BlackSwan
3 Believe
Narrado por Renesmee
Soltei o carrinho com um leve empurrão, deixando-o imóvel ao meu lado, enquanto meus olhos permaneciam fixos nele. Jacob se moveu com uma calma quase provocativa, como se cada gesto fosse calculado não para atacar, mas para observar. Ele caminhou até o sofá sem pressa, como alguém que está no próprio território, e se acomodou com naturalidade, apoiando um braço no encosto e cruzando levemente as pernas.
— Sente-se — disse, em tom tranquilo, como se estivéssemos prestes a iniciar uma conversa comum.
Mantive-me onde estava, a postura firme, o peso distribuído de forma equilibrada, pronta para reagir a qualquer movimento fora do padrão.
— Estou bem em pé.
Ele sorriu de lado, um sorriso curto, quase divertido, como se já esperasse aquela resposta.
— Pode ficar tranquila — continuou, erguendo levemente as mãos em um gesto casual. — Como você pode ver… não estou armado.
Meus olhos percorreram o corpo dele com rapidez, analisando postura, possíveis volumes sob a roupa, qualquer indício de ameaça imediata. Nada evidente. Ainda assim, aquilo não significava segurança. Significava escolha.
Inclinei levemente a cabeça, deixando que a conclusão se formasse sem pressa.
— Você deixou que a CIA te encontrasse.
Por um breve segundo, o silêncio pairou entre nós, e então ele sorriu novamente, dessa vez com mais clareza, como alguém que aprecia uma resposta bem dada.
— Bingo.
Jacob estendeu a mão até a mesa de apoio ao lado do sofá, pegando uma pequena taça com uvas. Escolheu uma com cuidado quase exagerado, levando-a à boca sem desviar o olhar de mim.
Observei o gesto com atenção antes de dar mais um passo à frente, diminuindo a distância entre nós sem, no entanto, invadir completamente o espaço dele.
— Por quê?
Ele mastigou devagar, como se estivesse saboreando não apenas a fruta, mas o momento em si, e só então respondeu.
— Fiquei curioso.
A resposta veio simples demais, leve demais, o que apenas aumentava o peso por trás dela.
— Curioso para conhecer a nova favorita da CIA — completou, apoiando o cotovelo no braço do sofá. — Ouvi dizer que você é eficiente. Até o momento em que… eles decidirem que você não é mais útil.
A provocação foi sutil, mas calculada. Permaneci em silêncio por um instante, absorvendo cada palavra sem permitir que qualquer reação escapasse além do necessário.
— Isso não responde a minha pergunta — retruquei, mantendo o tom controlado. — Por que você traiu a agência?
Jacob riu baixo, balançando a cabeça de leve, como se aquela pergunta fosse previsível demais.
— Nem tudo é o que parece, senhorita Swan — disse, com um leve brilho nos olhos. — Ou eu deveria te chamar de… Cisne Negro?
O apelido pairou no ar por um segundo, carregando um peso que ia além de uma simples escolha de palavras. Permiti que um pequeno sorriso surgisse, discreto, quase imperceptível.
— Se prefere apelidos… — respondi, mantendo o olhar fixo no dele — posso te chamar de Alpha.
Ele pegou outra uva, girando-a entre os dedos antes de levá-la à boca, claramente entretido com a situação.
— Interessante — murmurou. — Um encontro curioso… um cisne e um lobo.
Dei mais um passo, agora reduzindo a distância de forma mais direta, deixando claro que não estava ali para jogos de palavras.
— Isso não é um encontro — falei, firme. — Você está preso por traição.
O sorriso dele não desapareceu.
Jacob sustentou o sorriso por mais alguns segundos, como se saboreasse cada palavra dita até ali, antes de inclinar levemente o corpo para frente, apoiando os cotovelos nos joelhos. Havia algo na postura dele que não combinava com alguém encurralado, muito menos com alguém prestes a ser capturado.
— Eu vou com você — disse, com uma tranquilidade quase absurda. — Se conseguir me derrubar.
A proposta pairou no ar por um instante, carregada de desafio.
Soltei uma breve risada, baixa, controlada, inclinando a cabeça como se estivesse avaliando a ideia com certo desdém.
— Isso vai ser fácil.
Ele arqueou uma sobrancelha, o sorriso se ampliando de forma sutil, como se tivesse acabado de encontrar exatamente o que queria.
— Além de linda… segura de si — comentou, levantando-se com calma. — Chega a ser um pouco prepotente.
