Blake Farley - Ardens
1 Introdução
5:45 da manhã. Meus olhos estão vidrados no teto, observo os encanamentos que estão sob minha cabeça desde a hora que decidi deitar. Moramos em um cubículo minúsculo, apenas um colchão para três pessoas e um pequeno vaso sanitário. Mãe e Ben se espremem no colchão de uma forma totalmente desconfortável, eu fico com o chão, é sujo e frio, mas não é tão ruim quando você se acostuma. Em alguns minutos o despertador irá tocar, nós vamos nos preparar para a única refeição do dia, e nos designaremos para nossos deveres.
Cúpula. É o nome que damos a isso que chamamos de lar, desde que a guerra destruiu o mundo lá de cima, moramos aqui em baixo, sobraram poucos de nós, quinhentas pessoas dividem um espaço que seria um refúgio nuclear para cem pessoas. Os recursos são escassos e muito bem controlados, água, comida e energia são luxos que não podemos ter. Nosso líder se chama Paul, ele é um dos poucos militares que sobraram, seu papel é manter a ordem e cuidar para que todos os recursos sejam utilizados de forma sustentável, isso funcionou por sete anos, mas todos sabem que nosso tempo está esgotando.
Ninguém nunca subiu até superfície, dizem que tudo está destruído e que a radiação nos mataria instantaneamente. O meu irmão, Benjamin, tem cinco anos e ele nunca viu o sol, uma flor, muito menos sabe o que são animais, as minhas lembranças são vagas sobre essas coisas, mas eu lembro das bombas, eu lembro do fim, está aí algo que queria esquecer. O sofrimento, a dor, as bombas, a morte, me impedem de dormir a noite, fazem da minha mente um campo de batalha todos os dias.
6:00. O despertador grita aos nossos ouvidos. Minha mãe levanta num pulo, eu continuo deitado. Benjamin ainda sonolento calça os sapatos lentamente, minha mãe amarra o cabelo e coloca Ben nos braços e se dirige a porta.
- Não demore, tá? — ela fala com a voz rouca — ou vai perder o café da manhã.
- Não vou demorar — ela sorri e sai do quarto.
*
Chego no refeitório vinte minutos antes de acabar o horário. Pego minha caixa do dia e sento perto do Ted e da Ellen. Eu e o Ted somos amigos de infância, nossos pais eram amigos por que trabalhavam na mesma divisão do exercito. Seu cabelo está bagunçado e ele come como se não houvesse amanhã e talvez não haja. Ellen é dois anos mais nova que a gente, ela veio junto com seus irmãos, um deles era da força aérea, ele foi ferido durante a guerra, por isso ela está aqui. Seu cabelo tem um tom de vermelho incrivelmente lindo, sua pele é macia e para quem está numa situação como a nossa ela é muito bonita, ela arregala aqueles grandes olhos cinza para Ted e brinca:
- Devagar Ted, ou vai se engasgar.
Ele sorri e responde:
- É pecado estar faminto? Conhece alguém que não esteja?
- Bom, se não me engano se chama gula. – Eu respondo dando de ombros.
- Não é pecado quando se está faminto – Ted coloca mais uma colherada de sopa na boca, todos riem.
- Hoje estou na enfermaria.
- Estamos nos tuneis. – respondo rapidamente – O Paul precisa de pessoas para retirar umas pedras.
- Acho que chamaram os caras errados – Ellen ironiza e se levanta se despedindo.
- HAHAHA! Muito engraçado, cabelo de fogo. – Ela sorri e diz:
- A gente se vê, tchau.
- Tchau – respondemos em coro.
Ted e Eu continuamos conversando até as 7:30 quando o sinal de início de atividade encheu o ambiente de passos rápidos e sussurros. Está na hora de todos começarem seus deveres.
*
"Vamos garotos, puxem mais forte, parecem um bando de MARICAS, PUXEM!" O cara gordo com uma camiseta branca encardida, suja de terra é chefe dos túneis, estamos tentando desobstruir uma passagem de um túnel que o Paul acreditar ter água no fim.
- PUXEM!!! — Ele grita mais alto, até que as pedras começam a despencar, abrimos um pequeno buraco entre as pedras, o que seria o suficiente para uma pessoa passar. Paul estava colocando o guincho novamente entre as pedras quando, um dos soldados gritou ao longe.
- TENENTE PAUL! TENENTE PAUL! — o garoto estava muito nervoso, seu rosto estava vermelho e muito suado, acho que ele correu muito pra chegar até aqui.
- O que houve, Gunter? — Paul responde surpreso e vai de encontro ao rapaz, eles se afastam um pouco de nós para terem mais privacidade. Todos pararam e voltaram sua atenção para o soldado, até que o chefe grita "VOLTEM AO TRABALHO".
Puder notar mesmo de longe que seja lá o que aconteceu, não foi coisa boa, Paul coloca a mão na cabeça enquanto o garoto fala apressadamente a sua mensagem, e então eles saem do túnel correndo.
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