Blank Space
2 Nobody's Home
Notas iniciais
Blank Space — Capítulo II
Nobody's Home
"I just watched her make the same mistakes again
What's wrong, what's wrong now?
Too many, too many problem"
(Avril Lavigne)
*_*_*
O Natal em Londres poderia ser definido como adorável por muitos bruxos, mas para mim, naquela altura da minha vida, não conseguia mais enxergar a beleza da data. Comecei apenas a ver tudo aquilo apenas como um incentivo ao consumismo.
Durante aquela manhã fria de Dezembro, incrivelmente, acordei sem qualquer resquício de ressaca, eu não conseguia me lembrar da última vez que tinha conseguido passar por uma noite sem precisar de uma bebida forte, então me senti orgulhosa.
Nem bem acordara, e uma coruja cinza me encarava da janela. Demorei alguns segundos para me levantar e retirar o pequeno bilhete preso à sua pata, nem bem havia desamarrado o laço do fino barbante, e a coruja alçara vôo.
O bilhete não continha nada mais que um endereço e um horário, mas, mesmo assim, eu reconhecia aquela caligrafia tanto quanto as iniciais desenhadas elegantemente no canto do papel creme.
Repentinamente, a dor de cabeça viera me abraçar, como se avisando o que estava por vir. Desta vez, as náuseas que eu sentia eu tinha certeza não ser culpa de uma dose de Whisky de fogo, apesar de saber que iria precisar de uma em breve.
Isso se eu quisesse aguentar um encontro com minha mãe.
***
A Magic Cakes, uma confeitaria elegante construída em meio ao caos do beco diagonal, destoava um pouco de toda aquela agitação. Pelo vidro eu conseguia observar as diversas bruxas de nariz empindo bebericando suas xícaras de chá e beliscando seus bolinhos de abóbora. Bem próxima a uma das janelas, com toda a sua elegância, estava a razão pela qual eu necessitaria de uma poção anti-stress mais tarde.
O salto das minhas botas de couro faziam um barulho irritante no chão meticulosamente limpo da confeitaria. Algumas cabeças viraram-se em minha direção, como se questionando silenciosamente quem ousara perturbar suas vidas perfeitas.
Brindei uma senhora com um sorriso irônico de desculpas e logo puxei a cadeira em frente a mulher que me dera a vida.
Seu olhar era avaliativo. Passava por meu sobretudo, caindo sobre as botas de salto e demorando-se em minhas unhas coloridas de um vermelho tão intenso quanto meu batom. Eu podia ver sua boca entortar-se e emitir um som de desaprovação pelas ondas ferozes de meu cabelo.
_Quer reclamar da minha escolha de roupas agora ou prefere esperar? — Perguntei não aguentando mais ter seu olhar avaliativo sobre mim.
_Não vim até aqui para me estressar com essas questões triviais. — Respondeu, enquanto adoçava seu chá. — Sua maquiagem mal feita é a última coisa que me interessaria neste instante, Astória.
Girei os olhos. Como alguém conseguia ser tão mesquinha e irritante? A possibilidade de eu ter qualquer ligação sanguínea com a mulher à minha frente, me causava risos.
Observei ela molhar os lábios no líquido fumegante de sua xícara. Seu nariz torceu-se em reprovação, como sempre ocorria quando dirigia seus olhos em minha direção, e, por fim, adicionou mais algumas gotas do adoçante em sua bebida.
Eu não pude deixar de reparar no contraste entre eu e ela. Suas roupas de madame em tons claros e corte sofisticado era ago que eu não sentia em meu corpo há muito tempo. Suas unhas eram curtas e bem cuidadas, assim como os cabelos loiros, presos em um coque firme no topo da cabeça.
_Ás vezes penso que fui adotada. — Comentei. — Seria a única explicação lógica para dizer os motivos de eu estar nesta família.
_Ora, Astória. Não seja ridícula. — Respondeu em seu usual tom de reprovação. — Isso é apenas culpa do alcoolismo, herdado da família de seu pai, tenho certeza. — Sutil, pensei. — Mas não é para falar de seus problemas com bebida que eu estou aqui.
Percebi como suas mãos tremiam levemente ao retirar um envelope dourado de sua bolsinha. Ela depositou-o sobre a mesa, empurrando-o em minha direção e retirando a mão rapidamente.
Segurei o envelope com as sobrancelhas franzidas em desconfiança. Eu teria me engasgado e surtado quando meus olhos decifraram a combinação de letras formando um convite, mas as inúmeras aulas de etiqueta que minha mãe me obrigava a frequentar, me concederam a dádiva de saber controlar reações exageradas.
Em um único movimento, meu dedos partiram o envelope em dois pedaços inúteis de papel, sem qualquer significado. Meus olhos tornaram-se tão frios quanto a indiferença que minha mãe carregava em seu peito. Apenas movi meus lábios para proferir:
_Isso é loucura.
_Não vejo como isso pode ser loucura, Astória. Sou uma mulher solteira.
