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5 Cap 5 - Como nunca notei você?
Notas iniciais
Passei boa parte do domingo no meu quarto, não tinha a menor vontade de sair da cama. De manhã só sai pra tomar café e depois voltei, almocei e voltei, estava naqueles dias em que a morte do meu pai me abalava mais do que o necessário. Eu acho que só preciso de um banho e isso melhora um pouco, nada melhor do que um banho relaxante.
E foi o que eu fiz, tomei um longo banho, por algum motivo a água quente tem um efeito calmante incrível, mas isso não é motivo pra acabar com a água do planeta, então eu desliguei o chuveiro e passei a me secar. Parei por um momento nas pernas, na quase cicatriz que tinha ali na verdade, na minha coxa direita tinha um rasgo um pouco profundo, tinha mais ou menos 2 dedos, estava até cicatrizando bem, já conseguia andar sem mancar. Ganhei ela no acidente que matou meu pai, quem diria que uma chave poderia causar tanto estrago? Pelo menos era quase no começo da coxa e ninguém, tirando meus amigos, sabia sobre ela.
Um barulho vindo da minha barriga me fez sair do transe que eu estava a sei lá quanto tempo. Acabei de me secar e coloquei o shorts do pijama e uma blusinha solta, fiz um coque rápido e então eu segui em direção da cozinha pra fazer um lanche. A casa estava quieta, devido ao fato de todos terem saído pra jantar, tinha algo a ver com o aniversario de namoro deles, e eu nunca sabia da Rachel, então não fazia diferença.
O que eu faria? Nunca fui boa na cozinha, sempre tivemos problemas uma com a outra, eu não conseguia trabalhar com ela, mas fazer um lanche sem muito enfeite eu conseguia. Peguei o pão, queijo, tomate, manteiga, azeitona, só faltava uma coisa orégano e pronto, mas onde será que ele estava?
– Se eu fosse um orégano onde eu estaria? – Falei sozinha enquanto começava a olhar no armário em cima da pia.
– Falar sozinha é um dos primeiros sinais de loucura, sabia disso? – Uma voz rouca falou atrás de mim, me fazendo pular e levar a mão ao peito.
– Acho que tenho essa noção, mas não ligo muito. O que faz aqui em casa Santana? –
Perguntei mais calma olhando pra ela.
Ela deu um sorriso torto e foi em direção a geladeira, pegou a garrafa de água e veio pra perto de mim, abriu um armário e pegou um copo, encheu o copo e guardou a garrafa na geladeira mais uma vez, tudo em silencio e com o sorriso no rosto.
– Eu estava vendo filme com a Rachel, ela dormiu e eu fiquei com fome. – Ela parecia diferente, mais calada, isso é estranho.
– Se quiser eu faço um lanche pra você também, não me importo. – Falei encostada na pia, com um sorriso calmo no rosto.
– Você vai tentar me envenenar? Porque eu só pareço idiota. – Ela disse desconfiada me olhando sério.
– Acha que sou tão vaca assim? Por favor, se vai começar a me irritar nem tente, hoje não é um bom dia. – Disse chateada voltando a procura do condimento.
– Só estava brincando com você, nojenta. O que está procurando? Vai acabar quebrando alguma coisa antes de achar. – Santana chegou mais perto de onde eu estava e ficou esperando a minha resposta.
– Você não deve saber onde está o que eu quero. – Nem me dei ao trabalho de olhar pra ela enquanto respondia.
– Tente.
– Orégano. – Disse abrindo outro armário e nada de achar o bendito. Ela foi pra perto da janela, abriu o armário e tirou um pequeno pote de dentro. Não acredito que ela achou fácil assim, cozinha traidora.
Ela veio pra perto de mim e me estendeu o potinho com um sorriso convencido, muito bonito por sinal. Lhe dei um sorrisinho de canto enquanto pegava o potinho. Santana se sentou na pequena bancada e passou a me olhar atentamente, ela realmente acha que eu ia envenená-la? Garota paranóica. Eu sentia seus olhos sobre mim, notando qualquer movimento que eu fazia, com o canto do olho notei ela secando as minhas pernas, mais precisamente a direita, espero que ela não veja o corte.
– Hoje é o dia? – Ela quebrou o silêncio dessa vez olhando nos meus olhos.
– Dia do que? – Olhei pra ela que parecia abalada, com um olhar vago.
– Do aniversario. – Só então eu entendi. Olhar vago e triste, o abalo, o modo de falar. Ela se referia a morte do meu pai.
– Não, é no final do mês. – Respondi olhando em seus olhos que agora estavam tristes.
