Blackbird
1 Capítulo único
O sol batia forte naquela tarde de sábado, mas os interiores da mansão eram escuros devido aos pesados panos das cortinas que cobriam as janelas. Na sala ampla e bem decorada se encontravam um grupo de homens que conversavam seriamente enquanto desfrutavam de charutos e champanhe. O som delicado da música Clair de Lune vinda de um piano do outro lado da sala deixava o ambiente ainda mais refinado. O garoto ao piano, que não parecia ter mais do que dez anos, tocava olhando fixamente para as teclas com ar de desdém. Suas roupas exageradamente arrumadas, aquela música entediante e a conversa dos homens do outro lado da sala pareciam o incomodar mais do que qualquer coisa neste mundo, no entanto, algo no quarto ao lado o chamou a atenção. A porta da sala de dança estava aberta e então ele pode vê-la dançar despreocupadamente enquanto usava suas roupas de balé. O garoto deslumbrava os movimentos delicados da menina um ano mais nova do que ele enquanto tentava acompanhá-los nas teclas de seu piano, a música não parecia mais entediante e ele sentiu os lábios se abrirem num sorriso ao ver o belo rosto dela se virar para o dele e sorrir também. Neste exato momento, ele se perdeu na melodia e tocou uma nota desafinada e barulhenta que fez o murmúrio da conversa dos homens se silenciar. Ao se virar para eles, o garoto pode ver a expressão facial severa já tão familiar de um deles e imediatamente fechou o piano com força e correu para o seu quarto.
***
O hospital estava muito barulhento naquela madrugada, vários médicos e enfermeiros iam de lá para cá formando quase que uma bagunça no corredor, todos se dirigindo para um único quarto, mas essa euforia não parecia incomodar o único garoto que estava sentado na sala de espera. Ele possuía vários cortes e hematomas ao redor do corpo, suas roupas estavam sujas e rasgadas, mantinha a cabeça baixa com as mãos escondendo o rosto. Não prestava a atenção em nada, a única coisa que escutava era o pesar de sua respiração ate que uma voz conhecida o despertou.
- Naruto... – a voz de Sasuke fora como um alarme que soara e o fez voltar para a realidade, mas ele permaneceu em silêncio. O amigo se sentara ao seu lado, sua aparência não era tão diferente quanto à dele, exceto pelo detalhe de que sua mão direita estava engessada.
- Shikamaru e Kiba estão bem, Chouji sofreu algumas fraturas, mas amanhã de manhã já recebera alta. – continuou Sasuke com o mesmo tom calmo de antes.
- E enquanto ao Neji? – perguntou Naruto com a voz rouca ainda com o rosto escondido entre as mãos. A voz de Sasuke pareceu travar antes de responder.
- Ele vai ter que passar por uma cirurgia... O caso dele é um pouco mais grave...
Naruto sentiu uma pontada forte de dor no coração e imediatamente as lembranças do acidente vieram à tona em sua cabeça. Viu de relance a luz forte do farol que vinha na direção deles, sentiu como se suas mãos estivessem segurando o volante novamente tentando desesperadamente desviar do outro carro, ouviu o barulho que os pneus faziam sobre o asfalto devido à virada brusca enquanto escutava o grito de seus amigos e então sentiu o solavanco forte da batida, depois não se lembrou de mais nada.
Os machucados de Naruto latejaram com a lembrança e ele sentiu uma lágrima descer pelo seu rosto.
- Foi tudo culpa minha! – disse entre um suspiro abafado.
- Não foi sua culpa! E sim daquele desgraçado que apareceu na contramão! — gritou Sasuke, mas mesmo assim o loiro permanecia na mesma posição em que se encontrava agora chorando baixinho.
- Como é que eu vou encarar a Hinata agora? – a voz dele estava tremida e as lágrimas agora não paravam de cair de seus olhos. Sasuke apoio a mão sobre as costas de Naruto antes de dizer:
- Vai dar tudo certo. Você sabe que o Neji é forte. – mas aquilo não pareceu surtir nenhum efeito no amigo.
Neste exato momento, uma enfermeira se aproximou deles apressadamente.
- Naruto Uzumaki? – ela perguntou em um tom preocupado. Naruto levantou o rosto e olhou confuso para ela – Venha comigo, por favor.
Os dois acompanharam a enfermeira ate o quarto, que antes estava abarrotado de médicos. Sasuke ficou na porta enquanto os outros dois entravam. No quarto se encontrava uma cama onde Neji estava deitado, ele estava abatido e pálido e seu rosto não demonstrava expressão alguma. Naruto excitou um pouco ao ver o amigo daquele jeito e novamente sentiu a dor da culpa de antes.
- Ele disse que precisava falar com você antes da cirurgia. – a enfermeira disse antes de sair do quarto – por favor, não demorem.
O loiro se sentou numa cadeira em frente à cama tentando segurar as lágrimas, Neji olhou para ele e sorriu.
- Você parece pior do que eu. – disse com a voz fraca – Os outros estão bem?
Naruto assentiu ainda em silêncio e nisso sentiu uma lágrima descer pelo seu rosto que ele enxugou rapidamente.
