Notas iniciais
Corpos usados (pela vida) são vendidos num brechó qualquer.

Há cada três meses, no terceiro domingo de cada mês, acontece um brechó muito curioso numa cidade estranha. O brechó é realizado no cemitério. Vendem-se corpos.

A decisão da criação do brechó foi um consenso entre os moradores necrófilos e a prefeitura que não tinha mais espaço para armazenar o demasiado número de corpos dos habitantes no único cemitério da cidade.

Eram escolhidos alguns cadáveres que ainda estavam “inteiros” e quem os pegasse primeiro saia de lá com um morto. Alguns custavam mais, outros menos. Tudo dependia do tempo em que o mesmo ficou a 7 palmos da terra. Quanto mais fresco, mais caro.

Chegado o dia do tão esperado evento, os moradores se dirigem até o cemitério e analisam os corpos que sempre estão como vieram à vida: nus. Eles ficam dispostos sobre prateleiras de 3 divisões que suportam, respectivamente, 3 mortos. Uma jovem, aproximando-se da 1° prateleira, olhou no rosto de um cadáver irreconhecível pois sua cabeça estava muito queimada, assim como o seu tórax. Apesar disto, notou que ele possuía uma carne deveras viçosa e tinha um conteúdo bem satisfatório. Incentivada pelos seus desejos sexuais, pegou no pulso do moço e sacou sua carteira. Mas, para sua infelicidade, do outro lado da prateleira, uma mulher de idade avançada segurava o braço oposto do cadáver e já estava com duas notas de 500 euros na mão. Revolta, a jovem se dirigiu até a mulher e berrou:

–Este já é meu! Eu o vi primeiro. Largue-o!

A velha, voltando-se para a jovem:

–Olhe a minha idade! –e apontavam para as suas rugas- Eu tenho o direito de tê-lo porque eu tenho prioridade.

Puxando o braço do cadáver para si, a jovem apontava para os lados, dizendo:

–Pois olhe você para os lados e veja se aqui tem um caixa preferencial!! Eu tenho o mesmo direito que a senhora tem porque aqui, todos nós, somos iguais.

Depois de ouvir isso, a velha apelou:

–Eu troco o meu Adamastor pelo seu cadáver. Que tal?

Adamastor era o falecido marido dela e estava do seu lado, sentado sobre uma cadeira, amarrado por quatro cordas, duas nos ombros e duas nas pernas, com nós bem dados no suporte.

–Nada disso! Vá pra lá com este velhaco e me deixe cá com o meu queimadinho.

A outra conformou-se e sumiu pela névoa do cemitério.

Com algumas desavenças e até com algumas barganhas bem sucedidas o brechó ia seguindo, até o seu término... Depois de mais três meses, lá estariam aquelas mesmas pessoas naquele mesmo ambiente macabro, apoderando-se de coisas que antes tinham vida e que agora não passam de meros objetos inanimados que satisfazem tantos desejos... Não há nada de anormal nisso, uma vez que o amor é algo banal.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.