Blindness of a Fool.
1 Capítulo 1
Minha irmã sempre foi cega. Não em sentido figurado, ou sentimental. Ela era literalmente cega, desde o nascimento. Por isso, passei minha vida toda cuidando dela. Eu tinha seis anos quando ela nasceu, e aos quinze eu era a única pessoa que passava o dia todo com ela, por conta dos meus pais trabalharem. Isso nunca foi um problema para mim, e na verdade, eu nunca liguei muito. Mas naquela época, tinha algo em mim que eu não conseguia controlar muito bem.
Quando ela ao menos conseguia balbuciar uma frase completa, ela já me seguia pela casa toda, como se fosse um filhote de cachorro, pronta para me pedir ajuda em toda tarefa, cuja eu ajudava de prontidão. Porém, quando eu podia, sempre pregava alguma peça nela. Uma brincadeira boba, sempre, que foi evoluindo cada vez mais. Eu não sabia como as proporções aumentavam sempre, mas era divertido para mim.
Quando entrei na adolescência, comecei a achar aquela atenção toda que eu tinha que dar para com minha irmã um tanto desnecessária, e bem irritante. Eu comecei por simplesmente começar a dar apelidos malvados a ela (e o meu favorito era Monstra, ou Monstrinha). Depois vieram as piadinhas, e por fim, as brincadeiras estúpidas. Ela, por sua vez, fingia que não ligava, e ria comigo, achando que eu estava simplesmente brincando. Inclusive, para obter minha aprovação, fazia até piadas consigo mesma, e ria delas, mesmo sem ter a menor graça para si.
Um dia, porém, eu passei dos limites. Fomos numa viagem, onde supostamente deveríamos visitar alguns parentes. Numa rua perto da casa desses parentes, porém, existia um shopping. Era pequeno comparado aos de grandes metrópoles, mas ainda era um ponto considerável para se passear. Prontamente peguei minha irmã, e fomos para lá. Mas isso era apenas parte de um grande plano que estava por vir.
Ao chegarmos no local, caminhamos até o centro da praça de alimentação, e quando vi que ela estava distraída o suficiente, soltei sua mão, e coloquei-me à andar até uma distância de onde ela não poderia voltar a segurar em mim, e me posicionei para assisti-la. Ela parecia assustada demais, e no meio de tantas vozes, a sua se perdeu. Ela colocou-se a caminhar, tropeçando nas pessoas e batendo nas mesas, com uma única voz abafada e pesada “Victor?!”. Ela caminhou até o outro lado da praça de alimentação, onde finalmente atingiu a parede que separava o local das outras lojas do shopping. Encostou-se com as costas viradas para a parede, e deu tudo de si para gritar cada vez mais alto o meu nome. As pessoas que passavam pelo local olhavam a menina, com lagrimas nos olhos, gritando um nome e olhando para um ponto fixo no teto, e provavelmente imaginavam alguma cena estranha, mas a maioria ignorava aquilo. Num ponto da brincadeira, pude ver e ouvir minha irmã, em gritos desesperados e em um choro sincero, enquanto atropelava as sílabas do meu nome.
Os risos que eu tinha transformaram-se num rosto de auto reprovação. “Porque diabos eu estou fazendo isso?”. Corri até ela, ignorando o resto das pessoas e a abracei, pedindo desculpas diversas vezes. Talvez meu coração amoleceu com o choro, ou eu finalmente senti a empatia que ela merecia. Ela, depois de se acalmar ao ouvir minha voz, me abraçou forte e chorou o quanto conseguiu. As pessoas ao redor olhavam para mim com olhares desconfiados, e alguns até mesmo se aproximavam para ver se estava tudo bem. Quando a garotinha se acalmou, segurou minha mão até voltarmos para a casa dos parentes, duas quadras dali. Ao chegarmos na casa, ela reatou o choro, e me abraçou forte.
– Me desculpe por ser um fardo tão grande pra você. Nunca quis que você tivesse isso, e sempre quis ser somente uma irmã normal. Eu sempre te amei tanto, e você sempre me ajudou quando eu precisei. Obrigado por sempre estar comigo, irmãozão.
Mesmo com os vários soluços ela conseguiu dizer tudo que queria, e eu não consegui aguentar. Tive que chorar juntamente a ela. Numa das brincadeiras mais cruéis que tinha feito, acabei descobrindo que eu era o verdadeiro monstro, e não ela. E mesmo não conseguindo ser tão corajoso quanto ela, e dizer o quanto eu também amava ela, ou o quão idiota eu havia sido por tanto tempo, decidi ser uma pessoa melhor a partir daquele dia. É incrível a capacidade de uma criança, ou um simples detalhe, poder mudar um ser inteiro, não é mesmo?
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