Blackbirds - Interativa
6 Kai Peters, Hylla Andrews, Alexander Kronemberguer e Madelline Williams
Notas iniciais
OH MY GOD WE'RE BACK AGAIN BROTHERS AND SISTERS EVERYBODY SING
HI PEOPLE ♥
Estou de volta!
Altas quebradas na minha vida gente. Acho que nesse período de tempo eu estuprei o canal do Cellbits, assisti todos os vídeos do Christian Figueiredo e passei mais tempo reclamando da vida no twitter. Fiz exames pra saber se não estou com nenhuma doença física, fiz terapia com psicólogos e sessão de hipnose (QUE É MUITO FODA E PRATICAMENTE ME DEVOLVEU A VIDA QUE A DEPRESSÃO TIROU), reli toda a saga de A Seleção, Maze Runner, Jogos Vorazes, Instrumentos Mortais, Percy Jackson e os Olimpianos e assisti todos os vídeos de Fall Out Boy. Ah, e tive que estudar pras provas finais. Em matemática podemos dizer que não deu muito certo.
Mas eu espero estar perdoada com esse capítulo extra grande!
Aliás, muito obrigada pelas MP's que mandaram perguntando se eu estava bem, significou muito pra mim saber que vcs vão atrás quando realmente gostam da história, vcs são adoráveis! Amo vcs ♥
P.S. Se alguma palavra do capítulo sair do contexto tipo palavras em inglês, saibam que meu belíssimo editor tá em inglês e eu não consigo colocar em português, e algumas palavras ele simplesmente edita pra uma coisa nunca vista na humanidade como "perguntou" para "hereunto" EU NÃO MEREÇO. Então se algo estiver errado sintam-se livres para me falar.
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Assim que se levantou, percebeu o quanto fazia frio. Ele jogou uma jaqueta sobre o corpo e saiu do quarto. Não encontrou ninguém além dos empregados no corredor, o que era bom. Talvez seu pai não tivesse chegado em casa ainda. Mas claro, sempre havia a chance do velho estar na sala falando com Dmitri.
Kai tinha 17 anos e era órfão de mãe. Certo, não exatamente. Ela não era sua mãe de verdade. Havia o criado desde bebê, mas era bem conhecido por qualquer um que ele não era filho biológico de Lara Nikova. Ela havia morrido quando ele tinha 10 anos, no parto da sua meia-irmã Adele. Adele tinha apenas 7 anos agora, e era uma menina extremamente doente. Nunca estava bem, e era cuidada por um time de médicos já que o próprio pai, Nicholas, nem ligava pra ela. Não que com ele fosse diferente. Kai era bem acostumado a surras frequentes, a obedecer ao pai. Ele sentia falta de Lara todos os dias. Se não fosse pelo tio, Dmitri, irmão de Lara, com certeza a vida seria insuportável. Mas Dmitri era muito ocupado, e dificilmente estava presente. Morava na mesma casa, mas a distância muitas vezes era gigante. E então ele tinha que aguentar o pai e seus joguinhos de dupla personalidade, e encarar a irmã quase morrendo. Mas se tinha algo bom nisso, com certeza era o fato do tio não ter filhos. Dmitri nunca teve filhos e o único herdeiro da família era Kai. Portanto sua vida não era um total desperdício. Com isso ele poderia contar pelo menos.
Quando chegou a sala de jantar, a mesa estava transbordando comida. Muito mais do que ele comia no café da manhã. Lógico que nem tudo era para ele. Muito do que saía desta mesa servia para alimentar a elite dos Nikova. Eles eram cerca de 20 agentes treinados pessoalmente por Nicholas, mas felizmente só havia ali na mesa cerca de 9. Kai se sentou entre eles tentando não chamar atenção. Geralmente isso não funcionava, mas desta vez os outros continuaram falando sobre qualquer assunto que realmente não interessava a Kai, então ele se serviu de pão e esfregou uma faca cheia de Nutella na fatia.
– Nikolai. — Seu pai chamou, sentando na mesa.
Infelizmente ele havia chegado. Ele sentou na cadeira que geralmente pertencia a Dmitri quando ele se dignava a aparecer. E isso era muito raro. Então frequentemente seu pai pegava o lugar de Dmitri.
– Pai. — Ele cumprimentou com um aceno de cabeça.
Alguns poderiam achar que era bom ser filho do segundo chefão, mas não era. Nicholas Peters era simplesmente o ser humano mais ridículo da face da terra, e Kai o odiava. Claro, não o bastante para poder fugir de casa, porque debaixo de todo o ódio, havia um grande respeito pelo pai, e respeito principalmente porque se Kai fugisse, era provável que Nicholas o perseguiria e o arrastaria de volta para casa.
– Dmitri está te esperando na estufa. — Nicholas comunicou. Havia algo no seu tom de voz. Algo que Kai viu que era nojo. Nicholas nunca gostou muito do cunhado Dmitri. E sabia que a relação de pai e filho que Kai e Dmitri tinham era melhor do que a dele com o menino. Mas ele nunca nem mesmo falara mal de Dmitri porque sabia que como não havia herdeiros nos negócios dos Nikova, tudo passaria para as mãos de Kai. Podia parecer que ele estava vendendo filho, e era exatamente o que ele estava fazendo. — Depois que conversar com ele, quero que venha até mim. E é melhor se apressar.
Kai engoliu o resto do pão e se levantou da mesa. Os 9 que se encontravam ali estavam rindo, parecendo muito felizes com o emprego de ratinhos de Nicholas, então Kai os deixou ali e andou até a estufa.
Assim que colocou os pés na grama, seu tio, Dmitri Nikova, veio para ele com os braços abertos em uma saudação.
– Ah. — Kai se sentiu desconfortável. Ele detestava que as pessoas o abraçassem. — Que felicidade é essa?
– Eu tenho ótimas novidades, Kai. — Dmitri sorriu.
– Que bom, estou precisando. — Ele sorriu ao ver a felicidade do tio. Era muito raro Dmitri estar sorrindo, ou até mesmo na Estufa. Ele dizia que a estufa lhe trazia más lembranças. Fora ali que Rebecca, mãe de Dmitri havia morrido. Ele era uma criança, três anos, mas ouvira as histórias. Seu tio contava para qualquer um que tivesse paciência para ouvi-la. E Kai não havia escapado disso. — E o que é?
– Até agora é cedo demais pra mim dizer qualquer coisa, mas eu acho… Eu acho que tenho um filho, Kai.
Dmitri com certeza esperava que o sobrinho ficasse feliz ou ao menos esboçasse alguma reação, mas Kai ficou parado no mesmo lugar, cuidadosamente analisando a situação. Não era culpa dele, ele fora criado para isso. Cinco segundos haviam passado quando Kai falou alguma coisa.
