BlackSwan
31 Millennium
Mais tarde naquela noite, depois que Charlie Swan finalmente aceitou dividir a atenção da neta com o restante da família, ele me chamou para conversar. Seth já nos esperava em uma das construções afastadas da mansão principal. O prédio ficava próximo da encosta rochosa da ilha e, por fora, parecia apenas um depósito comum. Por dentro, no entanto, lembrava mais um laboratório clandestino.
Mesas cobertas por equipamentos eletrônicos ocupavam praticamente todo o espaço. Monitores exibiam linhas de código, gráficos e informações que eu não fazia questão de entender. O cheiro de metal aquecido e componentes eletrônicos dominava o ambiente. Seth circulava entre os aparelhos com a mesma naturalidade de alguém andando pela própria sala de estar.
Fechei a porta atrás de mim e observei os dois.
Charlie Swan estava encostado em uma bancada.
Seth parecia nervoso.
Aquilo sozinho já era suficiente para me deixar desconfiado.
— Certo — falei cruzando os braços. — Agora alguém vai me explicar o que está acontecendo?
Charlie soltou uma pequena risada.
— Você continua impaciente.
— E você continua desaparecendo por anos sem explicação.
O velho Swan assentiu.
— Justo.
Ele caminhou até uma das mesas e apoiou as mãos sobre ela.
— Depois que a KGB descobriu parte do que Carlisle e eu estávamos fazendo, tudo saiu do controle muito rápido. Agentes começaram a desaparecer. Laboratórios foram invadidos. Pessoas foram interrogadas. Eles sabiam que existia algo importante, mas ainda não sabiam exatamente o quê.
— E como vocês escaparam?
Charlie apontou para a porta.
— Edward.
Aquilo me surpreendeu.
— Edward?
— O garoto é um gênio.
Não demorou para Edward entrar no laboratório, carregando uma caneca de café.
— Eu ouvi isso.
— Foi proposital.
Edward revirou os olhos.
Charlie voltou sua atenção para mim.
— Antes de tudo isso, Edward trabalhava com sistemas avançados de segurança e criptografia. Quando a KGB começou a nos cercar, ele percebeu algo que ninguém tinha percebido.
— O quê?
Edward respondeu antes do sogro.
— Eles não estavam procurando pessoas.
— Não?
— Estavam procurando padrões.
Ele colocou a caneca sobre uma bancada.
— Contas bancárias. Passaportes. Compras. Deslocamentos. Comunicação digital. A KGB criou uma inteligência artificial para cruzar dados globais. Ela não procurava nomes. Procurava comportamentos.
Aquilo fez sentido imediatamente.
— Então você enganou o sistema.
Edward assentiu.
— Criamos dezenas de identidades falsas. Centenas de movimentações fictícias. Durante meses a KGB perseguiu fantasmas espalhados em cinco continentes enquanto nós desaparecíamos.
Charlie sorriu discretamente.
— Foi a única razão pela qual chegamos vivos até aqui.
— E Renee?
O velho Swan não respondeu imediatamente.
Aquilo chamou minha atenção.
— Charlie.
— Ela está segura.
— Onde?
— Segura.
— Isso não responde a pergunta.
Charlie desviou o olhar.
E naquele momento minha desconfiança aumentou.
Porque Charlie Swan era muitas coisas.
Mentiroso não era uma delas.
Mas omitir informações?
Aquilo ele fazia muito bem.
Caminhei lentamente pelo laboratório observando os equipamentos espalhados.
— Não.
Charlie ergueu uma sobrancelha.
— Não o quê?
— Não foi só isso.
O silêncio tomou conta do ambiente.
Seth parou de mexer em um monitor.
Edward cruzou os braços.
E Charlie Swan simplesmente ficou me observando.
Continuei falando.
— Você não desapareceria durante anos apenas para fugir. Você não abandonaria Renesmee. Não esconderia Bella. Não esconderia Edward. Não sumiria do mapa inteiro sem um motivo muito maior.
Os olhos do velho Swan brilharam discretamente.
— Continue.
— Você estava protegendo alguma coisa.
Ninguém respondeu.
— Algo importante o suficiente para justificar tudo isso.
Charlie sorriu.
Aquele sorriso confirmou tudo.
— Você realmente não perdeu suas habilidades, Black.
Olhei para Seth.
— O que vocês estão escondendo?
Seth imediatamente desviou os olhos para Charlie.
