Black Jack

15 Nossos Elos Fortes


Notas iniciais
Finalzinho de Segunda-feira e eu já estou adiantando o próximo capítulo. Esse capítulo é muito importante para conhecermos mais do Ron! Beijão!

Vinte Dias Depois...

Teddy trancou a porta da hospedaria ao fim de mais uma noite. O movimento andava calmo, de forma que os poucos hóspedes já estavam recolhidos em seus quartos. Voltou para mesa junto de sua mulher e de Hermione, para que pudessem prosseguir na partida de caxeta. A rodada estava animada. Ele deu as cartas novamente, jogando pragas para que a sorte da morena passasse. Não apostavam nada, apenas matavam o tempo enquanto o sono não vinha. Eram duas pessoas boas e ótimas companhias, ela concluiu.

Passado quinze minutos de jogatina, alguém bateu na porta principal com toques precisos. Teddy arrastou seu corpanzil para fora da cadeira e foi atender. Hermione, como de costume nos últimos tempos, não conseguia deixar de preocupar-se, imaginando seus perseguidores adentrando ali a qualquer momento. Mas, para seu alívio, quem surgiu ao lado do marido de Janete foi Ronald.

Ele retornara.

Ela endireitou as costas e desviou o olhar rapidamente para seu leque de cartas quando o mercenário entrou focando seu rosto antes de qualquer saudação. Embora tentasse parecer despretensiosa com seu retorno, a gestualidade — os ombros relaxados e o traço fino de um sorriso nos lábios – não deixaram negar quão satisfeita estava por finalmente revê-lo vivo e intacto depois de dez dias inteiros.

— Oh, Ronald! Que bom que voltou! — Janete exclamou indo cumprimentá-lo.

O mercenário aproximou-se a mesa e tirou o chapéu. Ajeitou-os para trás de qualquer maneira e buscou um lugar na cadeira ao lado de Teddy, que voltara a sentar.

— Ei, Weasley, tem que ver como a pequena está ficando danada nesse jogo. — exclamou o homem apontando para Hermione.

Rony afrouxou um sorriso de aprovação, rápido e quase imperceptível, mas não disse nada.

— Acho que é a famosa sorte de principiante. — ela devolveu, coçando um ponto atrás da nuca.

— Principiante? A senhorita está é viciada, isso sim. Vem jogando cartas com Janete desde que chegou.

A esposa olhou-o feio, ele encolheu os ombros.

— Com todo o respeito. — frisou ele.

Hermione riu, mas logo voltou à seriedade quando seus olhos encontraram com os de Ronald.

— Como foi à viagem? — sondou-lhe com cautela.

— Conversamos depois. — disse, referindo-se ao casal. Fora unanime a decisão de ambos que tanto para se protegerem quanto para protegerem eles, não revelariam detalhes do porque estavam ali. Nada sobre Arnie e o marido de Hermione foi mencionado para Janete e Teddy.

— Não se acanhem, por favor. Este jogo já está fadado a vitória da Srta. Granger mesmo. — Janete levantou — Cavalgou muito? Está com fome?

—Um pouco, Janete, se não for abusar da sua hospitalidade.

— Bobagem! Vou lhe preparar um prato agora. Vamos Teddy, ou vai ficar aí sentado se intrometendo em assuntos que não é seu?

— Já vou, já vou. — respondeu o marido de forma rabugenta, seguindo sua rechonchuda esposa para a cozinha.

Hermione os viu se distanciando, enquanto Rony permanecia com a cabeça baixa, alisando a aba do chapéu. Quando os ouvidos dos donos da hospedaria já se encontravam a uma distância segura, ela perguntou:

— Conseguiu falar com o contato das minas de Doldrums?

— Não. — focalizou-a com um ar cansaço e rugas de preocupação. — O conflito está denso e violento demais para me aproximar sozinho. Foram quatro dias a cavalo até lá, mais dois tentando me infiltrar onde supostamente o contato que sabe do paradeiro de Arnie, está guerrilhando. São quilômetros de extensão de um vale muito profundo e largo, com mexicanos espreitando por todos os lados, loucos para acertar um americano com suas carabinas enferrujadas. No sexto dia regressei com a certeza de que sem ajuda, nem mesmo eu posso obter a informação de que precisamos.

