Black Past

2 Capítulo Dois: Insanidade.


Notas iniciais
Feliz ano-novo, amores!!

O garoto era pequeno, talvez até pequeno demais. Não saberia dizer precisamente a idade, mas no momento essa era a última coisa que lhe importava. Parecia tanto com James que por um momento, Sirius se assustou – há quanto tempo não conseguia se lembrar nada de sua época de escola? – e então notou. Os olhos da pequena miniatura de James não eram castanho chocolate e nem tinham aquele brilho travesso de quem sugeria a quebra de sete regras diferentes ao mesmo tempo, e sim do mesmo tom verde esmeralda de Lily, com o seu brilho sereno. O menino estava rindo para alguma coisa – será que era para ele?

Sirius agachou-se, ainda um pouco distante do menino e deixou um pequeno sorriso escapar. Era quase como se estivesse vendo James novamente, embora não fizesse ideia do porquê estarem em uma campina que fazia a vegetação da Floresta Proibida parecer a ganhadora de um concurso de jardins. E então um ratinho veio em direção ao Harry – porque só poderia ser o seu afilhado – mas era claro que aquele não era qualquer ratinho.

No momento seguinte, Wormtail estava em cima de seu afilhado, com as suas mãos imundas apertando o fino pescoço do garoto. Não era qualquer Wormtail – era Peter jovem, com a sua pança gordurosa saindo da regata branca, que deixava a mostra uma Marca Negra que Sirius nunca tinha visto antes. O seu afilhado arfava enquanto o garoto – não, o homem agora – que cresceu ao lado de Padfoot dava pequenos guinchos, guinchos nojentos de satisfação. Pouco a pouco, Harry havia parado de lutar e ficava imóvel, as marcas dos dedos roxos de Peter Pettigrew tatuadas em seu pescoço fino, os olhos verdes de Lily fixados nos olhos negros como a morte de Sirius.

Ele gritou e tentou se mexer, correr para o afilhado, mas então descobriu que não conseguia. Debateu-se, como se fosse adiantar alguma coisa, mas então não era possível nem fechar os olhos mais. Foi então que viu, em cores mais vivas do que ele e o seu estômago gostariam. Uma fina leve começara a cair, e com elas, os corpos começaram a surgir.

Primeiro foi Lily Evans – Lily Potter, raios, ele nunca iria se acostumar com isso. Os cabelos ruivos estavam espalhados, a pele pálida demais, e o sorriso petulante não estava em seu rosto. Era uma expressão desfigurada pelo terror, a mesma que ele vira na noite de sua verdadeira morte, mas o pior não era isso: aqueles lindos olhos verdes tão inteligentes e tão afiados carregavam lágrimas, agora congeladas pelo frio.

Depois foi Marlene McKinnon e seus dois irmãos. Os rapazes estavam com o rosto afundado na neve, mas Marlene ele podia ver bem. Também tinha a mesma expressão de horror de Lily e era quase um crime ver aqueles olhos castanhos, outrora tão determinados e brincalhões, apagados. O cabelo castanho chocolate dela estava molhado por um liquido vermelho, e por alguns segundos, Sirius teve medo de olhar para o lado.

Não era um homem completo. Não daria nem para dizer que era um homem, se a cabeça não estivesse quase intacta. Cabelos cor de areia e olhos azuis acinzentados, com um misto de terror e dor que diziam que esse sim havia encontrado o mau em pessoa. Sirius se lembrava muito bem do dia em que acharam o que sobrou do corpo dele – fazia parte das equipes de busca e nunca desejou tanto não ter saído da cama. Os pedaços ensanguentados estavam espalhados por toda a neve, com pequenas poças se acumulando perto dos pedaços de carne. Ninguém saberia identificar o que era um dedo e o que era a orelha naquela bagunça.