– O quê?
Dmitri deu risada do sobrinho. Kai se perguntou se aquilo era algum tipo de piada, ou algo assim. Mas Dmitri não tinha nenhum senso de humor.
– O senhor vai ser pai?
– Meu caro menino, eu já sou. — Dmitri deu batidinhas nas costas do garoto. — Amanhã terei mais notícias pra você.
– Ah que bom. — Kai fingiu um sorriso. Por dentro estava furioso. Não eram comuns suas ondas de raiva, e ele as abominava completamente. O lembrava que por mais que tentasse, ele compartilhava sangue e traços de personalidade com o pai. Ele se perguntou se o sorriso parecia tão falso quanto ele pensava, mas Dmitri não pareceu perceber. — Se puder me liberar tio… Preciso ver se a Adele está bem.
– Ah, claro. Os médicos já descobriram a cura para a leucemia dela? — Dmitri perguntou subitamente preocupado. Era um bom homem. Nunca deixou que a morte e a tristeza que pareciam impregnados na sua vida o afetassem.
– Ainda não. — Kai não estava com disposição para conversa fiada. — Com licença, tio.
Dmitri abraçou o sobrinho e saiu andando. Kai saiu da estufa e estava prestes a ignorar solenemente a ordem anterior do pai quando Max Morgen se materializou na sua frente. Ele era o aluno preferido do seu pai.
– Espero que você esteja se preparando para ver seu pai, Nikolai. — Ele disse.
– É Kai. — O garoto corrigiu. Sua mãe, fosse quem fosse, havia achado que chamar o filho de uma variante russa do nome do pai era uma excelente ideia. Bem, não era, e Kai detestava o nome.
– Não me importo. — Max rolou os olhos. — Seu pai quer te ver imediatamente.
– Bem, diga a ele pra se ferrar. — Kai falou.
Max sorriu. Não era exatamente um sorriso amigável. Na verdade ele arreganhou os dentes e fez uma cara como se agradecesse a Kai por ter dito isso. O soco que veio a seguir foi a prova de que Max tinha porque ser o melhor aluno de Nicholas. Foi tão forte, e em um ponto tão preciso que Kai teve certeza que havia quebrado sua mandíbula. Kai poderia ter revidado se quisesse, ele era muito bom, talvez até melhor que Max, mas sabia que seria inútil. E ele era esperto o suficiente para não fazer movimento nenhum em branco. Tudo que ele fazia tinha um porquê.
– Max, eu ainda vou te fazer engolir teu próprio sangue. — Ele praguejou.
– Me avise quando esse dia chegar, moleque. Agora entra lá. — Max empurrou Kai para frente e o garoto entrou na sala cambaleando.
Aquela era uma das salas mais luxuosas da mansão Nikova, e isso significa muito. A luz era amarelada, o que fazia tudo parecer mais escuro, as paredes tinham detalhes de madeira, e o piso era lotado de tapetes persas. A lareira estava acesa e no sofá em frente a ela estava Nicholas. Ele parecia algo como uma figura histórica, sentado no sofá bebendo vinho — às 11 da manhã -, e parecia com tudo, menos com algo que Kai poderia chamar de “pai”. Eles felizmente eram diferentes fisicamente. Kai era parecido com a mãe provavelmente, com os cabelos castanhos e olhos verdes, embora tivesse o tipo físico — alto e esguio — do pai. Já Adele, tinha cabelos loiros dourados de Lara Nikova e olhos azuis como o pai.
– Nikolai, sente-se. — Nicholas mandou. Kai obedeceu, não era idiota. — O que Dmitri queria com você?
– Queria saber se pode vender minhas revistas playboy…
– Chega.- Nicholas levantou a mão. — Pare de agir como uma criança, Nikolai. Me diga agora mesmo.
Kai considerou se poderia falar para Nicholas. Ficou calado tempo suficiente apenas para pesar as escolhas.
– Dmitri me contou que tem um filho. — Kai respondeu. — Eu não tenho ideia de quem é.
– Ah, eu esperava que fosse isso. — Nicholas pareceu pensativo. — Temos coisas a fazer então.
– Que coisas?
– Pense bem, Nikolai. — Nicholas disse. — Você é o herdeiro desta família. Agora se Dmitri encontrar o filho dele…
– Eu vou perder tudo. — Kai ligou os pontos. — Mas não tem nada que eu possa fazer!
– Garoto, eu não te ensinei nada? — Nicholas deu um suspiro como se não aguentasse a ingenuidade do filho. — Mate o filho de Dmitri.
– Mas… — Kai queria dizer que não podia. Matar alguém não era simplesmente apontar uma arma e atirar. Envolvia uma coragem fria. Uma coragem fria que ele provavelmente tinha. Mas isso o igualaria a seu pai de um jeito que Kai não sabia se era possível escapar. Sua vida inteira ele tentara ser o mais diferente de Nicholas possível. Matar uma pessoa que ele nem conhecia a sangue frio era fazer exatamente o que o pai fazia. — O que eu tenho que fazer?
– Esse é meu menino. — Nicholas riu. — Eu sabia que faria a escolha certa, Nikolai. Agora se me dá licença preciso jogar pelo outro lado também.
– O que quer dizer?
– Dmitri pediu para eu recrutar alguém para descobrir quem é o filho dele. Obviamente eu vou fazer o que ele mandou, e depois mandar você. — Nicholas explicou se levantando do sofá. — É melhor fazer as malas garoto. Amanhã você já estará indo para os Estados Unidos.
– Não é lá que você veio? Não é lá que tem a sede dos…
– Blackbirds? — Nicholas deu um sorriso sinistro. — Não se preocupe com eles. Eles não valem a preocupação. Não fique ansioso Kai, você vai matar o filho de Dmitri.
Mas Kai não estava muito certo daquilo. Ele deu as costas para o pai, pronto para ir embora.
– Nikolai, mais uma coisa. Quando chegar lá, quero que diga que se chama Nikolai Blackwell. É o sobrenome da sua mãe. Em hipótese alguma diga que eu sou seu pai ou que você é um Peters. A menos que quiser uma morte rápida.
O tom de Nicholas estava tão frio que competia com o gelo no Alasca. Seu rosto estava sério, e a ordem estava bem clara. Para onde for que Kai iria, ser filho de Nicholas Peters não lhe traria pontos com o anfitrião.
– Pode deixar, pai. Eu não vou falhar.
~~☆★~~
– Boa tarde. — Hylla sorriu simpaticamente. — Os senhores vão querer o quê?