- Que bom, — continuou Neji – pena que eu não tive a mesma sorte...
- Neji eu... Me perdoa! Se eu tivesse... – a voz de Naruto saiu tremida e ele sentiu novamente uma lágrima descer pelos seus olhos.
- Hey! Nem pense em ficar se culpando, entendeu? O que aconteceu, aconteceu, não foi culpa de ninguém! Eu só quero que você me prometa uma coisa. Promete que vai cuidar da Hinata por mim?
- Neji! Não fale como se isso fosse uma despedida, você é forte! Vai conseguir...
- Só promete, por favor. Ela gosta muito de você...
Naruto ficou paralisado olhando para o amigo agora deixando as lágrimas caírem, depois de se acalmar respondeu.
- Eu sei, eu prometo. Mas eu juro que você vai sair dessa! – Neji apenas sorriu para Naruto, era como se ele já tivesse aceitado seu próprio destino, mas mesmo assim ficara feliz em ver como o amigo continuava lutando por ele.
- Vocês dois precisam sair. – disse uma médica ao entrar no quarto junto com vários outros médicos e enfermeiros – precisamos começar a cirurgia.
- Vai dar tudo certo! – disse Naruto mais para si mesmo do que para Neji, então se levantou e saiu do quarto.
- Eu preciso de ajuda aqui! Ele está perdendo muito sangue!
"O que? Essa música de novo?"
- Doutora! A pressão dele está caindo muito rápido!
"Onde eu estou? Esse lugar me parece famíliar..."
- Precisamos parar o sangramento!
"Ah, sim. Eu me lembro desse dia, o dia em que eu te conheci..."
- Ele está tendo uma parada cardíaca!
"Onde eu estou agora? O funeral dos meus pais."
- Precisamos reanimá-lo agora!
"Você estava segurando a minha mão..."
- A hemorragia não quer parar!
"Hinata..."
- O coração dele parou!
"Queria poder te ver dançar mais uma vez."
- Nós o perdemos...
***
Hinata não gostava da Rússia, lá os dias eram frios e cinzentos com o céu sempre nublado, muito diferente da cidade onde vivia no Japão. Sentia falta de quando acordava cedo e conseguia ver o nascer do sol, e do perfume das flores de cerejeira. Mas o que ela mais sentia falta, era de seus amigos. Passava muito tempo sozinha na Rússia e, por causa das apresentações de dança, estava quase sempre ocupada sem nem tempo para respirar. O único momento que ela tinha para si mesma era quando treinava sua dança. O balé era uma forma de terapia para ela no qual todos os seus problemas pareciam sumir, e aquele mês de apresentações parecia passar mais rápido enquanto ela treinava, mas fora em um desses momentos que ela recebeu uma das piores notícias de sua vida.
Ouviu a voz da professora chamar seu nome dizendo que havia uma ligação para ela. Hinata sorriu e correu ate o salão principal do teatro para atender o telefone. Fazia tempo que não recebia ligações, aliás, fazia tempo que Neji não ligava para ela. Ele era o único em sua família que a apoiava em relação ao seu sonho, e era o único também que a telefonava quase todos os dias, as vezes só para escutar a voz dela. Mas desta vez, não era Neji do outro lado da linha, e quando escutou a voz de seu pai contando-lhe o que aconteceu, Hinata deixou o telefone cair.
O sol não estava brilhando naquele dia e uma forte chuva caia sobre a cidade. Fazia muito tempo que Hinata não usava roupas assim, com o vestido longo e negro todo fechado ela entrou no largo salão de sua casa e, mesmo tendo ficado fora apenas um mês, aquele lugar parecia totalmente desconhecido para ela. Vários membros de sua família já estavam lá todos usando as mesmas roupas de tecido negro pesado e mantendo a mesma postura de seriedade, então ela se lembrou daquele dia há muito tempo do funeral de seus tios. Sentiu de novo aquela sensação de confusão e desconforto, mas não tinha ninguém para segurar a sua mão como daquela vez. Foi só quando ela chegou no meio do salão que ela pode ver, o caixão aberto e o corpo de seu primo imóvel como pedra, mas com uma expressão de profunda paz no rosto. Imediatamente, Hinata sentiu as pernas bambearem e ela foi ao chão ficando de joelhos, levou uma de suas mãos aos lábios tremidos automaticamente enquanto cerrava o punho da outra fortemente contra o peito para tentar amenizar a dor gritante que sentia em seu coração. Fechou os olhos para tentar evitar aquela cena e então sentiu as lágrimas quentes descerem pelo seu rosto, não havia chorado ate aquele momento, não havia acreditado ate aquele momento.
Os murmurios do salão pararam e todos os olhares se dirigiram à ela, e então, pela primeira vez, aquela família fria que sempre tentava manter a postura de seriedade conseguiu sentir um pouco da dor que vinha daquela garota ajoelhada no chão que chorava baixinho. Hinata ouviu a voz fraca de seu pai chamar o seu nome enquanto sentia a mão dele segurar o seu braço e puxá-lo levemente, mesmo assim aquele contato pareceu frio e distante para ela e no mesmo instante a menina se levantou e correu para fora da mansão. Ela não ouviu quando a sua irmã mais nova gritou pelo seu nome e muito menos se importou com a pesada chuva que enxarcava todo o seu corpo, ela só queria sair dali, ela só queria fugir daquela triste verdade, e mais do que nunca ela precisava de alguém, mas Hinata nunca estivera tão só.