—Claro, quando partimos?

— Quando partimos? ­— repetiu a pergunta dela, atônito.

Ela suspirou, inflada de sua boa e velha coragem que vinha firme dentro dela desde o dia que se conformara em lutar aquela luta.

—Você não disse que precisa de ajuda para chegar a mina? Eu posso ser seus olhos, posso lhe dar cobertura durante a descida até o vale e vice versa.

Rony riu tomado por uma onda de deboche.

— Eu vou para uma região de conflito extremo. Preciso de uma boa pontaria e de muito sangue frio do meu lado. Quando eu digo ajuda, digo ajuda mesmo.

Um desejo incomum para uma mulher, o de voar em cima dele e aplicar-lhe alguns murros na cara, passou pela cabeça dela. Odiava vê-lo pisotear em suas capacidades, ignorar todas as adversidades que enfrentara sozinha para conseguir se manter desde então. Ele não estava do lado dela aquela noite em que Vitor foi baleado. Ronald não conhecera a Hermione Granger fria daquela noite. O mercenário estava mais uma vez fazendo aquilo que se propusera a fazer desde que a reencontrara: subestimar.

— E as tardes praticando tiro, não contam? Eu gastei todos os cartuchos que você deixou comigo desde quando partiu. — informou-o rudemente.

— Acertar galhos de árvore enquanto aprecia o entardecer não te faz uma pessoa experiente para participar de um conflito. Estamos falando de estar na linha de fogo do inimigo. Além do mais, sabe que só me atrasaria. Você quer ou não ver tudo resolvido logo?

Semicerrou os olhos, irada, e completou falando devagar.

— Eu apenas quero voltar para meu marido e minha vida.

— Quem não quer. — ouviu-o dizer, como alguém que não gosta de ficar sem a última frase.

— Qual o seu plano, então?

— Você já deve estar sabendo que depois de amanhã, os homens das vilas próximas que serão voluntários para ajudar os oficiais em Doldrums, partiram em caravanas até lá?

— Claro. Haverá uma espécie de comemoração de despedida e boa sorte por parte dos moradores daqui. Janete está preparando bolinhos desde quinta.

— Eu vou com eles. Com um pequeno exército ao meu lado, fico quase invisível naquele vale.

— Vou ficar pronta na primeira hora de segunda feira para acompanha-lo. — anuiu, levantando-se da mesa. Janete vinha da cozinha com o prato dele.

— Hermione... — segurou-a pelo casaco — Eu volto para te buscar quando tiver a informação. Escute o que ouço e me obedeça, aquele lugar não é pra você.

Ela empurrou sua mão do casaco com uma singela delicadeza. Agora ele não estava sendo debochado.

— Nada disso depende de você.

***

Embora até no seu íntimo mais profundo ela negasse, estava mais claro do que água de nascente que a noite de sono foi muito mais produtiva sem ter que conviver com a sensação de que poderia não ver Rony novamente. Conviver conjecturando que a qualquer instante estaria sozinha naquela situação foi motivo de muitas madrugadas em claro. Havia a preocupação com a vida de seu antigo amor? Sim, obviamente. Obviamente também que ela cobria com a terra pesada da falsa indiferença esse medo constante.

O fato é que Hermione dormiu como há dias não fazia, e acordou com uma disposição da qual ela achara ter perdido. Vestiu mais um daqueles vestidinhos simples e remendados de Janete, do tempo em que ela era moça e quarenta quilos mais magra. Desceu para o salão de refeições e deparou-se com uma quantidade de mulheres desconhecidas, preparando travessas e mais travessas de comida.

Janete surgiu do meio da mulherada e raptou-a pelo braço, falando-lhe aos cochichos.

—Oh, querida... a barulheira te acordou?

— Não, de forma alguma. — e realmente o som de mulheres falando alto e panelas batendo não alcançava seu quarto no andar de cima.

— Esqueci-me de lhe dizer que o mutirão dos alimentos aconteceria aqui na hospedaria.

— Tudo bem! Em que posso ajudar?

A mulher rechonchuda cochichou mais.

