Blood Brothers
11 Hogsmeade - II
Rose e Scorpius haviam acabado de sair da Gemialidades Weasley com os bolsos cheios e caminhavam pensando em como perturbar a paz alheia com mais eficiência. Sem melhores ideias, decidiram se esconder na Casa dos gritos e lançar uns fogos de dragões quando alguém chegasse perto.
Quando estavam quase chegando viram o vulto de um casal se aproximando. Rose olhou para o lado, viu uma árvore de copa fechada e teve uma ideia. Puxou Scorpius pela manga e fez sinal para que se calasse, deu uma olhada para o casal e viu que eles se beijavam distraídos. Apontou para a árvore e Scorpius levou menos de um segundo para entender o recado. Ajudou Rose a subir e fez o mesmo.
Em silêncio, observavam o casal se aproximar. Rose vasculhava os bolsos a procura da pegadinha perfeita, mas Scorpius foi mais rápido e indicou para a menina umas bombinhas de bosta com formato de aranha e um pequenino relógio em cima. Ela aprovou a ideia, pegou duas bombinhas, esperou que estivessem bem próximos, deu uma volta no ponteiro do relógio mínimo e atirou.
Não demorou muito para que percebessem que o casal era Lily e Ramon. Scorpius só não se manifestou porque Rose foi rápida o suficiente para tapar sua boca.
Lily gritou com o susto, olhou para todos os lados, mas não conseguiu localizar de onde vinha o ataque. Ela e Ramon estavam cobertos por uma meleca verde e gosmenta. Rose ainda manteve Scorpius com a boca tapada até eles se afastarem o suficiente para não ouvir.
– Que vacilo! Era o primeiro passeio romântico deles. – Scorpius lamentou assim que pode.
– Não tinha o que fazer, se eles vissem que fomos nós estaríamos fritos. – Rose justificou.
– Ninguém pode saber. — ele concordou.
Scorpius, que ainda estava observando o casal se afastar ao longe se virou para Rose de repente e se deu conta do quando estavam próximos. Encarou os grandes olhos azuis claros, tinha uma sombra de riso em seu rosto. Ele sabia que mesmo sendo a Lily e o Ramon ela haviam gostado da brincadeira.
– Nosso segredo. — ela disse e mordeu suavemente o lábio inferior.
Instintivamente ele se aproximou mais. O galho balançou e Rose sentiu o equilíbrio falhar.
– Vamos cair. — ela avisou.
Ele apenas sorriu em resposta e tentou se aproximar ainda mais. De repente Scorpius se desequilibrou e ao tentar se segurar em um galho colocou tanta força que ele se partiu. Ele já se via no chão, mas Rose segurou sua mão e evitou a queda, com esforço a menina tentava se equilibrar e tomar impulso para puxá-lo. Quando conseguiu firmar o pé em um nó do galho e começou traze-lo para cima, ela escorregou e os dois foram com tudo para o chão.
Scorpius caiu de costas com um baque surdo, grave. Rose bateu em um galho e girou antes de aterrissar sobre o menino. Ela abriu os olhos e viu que Scorpius tinha um corte na testa, ele estava de olhos fechados e por segundos ela se desesperou. Mas logo ele abriu os olhos, levou a mão e testa e ao ver o sangue em seus dedos, sorriu. Rose sentiu o alívio percorrer seu corpo.
– Sorte a árvore mão ser tão alta — Scorpius falou observando os arranhados que havia ganhado – Se machucou?
Rose não tinha machucados aparentes, mas quando ela levantou as vestes, Scorpius viu uma mancha roxa na lateral do seu abdômen. Parecia sério.
– Caramba Rose, precisamos voltar ao castelo! — ele falou afobado.
Ela negou com a cabeça e abaixou a roupa.
– Isso é sério cara, temos que ir a enfermaria. — insistiu.
– Claro que não, não vou morrer por isso. — afirmou séria.
Scorpius a encarou incrédulo e ela sustentou o olhar, sem pestanejar, vendo que não a convenceria, deu de ombros.
– Você é quem sabe – ele disse contra a vontade – Conhece algum feitiço de cura?
– Não, só o Alvo é bom nisso. E não podemos usar magia em Hogsmeade.
Scorpius não sabia por que, mas ouvir Rose dizendo que Alvo podia fazer algo que ele não podia o deixou enciumado.
– Verdade. — ele respondeu e puxou-a pela cintura enlaçando-a entre seus braços – Mas tem uma coisa que eu faço bem melhor que o Alvo e ainda podemos fazer aqui. — completou com um sorriso safado.
