Black Eyes
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Notas iniciais
"Não revisou o texto?" Sim, mas às vezes alguma coisa acaba passando despercebida. Enfim, boa leitura. Espero que gostem ^^
Eu sempre tive uma curiosidade insana. As pessoas diziam que isso era estranho, e eu apenas ignorava. Curiosidade é algo que eu não posso controlar. Ta no sangue. Digo isso por meus pais que eram as criaturas mais curiosas que eu já tive o desprazer de não conhecer. Tudo o que eu sei sobre eles foi contado por minha avó enquanto ela ainda durava aqui na Terra. O que é bom nem sempre dura muito.
Mas não são meus pais e avó mortos que interessam, nem mesmo a minha curiosidade que foi o primeiro assunto citado aqui. O que realmente interessa é, ou foi — ainda que eu tenha certas dúvidas — , uma bela tarde de terça feira de novembro quando eu estava retornando da escola para casa. A cidade onde morava era um lugar incrível de se viver, nunca houveram relatos de atos violentos ou coisa parecida; era um lugar bem pacífico. Eu sempre andava sozinho e sem medo pelas ruas, mesmo sendo muito tarde da noite, e naquela tarde não estava diferente: observava o ambiente ao meu redor com tanta concentração que nem percebi alguém vindo rapidamente em minha direção. Só percebi quando, enfim, nossos corpos se colidiram e eu quase caí no chão. Por sorte — ou azar, muito azar — a pessoa que esbarrou em mim me segurou antes que eu pudesse atingir o chão, me puxando rapidamente para si. Foi então que eu percebi que a pessoa era um garoto bem maior que eu e que ele com certeza estava com pressa, pois após perceber que eu já não corria perigo de cair voltou a correr para o lado contrário que eu estava indo. Isso até que seria normal. Mas não foi foi.
No mento em que eu ia cair e aquela criatura estupidamente apressada me segurou em seus braços, no momento em que ele me puxou para si, no momento em nossos olhares se encontraram, mesmo que por menos de três segundos, eu soube que não seria um "esbarro" normal. Minha curiosidade não permitiria isso, é claro.
Naquela noite, quando já estava em minha cama pronto pra dormir, aqueles olhos voltaram à minha memória. Eram tão escuros, negros talvez. Era tão pálido que se ele não estivesse ali, me segurando para então sair correndo novamente, eu diria que ele estava morto. E além do capuz, que me impossibilitou de ver a cor de seus cabelos, trajava roupas pretas.
"Ou ele é um morto-vivo que fugiu do próprio enterro, ou um cosplayer de morto-vivo" Que patético.
Ri do meu pesamento e continuei a divagar sobre aquela figura desconhecida. Não lembro exatamente a que horas consegui pegar no sono, mas sei que segundos antes de acontecer, eu jurei à mim mesmo que descobriria quem era ele.
Nos dias seguintes eu procurei saber quem era a tal figura misteriosa, em todos os lugares que eu pude imaginar. O fato da cidade não ser tão grande e a maior parte da população se conhecer ajudou, mas não o suficiente.
Alguns diziam que ele era um suposto novo morador da cidade, outros diziam que era apenas um turista fazendo tour por essas regiões, e outros, até, diziam que ele era apenas um fantasma que decidiu me assombrar — essa última vou ignorar, alguns amigos não servem para dar informações necessárias.
Duas semanas se passaram e eu já estava quase me convencendo de que ele era mesmo um turista fazendo um tour. Mas a vida não é assim tão fácil.
Era domingo, por volta das uma da tarde, e eu, como era de se esperar, estava dormindo, até meu celular começar a tocar uma melodia que já estava começando a enjoar. Atendi sem nem mesmo ver quem era.
"Alô?" perguntei em meio a um bocejo.
"Viram o seu cara." Rapidamente reconheci a voz, Bárbara, uma amiga da escola.
"O que? Você pode ser mais clara, por favor?"
"O cara que você 'tava procurando, lembra? O estranho dos olhos negros!" Era fato de que quando eu acordava eu era muito lento — ainda sou — mas naquele dia eu estava mais que o normal, por isso demorou um pouco pra mim assimilar as coisas. Quando todo o processo para entender o que Bárbara exclamou do outro lado da linha terminou eu simplesmente pulei da cama.
"O que?! Mas... tem certeza? Era ele mesmo?"
"Se era ele mesmo só você pode ter certeza. A gente 'ta na casa do Pedro, foi ele quem viu o cara, mas..."
Não dei tempo d'ela terminar de falar, apenas voei para o banheiro, tomei um banho rápido, fiz minha higiene, vesti uma roupa qualquer e saí as pressas de casa.
Pedro, assim como Bárbara, era um amigo que eu havia feito na escola. Eu dei graças aos céus por ele não morar muito longe.
