Blip

1 Capítulo 1


Notas iniciais
Oi gente!

Então, sei que é uma ideia ousada, um tanto viajada, mas quando bate a criatividade a gente tem que fazer, então aí está. Uni duas coisa que gosto muito: Universo Marvel e Harry Potter e então surgiu isso.

Fiquei imaginando como as pessoas normais lidariam com o sumiço e consequentemente o retorno dos entes queridos e amigos e acho que essa pode ser uma pequena parte do que poderia ser.

Espero que gostem, beijão!

ROSE GRANGER-WEASLEY

— Esta é a nossa segunda sessão, certo?

— Isso. Quer dizer, se contarmos com aquelas reuniões em grupo é a quarta.

A terapeuta soltou uma risada que saiu quase como um suspiro.

— Por favor, não vamos considerar aquele caos como algo proveitoso. — pediu, me fazendo rir também ao lembrar da histeria coletiva no ginásio do colégio. — Mas vamos ao que interessa. Começaremos pelos fatos que sabemos, tudo bem? — assenti — Pode começar quando se sentir confortável.

Respirei fundo tentando recapitular os acontecimentos das últimas semanas.

— A Terra é um lugar louco de se estar. Um cara… quer dizer, um titã maluco com uma luva de metal conseguiu destruir metade do planeta. — encarei a senhorita Bellini em busca de confirmação.

— Isso. Era uma manopla e ele destruiu metade das criaturas vivas de todo o Universo, na verdade.

— Ah, tinha me esquecido. Outros planetas, né? Isso também é esquisito. — sussurrei a última parte. Era tudo tão surreal e maluco. — Continuando. Ele estalou os dedos e uma galera sumiu, inclusive eu. Estava na aula de Química e acho que desmaiei e aí quando acordei continuava no laboratório, só que tinha um cara me segurando e um monte de gente gritando, foi super estranho.

— E lembra do que sentiu quando acordou, Rose?

— Bem, eu pensei que fosse uma queda de pressão ou algo assim. Mas quando olhei em volta as coisas estavam diferentes, aquelas pessoas não eram da minha turma de Química e eu só sei que o professor Longbottom me levou para casa naquele dia. Ele não falava muita coisa, apenas que estava feliz por eu estar bem. A rua estava uma bagunça, as pessoas completamente surtadas, não conseguia identificar se estavam loucas ou felizes. Por um momento pensei que era feriado e a escola estava dando aulas por engano.

— E quando voltou para casa, quem encontrou lá? Como se sentiu?

— Agora parece tudo muito obscuro na minha cabeça. Sei que vi meus pais e eles choravam, falavam sem parar e ficavam me apertando, mas eu só havia saído para a escola pela manhã, não entendia o motivo para tanto alvoroço. Demorou para que conseguissem me explicar que haviam se passado 5 anos. E, para ser sincera, às vezes acho que ainda estão brincando comigo.

— Rose, esta confusão é perfeitamente compreensível. A maioria dos casos que recebo aqui relatam o mesmo que você. Aos poucos vai conseguir se acostumar com essa nova realidade e acabar percebendo que nada está tão diferente que não possa ser superado. — meu rosto contorceu em incredulidade diante da frase dela, que acabou percebendo.

— Para você é fácil falar, ficou aqui esse tempo todo. Olha, eu achava legal essa coisa dos Vingadores protegendo a Terra e tudo mais, meu irmão tinha vários bonecos deles e o filhinho dos nossos vizinhos, um garotinho que escrevia bilhetinhos de amor pra mim no auge dos seus 12 anos sempre ia lá porque adorava esses bonecos. Agora o meu irmão está na faculdade e o filho dos vizinhos mede uns três metros e é um veterano como eu. — disse tudo num só suspiro.

— Eu sei. E quero mesmo ajudar você nessa transição, Rose. — a mulher expressou em tom sereno — Mas na semana que vem, porque agora você tem aula. — revirei os olhos. Como a escola poderia ser uma preocupação quando o mundo havia virado de cabeça para baixo? A senhorita Bellini se levantou e se direcionou até a porta da sala de orientação acadêmica, abrindo-a como um convite para a minha saída. — Não pode recuperar o tempo que perdeu, mas seu futuro ainda pode ser brilhante. — disse enquanto me lançava um sorriso educado. — Tenha um bom dia, querida. — desejou e fiz o mesmo quando passei por ela me dirigindo ao corredor da escola.

Fiquei um bom tempo encarando o meu armário aberto. Sabe aquele ditado que diz que quando você encara o abismo ele encara você de volta? Desde que voltei tudo era abismo. Não sentia que tinha mais identidade e legalmente Rose Granger-Weasley não existia mesmo, tinha atestado de óbito e até uma lápide ao lado do vovô Granger. Tudo que eu era sumiu junto com a poeira que me levou. O jornal da escola tinha uma nova coordenadora, perdi o posto de irmã mais velha, não era mais a filha inteligente e esperta. Antes estava um ano adiantada na escola porque pulei a quinta série, agora estou quatro anos atrasada. Tenho memória fotográfica e mesmo assim não faço ideia do que aconteceu ao certo nos últimos anos.