Rose percebeu onde ele queria chegar, resolveu que era mesmo a hora. Pôs os braços envolta do pescoço dele e aproximou o rosto o máximo que conseguiu, sem encostar.
– E o que é? — sussurrou quase dentro da boca do menino.
Ele não respondeu nem hesitou, colou os lábios nos dela com vontade enquanto a pressionava contra o corpo. Sentiu que havia alguma coisa errada. Afastou-se a abriu os olhos, ela já o encarava.
– Isso foi... — ele começou a dizer.
– Estranho? — ela sugeriu e riu nervosa.
– Tem razão – Scorpius concordou coçando a cabeça – Quer tentar de novo?
Rose concordou. Eles se aproximaram novamente, o menino deslizou uma das mãos para dentro do cabelo dela e colocou a outra em sua cintura. Lentamente pôs os lábios sobre os dela e foi aprofundando o beijo, ela correspondia e eles continuaram em um ritmo lento por algum tempo.
Afastaram-se e se encararam. Havia uma pergunta muda nos dois olhares. Scorpius ensaiou um sorriso, mas não saiu como esperava. Rose mordeu o lábio.
– Talvez depois... — ela disse baixo.
Ele colocou a mão sobre o rosto dela e negou veementemente com a cabeça. Sorriu e a puxou novamente. Dessa vez, beijou-a com voracidade.
– Ei! O que estão fazendo? — alguém gritou ao longe.
Eles se afastaram e viram que Chester Snow se aproximava. Scorpius olhou em volta para se certificar de que era com eles. Rose cerrou os olhos. Sabia que era com ela, James devia ter razão, talvez ele estivesse apaixonado. Ela avançou em direção ao garoto e Scorpius a acompanhou.
– O que quer Snow? — perguntou seca.
– Não podem se beijar! — ele disse simplesmente, tinha algo de desespero em seus olhos.
Rose riu sem humor.
– E mesmo? E por quê? Por que você não quer? — ela perguntou ainda rindo, sádica.
– Você não tem nada com isso cara! — Scorpius esbravejou irritado.
– Não é por mim, está bom!? É por vocês. Vocês não podem ficar juntos. É o melhor a fazer. — Snow respondeu nervoso.
Rose fechou a cara.
– Não preciso que me digam o que é melhor para mim. E eu não sei o que te fez pensar que poderia dizer o que posso ou não fazer. — disse alto e claro.
Snow mexia nervosamente nos cabelos como se fosse arrancá-los.
– Você não entende! — disse aflito.
– Então explica! — Scorpius ordenou – Por que tanto nervosismo?
– Não posso dizer! — Snow quase gritava – Só façam o que eu falo, é o melhor. — completou mais baixo.
Scorpius estava começando a se irritar sério. Colocou sua mão sobre o peito do garoto e esbravejou entre dentes:
– Isso não vai funcionar. É melhor você dar meia volta e me deixar em paz com a minha garota. — e o empurrou.
Snow deu alguns passos desequilibrados para trás e negou com a cabeça quando se firmou novamente.
– Vocês precisam me ouvir! — ele suplicava.
– Então fala Chester! Fala! — Rose gritou avançando para ele novamente.
Snow olhou os dois na sua frente. Scorpius cerrava os dentes e evitava olhar para ele, tentando se controlar. Rose tinha os braços cruzados e os olhos arregalados enquanto o encarava friamente. “Não tem outro jeito, preciso contar” pensou.
– Vocês são irmãos – soltou de uma vez – Gêmeos...
A frase entrou pelos ouvidos de Rose e acalcou se cérebro em centésimos de segundos, ela imediatamente parou de entender o que acontecia ao redor. Ouvia Snow e Scorpius falando ao fundo, mas não conseguia identificar as palavras. Gêmeos, eram gêmeos. Via claramente o rosto de Scorpius na sua frente, os mesmos olhos, o mesmo nariz. Gêmeos, muitas cenas passavam como filme diante de seus olhos, eles competindo até o fim, em tudo e a qualquer preço. O mesmo gosto pelo poder, o mesmo desgosto em não ser o melhor sempre. Gêmeos, até as varinhas eram iguais. Lembrou claramente o dia em que eles foram ao Aprendiz do Olivaras comprar suas varinhas, mamãe agiu tão estranhamente quando descobriu que as varinhas eram irmãs. Mamãe.
– Quem é a minha mãe? — Rose perguntou despertando de repente, Snow não respondeu de imediato e ela avançou para cima dele, o pegou pelos braços com força e sacudiu – Quem é? A verdadeira? – rosnou.
– Hermione Weasley! — ele respondeu tentando se soltar.
