Blanket Kick
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... só que não. Depois que entrei no avião, me acomodei em meu assento e tentei controlar meu nervosismo. Não tinha percebido, mas dentro das flores que Leo me deu tinha uma carta. Enquanto lia aquelas doces palavras, meus olhos se encheram de água e explodiram em lágrimas que eu tanto reprimia. Decidi só ler o resto da carta quando já estivesse me casa, para não incomodar os outros passageiros. Olhei o relógio e nosso voo já estava 30 minutos atrasado. Estranho. Comecei a mexer em meu telefone, olhando as mensagens que minhas amigas tinham me mandado.
Engraçado, pensei, tá demorando muito pra esse avião decolar. Olhei no relógio e já havia se passado 1h30min desde que eu embarquei. Os outros viajantes também pareciam irritados com o atraso, então decidi me informar com a aeromoça.
—Com licença, a senhora pode me dizer porquê está demorando tanto para sairmos? — eu perguntei meio impaciente.
—Desculpe, senhorita. Nós temos alguns passageiros importantes atrasados, por isso estamos esperando por eles.
—Ah, mas e nós? Não somos importantes? Tenho certeza que se eu chegasse 1 minutos atrasada seria impedida de entrar — eu já tinha perdido a cabeça. Meu pai vai chegar no aeroporto e vai ter que ficar esperando por muito tempo por causa dessas pessoas "importantes". Aposto que é alguém famoso.
—Claro que são, senhorita. Perdão, mas nós realmente não podemos levantar voo sem essas pessoas — Grrrr, isso só pode ser brincadeira. Saio de perto da mulher e vou até o banheiro dar um jeito na minha cara, que devia estar inchada por conta do choro de mais cedo. Volto para o meu lugar e pego um livro na minha mochila para me distrair. Checo o relógio mais uma vez e vejo que estamos 2h15min atrasados. Se essas pessoas chegarem, vou matar cada uma delas com esse livro. Quando me concentrei na história, ouço várias vozes falando alto em coreano. Sinto que alguém sentou do meu lado. Não acredito! Os atrasados vão sentar logo do meu lado?! Decido nem olhar pra eles, só continuo com meu olhar fixo na janela do avião. Ouço a voz do piloto finalmente anunciar a decolagem e agarro o encosto do banco; voar me deixa meio tensa. Enquanto rezava um "Pai Nosso", sinto uma mão esbarrar na minha. Retiro-a rapidamente e finalmente olho para a pessoa próxima a mim.
Meu. Deus. Do. Céu.
Tento controlar minhas expressões faciais e quase falho. O atrasado, meu vizinho de poltrona, a pessoa com quem eu passaria as próximas 24h era o Jimin. O JIMIN. O JIMIN DO BTS. O bias da minha melhor amiga. Eu tinha que falar com a Carol imediatamente, mas não podia usar o celular. Bom, eu sabia que se eu fizesse um escândalo eles iriam mudar de lugar e eu também não tinha motivos pra ficar nervosa, já que eu nem era fã deles, então só dei uma olhada fingindo que procurava alguma coisa no chão. Caraca, do lado dele estava o Rap Monster. Jesus, como isso foi acontecer logo comigo? Acho que Jimin percebeu que eu buscava alguma coisa, porque ele falou (em coreano):
—Você perdeu alguma coisa? Precisa de ajuda? — ainda bem que minha mãe me ensinou o básico da língua ou eu estaria ainda mais perdida. Cara, é o Jimin que está falando comigo! Você tem noção do que é isso?
—N-Não, obrigada — eu respondi, meio nervosa. Socorro, eu preciso me acalmar. Jimin sorri e se vira para o amigo do lado. Eles começam a conversar muito rápido sobre alguma coisa relacionada a cadernos (?) e eu voltei minha atenção para o Rio de Janeiro, que cada vez ficava menor e mais distante. De repente, meu coração apertou mais uma vez e eu desatei em lágrimas. Como eu viveria sem meus amigos, minha família, sem o Leo? Eu não podia fazer isso. Eu precisava voltar, sair rápido desse avião. Comecei a entrar em pânico e senti minha asma atacando. Tentei pegar minha bombinha, mas não conseguia me mexer direito. Parecia que meus pulmões estavam se contraindo, se preparando para uma explosão. Enquanto a sensação de sufoco foi ficando mais fortes, minha vista foi ficando mais escura. Acho que em algum momento em caí no chão, nos pés dos meninos, porque a última coisa que me lembro era um tênis branco.