– Um hambúrguer de bacon e um copo bem grande de coca cola. — O primeiro disse. Não deveria ter mais de 35 anos, com cabelos escuros e olhos verdes.
– Eu quero o mesmo que ele. — O segundo disse. Também não parecia muito velho, mas era loiro e tinha os olhos escuros.
– Ok. — Ela anotou o pedido deles e se retirou.
Hylla Andrews, 17 anos, órfã de mãe — e pai, provavelmente. Ela ainda lembrava da morte da mãe. Não era como se fosse fácil esquecer de algo deste tipo. Você não esquece quando uma pessoa que você ama morre na sua frente. Ainda mais quando o assassino chora encima dela. Até hoje ela não sabia por que, mas não cabia a ela perguntar. Cabia a ela ir no cemitério colocar flores para a mãe.
– Hylla, a mesa 19. — Peter bradou. Hylla pegou a bandeja e entregou a comida para o casal que havia pedido.
A vida dela era um vai-e-vem desde os 5 anos. Nos últimos tempos tinha de fato abrandado um pouco, mas nada para tanto. Tinha dinheiro o suficiente para se virar por um tempo, mas trabalhar lhe tirava uma energia que ela gostava de gastar. Então trabalhar não era tão necessário — ainda bem como garçonete — mas ela gostava. Era bom fazer algo que as pessoas precisavam.
Era assim que ela levava a vida, trabalhando e sendo a pessoa que os outros queriam. Sua identidade estava fora de questão. Era mais fácil mostrar um pedaço de si mesma para um, e outro para outra pessoa do que se mostrar inteira. Isso era uma coisa que depois de feita, era impossível de ser desfeita. Amizades se quebram, pessoas se vão, mas quando você mostra seu coração a alguém isso era eterno. E Hylla não confiava no eterno. Então sua filosofia de vida — seja o que os outros esperam e nunca quem você é -, era muito mais convidativa.
Ela vivia assim, dois meses em uma cidade trabalhando como garçonete, conhecendo algumas pessoas e depois indo embora para a próxima. Era cansativo, mas necessário. Hylla temia que quem quer que havia matado sua mãe poderia estar vindo atrás dela. Era meio improvável, mas havia essa possibilidade. E ela não gostava de arriscar. Poderia perder. E nesse caso, perderia a vida.
Depois de entregar o resto das bandejas, ela entrou na cozinha e tirou o uniforme.
– Tate, já tá na minha hora. — Ela disse.
– Claro, vai. — Tate abanou com a cabeça, dando tchau. Já passava das oito e meia, e ela tinha que voltar pra casa. Ela colocou o casaco de couro e saiu da lanchonete pelos fundos.
Os fundos da lanchonete davam em um beco sujo e escuro, onde frequentemente havia ratos ou baratas. Hylla detestava esses animais. Quando fugia da polícia por furto, ela costumava se esconder em esgotos antes de aprender parkour. Era bem melhor ir por cima do que sofrer lá embaixo. Ela era boa nisso. Pulava dos telhados com destreza e rapidez. Podia viver assim, em velocidade e altura.
– Hey, uma menina tão bonita quanto você não deveria andar por essas bandas de noite. — Um homem agarrou o braço dela com força.
Ela olhou para ele com todo o nojo que pôde reunir. Era um homem alto, de roupas pretas e um sorriso torto amarelado. Mas havia algo no seu olhar, algo perigoso. Por mais que Hylla tivesse coragem, aquilo era apavorante. Ser parada em um beco por um homem que a olhava como um pedaço de carne… Era detestável e assustador. Apertou a mão para dar um soco na cara do mendigo, mas viu um amiguinho dele chegando por trás. O sangue dela gelou e ela se obrigou a pensar calmamente. Tinha chances contra dois homens adultos? Difícil, mas ela conseguia.
Em um ímpeto de coragem, deu um soco no rosto do primeiro cara, que colocou a mão no nariz tentando parar o sangramento, mas isso atraiu o segundo homem que chegou mais rápido. Ela deu um chute nas partes baixas dele depois acertou um soco no seu rosto e ele caiu no chão, mas o primeiro já estava se levantando e a agarrando. Um arrepio chegou a sua espinha já entendendo que não tinha como passar aquele. Mas alguma coisa prateada passou zunindo pela sua orelha. Assim que pegou o alvo, ela viu que se tratava de uma faca de cozinha, simples, e parecia maltratada.
A lâmina se enterrou no olho do homem, que começou a gritar de dor, apavorado. Hylla ficou um pouco temerosa com os berros que ele dava, mas se virou para ver quem a salvara. Era uma garota de cabelos castanhos sujos e compridos, e olhos de um selvagem verde escuro. Parecia mais nova que Hylla, mas sem dúvida muito mais vivida e provavelmente morava na rua.
– Corre! — A garota berrou.
Hylla não precisava se virar para saber quem estava ali atrás. Com certeza era o sujeito. Ele continuava berrando e arrancara a faca do olho. Com raiva, vinha com tudo para cima de Hylla.
Era naqueles momentos que ela agradecia o fato de viver desde os seis anos na rua. Ela sabia como chegar na sua área.
– Vem comigo! — Ela berrou para a garota. A menina estava puxando mais uma faca do cinto, mas descobriu que não tinha mais nada, então se obrigou a seguir atrás de Hylla.
Hylla estava pulando de uma lata de lixo pra chegar a uma escada de incêndio. Ela pegou o ferro e se puxou para cima, estendendo a mão para a garota subir também. Juntas subiram os degraus. Pensaram já estar bem acima do nível dos idiotas lá embaixo, então resolveram tirar uma com eles
– Hey seus montes de bosta! — Naomi berrou. — Venham nos pegar, seus estupradores ridículos e nojentos!
– Venham aqui encima se são mesmo machos, seus covardes! — Hylla concluiu. Naomi deu uma gargalhada.
– Ah deus, fazia tempo que eu não ria tanto. — Ela admitiu. — Meu nome é Naomi.
– Eu sou Hylla. — Elas apertaram as mãos.
– Bonito nome. — Naomi sorriu. Então virou para olhar para baixo. — Merda, eles viram!
O homem havia juntado uma gangue de mais seis integrantes tão cruéis e altos quanto ele, e já vinham subindo as escadas. Só tinha duas opções, e a mais viável era seguir pelo telhado.
– Já ouviu falar de parkour? — Hylla perguntou.
– Aquele esporte de louco? — Naomi arregalou os olhos.
– Bem vinda ao mundo dos loucos então. — Hylla agarrou a mão da garota e saiu correndo. Felizmente ali os prédios eram bem perto um do outro, e ela pôde pular sem dificuldade, mas Naomi pulou berrando.