— É nesse ponto que gostaria de tocar com você. Vá lá fora acompanhar os homens montando as tendas, por favor. Aquele rumor de que a senhorita é esposa do Sr. Weasley já está se espalhando entre essas fofoqueiras. — e lançou um olhar a meia dúzia delas que tentavam esticar os ouvidos na conversa — Sei que quer manter o disfarce e a.... descrição também. Meu conselho é que fique longe dessas línguas afiadas, como a bela e tímida Sra. Weasley.

Era estranho, muito estranho mesmo, ouvir seu nome ser pronunciado daquela forma. Pensou.

—Mas...

— Seu amigo ganhou fama e algumas ex- amantes por aqui, do tempo que ajudou a cidade. Aposto que tem algumas delas sedentas para lhe fazer um interrogatório. Ainda mais porque, no fim das contas, ele não esticou muita conversa com elas.

—Quem são? — quis saber, mirando nas moças mais apessoadas, com uma curiosidade afiada.

Janete olhou-a com um brilho estranho nos olhos. Tentando ler suas atitudes, ela percebeu.

— Obrigada, Jan. Eu vou indo. — e saiu torcendo para que suas bochechas só corassem quando estivesse bem longe dali.

O movimento também era atípico lá fora. Rapazes magrinhos, um pouco mais velhos que o filho de Harry, James, descarregavam ripas de madeiras de uma grande carroça no ponto sul da rua principal de FarWay. Certamente já haviam realizado aquela ação por todo extremo, porque marceneiros, montadores ou simplesmente voluntários com bíceps fartos, em pequenos grupos e em diversos pontos, apregoavam as madeiras, formando estruturas para as tendas de comida e jogos.

Rapidamente Hermione identificou Rony com um grupo de homens. Ele parecia empenhado naquele trabalho. As mangas arregaçadas, os cabelos suados e uma disposição altruísta, contrária ao sombrio egoísmo.

Pensou em aproximar-se, serpenteou o meio fio dos comércios, sendo a única mulher a por a cara pra fora da hospedaria de Janete durante o dia. Os homens estavam tão concentrados e, de certa forma, tensos, que nem repararam nela ali os observando. Sentou nas escadas da sacada de uma loja de roupas que se encontrava fechada, tendo um bom ângulo do ex-namorado e do seu trabalho braçal do outro lado da rua.

Poderia ser só todo aquele clima esperançoso e temeroso juntos que um combate conseguia inspirar nas pessoas, mas sentiu nele uma aura diferente. Um garoto de cabelos fartos e suspensórios largos correu até o grupo de Rony e entrou-lhe um molho de pregos novinhos. O ruivo por sua vez, bagunçou-lhe os cabelos de forma carinhosa e voltou ao trabalho. Aquele menino tinha a idade de seu sobrinho, refletiu. Se ele não era de toda a rudeza que ela pensara que tivesse se transformado — porque ajudando aquelas pessoas em sua causa acabara de provar isso -, então como se isolou da família? Porque renegou todos eles, o pai idoso, os irmãos de sangue, a irmã – seu xodó -, os amigos?

Logo ele percebeu que estava sendo vigiado, lançando-lhe a distância um peculiar e significativo olhar. O que se passava em sua cabeça, era o desejo de Hermione saber.

***

Uma procissão de pessoas chegou junto com o entardecer. Famílias humildes com muitos filhos e esposas roliças. Vieram a cavalo, em carroças, do jeito que dava, além de vestidos com suas melhores roupas. Todos prontos para a festa, mesmo que fosse uma comemoração cinzenta.

Aqueles que estavam sendo encorajados e abençoados por seus familiares tinham expressões que denunciavam diversos sentimentos. Os jovens eram impetuosos, viam naquilo uma grande emoção, a oportunidade de conquistar a glória na tenra idade. Aqueles que levavam a responsabilidade de filhos pequenos pareciam perdidos e ansiosos. E entre os dois grupos, sempre havia os amedrontados, que jamais aproveitariam as festividades de boa sorte.

Com o sol poente e a rua abarrotada de pessoas, as tendas de comidas, danças e brincadeira já começavam a trabalhar. Os voluntários eram na sua maioria esposas e mães, mas pessoas solidárias a causa como Janete e Teddy também arregaçaram as mangas, se propondo a servir quitutes quentes na tendinha próxima a um palanque.

