.:Richard:.

Era noite. Não havia estrelas, contudo. Estava dirigindo seu carro na Estrada 146, percurso que passava diariamente. Seu dia havia sido exaustivo: Descobrira e prendera em flagrante um esquema de "tráfico de escravos de sangue", chamado assim pelo ato de raptar humanos para servir como "bolsas de sangue" para vampiros, uma vez que as leis impostas por ambos os lados, vampiros e humanos, limitavam muito as condições. E muitos ainda não confiavam plenamente no sangue sintético, razão para a alimentação clandestina.

Com as mãos no volante, ouvindo uma música clássica, fazia um leve muxoxo pela dor no ombro. Duas noites atrás levara um tiro naquela àrea, porém quando fora oferecido sangue de vampiro para acelerar a recuperação, recusara no ato. Sua antipatia por vampiros vinha desde de sua infância, quando sua mãe fora morta e transformada em um deles. Porém, na hora, ela não era sua mãe. Ela era uma fera insaciável que matara seus vizinhos e ainda o seu pai, antes de recobrar a consciência. Tal lembrança, fez suas mãos fecharem no volante, com raiva. E o movimento fez o músculo do ombro doer novamente.

No instante seguinte, a música clássica era substituída para um toque de celular. E uma voz feminina anunciava:

– Senhor Richard, ligação da Central de Autoridade Vampírica Internacional. Deseja atender?

"Sim, por favor." Respondia-lhe, na mesma hora.

A chamada era atendida e no segundo seguinte ouvia-se uma voz abafada, além de caos e sirenes. Imediatamente começou à ir para o acostamento, fechando os olhos e suspirando. Já sabia o que era aquilo.

– Alô? Chefe?

– Fale, Lincoln.

– Temos um 318 aqui. A equipe forense está à caminho...

E ele ficava em silêncio por alguns segundos, antes de ouvir um ruído abafado de surpresa.

– Chefe... Você precisa ver isso.

– Estou à caminho. Desligar.

E a ligação era encerrada.

– Traçar curso para a origem da ligação.

E segundos depois seu GPS era atualizado, com a voz anunciando o endereço.

A medida que se aproximava do destino, mais via o pandemônio. As autoridades fizeram um bloqueio próximo de uma floresta. Olhos curiosos procuravam brechas para ver ou ouvir o que acontecera, sem sucesso. Ao estacionar, Lincoln logo estava correndo na sua direção. Era um jovem, recentemente promovido da vaga de estagiário. Possuía um porte médio, cabelos pretos com um corte curto estilo rock com as pontas vermelhas. Era branco e tinha os olhos de um âmbar que ele achava estranhamente atraente.
– Ei Richard!
Dizia ele, lhe dirigindo um sorriso e logo percebendo o que falara, fazia um gesto de desculpas.
– Opa, sinto muito. Digo, senhor. A equipe forense acabou de chegar. Lhe providenciei um café.
E, com isso, ele lhe mostrava um copo de café com espuma que, ao pegar, revelava estar bem quente. Do jeito que gostava.
– Obrigado. Relatório.
Dizia, curto e de tom profissional, enquanto dava o primeiro gole no café e andava na direção do bloqueio, com o outro ao seu lado que começava à falar.
– Bom... — Ele olhava uma ficha que tinha em mãos. — Pouco antes do senhor sair do departamento, recebemos uma ligação anônima informando sobre esse local. Pensamos que fosse um trote, mas tínhamos uma patrulha por perto, então verificamos assim mesmo. E então encontramos...
Ele fazia uma pausa dramática, ultrapassando a fita do bloqueio, olhando-o em seguida.
– Bom, você verá. Por aqui.
E ao se virar, ele gritava com entusiasmo para algum lugar.
– Ei Grace, ele chegou!
Uma voz feminina o respondeu, mas o murmúrio generalizado o impedira de ouvir, mas Lincoln parecera ter entendido.
– Ela falou que a equipe forense já está examinando o local.
Richard assentiu e andou alguns passos, antes de perceber que ele não se mexera.
– ... E não vai me acompanhar?
Lincoln o olhava ansioso.
– O quê? Ah não, eu não quero ver aquilo de novo. Eu espero aqui. Tome. Eu fico com isso. Ele falava num tom nervoso, mas com seu estranho entusiasmo, pegando o café de sua mão e lhe entregando uma prancheta, se afastando em seguida.
"Garoto estranho", pensava ao observá-lo, mas sentindo falta do café. Iria precisar de mais.
E então, dando-o as costas e começando à preencher a ficha na prancheta, adentrava para a floresta, indo ver a cena do crime.

Notas finais
Capítulo escrito por: Matheus