Black Heart
2 Olhos
Notas iniciais
Depois que Quíron disse que a mãe do Gustavo estava morta, ele não chorou, não gritou, não mostrou reação alguma, apenas ficou quieto, ouvindo tudo e cada detalhe da nossa conversa.
– Quíron, você tem certeza disso?
– Caroline... Sim, tenho.
–Absoluta? Não podemos fazer nada?
– Creio que não.
Nesse momento eu olhei nos olhos de Gustavo. Ele se mantinha o mais calmo possível, mas como eu era amiga dele há muito tempo, sabia que por dentro ele deveria estar completamente destruído. Foi ai que ele simplesmente levantou e foi em direção à floresta, eu sabia que era perigoso, mas ele queria ficar sozinho.
– Gustavo...
– Quíron, eu cuido dele, não se preocupe...
– Tudo bem, mas você sabe que a floresta é cheia de monstros...
– haha, o maior monstro aqui sou eu, por favor.
Fiquei envergonhada de falar isso pro Quíron, mas Gustavo estava se afastando e eu corri em sua direção. A floresta realmente é um ótimo lugar se você quiser ficar sozinho, mas ele estava completamente desarmado e não sabia lutar, então não era lá a melhor escolha a se fazer. Sinceramente, eu até entendia ele, quando descobri que o meu pai mortal não era meu pai biológico eu fiquei totalmente revoltada, mas eu não gosto de relembrar do passado e eu juro que ouvi algo se mexendo a minha direita, então eu tinha que ficar atenta. Eram passos? Talvez, mas eu sinceramente não queria descobrir. Fiquei tão preocupada com esses passos que o perdi de vista, nossa que legal. Quando olhei para o meu lado direito, havia um pequeno gatinho andando pela floresta.
– Não acredito que fiquei com medo disso. Mas o que um gatinho está fazendo aqui? Ok. Não tenho tempo para isso. – O gato miou para mim – Apesar de você ser muito fofinho.
– Cuidado filha do mar, seu desafio estar por vir... – Soou uma voz da escuridão.
– Mas o que? – O gatinho havia sumido – Que estranho, do nada aparece um gato no acampamento e eu ouço vozes. Isso não é um bom sinal.
Acho que eu fiquei pelo menos 20 minutos procurando por ele, mas não o encontrei, então decidi buscar por ajuda (aquele gato não saía da minha cabeça). Fui em direção ao chalé de Ares, o que em minha opinião é um dos chalés mais ridículos que tem, mas eu o adorava. Ele tem uma cabeça de javali logo na estrada e é cheio de arame farpado, típico de Ares.
Para me receber ela estava na porta. Sim, Isabela Strongford, a pessoa mais idiota que conheço, e uma das minhas melhores amigas. Ele tem olhos e cabelos castanhos. Aparentemente magra, mas apesar de sua aparência, ela era muito, muito forte e com um ego maior que sua força.
– Preciso de sua ajuda.
– Então, a cabeça de coral veio pedir minha ajuda.
– Preciso encontrar um amigo na floresta e você é boa em caça.
– Eu sou boa em TUDO.
– Se eu disser que sim você vai me ajudar?
– Claro. Mas antes espere um minutinho ai.
Ela entrou no chalé e voltou com um machado. Ela explicou que aquele machado foi o próprio Ares que deu para ela e era seu machado da sorte e blá blá blá. Assim que ela parou com a falação fomos em direção à floresta e logo ela encontrou pegadas.
– Como você consegue? Eu andei a floresta toda e não achei absolutamente nada, e você em menos de dois segundos achou o rastro dele.
– Porque eu sou a deusa da caça, beije meus pés.
– Pensava que fosse Ártemis.
– Você entendeu. – Isabela apontou para uma trilha – Olhe! mais pegadas.
Seguimos a trilha, mas parecia que as pegadas dele iam sumindo pouco a pouco no meio das árvores e das folhas amareladas, até que finalmente não restava mais nada a se seguir. Mas algo vinha em nossa direção, algo bem grande, como se fosse uma manada de elefantes correndo desesperadamente, até que o som parou.
– O que foi isso? – Perguntei incrédula.
– Não faço a mínima ideia, mas acho que deveríamos encontrar seu amigo logo.
Como não tínhamos mais pista alguma, decidimos seguir a trilha até o final. Acho que isso não foi uma boa ideia, já que nos levou para um monte de areia no meio da floresta, onde não havia sequer um pássaro cantando e as árvores e folhas estavam todas mortas. Com toda certeza algo ruim tinha passado por ali.
– Houve uma luta aqui, certeza. Acho que não somos os únicos procurando seu amigo.
– Temos que avisar o Quíron.
– Claro, e deixar as outras pessoas pegarem ele.
– Sim, mas... – Ouvimos um grito ensurdecedor, vindo da parte norte a nossa frente – O que foi isso?