– Não! — Naomi gritou. Quando os seus pés tocaram o chão ela se levantou e continuou correndo com Hylla. — Ah, foi fácil.
– Continua correndo, eles tão vindo aí! — Hylla avisou Naomi.
– Você costuma fazer isso? — Naomi perguntou ao ver Hylla pular uma chaminé e continuar correndo. — Pular por aí, correr por um telhado e outro?
– Aprendi com um garoto no Mississipi. — Hylla contou. — E só faço isso quando estou com vontade. — Ela olhou para trás. Os homens continuavam vindo, mas não tão rápido quanto ela e Naomi.
– Quem são esses caras? — Naomi perguntou novamente. Ela era bem curiosa. Hylla pela primeira vez na vida não via porque mentir para ela, ela havia a salvado afinal.
– Eu não sei. Minha mãe me ensinou a ser inteligente e nunca acreditar que algo que machuque não possa ser usado novamente. Ela foi assassinada e eu nunca soube porque. Talvez eles tenham vindo atrás de mim agora.
– Ah, que ótimo pra mim então. — Naomi pareceu com medo. Hylla não a culpava. O medo estava se remoendo dentro dela fazendo com que ela quisesse se encolher e se esconder, mas ela tinha que se manter em movimento. Como o Jingwei, um pássaro mítico que mesmo depois da morte voltou para evitar que outras pessoas se machucassem. Era essa coragem que Hylla queria ter, e era essa coragem que ela teria.
– Tudo bem, vamos sair dessa direito. — Hylla a acalmou. — Olha, at vendo aquele prédio verde? É o meu. Depois de chegarmos lá podemos despistá-los.
O prédio estava a uma quadra de distância, e com certeza os homens atrás de Hylla desistiriam, ou pelo menos não veriam para onde ela ia. A única coisa que poderia dar errado…
– Tem um abismo entre nós e aquela rua! — Naomi gritou. Ela estava certa. Aproximadamente vinte metros afrente, os telhados colados acabavam e elas teriam que pular para outro, em uma distância de quatro metros. Seria bem difícil para Hylla, já para Naomi seria impossível. — Eu vou ficar, Hylla. Não posso pular!
– Não! Se você ficar vai acabar morrendo! Aqueles caras não vão te poupar só porque eles me querem. — Hylla gritou em resposta. Quase podia ver as engrenagens mexendo na cabeça de Naomi. Se pulasse tinha a chance de sair viva, mas ficar para trás não lhe dava chance alguma. — Eu vou te segurar.
– Tudo bem. — Hylla pôde ver que Naomi estava com medo e provavelmente não acreditava que Hylla poderia segurá-la. Mas tinha que acreditar, então ambas apertaram o passo.
Hylla deu a mão para Naomi segurar, para poderem pular juntas. Naomi tremia. O espaço entre os telhados ficou menor. Cinco metros. Dois metros. Um metro. Hylla pulou, puxando Naomi. Naomi berrou, com medo. Hylla estendeu as mãos para agarrar o telhado que se agigantou na sua frente. Sentiu o aperto na mão afrouxar quando com o outro braço ela agarrava uma grade. Tudo aconteceu tão rápido que Hylla nem sentiu. Teve que largar Naomi em um gesto reflexivo, para se firmar com as duas mãos. A garota não teve sorte. Despencou.
– Hylla!
Naomi caiu do telhado, em direção ao chão. O coração de Hylla falhou uma batida. Cinco metros. Com certeza ela não havia sobrevivido. Naomi estava definitivamente morta, sue corpo em posições estranhas no chão, estatelada. Hylla teve vontade de vomitar, mas se forçou a correr. Já podia ver seu prédio de onde estava. Pessoas morrem, ela tentou se convencer.
Ela quase passou do seu prédio. Ela sempre gostava de morar no ultimo andar por que poderia voltar praticando se quisesse, então geralmente procurava prédios de cinco andares ou menos. Ela nunca tinha pulado mais alto que isso, então era seu limite. Mas o que acontecera com Naomi martelava sua mente e seu coração martelava contra suas costelas. Seus pulmões ardiam, mas mesmo assim conseguiu subir a escada de incêndio e arrombar a janela para entrar no apartamento.
Naomi estava morta. Hylla fechou a porta de casa atrás de si com um estrondo. Estava em choque. Respirou fundo e expirou, soltando uma baforada de ar. Sua blusa estava rasgada, e ela sentia a descarga de adrenalina lhe abandonar. Seus ossos doíam, todo o seu corpo doía. Se obrigou a levantar e fazer as malas. Estava deixando aquela cidade agora mesmo. Chegando no quarto, colocou a mala encima da cama e começou a jogar as roupas lá dentro. Depois os calçados foram em outra mala, e em uma hora já tinha empacotado tudo. Precisava deixar Lawrence com rapidez. O cofre que mantinha no quarto tinha um pouco de dinheiro real para se virar antes de ter que retirar mais do banco.
Hylla foi até a cozinha pronta para pegar alguma coisa para comer na viagem quando se deu conta do que havia deixado para trás. A correspondência. Ela precisava ler a resposta do pedido de empréstimo que ela tirara. Estava querendo passar as férias em Los Angeles. Seriam férias confortáveis. Diferente do Kansas. A carta do banco estava entre as cartas da conta de luz e água e uma carta dirigida à Amelia Meredith Andrews. Sua mãe. Sua mãe havia morrido há onze anos. Fazia muito tempo. Quase era possível esquecer Naomi caindo do telhado. Quase.
“Cara Amelia Andrews. Meu nome é Michael Peters e sou o filho mais velho de Jasmine ‘Jennie’ Peters. Minha mãe morreu há onze anos e deixou uma herança para mim e minha irmã mais nova, os Blackbirds.
Eu mando essa carta à maioria dos Blackbirds da geração de vocês que tenho conhecimento. Queremos saber mais sobre vocês, e o que queriam proteger. Talvez eu e minha irmã possamos ajudar.
Creio que vocês conheçam meu endereço em Rhode Island. Por favor venham para uma pequena reunião. Estou muito curioso em relação a vocês.
Michael Robert Peters.”
Hylla leu e releu a carta várias vezes procurando sentido. Não fazia. O que eram os Blackbirds? E o que queriam com sua mãe?
Parecia que suas férias sofreriam um grave desvio de destino.
~~☆★~~
De acordo com várias leis, parricídio era um crime hediondo. Mas, é claro, não foram eles que ouviram da irmã mais velha que ela era abusada do próprio pai.
Alexander não sentia remorso por ter matado o pai, e ao contrário, faria tudo de novo. Tudo para livrar a mãe e a irmã daquele nojento. Hoje em dia sua família ia muito bem, sua mãe tinha um namorado, sua irmã estava casada e ele… Bem, ele não estava preso, o que era um alívio.