— Pensando na morte da bezerra? — o garoto do armário ao lado do meu perguntou me tirando dos devaneios. Era Scorpius Malfoy, meu vizinho.

Há alguns anos (tipo, semana passada para mim) ele ficava na minha casa depois da escola até os pais voltarem do trabalho. Eles davam uma boa grana para que Hugo e eu tomássemos conta do garoto. Como tenho 17 e Hugo 15 eles nos achavam responsáveis o bastante para não matar o loirinho ou deixá-lo morrer de fome (ah, esqueci, Hugo não tem mais 15 anos, ele tem 20). Enfim, garoto vizinho e eu nos aproximamos porque ele me dá carona para a escola e foi literalmente a primeira pessoa que vi quando voltei, impedindo que eu estabacasse no chão do laboratório na frente de todo mundo.

— Acabei de sair da terapia, contemplar o vazio é meio consequência disso. — respondi.

— Eu também estou indo às terças. A senhorita Bellini é bacana até.

— Diz isso porque ela é bonita. — ele riu, estendendo os braços em rendição — Eu gostava da senhorita Wilson, mas aparentemente ela foi blipada também. Tem aula de que agora?

— Matemática, e você?

— Também. — fechei meu armário e fiz sinal para que ele me acompanhasse. Fomos seguindo lentamente até a sala enquanto conversávamos — Como está sendo com sua mãe?

Scorpius não havia sumido, mas sua mãe sim. E pelo que ele me disse a relação com o pai durante esse tempo não havia sido exatamente amistosa, então a reintegração de Astoria ao lar Malfoy não estava sendo da forma como Scorpius sonhava.

— Meu pai está tentando, tenho que admitir. Sabia que hoje ele até me desejou um bom dia?

— Uau, estamos evoluindo!

Rimos juntos da nossa desgraça até finalmente chegarmos à sala onde a aula já havia começado, portanto tivemos que calar nossas matracas e prestar atenção. Eu até gostava de matemática antes, mas agora é minha aula preferida considerando que continua inalterada mesmo depois de tudo. É como se eu fosse normal de novo, uma disciplina em que o blip não é mencionado já é uma vitória. No restante das aulas desejo virar poeira de novo.

Ao fim da aula, como sempre, esperei Scorpius no estacionamento. Meus pais também se sentiam mais seguros que ele me levasse para casa, então era como unir o útil ao agradável. Às vezes ele desviava do caminho e me levava a lugares que ainda não conhecia, contava como o mundo mudou nos últimos anos, mas nada sério. Mostrava as músicas novas e às vezes cantava junto, o que era um desastre. Meu veredito é que Scorpius era um cara legal. Não como um raio de sol, cheio de luz e alegria e riso largo, mas legal. Ele jogava futebol, curtia literatura, aprendeu dois idiomas diferentes enquanto o mundo acabava. Parece o tipo de pessoa equilibrada que precisava ao meu lado.

SCORPIUS MALFOY

— As coisas estavam indo bem. Eu vi que ele estava tentando, sabe. Pela mamãe. Mas ela não é idiota, é claro que perceberia que não estávamos do jeito que ela deixou.

Estava atualizando a senhorita Bellini dos últimos acontecimentos em casa. Não vou negar, a assistência psicológica que Hogwarts ofereceu depois do blip é ótima e impediu que meu pai me acusasse de gastar ainda mais o dinheiro dele, desta vez com terapia.

No dia que minha mãe sumiu eu estava na escola e ela no trabalho. Era mais um dia como qualquer outro. Ainda era criança e ela arrumava meu lanche e me deixava na escola antes de ir trabalhar. Éramos felizes junto com meu pai. Costumávamos viajar durante as férias e mamãe adorava o sol. Naquele dia em que todos viraram poeira poderia jurar que estávamos no meio de um apocalipse. As aulas foram encerradas mais cedo quando alguns professores começaram a evaporar, na rua diversos acidentes de carro causavam um engarrafamento quilométrico, a se perder de vista.

Apesar de estudarmos em blocos diferentes da escola, sempre voltava no ônibus com Rose e Hugo. Ele era um cara super legal que adorava ficção científica e super heróis, se você queria saber sobre a origem do Capitão América e como Tony Stark construiu a primeira armadura num cativeiro, Hugo era a pessoa que deveria procurar. Nós também conspirávamos sobre invasões alienígenas como a de Nova York e não nos surpreenderíamos com um apocalipse zumbi. Estávamos preparados para quase tudo, menos para isso. Nunca vou esquecer do rosto de Hugo ligando desesperadamente para o celular da irmã sem resposta alguma. Também não vou esquecer a dor do meu pai em não conseguir falar com a minha mãe. Nem o meu quando, três dias depois, me dei conta de que ela não iria voltar.