Rose o soltou e se virou para Scorpius. Ela não precisou falar para que ele entendesse.
– Com o meu pai – disse a encarando sério – Seu também agora — completou num sussurro quase inaudível.
Eles se encararam em silêncio por um longo momento. Até que Rose se lembrou da presença de Chester Snow.
– Some daqui. — ordenou.
O garoto não esperava.
– Mas eu não fiz nada...
– Cala a boca e some daqui agora – ela o cortou.
– Eu só queria evitar que vocês se beijassem! — ele justificou.
– Não conseguiu. Você vai me dizer como soube e vai sumir daqui.
– James quem me disse. – ele respondeu sem perceber.
– James, James, James. — ela repetiu o nome como um mantra – Filho da mãe mentiroso, todo esse maldito tempo de falsidade, desgraçado! Podia ter evitado, nós nos beijamos! — Rose gritava.
Scorpius tentava acalmá-la, ele não estava nada bem, mas Rose parecia prestes a explodir. Aproximou-se da menina e a segurou pelos ombros.
– Está tudo bem Rose, nos não sabíamos, não temos culpa. — ele tentava parecer convincente.
– Não está tudo bem, não está! – ela respondeu alterada e se virou novamente para Snow – Some daqui!
Chester sem saber o que fazer, resolveu se afastar e observar o que aconteceria de longe. Os gritos de Rose chamaram a atenção de Lily e Ramon que não estavam muito longe e foram ver o que estava acontecendo.
– Rose, se acalma, vai ficar tudo bem, deve ter uma explicação — Scorpius heroicamente continuava tentando acalmá-la.
– Não quero ouvir nada – ela rebateu se soltando dele.
Scorpius tentou se aproximar novamente, mas Rose deu três longos passos para trás. Pôde ver Lily e Ramon se aproximando a sua direita. E, para seu desespero, quando olhou o outro lado viu medo nos olhos que mais amava, Alvo e o traíra do James corriam em sua direção.
Não podia ficar ali parada, não iria ficar. Tirou algumas bolinhas verdes espinhosas do bolso e pensou que Fuga seria um belo nome para elas. Em meio segundo seus olhos pararam novamente nos de Alvo “Queria poder abraça-lo antes” pensou, e sem dar tempo para seu cérebro se arrepender girou nos calcanhares soltando os artigos, tapou a respiração e correu o mais rápido que pôde.
Scorpius percebeu rápido o que Rose tinha feito, prendeu a respiração e tentou encontrá-la no meio daquela fumaça toda, conseguiu ver seu vulto e foi atrás.
Já não era possível ver nada de trás da árvore de onde Snow observava, era tudo uma grande nuvem densa de fumaça azul. Viu Rose correr de dento dela e segundos depois Scorpius atrás. Os seguiu.
Scorpius viu algo entrar correndo na casa dos gritos. Devia ser ela. Ele entrou no local silenciosamente, tinhas os ouvidos atentos a qualquer ruído. Entrou em um cômodo e observou as paredes e vitrais destruídos. Estava vazio. Entrou em outro e depois em outro, a casa era enorme e parecia totalmente vazia. Voltava para a porta quando ouviu um ruído abaixo dos seus pés, só que mais ao fundo.
Seguiu o barulho e percebeu que vinha de uma portinha pequena no final do corredor. Aproximou-se devagar e a empurrou delicadamente, a porta ruiu e se arreganhou devagar, fazendo aparecer uma escada suja e estreita. Scorpius desceu tentando não fazer barulho. Aquele local era mesmo assustador, era muito mais quente que o resto da casa, as paredes gordurosas cobertas de teias de aranha, além de um cheio acre ruim que parecia cada vez mais forte.
Quando chegou ao fim da escada, viu que, o que hoje era ruína, um dia foi uma cozinha. Provavelmente ninguém pisava ali há um século. Os armários estavam destruídos pelas traças. Rose se encontrava agachada ao fundo, ao lado de um fogão muito antigo, quase irreconhecível.
Ele se aproximou lentamente, Rose não se moveu em nenhum momento, mas ele tinha certeza que ela sabia da sua presença. Quando mais se aproximava o cheiro ficava pior se tornando quase insuportável. Percebeu que vinha do que Rose observava, eram bichos gosmentos se movimentando uns sobre os outros.
Scorpius tapou o nariz por instinto e ao alcançar a menina disse:
– Fede muito.
Ela não se assustou.
– Exatamente como toda essa mentira – disse pausadamente e se virou para fitar o rosto do recém-descoberto irmão.
– O que são? — ele perguntou apontando para os bichos.