– Dos meus é hoje. – Ela disse sem muita emoção, mesmo que anos tivessem se passado ela parecia ainda parecia sentir pela morte deles. Não posso imaginar como deve ser pra ela.
– Sinto muito.
– Tudo bem, já faz tempo. Eu vou visitar sempre que posso, o que não é muito, mas mato a saudade. Deve me achar uma idiota por ainda ficar abalada depois de tantos anos, não é? – Seu sorriso era triste, mas continuava lindo. Britt qual o seu problema garota? Ela é uma vadia. Mas uma vadia muito linda.
– Claro que não, afinal eu me sinto assim também. – Disse enquanto colocava os lanches pra esquentar, nada melhor pra se consolar do que queijo quente e uma xícara de chá.
– Mas você ainda tem sua mãe, querendo ou não é diferente. – Santana agora tinha a cabeça apoiada em sua mão direita e olhava tristemente pra mim.
– Você tem suas irmãs Santana, eu não. – Ela me olhou estranho – Não que eu não considere a Rachel, mas eu nem a conheço e ela quase não fala comigo. Assim fica difícil não acha?
– Concordo que a Rachel não seja um exemplo de irmã dedicada, mas ela ao menos se importa com você. – Ela agora empurrava a cadeira pra eu me sentar ao seu lado – A Quinn não ta nem ai pra mim, acho que ela nem me queria por perto, a Charlie de uns tempos pra cá me olha estranho, então não vejo diferença entre ter ou não irmãos.
– Eu vejo. – Ela me olha um pouco confusa — Em NY eu tenho vários irmãos, mesmo não sendo de sangue eles se importam comigo e eu com eles, isso que importa não é? O amor que sentimos?
– Talvez, mas amigos não são um luxo que eu tenho.
– Impossível, todos tem amigos. Admita que eu estou certa. – Disse de um jeito brincalhão.
– Talvez – Santana tentava segurar o sorriso, mas era em vão.
– Sabe que vou te irritar até admitir, vamos não é tão difícil.
– Ok ok, talvez você esteja certa. Agora você para de falar? – Acho que fiquei muito boba com o sorriso lindo que ela me deu, como eu nunca reparei nele antes? Deve ser porque ela é uma mal humorada.
– Lindo
– O que é lindo? – Ela pergunta desconfiada
– O que? Nada. – Se livra dessa agora Britt, quero ver.
– Fala logo Brittany, o que é lindo? – Ótimo, agora ela ta mal humorada, nem isso vai me fazer dizer.
– Era seu sorriso, — Boca traidora – mas seu mau humor já acabou com ele.
– Você está falando por falar, não tem nada demais nele. – Santana começava a ficar vermelha, mesmo ela sendo mais morena.
– Não, ele é diferente, se você deixasse o mau humor em casa e sorrisse garanto que teria mais amigos.
– Está me elogiando? – Ela disse divertida
– Talvez, depende. – Disse me levantando pra pegar nossos lanches.
– Depende do que? – Sentia seus olhos me observando, e essa sensação era diferente de tudo que eu já tinha sentido.
– Hipoteticamente falando, vai ficar brava se eu falar sim? – Eu voltava a me sentar ao seu lado com nossos lanches
– Hipoteticamente falando, não. – Ela se levantou e foi em direção a geladeira, tirando um suco de laranja de lá, logo depois pegou dois copos e voltou a se sentar.
– Nesse caso hipotético, sim, estou te elogiando. – Santana me servia suco, notei como seus movimentos são tão delicados e graciosos.
– Sabia que sim, você não consegue mentir. – Ela ria de forma tão descontraída, isso a deixava ainda mais linda.
O clima era totalmente descontraído, falávamos sobre tudo sem medo da outra nos julgar, nunca vi Santana sorrir tanto quanto agora, acho que essa conversa fez bem pra ela e pra mim também, dias assim sempre foram difíceis, ninguém me colocava pra cima tão fácil como ela fez, o que será que isso significa? Já tínhamos acabado de comer há muito tempo, mas parece que não existia explicação para ficar a vontade ao lado dela e conversar como boas amigas, mesmo ela tendo sido uma bruta quando nos conhecemos.
– Nossa, olha a hora. Eu tenho que ir, já está tarde. – Ela se levantou e colocou a louça suja na pia.
– Não precisa ir, ainda é cedo – Nossa Britt, não pareça uma desesperada.
– É quase meia noite Britt-Britt. – Santana disse divertida e só depois que reparou na minha cara de espanto se tocou que me chamou por um apelido. – Eu não queria parecer tão intima assim, me desculpa.
– É bem tarde mesmo. – Não sabia explicar o que era o sentimento de ter Santana me chamando por um apelido de forma tão carinhosa. – Pra provar que ta tudo bem, eu te levo em casa.