Quando cheguei à casa dele nem me dei ao trabalho de bater, já fui entrando. Logo quando cheguei a onde todos estavam senti um clima pesado. Ana e Luís, os gêmeos, mantinham-se sentados lado a lado no sofá, ao lado deles estava Jonathan e Diego, enquanto Pedro estava na poltrona ao lado do sofá, todos, sem exceção, mantinham uma expressão de apreensão, e então dirigiram os olhares pra mim assim que perceberam minha presença ali.
"A Bárbara me ligou dizendo que o Pedro viu... Por que vocês estão assim?" Perguntei, já assustado."O que aconteceu?"
Todos, com a exceção de Pedro, voltam a fitar suas mãos, o teto ou o chão.
"Ivan desapareceu." Disse Bárbara, brotando do além, como gostava de fazer.
"Ele vive desaparecendo. Não é como se ele não fosse voltar dessa vez." Era fato que Ivan vivia desaparecendo. Ele sumia por dias, às vezes semanas, e depois voltava como se nada tivesse acontecido. E quando perguntávamos à ele o por quê disso ou o que ele fazia nesse tempo desaparecido ele dava um jeito de mudar de assunto, ou simplesmente ficava calado, até desistirmos do assunto.
"Dessa vez não, ele não vai voltar." Pedro, enfim, se pronunciou. Sua voz saiu embargada e ele tinha os olhos vermelhos. Provavelmente andou chorando.
"Como você tem tanta certeza?" Repliquei.
Ele pegou algo em seu bolso e segurou entre os dedos. Era um colar. O colar que mãe de Ivan deu pra ele antes de fugir. Ele nunca tirava aquilo, pra nada. Nunca.
Foi naquele momento que eu percebi que as coisas estavam bem sérias.
"Encontrei ele perto do riacho que faz a divisa da floresta. Ele vivia dizendo que iria sumir pra sempre... eu nunca acreditava. Agora eu acredito." Ele segurava o colar com tanta força que eu podia ver as dobras dos seus dedos brancas. Ele tremia, também.
Naquela hora, eu já havia esquecido o principal motivo de estar ali: a talvez descoberta dos misteriosos olhos negros.
Alguns dias se passaram quando fomos contatar à polícia. No início não quiseram ajudar, sabiam que Ivan fugia para depois voltar. Mas acabaram cedendo, vendo nosso estado emocional — muito diferente do que normalmente ficávamos.
A cidade toda ficou sabendo de seu desaparecimento, o que fez o choque ser maior ainda quando, enfim, encontramos Ivan.
Era um sábado, dia em que eu tirava para fazer todos os deveres da escola para ter o domingo livre, e chovia. Não era uma chuva muito forte, mas o suficiente para me deixar encharcado enquanto eu corria para a casa do Pedro. Um chamado urgente, ele disse, e eu não pude dizer não.
Pedro era um cara legal, mas muito introvertido. Lembro que foi a muito custo que consegui ser amigo daquele lunático apaixonado por filmes de terror. Ele e Ivan eram amigos de infância, e quando cresceram se tornaram quase inseparáveis. Era engraçado ver eles juntos, pois Ivan era exatamente o contrário de Pedro, mas era incrível como se davam tão bem. Eles meio que se completam, Ana disse uma vez. E toda vez que Ivan não dava notícias, ele ficava com um mal humor insuportável. Não estava tão diferente agora. Talvez a única diferença seja que ele está mais triste que o normal, todos podiam perceber isso apenas por olhar em seu rosto sem expressão alguma; os olhos já não emitiam nenhum brilho.
Quando alcancei, enfim, a sua casa, percebi que ao final da rua alguém um tanto incomum me observava. Não dava pra ver o rosto por causa da pouca iluminação do lugar onde estava, mas eu sentia que ele me encarava, e eu fiz o mesmo.
Passaram-se cerca de quinze segundos que o encarava, já sentia arrepios pelo meu corpo, quando a porta da frente da casa foi aberta e Pedro apareceu.
"O que 'tá fazendo aí na chuva, idiota? Entra logo."
Eu estava tão concentrado em encarar de volta a pessoa e tentar visualizar melhor o rosto dela que tomei um susto quando Pedro apareceu, me deixando atordoado por um momento.
"Hã? Eu..." Olhei para o meu amigo por um momento como se estivesse acordado de um transe, e voltei a olhar para o final da rua. Não havia mais ninguém ali.
Ele me levou pra dentro e começou a falar.
"Você sabe, eu sou muito ligado ao Ivan. Eu costumava dizer que tínhamos uma ligação que nos possibilitava saber o que o outro estava sentindo... antes eu falava isso apenas por brincadeira, mas, agora, eu realmente sinto que posso saber o que ele está sentindo." Ele me olhava com os olhos arregalados e tinha a respiração rápida
"Ah... como assim? Você pode senti-lo?" Aquilo parecia loucura de mais até pra mim. Mas até que o que Ana disse faria mais sentido.
"Eu... Não sei bem. Tô sentindo a mesma sensação de quando ele sumia antes. Só que agora sinto mais forte!" Eu podia ver o desespero em sua face. Ele não queria perder Ivan pra sempre. "Eu 'tô indo até o lugar onde encontrei o colar. Você vem comigo." Ele disse me entregando uma lanterna e se dirigindo à porta me puxando. Tentei dizer não e impedi-lo de ir àquele lugar uma hora daquelas, era perigoso. Mas Pedro era teimoso e me arrastou junto à ele.