Edgar Bones. Morto. Sempre determinado, sempre feroz. Diante de todo o horror daquilo, Sirius conseguiu soltar uma risadinha triste. Grande homem, haviam dito, mas ele discordara. Sempre o mesmo garotão arrogante que achava que poderia fazer tudo, que lutar contra Voldemort era sair que nem um louco caçando Comensais. Deu trabalho do começo de seu alistamento até o fim, mas Sirius nutria um especial apreço por ele – afinal, apesar de tudo, também era um garotão arrogante. Mas tinha muito mais em jogo para o Black do que para o Bones. Um buscava uma doentia vingança familiar e proteger os amigos que se tornaram a sua verdadeira família, o outro simplesmente se recusava a aceitar que Hogwarts havia acabado e encarava aquilo como uma grande partida Grifinória x Sonserina. Grande homem? Grande pateta, isso sim. Um pateta valente, verdade, mas ainda um pateta.

Gideon e Fabian Prewett, esses sim dois grandes heróis. Cansaço e resignação estampavam os seus rostos, ainda em posição de luta. Embora estivesse terrivelmente sozinho com os corpos, podia escutar os gritos e o choro de Molly Prewett ao fundo – agora era Molly Weasley. Sirius preferia ficar surdo ao ter que ouvir o lamento da ruiva novamente.

Dorcas Meadowes, os cabelos loiros manchados de sangue, muito suja. Não era preciso ser um gênio para perceber o quão torturada ela foi e nem precisavam especular se sua morte fora muito ruim – o Lorde em pessoa se encarregara disso. Oh sim, um sadismo muito mais refinado do que o de seus seguidores, mas quem dissesse que era piedoso estaria sendo cruelmente irônico e, em seus tempos bons, Sirius teria adorado lhe dar uma surra.

Padfoot não queria olhar para o próximo corpo, porque sabia o que viria. O embrulho no estômago que sentiu ao ver Beijo não ia ser nada comparado a dor no coração do próximo corpo. Não existia castigo mais cruel que alguém lhe pudesse aplicar.

Braços esticados, mãos fechadas em punhos. Óculos quebrados. Cabelos negros bagunçados – cuidadosa e estrategicamente, como costumava brincar. Os olhos castanhos não tinham nenhum medo da morte, sempre fora assim. O rosto era o único de quem não tinha implorado e nem tentado escapar. Era um rosto firme, determinado, quase zombeteiro. Sim, era essa a melhor palavra. Zombar até mesmo da morte, isso era a cara dele. Dava a impressão que estava tentando salvar a todos, porque era isso o que ele fazia, até mesmo quando sua morte estava óbvia, porque James Potter não caia sem lutar.

Sirius praticamente pulou na cela, o que não foi algo muito confortável. Levou alguns segundos para entender que não estava em uma campina com os corpos de todos aqueles que conhecera e amara e que aquele rato desgraçado estava longe demais para que pudesse destroçá-lo. Fora o pior pesadelo que tivera em toda sua vida. Os dementadores deveriam estar muito orgulhosos, mas agora não conseguiria bater palmas sarcasticamente para eles como costumava fazer. Não com o seu coração acelerado daquele jeito, não depois de ver tanto sangue, não depois de passar por todas aquelas mortes. Que a sanidade fosse para a casa do caralho.

Não conseguiu entender direito o que estava fazendo, e se alguém pedisse para ele repetir, provavelmente socaria o desgraçado antes que pudesse completar a frase. Com seus dedos ossudos, agarrou os cabelos negros emaranhados e puxou sua cabeça para o meio dos joelhos. Respirou fundo, como se desejasse colocar um pouco de ar puro nos pulmões, mas não havia ar puro em Azkaban. O que sentia era apenas cheiro de urina, sangue, loucura e morte. E cheiro de medo – como o bom cachorro que era, conseguia pegar medo no ar, e no momento sua cela estava empesteada com o maldito cheiro.

Um dementador havia colocado aquela gosma que chamavam de comida em sua cela durante seu sono. Por um segundo, encarou aquele balde metalizado com aquela coisa indefinida de gosto repulsivo e cor de vomito. Algo lhe subiu a garganta – algo que ele nunca conseguiria explicar ou definir ou ao menos entender – e ele jogou o balde com toda a sua força contra a outra parede. Não reparou que alguns fios de seu cabelo haviam ido também até sentir a dor em seu couro cabeludo. Soltou um riso paranoico. O que havia acabado de fazer?

