Black Jack
16 Esta é Minha Decisão
Notas iniciais
Rony se recolheu cedo naquela noite. Queria estar com o corpo descansado para a viagem do dia seguinte, que prometia noites de sono não tão confortáveis quanto na hospedaria. Uma vez sozinho em seu aposento, livrou-se do cinto e do colete, sentou na beira do colchão, de frente para janela, e começou a limpar sua arma.
Havia algo intruso dentro dele. Um broto verde e cheio de vida em seu peito cinzento, que Hermione plantara e regara com toda aquela conversa de moral, sobrevivência... e família. Durante aqueles quinze anos, muitas vezes Rony esteve perto de ir visitar a irmã e o amigo. Tinha curiosidade quanto à aparência de seus sobrinhos, nostalgia em relembrar as prosas com Harry, e principalmente, saudade da irmã caçula.
Tudo ficara para trás quando ele fez da arma sua companheira, e decidiu tornar-se o melhor de sua “profissão”. Nada aconteceu do dia para a noite. Nos primeiros anos acordava suado e choramingando, revivendo o sofrimento mórbido dos últimos minutos de vida de suas vítimas. Nesse tempo sua mira não era tão apurada contra o corpo de um ser humano, e muitos bandidos agonizaram longas horas antes de deixarem este mundo.
Logo outro problema surgiu: os sobreviventes que o juravam de morte e ameaçavam sua família. Então Rony tinha de mudar seu modos operandi ou fugir para muito longe do oeste. Preferiu a primeira opção.
Tiro na cabeça ou no coração era a forma mais eficaz de não deixar pessoas sofrendo ou sobreviventes. Quanto aos criminosos que resgatava vivo, a melhor escolha para proteger seus entes era afastando-se deles. Quando menos migalhas que os ligassem, menos chances tinham de pagar retaliações.
Era uma vida imoral e solitária, da qual ele estava disposto a levar... até Hermione retornar. A conversa que tiveram a tarde o fez refletir sobre a coragem de sua ex-namorada. Sobre todas as coisas que ela se sujeitou e ainda se sujeitaria para conquistar novamente sua paz. Ela mudou e se expôs a violência pelo mais nobre dos objetivos. Nada tinha haver com dinheiro ou conquista de fama, tanto que o dinheiro da recompensa pela captura de Arnie Austin seria entregue todo para ele.
Mas o que ela faria se seu marido estivesse morto? Ele ainda preferia que Hermione não participasse quando o momento de encontrar o pistoleiro chegasse. E se não houvesse Vitor, não haveria honra para ela ali, apenas vingança.
Vingança não combinava com pessoas inocentes como a morena.
Rony tomou uma decisão. Guardou a arma no coldre, vestiu o colete velho de couro e saiu para o corredor. Passou pelo quarto de Hermione e bateu suavemente com os nós dos dedos, mas ela abriu-se sozinha, pois não estava trancada. Com o corpo ainda no corredor, examinou o cômodo e descobriu sua ausência.
Um pouco cismado, foi descendo as escadas até o salão principal, entretanto parou ao ouvir as vozes de Janete e dela, conversando adiante. Elas estavam sentadas numa das mesas, exaustas e desanimadas com o dia agitado.
O assunto era Vitor Krum, o que fez Rony, infantilmente, esconder-se na parede e ficar escutando.
— Como é seu marido?
— Um homem muito bom. — respondeu Hermione cheia de reservas.
— Eu digo, aparentemente? — Janete riu.
— Ah!... Uh, ele é bonito. Alto, forte, sobrancelhas grossas. Pesa duas vezes o meu peso, acho.
— Você fala dele com brilho nos olhos. Conheço esse brilho. — comentou a outra — Tem admiração por ele, não é?!
— Muito. Vitor só fez bem a minha vida desde que entrou nela. Somos muito unidos.