Como se pedisse autorização.
Aquilo só piorou minha curiosidade.
— Seth?
O cientista respirou fundo.
— Charlie...
— Mostre para ele.
Seth pareceu desconfortável.
Muito desconfortável.
— Tem certeza?
— Sim.
— Talvez seja cedo demais.
— Mostre.
O laboratório mergulhou em silêncio.
Seth caminhou lentamente até uma das bancadas centrais, ali havia um painel metálico integrado ao chão, ele digitou uma sequência de números, depois apoiou a mão sobre um leitor biométrico. Um som mecânico ecoou pelo laboratório e algo começou a se mover.
Uma parte da bancada deslizou para trás revelando um compartimento oculto abaixo dela. Luzes azuladas se acenderam automaticamente.
Então eu vi. No centro do compartimento repousava um objeto que não se parecia com nada que eu já tinha visto. Tinha aproximadamente o tamanho de uma bola de futebol e era formado por estruturas metálicas entrelaçadas que pareciam se mover lentamente por conta própria. Linhas luminosas percorriam sua superfície como veias de energia viva. O núcleo pulsava em intervalos regulares, emitindo uma luz azul intensa que iluminava o laboratório inteiro.
Aquilo parecia tecnologia. Mas também parecia orgânico.
Como se uma máquina e um ser vivo tivessem sido fundidos em uma única coisa.
Dei um passo à frente sem conseguir desviar os olhos.
— Que porra é essa?
Seth observou o objeto por alguns segundos.
Até sua voz mudou quando respondeu, como se estivesse falando de algo sagrado ou perigoso demais.
— Jacob Black...
Ele apontou para o artefato iluminado.
— Apresento a você o Millennium.
Continuei observando o objeto por vários segundos sem conseguir decidir se aquilo parecia uma peça de tecnologia avançada ou alguma coisa retirada de um pesadelo científico. As estruturas metálicas que o compunham se moviam lentamente umas sobre as outras como engrenagens vivas, enquanto a luz azul pulsava de dentro para fora em intervalos quase orgânicos. Em toda minha vida eu tinha visto armas experimentais, projetos secretos da CIA, protótipos militares da KGB e tecnologias que jamais apareceriam em jornais ou livros. Ainda assim, aquilo era diferente.
— Então esse é o motivo de toda essa confusão? — perguntei finalmente, sem desviar os olhos do artefato.
Charlie Swan assentiu lentamente.
— Esse é o motivo pelo qual Carlisle morreu.
O laboratório ficou em silêncio.
Mesmo Seth interrompeu o que estava fazendo.
Charlie caminhou até o compartimento onde o objeto permanecia protegido e observou o brilho azulado refletir em seu rosto envelhecido.
— Foi a última criação dele. Os últimos anos da vida de Carlisle foram dedicados a isso. Quando a KGB descobriu que ele estava próximo de concluir o projeto, tentou tomar o controle imediatamente. Eles acreditavam que aquilo poderia mudar completamente o equilíbrio de poder mundial.
— E vocês roubaram de volta.
— Recuperamos — corrigiu Charlie. — A KGB nunca deveria ter colocado as mãos nisso.
Edward se aproximou da bancada e cruzou os braços.
— A operação foi um desastre, aliás. Três agentes mortos, dois laboratórios destruídos e eu perdi um carro que gostava bastante.
— Você ainda sente falta daquele carro? — perguntou Seth.
— Era um carro excelente.
Ignorei os dois e continuei encarando o objeto.
— Certo. Agora a pergunta importante. O que exatamente isso faz?
Seth e Charlie trocaram um olhar.
Aquilo imediatamente me deixou desconfiado.
Muito desconfiado.
— Não.
Charlie suspirou.
— Jacob...
— Não. Não me diga que vocês arriscaram a vida de metade das pessoas nessa ilha por uma coisa que não entendem.
Seth ergueu uma das mãos.
— Tecnicamente nós entendemos algumas coisas.
— Algumas?
— Pouquíssimas.
Fechei os olhos por um instante.
— Maravilha.
Voltei a olhar para o objeto.
— Então deixa eu ver se entendi. Vocês podem estar escondendo uma bomba nessa ilha e não fazem ideia do que ela realmente faz.
— Ela não é uma bomba — respondeu Seth.
— Você sabe disso?
— Não exatamente.
— Ótimo. Fantástico.
