Notas iniciais
Boa leitura.

Era um sentimento diferente, como se a minha vida toda algo com o que eu não me importava vivia escondido de mim. Por que eu me importava agora? Minha vontade era a de voltar no tempo e impedir a mim mesmo de ter feito aquela pergunta estúpida, e então eu poderia continuar vivendo tranquilamente longe dos sentimentos dispensáveis.

Infelizmente, algo em mim achava que aquilo seria o certo a fazer.

Encarei-a. — Quando tudo terminou, tive uma sensação estranha – disse eu – como se eu quisesse mudar algo, tentar uma coisa nova.

– E que coisa seria? – perguntou-me Satsuki.

– Eu pensei que poderia tentar aprender a amar novamente.

Ela me pareceu surpresa, e não era para menos. O que ela esperava que eu dissesse? Seja lá o que for que passou pela cabeça dela naquele momento, não chegou nem perto do que lhe segredei.

– Amar novamente? – ela desviou o olhar – Por que quer amar novamente?

– Eu penso que perdi parte da minha vida reprimindo sentimentos que achava inúteis – respondi – como se afastasse algo que poderia me fazer bem, desejando sua destruição. Eu só senti o amor uma vez, mas nunca pude ver sua face.

– É claro – Satsuki se voltou para mim – capitão Kuchiki, uma alma ama sem perceber, mesmo que não seja a dois. Não tenho dúvidas sobre o que você considera amar, e mesmo que um ser leal se apaixone de novo, acredito que ao perecer, sua alma se dividirá e então poderá ser feliz com ambos os lados. O que aquele Quincie disse não é verdade – cruzou os braços e lançou-me um pequeno sorriso – os mais fortes não enxergam o amor, apenas o sentem, e por isso não são dobrados por ele.

Olhei para o horizonte, o lugar estava completamente vazio e destruído. Aquilo realmente havia terminado? Pus-me a pensar no que Satsuki dissera, nunca tinha prestado muita atenção nela... Suas palavras eram sábias e belas, mas eu podia sentir certo peso nelas.

– Eu entendo – disse, finalmente – imagino como seria começar do zero, permitindo-me ser feliz de novo. Acha que eu consigo?

– Desde que não deixe de ser você mesmo – virei a tempo de vê-la reprimir uma risada – imagine como seria se começássemos a agir como quando éramos mais jovens!

Senti o rosto queimar. Eu era um rapaz arrogante, irritava-me fácil com as coisas e nunca recusava um desafio inútil quando era provocado... Ela tinha boas lembranças daquilo? Talvez, pois nós éramos bem próximos naquela época. Satsuki vinha todas as manhãs para treinar comigo, o clã Youshiro era um grande aliado do clã Kuchiki, o que facilitou nossa amizade. Satsuki era agitada, gostava de me atormentar quando não estávamos treinando e sempre se referia a mim como “Bya-kun”, o que me deixava mais irritado ainda. Mas eu gostava dela, era uma boa companhia.

Aproximei-me tomando a liberdade de observar uma beleza que por muito tempo tentei ignorar. Os cabelos negros de Satsuki estavam bagunçados, duas cicatrizes passavam pelas suas pálpebras e desciam por suas maçãs do rosto, por pouco aquilo não a cegara. Mesmo cansada e ferida, ela ainda parecia tranquila, conversando em silêncio com o vento. Não deixei que percebesse meu olhar, disfarcei e prossegui.

– Você já tentou ser feliz novamente? – perguntei.

Ela deu de ombros e sorriu. – Sim. É verdade que temos de abrir novas portas nesse mundo para que algo que não gostamos mude, mas não é tão difícil assim quando você tem uma boa intenção.

– Então é isso – concluí – mesmo conhecendo o amor, como você disse que conheço, não lembro qual é a sensação de senti-lo. Quero começar do zero, sem deixar de ser eu mesmo. Posso lhe pedir um favor?

– É claro, o que é?

– Ensine-me a amar de novo.

De primeira ela pareceu desacreditada, depois uma expressão de raiva tomou seu rosto. Baixando a cabeça, ela cruzou os braços. – Isso... A onde você quer chegar?

– Quero dar uma chance ao sentimento que a muito deixei para trás – falei – não tenho dúvidas de que ele está em você agora.

Voltando-se para mim e encarando-me nos olhos, ela parecia ter se acalmado. – Você tem certeza?

– Sim. Irei lhe respeitar assim como respeito meu orgulho, te protegerei assim como protejo a minha dignidade... E te amarei sem medo. Peço que se case comigo, Satsuki Youshiro.

Seus olhos nunca estiveram tão brilhantes desde o termino da guerra, Satsuki não conseguiu pronunciar uma palavra até me abraçar, quando disse “Aceito”. Ao ouvir aquela palavra o meu coração gelou, como se pela primeira vez em anos eu tivesse ficado nervoso e ansioso. Cumpri com as minhas palavras tranquilamente, deixando de lado o peso e a magoa que carregava da morte.

Observando-a andar nervosamente pelo jardim eu penso... Talvez eu nunca fosse incapaz de amar, e o amor que eu havia reprimido estivesse sempre lá, acorrentado a ela esperando uma atitude minha.

A única parte ruim? Ela convidou Kurosaki Ichigo para ser padrinho ao lado de Rukia.

Notas finais
Review?
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!