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—Jimin, deixa a aeromoça fazer isso! Sai de cima da garota! — ouço uma voz doce dizer. Não consegui reconhecer quem falava, mas a voz me parecia familiar. Eu tentava abrir os olhos mas não conseguia, estava muito fraca para isso. Senti algo sendo posto em meu rosto, mas logo depois meus sentidos falharam de novo.
—Aish, será que ela está morta?
—Não, ela só está desmaiada. Consigo sentir a pulsação dela.
Alguém agarrou minha mão e começou a fazer carinho nela. Abro os olhos lentamente e vejo que era Jimin. Não conseguia me levantar de jeito nenhum e as pessoas pareciam não notar que eu estava acordada. Tentei mais uma vez sair do chão e com o impulso,bati minha cabeça muito forte na pessoa que estava sobre mim. Jimin solta um gemido de dor e os outros passageiros, acompanhados da aeromoça de antes soltam exclamações de alívio.
—Ah, ela está bem!
Coro violentamente ao perceber todos os olhares em mim. Um homem de meia idade me ajuda a me levantar e sou acomodada mais uma vez em meu assento.
—Como se sente? Você desmaiou e caiu no chão...
—Me-me desculpe. Eu estou bem, só preciso da minha bombinha de asma — comecei a sentir minha garganta se fechando novamente — es-está na minha bolsa, no bolso de fora.
Um menino, que parecia muito o Jungkook, mexeu na minha bolsa e me entregou o nebulímetro. Agradeci com um sorriso fechado e um meneio de cabeça. Um menino muito bonito me passou uma garrafinha de água e eu me sentia muito constrangida de estar recebendo toda aquela atenção. Pera aí, aquele é o Jin?! Enquanto me acalmo, os passageiros voltam aos seus lugares e eventualmente, Jimin também.
—Você está bem mesmo? Precisa de alguma coisa? — ele me perguntou. Fiquei corada mais uma vez e Rap Monster percebeu.
—Não, não, obrigada mesmo. Aliás, obrigada por me ajudar enquanto eu estava desmaiada — caramba, eu to conversando com o Jimin! Sinto que errei alguma palavra, porque os dois me olham com uma cara engraçada e começam a conversar em um coreano muito rápido, que eu não consigo entender.
—Então, o que você veio fazer no Brasil? — Rap Monster perguntou. Aaaaaaah, eles estava puxando assunto comigo!
—Ah, eu sou brasileira...
—Brasileira?! Uau, nunca desconfiaria — Jimin respondeu, apontando com o queixo para o meu rosto. Ah, claro, meus traços asiáticos.
—Meus pais são coreanos, mas eu nasci aqui mesmo no Brasil.
—E o que você está indo fazer na Coreia?
—Estou me mudando pra lá, agora. Vou morar com meu pai e meu irmão em Seul.
—Uh, nós também moramos em Seul — Rap Monster me olhou com uma expressão de presunção, como se eu obviamente já soubesse disso. Tudo bem, eu já sabia, mas eu não ia admitir que conhecia eles e que tinha, inclusive, ido em seu último show.
—Legal! Vocês trabalham com o quê? — perguntei inocentemente, mesmo já sabendo a resposta. Os dois meninos se olharam e deram um sorrisinho. Ouvi Jimin sussurrar rápido na orelha do outro "Ela não nos conhece mesmo!" e depois se virar pra mim com uma cara muito mais simpática que antes.
—A gente dança e estuda artes — e nossa conversa foi fluindo. O jantar veio e continuamos conversando. Rap Monster começou a assistir o filme que estava sendo transmitido, mas Jimin e eu estávamos tão envolvidos no assunto que nem ligamos. Em algum ponto, as luzes se apagaram e percebemos que a maioria das pessoas já estava dormindo.
—Acho melhor a gente também ir dormir... — eu sussurrei para ele.
—Não, é só a gente falar bem baixinho — ele respondeu. Nós dois começamos a rir e alguém chutou seu banco.