Passei a mão pelo rosto sentindo uma dor de cabeça nascer.
— Estou começando a me arrepender seriamente de ter trazido minha família para cá.
Edward soltou uma gargalhada.
— Jacob, sua família já é praticamente uma bomba atômica ambulante.
Olhei para ele.
— Obrigado pelo apoio.
— Renesmee consegue rastrear pessoas a quilômetros de distância, Charlie provavelmente é a criança mais importante do planeta sem saber disso e você coleciona organizações internacionais tentando te matar. Honestamente, o Millennium talvez seja a coisa menos perigosa desta ilha.
O pior era que ele tinha razão.
Charlie Swan apoiou as mãos sobre a bancada e voltou sua atenção para o artefato.
— Seth está tentando descobrir exatamente o que ele faz. Carlisle deixou anotações incompletas. Algumas partes foram destruídas antes de conseguirmos recuperá-las.
— Então vocês passaram anos estudando isso.
— Sim.
— E ainda não descobriram?
— Descobrimos algumas coisas.
Seth caminhou até um monitor próximo e digitou alguns comandos. Diversos gráficos surgiram na tela.
— Durante anos ele permaneceu praticamente inativo. Consumia energia mínima. Não reagia a estímulos. Não emitia sinais relevantes.
— E agora?
Seth ficou em silêncio por alguns segundos.
Aquilo não me agradou.
— Seth.
— Agora ele está diferente.
Olhei novamente para o objeto.
A luz azul parecia mais intensa do que antes.
Como se respirasse.
Como se estivesse acordado.
— Diferente como?
Foi Charlie Swan quem respondeu.
— Ele começou a brilhar assim quando vocês chegaram.
O silêncio que se seguiu foi imediato.
Senti um arrepio percorrer minhas costas.
— O quê?
Seth apontou para os gráficos.
— O Millennium permaneceu praticamente adormecido durante anos. Nós registrávamos pequenas oscilações, mas nada significativo. Então seu avião pousou nesta ilha.
— E?
— E pela primeira vez ele reagiu.
Meu olhar foi imediatamente para Charlie Swan.
Depois para Edward.
Depois para Seth.
— Está reagindo a mim?
— Não sabemos.
— Renesmee?
— Talvez.
— Charlie?
Dessa vez nenhum dos três respondeu imediatamente.
O que era uma resposta por si só.
Seth respirou fundo.
— Essa é justamente a hipótese que mais nos preocupa.
Depois de quase uma hora ouvindo sobre tecnologias impossíveis, projetos secretos da KGB, fugas internacionais e um artefato que aparentemente acordava sozinho, tudo o que eu queria era voltar para perto da minha família. Saí do laboratório com mais perguntas do que respostas e caminhei pela trilha iluminada pela lua em direção à casa principal. A brisa quente do Caribe soprava entre as palmeiras, trazendo o cheiro do mar e o som constante das ondas quebrando contra as pedras da costa. Pela primeira vez em muitos meses não havia tiros, perseguições ou agentes tentando me matar. Pelo menos por enquanto.
A mansão estava silenciosa quando entrei. Algumas luzes permaneciam acesas nos corredores, mas a maior parte da casa já havia recolhido para dormir. Subi as escadas devagar e segui até o quarto que Rachel havia preparado para nós. Quando abri a porta encontrei exatamente a cena que precisava depois daquele dia interminável.
Charlie dormia profundamente no centro da enorme cama de casal.
Nossa filha estava abraçada ao ursinho que ganhara de Rachel, completamente alheia a guerras secretas, clones, KGB e dispositivos misteriosos capazes de mudar o mundo. Renesmee estava sentada ao lado dela acariciando seus cabelos lentamente enquanto observava a menina dormir. A luz suave do abajur iluminava parcialmente seu rosto e por alguns segundos fiquei apenas observando as duas.
Era estranho.
Eu havia passado anos lutando para sobreviver.
Agora tudo o que me importava estava naquela cama.
Renesmee percebeu minha presença antes mesmo que eu dissesse qualquer coisa. Os sentidos dela continuavam absurdos.
— Como foi a conversa? — perguntou em voz baixa para não acordar Charlie.
Soltei uma risada cansada.
— Louca.
— Isso não reduz muito as opções.
— Charlie Swan está escondendo um artefato capaz de assustar cientistas da KGB, Seth não sabe exatamente como ele funciona e aparentemente o objeto resolveu começar a reagir justamente depois que chegamos.