Socou o chão enquanto observava a gosma escorrer pela parede. Não deveria ter feito isso – o cheiro não era nada bom. Piscou algumas vezes e tentou respirar fundo, mas as cenas de seu sonho continuavam lhe atormentando a mente. Beijo. Marlene. Dorcas. O maldito Bones. James. Harry. Wormtail. Wormtail e Harry.

Soltou um grunhido aborrecido e tentou se levantar. O peso das correntes o fez desistir e tentou chutá-las, também sem muito sucesso além de uma ligeira dor nos dedos. Será que ninguém entendia o que estava acontecendo? Enquanto ele estava preso ali, o homem que causara a morte de James e Lily estava solto, em perfeita segurança, sob os cuidados de uma família sangue-puro, e logo estaria a pouco metros do último Potter vivo! Essa era a receita perfeita para outra tragédia – será que dessa vez iam jogar a culpa em muggles?

Socou a parede, como se isso fosse a fazer quebrar. Quantas vezes pensara em pedir uma audiência e contar tudo – o segredo de Moony, como haviam se tornado animagos ilegais, como convencera James a mudar o fiel do segredo e como Wormtail havia cortado o seu próprio dedo antes de assumir a sua verdadeira forma do rato que sempre fora. Mas do que adiantaria? Só lhe traria mais confusão – embora não soubesse como uma pena de prisão perpétua em Azkaban pudesse ser piorada – além do que, exporia Moony. Se já era difícil para amigo – ex-amigo agora, supunha – iria piorar. Do jeito que o pessoal do Ministério era, a única coisa que poderia mudar é arranjarem uma cela ao lado para Remus, sob a acusação de ser seu cúmplice.

A jogada do rato fora muito bem feita, precisava admitir. Sirius nunca fora uma figura muito simpática e definitivamente não era adorada por nenhuma das alas. Como Marauder, havia feito brincadeiras bem idiotas em seu tempo de Hogwarts e, diferente de Prongs, não havia entrado na linha. Desconfiava muito que nunca entraria, simplesmente não combinava com ele. Como Black, havia sido um traidor do sangue da pior espécie, porém continuava ostentando seu sobrenome, um playboy irresponsável, como tantos diziam. E havia aquela aura de perigo ao redor dele que ele tanto gostava e que de algum modo acabara sendo sua ruína.

Cabelos compridos sempre bem cuidados. Olhos negros. Jaquetas de couro. Motocicleta. Bebia muito, mais por gosto do que por vício. Em dias de rara comemoração ou de muita dor, era sempre comum ver um copinho ou até mesmo uma garrafa de whisky muggle em suas mãos. Mas o que mais assustava todos eram as suas tatuagens. Foram feitas por um velho russo gangueiro que passou a vida nas prisões e como simpatizou com ele, tatuou-o quase de graça. Elas significavam que Padfoot era uma pessoa que deveria ser temida e respeitada. Jogaram o respeito no lixo e levaram o temer a sério demais.

Deu outro soco na parede, dessa vez mais forte. Era a imagem perfeita da confusão, em seu estado mais puro e inocente. Aquela confusão que todos tinham medo de admitir que gostavam, porque era simplesmente errado. Sirius era as festas regadas a álcool e drogas que costumava frequentar, era a piada com o rapaz esquisito, era o orgasmo com um desconhecido no fim da noite. Era o prazer, era a dor, era a diversão e a imoralidade. Mas era a lealdade também.

Mais um soco, com raiva. Anos gastos na preparação do Mapa do Marauder, anos para se tornar um animago, anos explorando Hogwarts e Hogsmead. Anos de travessura, anos torturando o Ranhoso. Anos de amizade, de cumplicidade. Duvidava um dia alguém achar amigos tão próximos quanto Sirius Black e James Potter. Mas ninguém pensara duas vezes antes de declará-lo traidor e jogá-lo aqui, como um lixo humano.

Sua mão latejou e Sirius finalmente desviou a sua atenção para ela. Estava sangrando, escorrendo por entre os dedos, sujando ainda mais a sua roupa. Soltou mais um riso paranoico. Agora era oficial: perdera o controle.

Notas finais
O que vocês acharam?
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.