_Sim! — Eu disse em um sussurro indignado. — Realmente, mãe. A senhora é solteira, e um casamento não seria problema se os papéis não tivessem sido assinado há menos de duas semanas. Já imaginou como ficará o papai quando descobrir isso?
_Ora, não me venha com este falso sentimentalismo. — Ela disse sem alterar sua postura. — Seu pai é um homem crescido, deve aguentar suas próprias consequências.
_Consequências dele?! — Neste momento eu já não me importava com o tom de minha voz, tanto que algumas senhoras de mesas próximas viraram seus pescoços curiosos na direção de nossa pequena discussão. — Como se não bastasse tê-lo traído, ainda me vem com essa. Você não presta, mãe.
E, mais uma vez, lá estava ela torcendo aquele nariz em desagrado às minhas atitudes, ao modo como eu me dirigia à ela. Mas no fundo ela sabia que eu estava certa, ela sabia que suas atitudes eram precipitadas. Tanto que notei o relance de um brilho de tristeza em seus olhos, tão iguais ao meu.
_Você não sabe nem da metade. — Ela disse com a voz baixa e uma expressão distante, como se estivesse mergulhando em lembranças de seu passado. Aprumou-se para completar: — Eu escondi muita coisa de você e de sua irmã, nunca quis vê-las sofrendo e desmanchando a imagem que vocês tem de seu pai. Principalmente você, Astória. Não quero que você me julgue antes de saber de todos os fatos.
_E porque não me fala então?
Ela sorriu triste.
_Ainda não é a hora, minha pequena.
E, depositando um galeão sobre a mesa, levantou-se deixando o estabelecimento. Observei seu corpo mover-se elegantemente para longe. Eu estava atordoada, admito.
Apenas restava descobrir se pelo perfume enjoativo das senhoras que me cercavam, ou se pelas últimas palavras de minha mãe.
***
Fazia algum tempo que eu não transpassava os portões de ferro que se erguiam à minha frente. O vasto jardim, já não tão bem cuidado quanto eu me lembrava, abrigava a enorme casa que eu tanto me lembrava.
Por um segundo me senti afetada pelas lembranças que insistiam em tomar minha mente. Muitas das quais envolviam um casal, aparentemente, feliz e duas crianças, tão opostas quando as extremidades de um imã.
Eu lembrava de sentir inveja de minha irmã e seu cabelo liso e esvoaçante, tão claro e brilhante quanto um galeão recém retirado de um dos inúmeros cofres que possuíamos em Gringotes.
Dafne tinha, de certa forma, uma aura encantadora. Ela sabia conseguir o que queria com apenas um de seus sorrisos de dentes perfeitos e um balançar das pestanas que cobriam seus olhos, tão azuis quanto o céu de verão.
Mas agora não havia Dafne.
Na verdade, senti falta de sua presença cheia de si ao meu lado. Éramos irmãs afinal. A sua presença era de certa forma importante para o que eu tinha que encarar neste momento.
Eu conseguia ouvir com perfeição sua voz melodiosa proferindo um sonoro “Engula o choro e encare isso, Astória”, como sempre fazia ao me encorajar a enfrentar qualquer coisa que me deixasse temerosa.
Era como a sua maneira peculiar de desejar boa sorte.
Deixando minhas preocupações de lado, minhas mãos empurraram o pesado portão de ferro. Eu prestei atenção em cada passo que dava no caminho de pedras jardim a dentro. Minha respiração estava levemente alterada quando os nós de meus dedos foram de encontro à porta.
Uma, duas, três batidas e nada.
Apenas silêncio.
Arisquei-me a girar a maçaneta, não me surpreendendo quando a porta cedeu. É nessa hora que a mocinha morre, pensei. Mas eu nunca fora a personagem principal na história de ninguém, então deixei de me preocupar.
A sala estava encoberta pela completa escuridão. Abri as cortinas antes de arriscar subir as escadas. A casa parecia abandonada. Durante a subida tive que desviar de roupas jogadas e algumas garrafas de Fire Whisky. Tive medo do que encontraria no andar superior. E logo descobri que eu tinha uma razão concreta para isso.
Quando ultrapassei o último degrau, a penumbra novamente tomou conta do lugar. Dessa vez não havia janelas próximas, apenas aquele corredor tão familiar.
Aproximei-me daquela porta tão conhecida e, sem bater, abri devagar.
Lembranças de um quarto amplo e arejado, imaculadamente limpo, saíram de minha mente com a mesma força que viera. Aquele cômodo, alvo de tanto orgulho de minha mãe, encontrava-se à beira da decadência.
O cheiro era de algo em decomposição misturado à álcool barato, tão familiar durante diversas noites para mim. Roupas fundiam-se com bitucas de cigarro e mais garrafas.
Ao centro, na cama de dossel, encontrava-se aquele que eu tanto aprendi a admirar. Mesmo com sua presença há alguns metros, senti como como se não tivesse ninguém em casa.
Hesitei por dois minutos antes de ir acordar meu pai.
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