– Você só sabe perguntar? “O que foi isso? O que foi aquilo?” bleh. – Isabela era muito irritante.
– Desculpa, eu só queria saber... – Outra vez o grito, só que dessa vez eu sabia quem gritava – Gustavo! Ele deve estar em perigo!
Saímos em disparada para a floresta do norte e tivemos que passar o riacho... O riacho Zépiro? Zépro? Zéfiro? Eu sou uma filha de Poseidon que não sabe o nome dos riachos, me julguem ok? Enfim, corremos o máximo que podemos, sendo arranhadas por toda aquelas árvores, e quando estávamos chegando perto de onde escutamos o grito, algo me atingiu na cabeça, fiquei tonta por alguns segundos, cai sentada e percebi que alguém estava nos tacando pedra.
– SAI DAQUI! EU FALEI PRA VOCÊ NÃO VOLTAR! VOCÊ ME DEIXOU CEGO! – disse um menino encostado na árvore. Ele vestia a camisa do acampamento, então provavelmente era um campista.
– Você acertou uma pedra na cabeça Dela! SEU CRETINO!
– Calma bela, eu estou bem – Falei isso para ela não ser tão dura com ele, mas na verdade, minha testa estava sangrando bastante.
– CALMA NADA! OLHA A SUA TESTA! EU VOU ARRANCAR A SUA GARGANTA!
– ARRANQUE ENTÃO! JÁ ME TIRARAM OS OLHOS, O QUE RESTA MAIS PARA TIRAR? – Parecia que o garoto queria morrer.
– OK SEM PROBLEMA ENTÃO SEU BABACA! – Bela estava realmente furiosa
– Bela, não! Primeiro vamos saber o que aconteceu... Então, o que aconteceu com os seus olhos?
– Ele olhou nos meus olhos. Ele disse que eram bonitos. Ele me cegou. – Então o garoto começou a chorar, mas não eram lagrimas que caiam dele, era sangue.
– Quem o cegou? Quem é “Ele”?
– Acho que ele é um mariquinha. – Sussurrou bela ao meu ouvido.
– Shh, Bela, coitado. Então, vai nos dizer quem é ele? – Prossegui.
– Eu...AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH! NÃO! PARE PARE PARE! PIEDADE! EU NÃO FAÇO DE NOVO! POR FAVOR! – O grito que ouvimos da outra vez não era de Gustavo, e sim desse menino, eu confundi as vozes.
– OQUE ESTA ACONTECENDO? FALE LOGO PARA NÓS! – Isabela estava exaltada.
Derrepente o menino caiu no chão. Chegamos mais perto, ele não estava respirando, estava frio, estava sem olhos, como se tivessem explodidonas orbitas, estava morto. Qualquer coisa que tenha feito isso com ele deveria ser alguma coisa horrível, algum monstro tão impiedoso ao ponto de queimar os olhos das vitimas.
– O que faremos? – Perguntei não acreditando no que acabara de ver.
– Acho que agora é bom avisarmos o Quíron. – Isabela fechou os olhos do garoto.
– Nós nem sabíamos o nome dele...
– Eu sabia... É Leandro. Leandro Martins, filho de Apolo.
Decidi não pergunta como ela sabia do nome do garoto.
Fizemos todo o caminho de volta, passamos por todas as árvores, o riacho, até que avistamos a casa grande. Tentamos falar com Quíron, mas ele não estava, segundo uma menina loira de olhos cinzentos, ela disse que apenas Sr.D estava no acampamento, então decidimos contar a ele.
Explicamos tudo direitinho, desde eu sozinha na floresta procurando Gustavo até virmos o garoto morrendo em nossa frente. Dionísio tinha uma expressão de espanto, que logo passou para sua antiga expressão de desgosto.
– Finjam que isso não aconteceu. Vou tomar minhas providencias, agora saiam.
Eu achei meio bruto da parte dele nos dizer apenas isso, e depois no dispensar, mas eu estava tão cansada tanto fisicamente como psicologicamente que agora eu só queria deitar no meu beliche e dormir.
Quando saímos da casa grande, eu e Isabela ficamos comentando sobre o que aconteceu e nenhuma das duas viam alguma explicação plausível para o que havia acontecido. Eu até já tinha me esquecido de Gustavo, quando vi algo se movendo na escuridão e andando em nossa direção.
– Gustavo? O que aconteceu com você? Por que está todo ensanguentado? – Gustavo estava horrível, estava com vários cortes pelo corpo, e sua face era de alguém que perdeu a razão de viver, seus olhos estavam profundos, totalmente negros e sua pele que já era branca, estava mais branca ainda. Ele Segurava algo entre seus braços
– Os olhos...
– O que? O que você disse? – Isabela não conhecia Gustavo, por isso foi logo levantando o machado.
– Os olhos... Eles são as portas para a alma.
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