Renesmee arqueou uma sobrancelha.
— Certo. Isso realmente parece louco.
Aproximei-me da cama e passei a mão pelos cabelos de Charlie. Ela resmungou alguma coisa incompreensível enquanto continuava dormindo.
Aquela cena fez algo dentro de mim relaxar.
Talvez porque fosse normal.
Talvez porque, pela primeira vez naquele dia, eu não estivesse cercado de segredos.
Percebi então que Renesmee também parecia mais tranquila. A raiva que carregava desde o encontro com Bree havia diminuído um pouco.
Ainda estava ali.
Mas já não queimava da mesma forma.
Olhei para ela.
— Podemos conversar?
Nessie me observou por alguns segundos.
Depois assentiu.
Com cuidado, nós dois nos inclinamos sobre a cama e beijamos os cabelos de Charlie sem acordá-la. Nossa filha apenas se mexeu um pouco, apertando mais forte o ursinho.
Então seguimos em silêncio para a varanda.
O mar se estendia diante de nós iluminado pela lua. A brisa balançava os cabelos escuros de Renesmee enquanto ela se apoiava no corrimão observando o oceano.
Por alguns segundos nenhum dos dois falou.
Então eu respirei fundo.
— Preciso te explicar uma coisa.
Ela não respondeu.
Mas ouviu.
— Eu não matei a Bree porque tenho uma dívida com ela.
Os olhos de Renesmee se moveram para mim.
Continuei antes que ela interrompesse.
— Anos atrás eu estava infiltrado em uma operação da KGB na Europa Oriental. A missão deu errado. Muito errado. Levei três tiros.
Nessie imediatamente ficou séria.
Eu raramente falava daquele período.
— Um atravessou meu ombro. Outro acertou minha lateral. O terceiro ficou perigosamente próximo do pulmão. Eu deveria ter morrido naquela noite.
O silêncio dela me incentivou a continuar.
— Bree me encontrou antes que a equipe de limpeza chegasse. Ela podia ter me deixado lá. Ninguém descobriria. Mas não deixou.
Lembrei da noite.
Do sangue.
Da dor.
Do frio.
— Ela me carregou praticamente desacordado por quilômetros. Arriscou a própria posição dentro da KGB para me esconder. Passou dias cuidando de mim enquanto eu me recuperava.
Renesmee baixou os olhos.
— Você amava ela?
A pergunta saiu calma.
Honesta.
Pensei por alguns segundos antes de responder.
— Achei que amava.
Ela permaneceu em silêncio.
Aproximei-me devagar.
— Mas então conheci você.
Nessie ergueu os olhos novamente.
— Jacob...
— É verdade.
Toquei o rosto dela com cuidado.
— Eu devia ter contado tudo antes. Devia ter explicado. Mas quando vi você ameaçada e depois vi Charlie assustada... tudo virou caos.
Ela fechou os olhos por um instante encostando o rosto na minha mão.
— Eu tive medo.
— De quê?
— De perder você.
A resposta saiu tão baixa que quase foi levada pelo vento.
Meu peito apertou imediatamente.
— Nessie...
— Eu sei que parece irracional.
— Não parece.
Ela soltou uma pequena risada.
— Eu quase matei uma mulher por ciúmes.
— Tecnicamente você só estrangulou ela um pouco.
Isso arrancou um sorriso dela.
Finalmente.
O primeiro sorriso verdadeiro desde a Amazônia.
Aproximei-me mais.
— Eu amo você.
Renesmee ficou imóvel.
— Eu amo a mulher que você se tornou. Amo a mãe que você é. Amo o fato de você continuar enxergando coisas bonitas no mundo mesmo quando ele pode se virar contra você.
Os olhos dela começaram a brilhar.
— Jacob...
— Eu escolheria você mil vezes.
A distância entre nós desapareceu.
Renesmee segurou meu rosto com as duas mãos e me beijou.
Um beijo lento.
Calmo.
Sem pressa.
Como se estivéssemos finalmente deixando para trás toda a tensão dos últimos dias.
Quando nos afastamos apenas o suficiente para respirar, ela encostou a testa na minha.
— Eu amo você também.
Sorri.
Então percebi que desde que Bree apareceu naquela ilha da Amazônia, senti que estávamos em paz novamente.
Mesmo que, em algum lugar da casa, um artefato chamado Millennium tivesse acabado de acordar.
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