—Jimin, cala a boca e vai dormir. Depois você continua dando em cima da garota — alguém com uma voz bonitinha falou. Ainda bem que estava escuro, ou ele veria o quão vermelha eu fiquei.
—Cala a boca, Tae — ai meu Deus, que vergonha. Kim Taehyung estava logo atrás de mim e eu não percebi! Acho que eu estava muito concentrada no Jimin para perceber qualquer coisa.
—Não liga pra ele. Ele só está com inveja mesmo — Jimin falou se virando para mim de novo. Ele começou a se aproximar de meu rosto e eu me virei rapidamente. Senhor, o que tá acontecendo aqui?
—Ah, eu acho que vou dormir também... — respondi, claramente envergonhada. Acho que ele percebeu, porque não fez nenhuma objeção.
—Tudo bem, — e então sussurrou no meu ouvido — mas sonhe comigo.
Me virei para a janela, tentando esconder um sorriso. Meu Deus, ele realmente estava dando em cima de mim? Acabei adormecendo enquanto me perdia em pensamentos.
Acordei com o barulho de uma câmera e um flash no meu rosto. Fiquei meio desnorteada, mas logo percebi duas coisas. Número um: Jimin tinha adormecido no meu ombro e estava agarrado ao meu braço; número dois: Suga e Jin estavam ajoelhados nas poltronas da frente tirando uma foto minha e do Jimin. Ah, sem problema, dois k-idols estavam zoando outro idol que estava dormindo em mim. Normal. Mais uma vez morrendo de vergonha, eu tento me desvencilhar de Jimin, mas ele não se movia de jeito nenhum. Suga percebe que eu estou acordada:
—Ei, você quer que a gente acorde ele pra você?
—Hã, não, não precisa acor...
—ACORDA, CHIM!
Jimin desperta num pulo e percebe que estava deitado em mim. Ele também fica corado e começa a pedir desculpas.
—Não, está tudo bem. Não precisa se desculpar... — ele pede desculpas mais uma vez e se levanta. Assim que ele saiu, Rap Monster troca de poltronas e começa a conversar comigo. Ele realmente é muito inteligente. O dia dentro do avião corre sem nenhum problema. Interagindo com os outros membros, "descubro" que todos são coreanos e que estavam no Brasil para fazerem uma apresentação. Brincamos das coisas mais loucas para matar o tédio e eu inocentemente peço uma selfie com eles, para me lembrar dos "meus amigos do avião"; eles se entreolharam com caras desconfiadas, mas Jimin deu de ombros e pegou meu celular. Legal, agora eu posso mostrar pras meninas que eles realmente estavam no mesmo avião que eu. Me senti um pouco mal de mentir para eles, mas não queria criar uma situação desconfortável. Todos são muito divertidos e o tempo voa tão rápido que só percebo que já estava escuro quando o piloto anuncia que já estávamos sobrevoando Seul e que deveríamos desligar nossos telefones e nos preparar para a aterrissagem. Começo a tremer de nervosismo, tanto pelo pouso como pela ansiedade de encontrar minha família e viver na Coreia. Acho que Jimin percebeu que eu tremia, pois agarrou minha mão e fez carinho nela com o polegar. Sorrio para mim mesma com o gesto e tento me acalmar.
A descida ocorre bem (na medida do possível) e eu me preparo para sair do avião.
—Meninos, foi um prazer viajar com vocês. Podemos manter contato? — pergunto esperançosa, mas fingindo estar normal.
—Hã, não sei se essa é uma boa ideia... — Rap Monster pondera. É claro que ele deve estar receoso de seus números serem divulgados, mas eu também não sou maluca de fazer isso.
—Para de drama, Namjoon — Jimin fala e pega meu pulso, escrevendo alguns números com uma caneta permanente — tá aqui meu número. Pode ligar quando quiser — ele deu uma piscadela pra mim ao falar e eu fiquei vermelha mais uma vez (eu preciso aprender a controlar minhas expressões!). Me despeço deles mais uma vez e saio para o portão de desembarque. O frio congelante é a primeira coisa que percebo e o medo de não encontrar meu pai me atinge mais uma vez. Pego minhas malas e percebo uma multidão de meninas na porta do aeroporto. Army's, com certeza. Enquanto encarava as garotas, sinto duas mãos frias tapando meus olhos.
—Sentiu minha falta, maninha?
Kwan!
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