Depois de ter voltado do reformatório ele levava uma vida normal, sozinho e nas bordas do que se podia chamar “felicidade”, isso quando não explicava para as pessoas o porque de ter ido morar sozinho em um subúrbio quando a mãe tinha uma excelente casa. Ele aprendera desde cedo que as pessoas não gostavam de parricidas. Como se ele ligasse para o que as pessoas diziam. Mas algumas vezes elas simplesmente eram muito cruéis. Como quando a mulher da igreja lhe disse que ele iria queimar no inferno. Ele se perguntou se Deus era tão hipócrita a ponto de enviá-lo para a danação sendo que ele livrara a família de uma praga. Sim, era seu pai, mas os genes dizem alguma coisa quando você tem 8 anos e sua irmã é abusada pelo próprio pai? Não, não diziam. Ele tinha dito aquilo milhares de vezes, mas as pessoas apenas ficavam assombradas. Ninguém gosta quando você diz uma verdade que vá contra tudo o que você acredita. Você pode dizer que Deus ou seja lá o quê, mandou uma inundação e afogou a população mundial na Bíblia, mas se a pessoa crê na bondade dele, isso não vai significar nada. Há muito tempo Alex desistira de crer na bondade das pessoas, imortais e superpoderosas ou não. Não havia histórico de bondade, não com ele. Por que então precisava mostrar isso a alguém?
Foi por isso que ele ficou confuso quando sua irmã Valentina lhe ligou pedindo que fosse visitá-la na casa da mãe, onde teriam um jantar.
E ali ele estava, parado na frente da porta da casa da mãe, tentando tomar coragem para tocar a campainha. Ele era uma criança quando acabara em um reformatório, e a mãe não pegou sua guarda de volta. Ela não fizera nada além de lhe enviar presentes de aniversário e natal que ele não precisava e raramente mandar a irmã vê-lo enquanto ele crescia. Ele já estava se virando para ir embora quando a irmã abriu a porta.
Valentina tinha um sorriso no rosto, o cabelo loiro emoldurando sua cabeça, e um vestido azul claro até os joelhos. Parecia que tinha saído de uma propaganda de perfume, pronto para uma festa. Ela parecia feliz, e o brilho nos seus olhos não desapareceu quando viu o irmão mais novo, e ela o abraçou.
– Alex, senti sua falta.
Ele não respondeu porque não sabia o que dizer. Fazia dois anos que não via Valentina, e ela não tinha feito esforço algum para vê-lo tampouco. Ela o puxou pela mão, para dentro de casa, e Alex foi engolido pelas lembranças e o cheiro de frango assado.
Sua mãe estava abraçada com o namorado, Chris, e parecia feliz. Bebia champanhe e usava um vestido chique cor de vinho. Estava no meio de uma risada quando viu o filho. Imediatamente sua boca se fechou e ela o encarou. Chris olhou para o enteado que nunca havia visto na vida com um misto de surpresa e curiosidade.
– Alexander, certo? — Ele se apressou, indo até o garoto com a mão levantada. — Meu nome é Christian, sou o namorado da sua mãe. Prazer em conhecê-lo.
Alexander duvidava, mas apertou a mão dele e tentou dar um sorriso simpático que saiu mais como se ele estivesse tendo uma convulsão.
– O prazer é meu.
Alex se virou para a mãe, que tinha lágrimas nos olhos e parecia completamente sem chão. Sentia falta do filho, mas tinha tanto medo de chegar perto dele…
Então a campainha tocou e Georgiana retomou a compostura e foi abrir a porta. Era o genro, e ela sorriu ao abraçá-lo. Valentina pulou nos braços dele e o abraçou. Ela a puxou para mesa e eles passaram meia hora rindo e conversando enquanto Alex evitava olhar para qualquer um e fixava sua atenção no prato, que limpara duas vezes.
– Agora que a família está completa, tenho um anúncio a fazer. — Valentina disse, parando as conversas paralelas na mesa.
– Fale, querida. — Georgiana riu, segurando a taça de champanhe.
– Estão prontos? — Valentina tentou fazer suspense, o que foi completamente vazio na opinião de Alex, já que eles já estavam mais do que querendo saber o motivo. — Ontem eu recebi uma notícia maravilhosa. — Ela virou para o marido. — Querido, vamos ser pais.
A mesa explodiu em palmas. Georgiana abraçou a filha e William se derramou em lágrimas. Alexander sorriu por educação. Não via porque uma criança poderia ser assim tão “notícia maravilhosa”. Vamos todos comemorar porque Valentina vai virar uma baleia, ele queria dizer.
– Essa é uma notícia tão boa, querida. — Georgiana tinha lágrimas nos olhos. — Uma criança vai marcar a família unida novamente novamente.
Ela virou o rosto para o filho, com lágrimas nos olhos e um sorriso emocionado.
– Não é, Alexei? — Ela sorriu. Ela era a única que chamava Alex assim. Ninguém, nem Valentina, nunca o chamou assim. Apenas a mãe.
– Claro. — Ele disse. — Mãe.
Georgiana se rompeu em lágrimas e se jogou nos braços do filho. Foi quando tudo aconteceu tão rápido que ninguém viu mais nada. Georgiana caiu nos braços de Alexander, não para abraçá-lo, e sim porque o impacto da bala na cabeça a jogou para frente com tanta força que ela foi em encontro a coisa mais próxima, despencando encima do filho. Valentina soltou um berro, acompanhada do marido e Christian desmaiou. Frouxo.
Alex se viu em um beco sem saída, onde sua mãe havia sido atingida na nuca por um projétil. Ele tinha a pequena ideia de que o tiro se destinava a ele, embora não tivesse nenhuma razão para isso. Mas também não tinha nenhuma razão para sua mãe ter levado um tiro. Mas ele se recusava a pensar nessa possibilidade porque o aterrorizava a ideia de que sua mãe havia levado um tiro por causa dele. Ele, que matara o próprio pai com a missão de salvar sua mãe e irmã ser o causador disso tudo era tão incabível… Ou será que não?
Ele se abaixou sobre o corpo da mãe e soltou um suspiro. Ela ainda respirava.
– Ela está viva! — Anunciou. Valentina soltou um grito de alívio.
– Precisamos levá-la para o hospital. — Valentina disse. Alex pegou o corpo da mãe no colo e o ergueu. Se impressionou com a fragilidade dela. A última vez que a vira assim… Bem, pode-se dizer que seu pai estava sangrando no chão. Mas agora, anos depois, sua mãe estava tão pequena como ele se lembrava. Encolhida, como se o peso do mundo tivesse caído em seus ombros. Tremendo, ele correu até o carro, acompanhado de Valentina, que vinha atrás dele tentando segurar o choro.