***
Já haviam se passado duas longas semanas após a morte de Neji e a vida de todos agora parecia ter voltado ao normal, pelo menos a de quase todos. Naruto não tivera coragem de ir ao funeral, e quando ouviu os boatos de que Hinata simplesmente saíra correndo em lágrimas quando viu o corpo de Neji só o fez se sentir ainda pior. Ele sabia que deveria ir falar com ela, ele queria muito ir falar com ela, mas só de pensar naqueles lindos olhos perolados em lágrimas Naruto sentia uma forte dor no coração quase impossível de suportar. Também sentia culpa, o remorso que atormentava sua consciência por não ter sido capaz de proteger seus amigos naquele acidente, de não ter sido capaz de salvar Neji.
Até mesmo aquela bela vista do lago não foi capaz de confortar a dor que Naruto sentia, foi então que ao passar perto do cais ele a viu. A beira do cais, Hinata se encontrava sentada de costas para ele, usava um vestido branco e tinha os cabelos soltos que balançavam levemente ao vento. Quando Naruto a viu, por um momento, ele se esqueceu de tudo e foi automaticamente andando em direção à ela. Como ele sentira falta dela! Mais do que tudo ele queria abraçá-la naquele mometo, mas então as lembranças daquele acidente atravessaram o seu corpo como uma onda e ele ficou paralisado, sem saber se deveria continuar e ir falar com ela ou simplesmente ir embora.
- Neji gostava muito desse lugar. — disse Hinata com o tom de voz baixo quase como um sussurro, mas suficientemente alto para que Naruto pudesse escutar. Ela havia notado a presença dele, Hinata tinha um certo sexto sentido para essas coisas, era como se ela tivesse olhos nas costas. Naruto suspirou pesadamente sabendo que agora não dava mais para fugir e foi ate a beira do cais se sentando ao lado dela.
- Ele dizia que se sentia mais livre aqui... — ela continuou, sua voz suave como o canto de um rouxinol — Ele e o meu pai brigavam muito por causa do jeito dele. — Naruto não conseguia olhar para ela, mas ele pensou ver de relance um leve sorriso se formar naqueles finos lábios. Ele queria muito confortá-la, queria abraçá-la, queria que ela o abraçasse, mas ele não se sentia digno disso. Com a voz tremendo, a única coisa que ele fora capaz de dizer foi:
- Eu sinto muito. O Neji era um ótimo amigo... — e então um silêncio incomodo pairou sobre eles até que Naruto não aguentou mais e simplesmente jogou tudo o que estava sentindo pra fora.
- Foi tudo culpa minha! — as palavras saiam meio imboladas de sua boca e ele fazia uma força enorme para não perder o controle e desabar na frente dela — Se eu tivesse prestado mais atenção na estrada nada disso teria acontecido!
- Não foi sua culpa. — ela disse ainda na mesma tonalidade calma, mas ele pareceu não ouvir.
- Se eu tivesse desviado antes daquele idiota aparecer...
- Naruto! — Hinata gritou firmemente fazendo com que Naruto se surpreendesse e olhasse para aqueles olhos perolados que, apesar de demonstrarem uma profunda tristeza, ainda era um olhar forte e penetrante, Hinata nunca havia olhado para ele assim.
- Não foi sua culpa. — ela disse agora mais calmamente com uma certa melancolia no tom de voz — As vezes coisas trágicas como essa acontecem, e nós infelizmente perdemos pessoas muito queridas, mas a vida é assim! Nós não podemos nos deixar levar, precisamos ser fortes e suportar isso!
Naruto ficou paralisado olhando a garota a sua frente, tão diferente daquela menininha boba que ele se lembrava de quando criança, que gaguejava o seu nome e ficava extremamente vermelha quando ele a encarava. Mesmo sofrendo pela perda do primo, Hinata conseguiu se manter forte e ficar ao seu lado naquele momento tão dificil. Ele prometera ao Neji que iria cuidar dela, mas naquela hora, era ela quem estava cuidando dele. Naruto segurou fortemente uma das mãos de Hinata antes de sorrir e dizer.
- Obrigado, Hinata. — toda a culpa em seu coração se fora. Ela estendeu os finos braços e os envolveu no pescoço de Naruto enquanto deitava a cabeça em seu peito, e rapidamente ele sentiu sua blusa molhar com as lágrimas dela. Hinata não queria que ele a visse chorar.
- Eu vou sentir falta dele! — ela disse entre um leve suspiro enquanto Naruto a abraçava fortemente pela cintura puxando-a mais para si.
- Eu também. — ele disse enquanto acariciava os longos cabelos de Hinata.
E os dois ficaram lá abraçados e de mãos dadas por um bom tempo confortando a dor um do outro enquanto, ao longe, podia-se ver o entardecer com vários pássaros no céu voando livremente.
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