– Não precisa, de verdade, não vou te fazer sair de casa a essa hora, e são só três quadras. – Ela já foi se levantando e saindo da cozinha, tive que ser rápida e segurar seu braço a trazendo pra perto.
– É perigoso andar sozinha há essa hora, não aceito não como resposta. – Eu disse olhando naqueles olhos escuros penetrantes, eu poderia me perder naqueles olhos sem problemas.
– Você é uma chata, não sei como consegui te aturar por tantas horas. – Santana dizia olhando nos meus olhos e rindo um pouco.
– Eu sou mesmo, com orgulho. – Disse rindo também e logo me afastando dela, admito que senti falta do calor dela. – Só me dá um tempo pra colocar uma roupa mais apresentável.
Devo ter demorado uns 2 minutos pra subir, pegar uma calça jeans, um documento e meu celular. Quando desci as escadas e ela estava parada no mesmo lugar, só que agora segurava uma jaqueta preta.
– Pegou tudo o que queria?
– Acho que sim, mas ainda digo que não precisa ir comigo, posso ir sozinha. – Depois de uma noite conversando com Santana notei que ela é muito cabeça dura e teimosa.
– Já disse que vou te levar e ponto final. – Eu também sei ser cabeça dura quando quero Santana.
Ela se deu por vencida e abriu a porta saindo rápido de casa, só peguei a chave e sai atrás dela. Ao contrario de como estávamos na cozinha, muito falantes, agora estávamos quietas, só aproveitando a companhia uma da outra. Eu até tentei puxar uma conversa com ela, mas apenas o necessário saia de sua boca.
– Chegamos. – Santana parava em frente a uma casa muito bonita, com janelas azuis muito simpáticas.
– Foi mais rápido do que eu pensei. – Eu queria ter passado mais tempo com ela, o quanto isso era estranho?
– Eu avisei, agora vou ficar preocupada por você ter que voltar sozinha. – Ela foi caminhando até a porta e eu a segui logo atrás.
– Valeu o passeio e ficar mais tempo perto de você. – Qual seu problema Britt? Ela vai rir da sua cara.
– Imagino que sim. – Ela se virou na minha direção e abriu aquele sorriso lindo. – Te convidaria pra entrar, mas todos já devem estar dormindo.
– Não se preocupe com isso, é melhor eu voltar mesmo.
– Talvez seja melhor mesmo. – Ela se aproximou um pouco mais de mim. — Obrigada
– Pelo que? – Perguntei sem entender.
– Por me ajudar hoje, acho que fiquei bem considerando a data. – Ela olhou pra baixo sem graça.
– Querendo ou não estou passando pela mesma coisa. – Coloquei uma mecha do cabelo dela atrás da orelha.
– Eu fui uma idiota com você desde que te conheci.
– Às vezes as pessoas só precisam de uma chance. – Disse enquanto me aproximava dela, e ela se aproximava de mim. Nossas respirações já estavam misturadas e pesadas, nossas bocas quase se encostando quando um barulho de moto e um farol fizeram com que nos afastássemos e Santana abaixou a cabeça.
– Britt, o que faz aqui a essa hora? Tá tudo bem? – Charlie se aproximava com uma sacola na mão e as chaves.
– Só vim trazer a Sant em casa. Não achei seguro ela vir sozinha. – Disse olhando pra Charlie com um sorriso de canto.
– E a Rachel? – Ela agora olhava pra Santana com desconfiança.
– Ela ficou dormindo, não achei que seria uma boa namorada se a acordasse só pra me trazer em casa. – Santana olhava desafiadoramente pra Charlie.
– Eu já vou indo, já que está bem em casa. Até mais. – Falei dando um beijo na bochecha de Santana e andando até a rua.
– Até loira. – Ela disse ainda da porta, pude ouvir passos atrás de mim então me virei pra encontrar os lindos olhos de Charlie.
– Britt, espera. Isso foi um modo de dizer que vai me ajudar? – Seu olhar transbordava esperança.
– Talvez Charlie, ainda não gosto dessa ideia. – Mesmo querendo Santana pra mim
– Você tem até amanhã, posso esperar. – Ela foi se afastando de mim e quando chegou perto do portão voltou a se virar. – Só não esqueça que a Santana não gosta tanto da Rachel assim.
– Como pode ter certeza? – Se eu não soubesse do plano acharia as duas muito apaixonadas.
– Porque a San não olha pra Rach do mesmo jeito que olhou pra você. – Dito isso ela voltou a caminhar para dentro de casa e eu voltei a andar em direção a minha.
É estranho como uma noite pode mudar tudo.
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