– William, nós vamos para o hospital. Vá lá em casa e pegue algumas roupas pra mim! — Valentina assumiu o tom que usava com seus alunos na escola quando eles faziam bagunça. William assentiu, em choque e correu para for a, pegando o carro e saindo em desespero para casa. Ninguém percebeu que estavam esquecendo de Christian, desmaiado no tapete.
Resmungando, Alexander pediu para que Valentina dirigisse o carro dele. Ele tinha que colocar a mãe em segurança no banco de trás ainda, e sua irmã assentiu com coragem. E eles arrancaram para o hospital.
Duas horas depois, ele estava quase dormindo na recepção do hospital. O local estava cheio de pessoas, médicos e pacientes, indo para lá e para cá, gente chorando, gente comemorando, e o pior: cheiro de hospital. Era enjoativo, o acúmulo de produto para limpar o chão e um leve cheiro de sangue no ar. O cheiro misturado era uma fragrância doce e enjoativa, e Alex teve vontade de fechar os olhos e sumir dali. Mas a mãe e a irmã precisavam dele. Então ele se forçou a olhar para frente, onde Valentina conversava com um médico e estava a beira das lágrimas. Um minuto depois, ela falou alguma coisa e o médico fez que não com a cabeça e fez uma cara solidária. Valentina virou o rosto e correu na direção do irmão.
– Alexander, a mamãe… — Valentina começou a chorar. Alex a abraçou. — Ela teve um aneurisma Alex.
Alexander ficou quieto. Sendo completamente insensível, ele poderia admitir que as chances da mãe eram péssimas, mas ele era filho dela. Ele sentia que a mãe estava a beira da morte. E ele tinha falhado em protegê-la.
– Você não vai falar nada? — Valentina se zangou.
– E tem o que falar? — Alexander perguntou. Sua voz saiu mais trêmula do que ele poderia controlar, e Valentina o abraçou mais forte.
– Lembra do que a mamãe nos dizia?
– Que quando ela morresse que iríamos dar valor?
– Não. — Valentina balançou a cabeça. — Que temos que sobreviver.
– Como a fênix. — Alexander terminou a frase.
– É na hora da tristeza que nós ressurgimos ainda mais brilhantes. — Valentina disse. Um silêncio os tomou, um momento confortável entre os irmãos, até que Valentina tremeu nos braços de Alex. — Você não pode ficar aqui, Alex.
– Você quer que eu pegue algo em casa?
– Não. — Valentina negou. — Preciso que você faça uma viagem.
– O quê?
– Alex, você não pode ficar aqui. — Valentina repetiu com os olhos verdes olhando ao redor como se estivesse vendo alguma coisa. — Você precisa sair daqui.
– Como assim, Valen? — Alex percebeu o tom assustado dela. — Por que eu preciso sair daqui?
– Há muitos anos o nosso… Pai fez parte de uma organização. — Ela contou, sussurrando. — Depois ele foi exonerado de lá, muita agressividade ou algo assim. Foi na época que aconteceu todas aquelas… Coisas. Mas mesmo assim, ele atraiu o ódio de um monte de gente. Você o matou depois e por isso nada aconteceu com ele, mas… Há uma semana eu tenho observado. Tem gente nos vendo, Alex. Eu não sei o que eles querem, mas não pode ser nada bom. Eu quero que você vá pedir ajuda para a antiga organização do Klaus.
– Eu não vou te deixar sozinha. — Alex negou.
– Não seja idiota, William logo vai chegar. — Valentina disse, lembrando Alex que ela era casada e tinha um marido que poderia tomar conta dela. — Nós ficaremos aqui e você vai, Alex. Tem que ir pra casa da mamãe, o sótão tem algumas coisas de Klaus e em um baú tem uma foto com um endereço atrás. Você tem que ir até lá.
Aquilo parecia ser sério. Os olhos de Valentina nunca estiveram tão duros além da vez em que ela descobrira que Alex havia assassinado o próprio pai. Alexander não conseguiu esconder a surpresa pelo pedido, mas então percebeu que se não fosse sério, Valentina nunca pediria para ele se afastar do lado do leito da mãe. E, além disso, seu cérebro capturou uma das coisas que Valentina disse. Klaus. Ela nunca o chamou de pai. Nunca.
– Tudo bem. — Alex concordou. Valentina deu um suspiro aliviado, pensando que agora estaria tudo bem.
E então a gritaria começou. Alex reconheceu o cunhado, William, vindo na direção deles, com as mãos para cima como em rendição. Só por isso Alex viu que tinha algo errado. William estava sendo feito refém de um homem que tinha uma arma no seu pescoço. Ao seu lado, Valentina começou a chorar, sendo levada por um mar de pessoas que agiam como se o mundo estivesse acabando e corriam para todo o lugar como ratinhos.
– Onde estão os Kronemberguer? — O homem que segurava a arma na cabeça de William gritou.
Quase não se podia ouvir ele dizendo, já que todos da sala de espera gritavam e corriam, pisando em cima dos outros.
– Eu! — Alexander gritou acima do barulho.
Era como se tivessem descoberto que ele tinha ebola ou algo assim, porque um mar se abriu ao seu redor. As pessoas começaram a berrar e a se empurrar para longe dele, aos tropeços. Aquele era o verdadeiro retrato do Caos.
– Ah que bom. — O sujeito disse. — Detesto gente doente.
Ele deu um tiro na direção de Alex, que se abaixou rapidamente, se desviando. As poucas pessoas que haviam sobrado ali haviam saído correndo e na recepção do Hospital só havia agora William, Valentina, Alex e o cara. Alexander pesou suas condições. Se estivesse perto do homem, poderia lutar com ele, mas o sujeito mantinha William nos braços, Valentina estava tremendo encolhida e ainda havia a arma. Porém enquanto o garoto ainda pensava, William, o cunhado de Alex, deu uma cabeçada no homem digna de cinema, e saiu correndo para proteger a esposa. Ou tentar. O sujeito, já recuperado da cabeçada, acertou um tiro na cabeça dele, que abriu um buraco onde saltou sangue para todo o lado.
– Não! — Valentina berrou e saiu correndo. Alex a segurou pela cintura e a puxou para trás, tentando proteger a irmã. — Me deixa ir, Alexander!
Mas Alex não deixou. Era dever dele proteger a família.
Valentina foi alvejada primeiro. Alexander viu que o homem mirava a cabeça da irmã, e então se jogou na frente dela. Infelizmente o tiro pegou nele. Felizmente não acertou sua cabeça, e sim o ombro, que explodiu em dor. Valentina gritou e amparou o irmão.