— Scorpius, tem que ter paciência. Vocês já perceberam que tentar forçar uma situação para que sua mãe se sinta melhor não é o caminho certo a seguir, isso já é um avanço.

— Então meu pai me tratar como lixo perto da minha mãe é um avanço? — ironizei.

— Não. Serem honestos com ela é avanço. Ela ainda é sua mãe, a mesma pessoa, mas você não é mais criança, é um homem. Esse foi o maior baque para ela. Sua mãe é uma mulher, pelo que me contou, muito sensata e razoável, ela vai saber lidar com o stress até melhor do que você. Não é de hoje que a personalidade do seu pai e a sua se contrapõem, isso vem de anos e ela sempre foi o elo que uniu vocês. Deixe que naturalmente ela volte a ser este elo.

— Mas é muita responsabilidade, ela já está suficientemente perdida! — argumentei. Minha mãe não merecia mais esse peso além daqueles que carregava silenciosamente.

— Ela está fazendo acompanhamento profissional como você? — a mulher indagou enquanto pacientemente ajeitava os cabelos negros num rabo de cavalo. Merda, a Rose tinha razão. Ela era mesmo bonita.

— Sim.

— E seu pai, ainda se recusa a procurar tratamento?

— Aquele ali nem arrastando.

Depois do blip, que aliás considero um nome muito bobo para um evento de tamanha magnitude, meu pai se afundou no trabalho e acredito que só não se afundou na bebida também porque tinha medo de virar um bêbado como o vovô. Seria muita maldade continuar me deixando com os Weasleys depois de terem perdido a filha, então ele decidiu que eu já tinha idade para ficar sozinho em casa. E realmente ficava sozinho porque ele raramente retornava do trabalho. Não faço ideia de onde ele dormia, se na empresa ou em algum hotel, mas saía de casa na segunda com uma mala pequena e só voltava no domingo seguinte. Pelo menos aprendi a cozinhar depois de me cansar de pedir comida ou comer congelados.

Ainda via Hugo de vez em quando e nossa amizade foi se consolidando cada vez mais, mesmo depois dele ir para a faculdade ainda mantínhamos contato. De vez em quando ele e o primo Albus iam para a minha casa e ficávamos jogando video-game. Era quase como se tudo estivesse normal, até que eu lembrasse da minha mãe ou eles lembrassem da Rose. A janela do meu quarto ficava de frente para o quarto dela, portanto era meio difícil não lembrar. Ela era meu amor infantil, começou quando ela tinha 12 anos e ajudava o pai a cuidar das flores no quintal de casa. Eu era muito novo naquela época, mas confesso que só fui desencanar de verdade depois de alguns meses do sumiço dela.

— E você está lidando com isso sozinho ou está compartilhando com seus amigos?

— Bom, meus amigos também estão tendo de lidar com esses problemas em suas próprias casas, então não acho certo incomodá-los com meus problemas. — expus o óbvio — Todos estão passando por isso, não posso me dar ao luxo de pensar que é só comigo. O pai do Albus também voltou e a irmã do Hugo.

— Quanto a ela soube que você está ajudando bastante. — soube? Como assim soube? As pessoas dessa escola são tão fofoqueiras assim? — Poderia se abrir com ela também, uma relação de apoio recíproca.

— É, ela até que sabe o que está rolando lá em casa.

— Isso é bom. Olha Scorpius, sei que está preocupado com a sua mãe e isso é totalmente compreensível, porém não pode se deixar de lado. Você tem as suas questões com seu pai, com sua própria identidade. Não pode esquecer de si mesmo.

— Tudo bem. — na verdade não estava botando muita fé nessa coisa, mas não posso fazer com que a senhorita Bellini sinta que está perdendo seu tempo.

— Para a próxima sessão quero que faça uma lista de sentimentos, pode ser frustração, solidão, até mesmo raiva.

— Eu devo entregar esta lista a você? — odeio quando ela passa lição de casa.

— Não. Você vai se abrir em relação ao sentimento com algum amigo. Pode ser Hugo, Albus, até mesmo a Rose ou sua mãe. — olhei para ela com cara de quem não gostou nada desta atividade, mas ela me encarou deixando claro que não havia escolha — Tenha um bom dia, Scorpius.

— Obrigado. — resmunguei e saí da sala.

Às terças, além de terapia, também tenho treino de futebol depois das aulas, então não posso dar a minha tradicional carona a Rose Weasley. No início ofereci carona apenas pensando em ajudá-la. Ela estava claramente perdida e volta e meia a via chorando no quarto. Juro que não era de propósito, só que às vezes olhava pela janela e lá estava ela sofrendo. Sem contar que no dia em que ela e minha mãe voltaram passamos um bom tempo sentados no meio-fio conversando sobre coisas banais. É, tudo começou comigo tentando aliviar um pouco para ela, mas no fim das contas Rose Weasley também tirava um pouco o peso do meu coração.

Notas finais
Espero que gostem e se sim, deem uma forcinha para essa escritora aqui e comenta o que achou ou o que precisa melhorar :)

Beijão.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.