Meus olhos não saíram dele enquanto ele se movia até a pequena mesa ao lado do sofá. Sua mão alcançou um controle remoto, e, antes que eu pudesse antecipar qualquer outra intenção, um som preencheu o ambiente. A batida intensa de “Believer”, do Imagine Dragons, tomou conta do quarto, quebrando o silêncio com uma energia quase provocativa, deslocada demais para a situação.
Jacob girou levemente o pescoço, como se aquecesse os músculos, e então caminhou na minha direção com passos firmes, despreocupados demais para alguém que sabia exatamente quem eu era.
Parou a poucos centímetros de mim.
O ar entre nós parecia mais denso.
— Me concederia essa dança?
A irritação veio rápida, direta, cortando qualquer resquício de paciência que ainda restava. Não respondi com palavras. Meu corpo respondeu antes, avançando com precisão, o punho fechado buscando o ponto exato para neutralizá-lo em um único movimento.
Mas ele já não estava mais ali.
Jacob desviou com uma fluidez impressionante, girando o corpo ao lado do meu ataque, deixando que o golpe cortasse o ar vazio. Senti o deslocamento dele antes mesmo de vê-lo novamente, reposicionando-se atrás de mim com a mesma leveza com que havia se levantado do sofá.
A música continuava, a batida marcando o ritmo.
E, naquele instante, ficou claro.
Aquilo não seria uma luta comum.
Seria um jogo.
E ele já estava se divertindo.
Girei o corpo no mesmo instante em que senti a presença dele atrás de mim, usando o impulso do próprio erro para corrigir a posição e lançar um chute lateral na altura das costelas. Jacob bloqueou com o antebraço, absorvendo parte do impacto, mas recuou um passo, o suficiente para me dar abertura. Avancei sem hesitar, combinando um golpe direto com o punho seguido de uma tentativa de imobilização pelo ombro, buscando reduzir o espaço entre nós e limitar os movimentos dele.
Ele respondeu com rapidez impressionante, girando o corpo para fora da linha do ataque e deslizando a mão pelo meu pulso, tentando quebrar minha base. Antecipei o movimento, recuei um passo e voltei com um cotovelo firme em direção ao tórax dele. O impacto foi seco, fazendo-o perder o equilíbrio por um segundo, mas não o suficiente para derrubá-lo.
A música pulsava ao redor, marcando cada troca de golpes como se aquele confronto tivesse sido coreografado.
Jacob sorriu.
E isso só aumentou minha irritação.
Ele avançou dessa vez, rápido, direto, tentando reduzir a distância com uma sequência de golpes curtos. Bloqueei o primeiro, desviei do segundo e senti o terceiro roçar meu braço. Aproveitei a proximidade e girei o quadril, acertando um soco limpo no rosto dele. O impacto fez sua cabeça virar de lado, e, por um instante, o tempo pareceu desacelerar.
Um filete de sangue surgiu no canto dos lábios dele.
Jacob levou a mão até o rosto, tocando o sangue com a ponta dos dedos antes de olhar para mim novamente. O sorriso voltou, ainda mais evidente.
— Seria ótimo… — disse, limpando o lábio com o polegar — se tivesse sido um beijo.
Ignorei a provocação.
Avancei novamente.
Dessa vez, não dei espaço. Combinei golpes rápidos, alternando altura e direção, forçando-o a recuar. Ele desviava, bloqueava, respondia, mas, aos poucos, eu assumia o controle do ritmo. Um chute baixo atingiu sua perna, quebrando a base. Aproveitei a abertura e avancei com o ombro, empurrando-o para trás. Jacob tentou girar para escapar, mas antecipei o movimento, segurando seu braço e usando o próprio peso dele para conduzi-lo ao chão.
O impacto contra o carpete foi abafado, mas firme.
Não esperei.
Ajoelhei sobre ele, pressionando seu corpo contra o chão enquanto mantinha o controle do braço. Em um movimento rápido, puxei a arma, apontando diretamente para a testa dele, a respiração controlada apesar da intensidade do confronto.
O cano frio da arma encostou em sua pele.
Jacob ficou imóvel.
Mas o sorriso… ainda estava lá.
— Acabou — declarei, firme, mantendo o olhar fixo no dele.
Por um segundo, o silêncio tomou conta do quarto novamente, contrastando com a música que ainda ecoava ao fundo.
E, mesmo naquela posição, com uma arma apontada para a cabeça, Jacob Black não parecia derrotado.
Parecia… interessado.
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