– Alex, você está bem? — Perguntou tolamente.
– Não. — Ele gemeu. Mas se obrigou a se levantar.
Sabia que não tinha muito tempo até o homem decidir matá-lo logo. Então ele pegou uma prancheta — talvez de um dos enfermeiros, derrubado no corre corre — e a atirou no homem. Ele não esperava pelo golpe e vacilou por tempo suficiente para Alex se aproximar dele e começar a lutar pelo controle da arma.
Alex, campeão de jiu jitsu, teve dificuldades para pegar a arma, primeiro porque seu ombro estava ferido, e segundo porque o homem também era um ótimo lutador. Mas ele se obrigou a vencer. Ele não passara por tudo aquilo — sua mãe tendo um aneurisma, seu cunhado morrer na sua frente e levar um tiro — para nada, e um deslize do outro o fez pegar o revólver.
– Adeus. — Ele disse antes de atirar. O homem caiu morto no chão. — Valen…
Ele se interrompeu. A irmã estava no chão, abraçada ao corpo do marido, em profundo luto.
– Vai, Alex. — Valentina disse entre as lágrimas. — Você precisa ir.
– Mas você vai ficar sozinha. — Alex disse.
– Eles vão querer te pegar agora. Vai. — Valentina insistiu, se virando para encarar o irmão. Ele viu que se teimasse em não ir, a irmã iria chorar ainda mais.
Alexander se aproximou da irmã e a abraçou.
– Me desculpe se te magoei alguma vez.
– Você me salvou, Alex.- Valen disse. — E agora é minha vez de te salvar. Vai embora daqui.
Alex olhou para o ombro ferido, olhou para a irmã destruída abraçando o cadáver do marido e resolveu que poderia dar um jeito nele mesmo. Ele viveria para ver Valentina ter um filho, ele viveria para vê-la escolher o nome do sobrinho e principalmente, ele viveria. Mas não por muito tempo se continuasse ali. Então se levantou, e sem olhar para trás, saiu do hospital, pegou o carro e determinou o próximo passo: pedir ajuda para conseguir acabar com qualquer um que tenha sido enviado para matar ele e sua irmã.
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Para algumas pessoas seria considerado sorte morar na França. Mas para Madelline não era. Paris na sua opinião era um lugar maravilhoso para se visitar, não para morar.
Em determinado momento a torre Eiffel perde a graça, o francês é completamente dominado e as pessoas viravam as mesmas. Madelline jurava isso de pé junto.
Ela detestava a mesmice, odiava o conhecer que você adquire depois de alguns anos no mesmo lugar. Line havia nascido nos Estados Unidos, mas depois seus pais se mudaram para Istambul, depois Eslováquia, depois Chile e finalmente, Brasil. Então sua mãe foi assassinada no meio de uma luta pelo controle da favela do Alemão no Rio de Janeiro e deixou Line e seu pai Richard, que se mudaram para França. E lá ainda estavam eles. No lugar mais igual do mundo.
Não que ela detestasse completamente Paris. Ela detestava coisas iguais, e como Paris nunca mudava, a cidade parecia existir para fazê-la odiar o lugar. Mas se havia alguma coisa que valia a pena ser revista lá, com certeza era o pôr do sol sobre o rio Sena. Era de uma beleza memorável, um momento para ser realmente apreciado novamente. Poucas coisas eram assim no mundo de Line.
– Line! — Richard chamou. A garota pulou da cadeira até o chão, e o choque atravessou seu corpo. — O que está fazendo?
– Trocando o papel de parede do meu quarto. — Ela disse, como se fosse óbvio.
– Já é a terceira vez esse mês…
– Você não espera realmente que eu vá parar de mudar minhas coisas, certo? Por que isso não vai acontecer. Mudança é minha vida, pai.
– Madelline, nós viemos para a França justamente porque você era uma criança e não podíamos mais continuar naquela rotina. — Richard disse. Ele tinha plena noção de que repetia aquele discurso havia anos, mas a filha nunca o ouviria. A necessidade de mudar ela herdara da mãe, Seraphine Williams. Se a filha tivesse cabelos castanhos ao invés dos dourados, com certeza seria um clone mais jovem da mãe. — Você precisava de uma escola fixa, um endereço fixo, amigos.
– Eu preciso de uma escola nova, casa nova e amigos novos. — Madelline rolou os olhos. — E quer saber? Já tivemos essa conversa milhões de vezes, não precisamos repetir certas coisas, sabia? Não faz sentido. Mamãe estava certa. “Continue mudando, como as gaivotas fazem”.
– Madelline, nós não somos nômades! Não somos gaivotas, somos seres humanos e temos que ficar juntos e em um lugar só.
Ele sabia que havia inflamado o gênio da filha quando os ombros da garota ficaram tensos e ela jogou o papel de parede no chão. Em câmera lenta ela se virou para o pai, com fúria nos olhos.
– Desde quando você tem essa visão de mundo, hein pai? Desde quando você escolheu que o melhor pra mim é ficar presa como um pássaro em uma gaiola? Isso é o melhor pra você! Não pra mim! Você só pensa na sua dor! Você pode ter perdido uma esposa, mas eu perdi uma mãe.
Ir longe demais era uma das regras dela. As consequências viriam depois, mas valia a pena um mês de castigo só para ver os olhos do pai refletindo a surpresa, choque e dor que sentiu com o discurso dela. Madelline era cruel. Uma boa garota, mas quando sentia a mais leve das pisadas, ela se erguia com crueldade. Era por isso que mal tinha amigos. Ninguém ousava levantar um dedo contra ela, não quando sabia o que viria. Escapar da onda de Madelline era impossível. Nem mesmo seu pai escapava. E ela amava o pai mais do que tudo.
Mas o que ninguém sabia, era que a sua necessidade de ver os outros quebrando vinha de que ela estava quebrada. Se manter “presa” era sua destruição. Ela não suportava ficar ali. E era solitária na sua dor. E extremamente egoísta. Preferia arrastar todos ao seu redor do que sofrer sozinha. E era exatamente isso o que fazia.
– Line…
– Vai fazer o que? Me manter presa no quarto? Você me mantém presa aqui nessa cidade, então não vai fazer muita diferença. — Ela continuou. Seu pai estava a beira de lágrimas. Ela nunca o vira assim. Queria saber se havia um limite. Seu cérebro implorava para ela continuar, para ver se Richard sangrava. Mas seu coração de filha dizia que não. O problema era que ela era mais racional do que emocional. — Não vai falar nada? Vai me olhar com essa máscara de adulto que não sofre enquanto sua única filha se despedaça? Vá em frente.