Hermione aprontou-se com o melhor vestido que Janete tinha, calçou suas inseparáveis botinhas vermelhas e se misturou a multidão da rua a fim de chegar até onde seus amigos da hospedaria estavam. Seus olhos procuravam atenta, alguém suspeito que tivesse encarando-a de alguma forma pouco amistosa. Não esquecia jamais da sua condição de presa.

Quanto mais se aproximava da tenda do casal mais o barulho fervoroso de uma multidão enlouquecida pelo discurso inflado, vindo de alguém em cima do palanque, enchia-lhe os ouvidos. Todos estavam atentos ao que um rapaz alto e muito magro gritava a multidão; Teddy e Janete também. Ela se juntou a eles silenciosamente, pondo-se a escutar o que dizia o orador.

... Não podemos ficar quietos! O Norte nos acha fraco, pois bem, mostraremos a eles quem é fraco! Dizem que deixamos os ticanos entrarem na nossa terra, que aos poucos nosso sangue americano se misturará com o sangue espanhol daquele povo... Sim, é isso o que aqueles malditos nortenhos dizem, senhores! Mas então mostraremos... Fomos nós que lutamos ao lado daqueles covardes para gerar a independência dessa ex-colônia! Somos nós que encontramos famílias inteiras dizimadas por aquele povo selvagem nas terras perdidas ao redor do Texas. Como eles, que nunca tiveram de tirar o corpo ensanguentado de um bebê dos escombros, pode nos acusar de sermos covardes?! Vamos retirar a balas os malditos ticanos de nossas minas de carvão e mostrar para o Norte nossa força! DO QUE SOMOS CAPAZES!!!

A multidão prorrompeu em aplausos, Janete e Teddy também apoiaram o discurso do homem.

—Porque os mexicanos tomaram essa mina? — perguntou a morena ao casal.

— Nosso país está em conflito, pequena. As fronteiras estão descobertas e só podemos contar com nós mesmos para nos defender. O apoio maior militar vem do Norte, como eles não podem entrar aqui, os mexicanos rapidamente percebem o quão fácil é invadir. Somos somente nós aqui no Sul para lutarmos pelas minas e pelas terras.

— Crianças ensanguentadas, famílias dizimadas?

— As pessoas próximas às fronteiras estão sofrendo. — respondeu Janete com os olhos úmidos — São alvo constantes dos mexicanos e dos nativos. Há relato de mulheres escalpeladas, carroceiro incendiados, isso sem falar nas crianças...

Chocada, imagens difusas de mulheres e criança em estado puro de sofrimento, vieram a cabeça da morena. Pensou em como era ter um filho tomado de seus braços e assassinado diante de seus olhos. Tentou sentir a dor de sua pele sendo arrancada a força do couro cabeludo e a impotência de não poder fazer absolutamente nada enquanto seu lar era devorado pelas chamas de um incêndio criminoso. Tudo isso acontecia de verdade em algum lugar.

Observou os homens, ainda jovens, que se arriscariam para ver aquele sofrimento diminuir, indo guerrilhar nas minas de carvão dali a alguns dias. Deixando suas esposas, apostando inclusive na ideia de nunca verem os filhos crescerem... Para alguns aquela seria a última festa de suas vidas.

De repente ela sentiu-se oprimida, insignificante, e, de certa, forma mesquinha. Quem ela era para andar sentindo pena de si mesma nesses últimos dias? Hermione e Vitor compunham um grão de areia fino num mar de sofrimento ininterrupto. No sossego do rancho ela jamais saberia da condição de vida de seus conterrâneos tão direitos à liberdade quanto às palavras Thomas Jeferson exigiam... “Consideramos como uma das verdades evidentes por si mesma que todos os homens são criados iguais; que receberam de seu criador certos direitos inalienáveis, entre os quais figuram a vida, a liberdade e a busca da felicidade...”.

—Não quero que você se entristeça com isso agora. — Janete sacudiu-a, tirando-a de seu transe amargurado — Olhe, o Sr. Weasley ali.