As sentenças que saíam da boca dela reverberavam com sinceridade nos ouvidos do mercenário. Esta era a questão que fez Rony refletir durante tantos anos: que bem era esse que Vitor tinha feito por ela? Ele também daria um jeito de tira-la de Rocky Deep se tivesse paciência. O ruivo só conseguia pensar que Vitor a conquistou por causa do casamento. Ela deveria estar desesperada por isso naquela época, e na verdade não importava quem fosse o sujeito, apenas que desse o “lance” primeiro.
Ele poderia ainda estar sendo injusto ao julga-la como uma caçadora de matrimônio. Quem sabe, na verdade, Hermione descobriu o verdadeiro bem-querer nos braços de Krum, e ele ficou para trás como o nostálgico primeiro amor.
— Isso é bom. Mas ele está bem?
— Eu espero que sim. Não vejo a hora de poder voltar para perto dele. — suspirou sem querer entrar em detalhes.
— Como se conheceram?
— Foi há muito tempo, quando ainda era jovem.
— Mas você é jovem...
— Pois às vezes me sinto uma velha. — disse com um pouco de amargura — Seja como for, estou fazendo isso por ele. Toda essa viagem, ter de ir por aí com Ronald.
— Ronald é seu amigo mesmo? — Janete continuava afiada nas perguntas.
— Pode-se dizer que sim. — respondeu hesitante.
— E ele sempre foi somente um amigo?
A velha era esperta.
— Hoje em dia, quando olho para trás fico feliz que seja assim. — Janete teve sua resposta daquele modo não explícito da morena lhe dizer as coisas. —Fiz a escolha certa.
O ruivo subiu as escadas lentamente até o segundo andar. Entrou no quarto e trancou a porta. Voltou a sentar na cama, acomodando a arma embaixo do travesseiro. Não precisava mais falar com Hermione como o planejado. Escutar o diálogo dela com Janete foi o suficiente para saber que tinha de tomar a decisão sozinho. Não precisava do consentimento da ex-namorada para nada.
Ele se encarregaria da missão, mataria Arnie, pegaria a recompensa e, para não dizer que ele não era um homem que fazia o serviço completo, voltaria até a hospedagem para levá-la para o aconchego de seu marido. Tudo muito profissional como ela própria estava encarando.
O lugar de Hermione era com o marido, o único homem para quem ela tinha o dever de prestar seus votos de amor.
***
Hermione acordou bem cedinho, não queria perder a chance de despedir-se de Rony, e caravana sairia logo na primeira hora do dia. Vestiu-se apressadamente ao perceber que o dia clareara bastante, correndo para fora do quarto. Desceu até o salão e viu Teddy, entre outras pessoas, se aglomerando do lado de fora da hospedaria, na varanda. Nas ruas, centenas de homens montados em cavalos preparavam-se para rumor para as minas.
— Onde está Ronald? — perguntou aproximando-se de Teddy e apurando os olhos para tentar enxerga-lo como algum dos cavaleiros.
— Menina, era isso mesmo que ia fazer agora. Ronald não desceu ainda! Preciso ir chama-lo.
— Ele não desceu? — ela achou aquilo estranho.
— Não. Deve estar perdendo a hora.
— Deixe, eu vou chama-lo.
Hermione correu para dentro da hospedaria novamente. Subiu as escadas de dois em dois degraus, economizando lances, e esmurrou a porta do mercenário. Como ele não respondeu, ela forçou a maçaneta, que se abriu sem esforço.
Imediatamente sentiu que ele agira por conta. A cama estava arrumada, as cortinas abertas, e um bilhete repousava sob a colcha gasta. Ela aproximou-se, pegou o papel e reconheceu a caligrafia desleixada dele.
Hermione,
Parti antes para as minas.
Assim que obter a informação do paradeiro de Austin, seguirei sozinho na busca dele.
Volto com tudo resolvido e o pilantra morto!
Esteja pronta quando retornar, pois te levarei para seu marido o quanto antes.
Tome cuidado, e não fique revelando sua identidade e sua história para ninguém por aí.
Explodindo de raiva, ela amassou o papel com força e jogou-o longe.
— Você não vai se livrar de mim assim, cretino!
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