– Vermes decompositores – respondeu voltando sua atenção as criaturas.
Scorpius pegou em seu ombro direito e apertou.
– Vem, vamos sair daqui.
Rose não hesitou, levantou lentamente e se deixou levar. Ele a levou para um dos quartos da casa. Ela se sentou na cama imunda que havia ali. Scorpius a encarou e viu uma única lágrima descer pelo canto de um de seus olhos. Ele se abaixou entre os joelhos da menina e a secou suavemente com o polegar.
Scorpius sentia um aperto enorme dentro do peito, só queria sentar ali e chorar também, chorar até que nada disso fosse mais verdade. Mas ele sabia que não adiantaria, era verdade, sempre esteve tão claro. Eram irmãos, sempre a amou como um irmão, tentando protegê-la. Até mesmo do seu melhor amigo.
– Me sinto tão destruída. — Rose disse com a voz embargada – É como se nada do que eu sou fosse real.
– Eu sei, eu também. Mas também me sinto um idiota. Quero dizer, tudo estava na nossa cara, o tempo inteiro — ele disse e se sentou ao lado de Rose no que sobrava da cama puída.
Rose o encarrou.
– Tão obvio — concordou.
Ele deu um sorriso triste.
– Desculpe por te beijar – teve coragem de falar, mas não conseguiu continuar a encarando.
Rose sentiu o rosto arder. Aquilo. A pior consequência de tanta mentira.
– Melhor fingir que não aconteceu. – ela disse.
Eles ficaram em silêncio durante algum tempo, silencio que no começo era um pouco perturbador, mas aos poucos foi se tornando mais leve e enfim, confortável.
Scorpius deitou o tronco na cama imunda e puxou Rose, que deitou em seu braço. Ambos fitaram o teto coberto de teias.
– O que faremos agora? — Rose questionou o ar.
– Quero ouvir o que eles têm a dizer... — Scorpius respondeu depois de um tempo.
– Eu não quero, não quero ouvir e nem ficar aqui. — ela disse decidida.
Scorpius a encarou.
– Não pode me deixar sozinho.
Rose suavizou a expressão e colocou a mão sobre o rosto do menino.
– Nunca vou te deixar. Você vai comigo.
Scorpius fez uma expressão confusa.
– Para onde? E nossos pais? O Alvo? — questionou.
Ela sacudiu a cabeça.
– É só por um tempo. Mas tem razão, melhor você ficar, pelo Al.
Ele não estava acreditando, ela não podia estar falando sério.
– Rose, você enlouqueceu? Tem apenas 14 anos, quanto tempo acha que pode sobreviver sem magia?
Ela sacudiu a cabeça novamente.
– Por favor, preciso desse tempo. E você sabe que no momento que eu usar magia, a mamãe vai me encontrar. Se eu precisar, sei como voltar. – ela estava pedindo.
– Não Rose, não posso deixar. – Scorpius tentou ser firme.
– Não pode me impedir — ela falou e ele serrou os olhos – E não quer – completou fazendo o olhar mais doce que podia.
Scorpius levou a mão a cabeça e fechou os olhos. Não queria que ela fosse, a queria ao seu lado, como irmãos devem ficar. Mas ela parecia tão mal, tão pior que ele. Não podia negar isso a ela. Não a sua irmãzinha.
– Te dou dois dias – ele falou por fim.
Rose quase sorriu, não queria ter que brigar. Ela levantou em um pulo.
– Dá para começar.
Ele negou com a cabeça enquanto fazia o número dois com os dedos e movimentava os lábios “Dois dias”. Rose sorriu e o abraçou.
– Eu te amo – disse ainda no abraço.
– Também te amo – ele falou ao soltá-la.
Eles ficaram se encarrando por um longo momento. Rose sentia que iria chorar como um bebê se continuassem nisso.
– Melhor você ir ver como os outros estão – ela sugeriu.
Scorpius arregalou os olhos e levou a mão à testa.
– Por um momento tinha me esquecido que você envenenou todo mundo – tentou fazer graça.
Rose deu um soco em seu braço pela piada infeliz.
– Leva meu antídoto – ela disse o entregando alguns vidrinhos que tinha no bolso.
Scorpius a encarou uma última vez.
– Apenas dois dias. – disse firme, se virou e caminhou pesado em direção à porta.
– Não acredite em nada que te disserem. – ela falou quando ela saia.
Ele concordou com a cabeça.
– Se cuida – disse sem se virar.
Não olhou mais para trás, não sabia se Rose o perdoaria por impedi-la. Não queria arriscar. Dois dias, seriam apenas dois dias.
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