Rony vinha rindo numa prosa animado com outro rapaz que tinha mais ou menos a idade deles.

— Eles estão vindo para cá. Aquele com ele é o xerife Frank, Hermione. — adiantou-a a mulher.

— Como vai Janete, Teddy! — o jovem xerife cumprimentou-os.

— Bem, Sr. Wallace! Bem! — exclamaram os dois contentes.

— E a senhorita deve ser a esposa do meu amigo, Ronald. — sorriu, indo beijar de Hermione.

— Olá... — foi até onde o disfarce de Sra. Weasley dela conseguiu chegar.

— Agora sei porque Ronald não falou muito da senhora, é uma linda mulher. Ele deve estar sempre enciumado. — e olhou de forma provocativa para o ruivo.

Ela riu daquela ideia, tentando emburrar para o fundo do coração a amargura que o povo vivia. Riu também porque viu Rony, sem seu velho chapéu, corar as orelhas com tal comentário do xerife.

— Eu posso tomar minha esposa por um segundo então, Janete, Teddy... Frank? Ainda não aproveitamos a festa juntos. — e estendeu a mão para Hermione.

Hesitante, entrelaçou seus dedos nos dele e despedindo-se do grupo, seguiu com o mercenário para o meio da multidão.

— Algum problema? — quis saber quando já estavam distantes.

— Não, mas vamos tentar evitar esse tipo de pergunta. Sobre nós dois casados e tudo mais.

— Estamos sendo observados?

— Eu não vi ninguém suspeito entre essas pessoas. Mas , como disse, vamos tentar não nos transformamos em sensação.

— É o xerife?

— Frank? — ele perguntou, achando aquela ideia estúpida — Não! Frank é o melhor xerife que uma cidade pode ter. Honesto e justo. Só vamos tentar ficar longe de chamar atenção mesmo.

Hermione continuou seguindo-o.

— Está com fome? — quis saber ele.

— Um pouco.

Pararam em frente a uma barraca de milho e saíram comendo espiga e melando os dedos. No caminho ele não parava de cumprimentar pessoas e trocar meia dúzia de palavras de apoio. Logo encontraram um lugar tranquilo para se instalarem, num montante de feno seco ao lado de um rancho. De lá, podiam ver todo o movimento da festa, calmamente.

Rony terminou de comer sua espiga, jogou-a longe, no barranco atrás dos celeiros, e voltou a sentar ao lado dela. Há ambos, aquilo pareceu uma espécie de retrospectiva de uma vida que já tiveram juntos. Por muitas vezes os dois ficaram daquela mesma forma, jogados num amontoado de palha seca, vendo o movimento passar diante de seus olhos enquanto conversavam.

—Todos gostam de você aqui. — ela enfim comentou.

— São boas pessoas.

— O que você fez para eles, afinal?

O ruivo pegou uma pouco de palha e ficou rodando-a entre os dedos. Em nenhum instante olhou-a diretamente.

— Apenas os ajudei com um corrupto xerife que roubava de todos e privilegiava criminosos. Algo parecido com o que acontece em Rocky Deep. Se tornaria cada vez pior se ninguém intervice.

— Ajudou...

— Eu matei ele e os seus “oficiais”. — respondeu friamente.

— Ah... Como é a sensação?

— Do que?

— Ganhar para matar.

— Eu não os ajudei por dinheiro aqui. — foi sincero — E a sensação é sempre a mesma... vazia. Apenas isso.

Vazia? A seguir ela gostaria de perguntar quantas pessoas ele já matara, mas teve medo da resposta, preferiu calar-se.

—Como as coisas aconteceram naquela noite? — perguntou-lhe, pegando-a de surpresa.

Ela sabia a qual noite ele se referia. Rony nunca quisera saber os detalhes antes.

—Eu estava sozinha no rancho. Isso é comum quando Vitor está caçando longe. Era uma noite quente e eu não conseguia dormir. A certa hora da madrugada comecei a escutar um barulho estranho vindo do andar de baixo. Desci para verificar, mas não sem antes pegar nossa espingarda. Encontrei meu marido completamente ensanguentado na soleira da porta, tinha balas cravadas por todo o corpo, no tórax também. Eu o arrastei para dentro de casa como pude e o levei até o sofá... — ela teve de fazer uma pausa, relembrar cena a cena daquele dia era difícil.

