, indo fazer o que era pedido. Já ele continuava andando até chegar ao seu escritório e então adentrava no mesmo.

Seu escritório era composto de estantes de livros em ambos os lados, preenchidos por prêmios de méritos, fotos, objetos decorativos e, é claro, livros. Os seus fundos era uma janela que cortava toda a parede, ocupando a metade entre o chão e o teto, lhe proporcionando uma vista panorâmica.

Circundava sua mesa de centro com sofás pequenos de ambos os lados e seguia para sua escrivaninha, feita de madeira, e se sentava na sua cadeira. Com um gesto simples, iniciava o computador, tirando-o do modo de hibernação e o destravando ao colocar sua senha, fazendo a tela mostrar seu papel de parede com a sigla AVI em um fundo cinza. Deixando o objeto de lado, via a pilha de cartas que Lincoln depositara no mesmo lugar de sempre. Pegou o cortador de cartas e começava à abrir a primeira até que ouvia alguém batendo na porta.

– Pode entrar. — Se ajeitava na cadeira, largando o que fazia e olhando a porta.

– Bom dia, chefe. Não vou tomar muito do seu tempo. — Dizia John, anunciando sua chegada e partindo para a escrivaninha, sentando em uma das cadeiras que estavam dispostas na frente.

John era um sujeito moreno, de olhos verdes e com traços asiáticos. Não tinha mais do que 1,70 de altura. Consigo, ele trazia uma pasta, na qual o oferecia assim que se sentava.

Educadamente, pegava a pasta e a abria, logo lhe dando espaço para começar a falar:

– O que temos hoje, John?

"Quatro noites atrás, registraram o desaparecimento de um vampiro na Delegacia. Eles analisaram os dados e viram que outras duas pessoas também foram lá registrar desaparecimentos de vampiros nas últimas duas semanas. Eles acham que esses desaparecimentos estão interligados. Eles nos mandaram tudo que possuíam: Nome das vítimas, última pessoa vista, essas coisas. Está tudo aí." Ele dizia, observando-o.

Assentia para o outro, conferindo o conteúdo da pasta. Passando vagamente o olhar para a ficha das vítimas desaparecidas e olhando John.

– Certo. Recrute Michael e Joan. Vou investigar isso após o almoço.

Fazia menção de devolver a pasta, mas John rapidamente explicava que possuía cópias, e que iria dá-las para Joan e Michael.

– Tudo bem, então. Obrigado John. – Dizia-lhe, guardando o conteúdo na pasta novamente.

E o homem se levantava, se despedindo e saindo. Contudo, antes da porta se fechar totalmente, surgia a cabeça e parte do tronco de Lincoln.

– Chefe? É sobre o Caso de Moon Forest. Hm... O Xerife está na linha 2.

Agradecia com um gesto de cabeça e ele se retirava. Se inclinou para o seu telefone na escrivaninha e discava a linha dois, já com o aparelho Bluetooth na orelha. Uma chamada era iniciada.

– Aqui é o Diretor Richard. – Anunciava, se virando na cadeira e contemplando a vista do seu escritório. Estava começando a chover.

“Alô, Richard? É o Maxwell” Começava ele.

Maxwell Yordanov, também conhecido como Xerife, era um dos figurões responsável pelos vampiros da cidade de Seattle (E também era um). Ele colaborava com o AVI ajudando-os com informações. Naturalmente, não tinha muita empatia pelo outro, mas o respeitava pelo seu trabalho bem feito.

“Sobre o Caso Moon Forest, eu achei o responsável pelo homicídio. Ele está morto. Mas ele nos deu várias informações antes. Parece que há um grupo espalhado como ele por aí e pretendem atacar de novo. Temos que nos manter alerta, ele estava delirando falando sobre trazer alguém para a terra para o julgamento final” Dizia ele, num tom casual.

– Soa como fanáticos religiosos. – Soltava o comentário, rindo internamente. – Obrigado Maxwell, foi de grande ajuda. Manterei contato.
“ Não há de quê, Richard. Farei o mesmo. Tenha um bom dia.” Ele lhe dizia, cordialmente.

O respondia e encerrava a ligação, logo voltando ao seus afazeres.

***

Não fizera muita coisa até a hora do almoço, apenas respondendo cartas, e-mails e telefonemas (ou os ignorando). Portanto, quando deu a hora, saía do seu escritório, seguindo para o pavilhão, com Lincoln o acompanhando, como sempre.

O Pavilhão estava lotado como sempre. Todas as Divisões almoçavam juntas, então era normal ver pessoas de terno, com jalecos brancos ou uniformes policiais.

– Lincoln, providencie que daqui à uma hora, Joan e Michael estejam prontos para partir. – Lhe dizia, pegando sua refeição e indo se sentar.

Alguns minutos depois, quando já começara a comer, Lincoln se sentava na sua frente, com sua refeição.

– Tudo certo. Eles o encontrarão no saguão. Embora Michael esteja reclamando novamente de sua famosa “gripe” – Ele fazia as aspas com o garfo e faca, logo começando a comer. – Hmm... – Ele fazia um sinal de espera, mastigando, e logo voltando a falar sobre Michael.

Comia em silêncio, apenas o escutando. Estranhamente, era reconfortante ter alguém tagarela como ele, até lhe respondia com um aceno de cabeça um murmurando afirmativamente. Porém, o fato do outro ser tão próximo de si era que o as pessoas ali o discriminavam pelo seu jeito de ser e sua aparência. Obviamente não o fazia na cara, pois seria contra as normas e a ética de trabalho, mas todos o evitavam. Mas apesar disso, o jovem revelara ser bem esperto, chamando atenção da Divisão Científica.

Ao terminarem as refeições, ambos se erguiam e, após uma rápida ida ao banheiro, seguiam para o saguão, onde Michael e Joan o esperavam.

Chegando lá, porém, somente Joan estava presente. Joan era uma mulher negra, de cabelos grandes e ondulados, de cor preta. Neles, uma mecha solitária estava pintada de roxo, lhe dando um estranho ar juvenil. Possuía peitos fartos e um corpo atlético de dar inveja, razão de ser constantemente admirada pelos colegas de trabalho.

– Finalmente, já estava começando a me perguntar se a comida estava tão boa assim. Boa tarde, chefe.

Sorria, olhando-o e seus olhos pousava em Lincoln.

– Lincoln! Quanto tempo! Haha, foi promovido? Cara, eu adorei seu cabelo!

Ela partira para um abraço e o outro retribuía com entusiasmo.

Ao lado deles, pigarreava, fazendo-o ambos olharem para ele.

– Cadê o Michael?

Joan se afastava, olhando-o enquanto ajeitava uma mecha do cabelo, pondo-a atrás da orelha.

– Ele teve licença médica. Gripe. – Ela dizia de modo tedioso, como se não fosse novidade.

Limitava a suspirar, teria uma séria conversa com ele depois.

– Bom... Mudança de planos. – Dizia, olhando para Lincoln – Tem algo para fazer?

Ele negava com a cabeça, sem entender e olhando Joan, igualmente confusa.

– Certo. Vai conosco. Se quiser, claro.

O outro balbuciava perplexo.

– É sério?

– Acha que eu brinco em serviço? – Dizia, erguendo-lhe uma sobrancelha.

Joan olhava Lincoln com um sorriso, e o mesmo também sorria, fazendo um gesto positivo com a cabeça.

– Ótimo. Tome. Se atualize pelo caminho. – Dava-lhe a pasta com o conteúdo do caso e começando a andar rumo á garagem. – Temos um vampiro para entrevistar.

Notas finais
Capítulo escrito por: Matheus