– Madelline. Eu nunca… Nunca…
– Pare. Foi você mesmo que me disse se não souber o que falar é melhor ficar calado.
Richard engoliu em seco e deu um passo para frente, como se quisesse abraçar a filha. Então andou para trás, e saiu do quarto dela, arras ado. Ele poderia não ser horrível, mas ele era covardes. Madelline odiava covardia quase tanto quanto a mesmice. Covardes deveriam ser punidos com lei. Depois da morte de Seraphine, Richard não tentou ser forte pela filha ou lutar por justiça. Ele simplesmente se perdeu em seu minuscule mundo, pegou a mão da filha e fugiu. Como um rato. Madelline fazia um esforço para tentar lembrar de seu pai cheio de vida, dançando na chuva com sua mãe, os olhos castanhos brilhando de felicidade e ternura como chocolate quente no natal. Mas logo a imagem de um homem com olhos apagados, cabelos bagunçados e eternamente seco e covarde tomava aquela imagem. Ela amava aquele pai. Aquele destemido, que havia a levado para surfar nas praias do Rio de Janeiro, o que a levava para andar de skate com quatro anos. Esse pai. Não aquele que a trancava em casa quando saía, que voltava e se atirava no sofá.
Uma filha cuidaria do pai. Não o maltrataria, era o que falariam. Mas como podem falar isso do peso que recebeu tão nova? Ir para um lugar que não gostava depois de ver a mãe morrer e o pai virar um boneco de ventríloquo? Era um fardo tão grande. Adolescentes deveriam ser fúteis, mimados e preocupados com a espinha que nasceu no nariz, não ter pesadelos com bonecos de olhos vidrados que pareciam com seu pai.
Respirando fundo, ela saiu do quarto, determinada a conversar com o pai em paz. Quando chegou a sala, misteriosamente seu pai não estava jogado no sofá chorando como uma criança, nem no quarto, encolhido na cama. A geladeira estava intocada e a lavanderia fechada. Ah, que ótimo. Ele tinha saído. Madelline foi caminhando pesadamente até o quarto, e pegou duas toalhas. Um bom banho sempre lhe acalmava os nervos. Foi em direção ao banheiro no corredor.
– Merda. — Ela abriu a boca assim que empurrou a porta do banheiro. Seus olhos arderam. — Merda, merda, merda!
Madelline se jogou contra a parede e começou a gritar. Seu pai estava estatelado no chão, sobre o tapete, branco como papel, os olhos vidrados. Suas mãos ainda seguravam a evidência clara da morte. Um vidro com comprimidos pela metade. Ela lembrava do dia que comprara isso. Calmantes para ela, para acalmar os pesadelos. A caixa estava recém aberta, e engolira a metade.
Suícidio. A saída dos covardes. Mesmo depois da morte, era impossível ver o pai de outro jeito. Ela se ajoelhou no corpo dele, que além de estar duro, estava ficando gelado. Os olhos dele estavam abertos e engolindo as lágrimas, ela fechou as palpebras. Ela havia matado o pai. Não diretamente, mas com certeza foi por causa da briga que tiveram. Não restava dúvidas. Richard Williams estava morto. E ela estava órfã.
Aterrorizada, ela caiu no chão, ainda em um grito chocado. Não parava nem para tomar fôlego ou para verificar se o pai estava mesmo morto, o que era óbvio. Dois minutos depois ouviu a campainha tocar. Provavelmente algum vizinho que a ouvira berrando. Ela se levantou tão rápido que o chão girou sob seus pés, e saiu correndo para fora. Precisava de ajuda, mas não conseguia formar nenhum som, e se abrisse a boca gritaria ainda mais. Ela correu para a porta, a abrindo em um safanão. O homem que estava ali com certeza não era seu vizinho. Alto, careca e com uma cicatriz que lhe atravessava o rosto inteiro. E quando ele a empurrou para o chão, ela teve certeza que não era.
Madelline pensou se era do FBI, da CIA ou algo assim. Descobrira que Richard havia morrido e veio atrás do assassino. Claro, era impossível, mas seu cérebro inventou milhares de teorias antes que ela fosse jogada para longe mais uma vez. Ela bateu de costas na parede, derrubando um quadro da família, que se quebrou em mil pedaços no chão.
Line se levantou cambaleando do chão, apenas para ver que o homem tirava uma arma do cinto.
Ela se perguntou se teria uma chance de dizer algo. O rosto do homem dizia que não. Ele levantou a arma, e ela percebeu que morreria. A peça acabaria e as cortinas iriam descer. Então Madelline fechou os olhos.
– Gaivotas nunca param em um só lugar.
O barulho do tiro ecoou na casa, e ela caiu no chão, com uma bala no peito. Era o fim. Toda a família Williams se fora. Uma que morreu com bravura, um que morreu por covardia e outra que foi assassinada sem saber de nada.
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Dou uma manga pra quem acertar meu personagem favorito de TVD e todas as referências à Beautiful Creatures, Instrumentos Mortais e AHS :v
Quem não entendeu a Madelline levanta a mão e grita eu! Eu não sei onde estava com minha bela e abençoada cabeça quando comecei a escrever esse coisa.
Eu queria dizer a vocês que nem toda a nova geração de Blackbirds sobreviveu. Mas eu poderia me esgoelar aqui que não faria o mesmo efeito escrever sobre ele. Madelline nasceu para mostrar que dos 30 Blackbirds originais, apenas 16 dos filhos deles sobreviveram. Ou seja: se uma porcentagem de 75% teve ao menos um filho (provável que tenha sido mais), foi um massacre. Ou seja²: Ponto para o Time do Mal (referência direta aos belos Shadowhunters, que assim como eu estão sofrendo com as fotos que sai da série, QUE SÓ VAI SAIR EM 2016).
Conhecemos Dmitri Nikova! Ele é legal, né? Aposto que vcs esperavam alguém cruel, do mal, mas... Ele é legal. E isso não foi erro da minha cabecinhas, babies. De acordo com um estudo realizado pela minha pessoa (minhas belas cobaias foram vcs ♥) é mais complicado matar pessoas legais e meigas do que pessoas vacas (por falta de palavra melhor). Vocês não hesitariam um dedo em matar nosso Nick de olhos azuis, né? Mas o Dmitri... Ele é uma pessoa legal, sofrida, espontânea, um bom tio para nosso Kai. Vocês, pessoas legais, não o machucariam, machucariam? Não. Ah, esses conflitos. Adoráveis.
Agora eu quero ver se Lee Hime adota Kai e Alex para o harém dela, que já está de tamanho considerável.
É só isso pessoal.
Até a próxima.
Fiquem com o Capitão America.
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