Ronald finalmente permitiu-se repousar o olhar sobre ela, e de forma solidária.

— Tudo bem, pode falar. — disse com a voz mais meiga que Hermione ouvira sair de sua boca, depois de quinze anos.

— Eu comecei a tirar as balas. Você sabe que não gosto de sangue nem nada, mas...

— Tinha que ser feito, entendo. — assentiu.

— Sim, tinha. Mal tinha começado ouvi trotes se aproximando de nossa propriedade. Eu tinha certeza de que eles viriam atrás dele, mas achei que teria mais tempo. Tentei, de forma desastrada é claro, trancar a porta. O homem que o perseguia, abriu-a no instante em que eu segurava um móvel contra ela. Caí, machuquei a testa, mas consegui mergulhar no chão junto com o nosso rifle.

— Então você atirou nele?

Hermione segurou lágrimas que representavam todo aquele desespero que ela andava vivendo desde então. Lembrou-se também dos sulistas assassinados brutalmente pelas planícies, e toda essa violência trouxe mais revolta ao seu âmago.

— Eu dei a ele uma escolha. — sussurrou.

Ele quase a tocou, ela percebeu. Entretanto, ao invés disso, completou.

— E ele escolheu, Hermione. Você não matou por dinheiro ou por comodidade, aquele tiro foi o preço da sua vida.

— Eu sei...

Poderia abraçar o ex-namorado no lugar do próprio corpo, ele não se negaria a acolhe-la naquele consolo, tinha certeza. Entrementes, agarrou-se aos joelhos e deixou uma lágrima silenciosa escapar.

— A partir daí Harry e minha irmã te ajudaram?

— Isso. Eles foram maravilhosos comigo. Harry se arriscou, Gina também... Por pouco os desgraçados dos homens de Arnie não chegaram até mim, machucando-os com isso. Acho que a história é mais ou menos essa. Agora Vitor está escondido, não sei se ainda vivo, na casa de um amigo do Harry. Só me resta ser otimista.

— E agir, como está fazendo agora.

Era a primeira vez que manifestava apoio a ela naquela decisão, o que a deixou feliz.

— Foi Gina que me disse que poderia contar com você.

Rony ficou muito tempo calado, Hermione chegou a pensar que até dissera alguma besteira ao mencionar a irmã, mas então ele disse:

— Como eles vão?

— Bem, na medida do possível, claro. Harry tem uma hospedaria na cidade, porém anda sofrendo um bocado de retaliações dos “donos” da cidade que não querem que ele aceite forasteiros. Gina está perseverante como sempre, ela sempre foi muito forte.

— Sim, ela é mesmo. — ele sorriu, certamente recordando-se.

— E tem seus sobrinhos. James, Alvo e Lilian. Eles são crianças excepcionais!

— Certamente que são, são Weasley! — argumentou orgulhosamente.

— Rony... — deixou aquela forma carinhosa de chama-lo escapar. Curioso por aquele tratamento, fitou-a cheio de atenção. — Porque se afastou da sua família?

— Por quê? Por quê?... Eu não posso colocar a vida de nenhum deles em risco. Como você disse são minha família, o elo mais fraco para os meus inimigos quebrarem.

Ela precisava ir mais afundo. Já que ele estava tão solícito era agora ou nunca.

— Então porque escolheu essa vida?

Novamente aquele significante olhar como acontecera de tarde. Novamente ela sentiu um frio na barriga, um friozinho bom, e o desejo de mergulhar de uma vez só nos anseios dele.

— Nunca imaginei que você pudesse ser uma mulher corajosa, Hermione.

Foi somente até onde ele pode ir naquela conversa. E a frase reverberou dentro do peito dela como um sinal verdadeiro de que o mercenário a admirava. Sentiu-se grata por isso, precisando encontrar um modo de retribuí-lo pela sua gentileza daquela noite.

— Boa sorte lá nas minas. — era seu jeito de dizer que não o acompanharia.

— Obrigado. — agradeceu com um aceno de cabeça.

Ele agradecia por ela não estar indo com ele, e assim matando-o de preocupação.