Durante quase todo o caminho eu tentei convencê-lo de que era melhor deixar pra fazer isso no dia seguinte, que não cabia à ele a tarefa de procurar pessoas desaparecidas ou qualquer coisa que o fizesse mudar de ideia. Só que em toda a minha vida eu nunca encontrei alguém mais cabeça dura quanto o Pedro.
Parei de falar assim que entramos na floresta. Ele andava a poucos centímetros a minha frente e eu ia em seu encalço.
De repente, quando estávamos já bem próximos do riacho, ouvimos alguns sons estranhos e eu, como o medroso que sou, me agarrei no braço de meu amigo. Eu estava começando a ficar assustado, quando, de repente, ouvimos um baque na água. Eu simplesmente paralisei, mas Pedro se soltou do meu braço e correu em direção ao riacho e eu não tive opção a não ser correr também.
E então, eu ouvi um grito.
Um corpo jazia entre a correnteza do riacho e a terra firme. Seu corpo, pelo que pude perceber, estava completamente desfigurado; as roupas rasgadas e manchadas de sangue. Não dava para ver o rosto, já que este estava afundado na água.
Pelo choque de ver aquilo e por já estar assustado, demorei um pouco para perceber quem era; a expressão de horror e os gritos de meu amigo apenas confirmavam minhas suspeitas: Ivan.
Não tendo muitas opções á meu favor, tudo o que pude fazer, também, foi dar um grito de horror e cair de joelhos no chão, sentindo um arrepio passando por todo o meu corpo. Imediatamente comecei a chorar enquanto olhava assustado para o Pedro em seu desespero; eu não tinha coragem de voltar a olhar aquele corpo.
O rosto de Pedro estava mostrando uma expressão tão desesperadora que eu também não consegui ficar olhando por muito tempo pra ele. Eu estava com tanto medo naquele momento.
De novo um baque. Olhei para meu amigo, caído no chão, e meu desespero aumentou. Corri até ele tentando a todo custo acordá-lo. As lágrimas escorriam sem freio por meu rosto. Ele não acordava de jeito nenhum!
Lembrei, então, que estava sozinho ali, com meu amigo provavelmente desmaiado e um cadáver, era noite e chovia. Ah meu Deus... Tentei raciocinar. Um telefone, preciso de um telefone! Procurei, com minhas mãos trêmulas, o celular de Pedro, mas não o encontrei. Eu estava aponto de ter um colapso. E eu quase o tive quando uma luz ofuscou minha visão.
Por um momento fiquei cego devido a luz que estava apontada diretamente para o meu rosto, logo ela se voltou ao Pedro e logo após ao Ivan. Ou o cadáver dele, se assim preferir. Eu estava quase implorando a ajuda daquele ser quando minha visão se focou no rosto dele. Senti, por um momento, meu sangue parando de ser bombeado e o tremor que estava no meu corpo se intensificou.
Seus olhos não expressavam nada enquanto o resto de seu rosto pálido tentava dizer o contrário, fazendo uma expressão de susto. Ele estava ali. A pessoa no qual eu ficara um longo tempo obcecado em descobrir quem era. O cara dos olhos negros.
"O que... aconteceu aqui?" Ele perguntou. Sua voz era tão fria quanto os olhos.
Eu estava tão abalado emocionalmente que apenas voltei a chorar descontroladamente tentando pedir ajuda. Acho que, apesar de toda a minha desordem com as palavras, ele entendeu, pois retirou um celular do bolso, digitou algo e começou a falar com alguém. Minha atenção estava voltada a Pedro caído à minha frente. Eu tentava a todo custo acordá-lo, e confesso que, naquele momento, eu estava com medo de ele ter morrido.
"Ei, tenta se acalmar, eu chamei a polícia. Acalme-se, por favor..." Ele dizia enquanto se agachava ao meu lado, segurando os meus ombros. Ele me me olhou nos olhos e prendeu meu olhar no dele. Tudo o que eu conseguia pensar enquanto fitava os seus olhos era em como aqueles olhos eram negros. Tão negros. "O que aconteceu com ele?" Me perguntou se referindo ao Pedro.
"Ele... ele caiu de repente... quando viu o Ivan... Eu não sei..." Eu ainda tremia muito, tanto pelo medo que sentia, quanto pelo frio; a chuva havia diminuído, ficando apenas uma leve garoa.
"Talvez ele tenha desmaiado... e o outro, Ivan, não? O que aconteceu com ele?"
Neguei com a cabeça. Eu realmente não sabia o que havia acontecido com ele.
A polícia não demorou a chegar junto com duas ambulâncias, e logo eu fui encaminhado à uma delas. Me fizeram algumas perguntas, mas não prestei muita atenção. Minha atenção estava voltada aos olhos negros daquele cara que me encarava vez ou outra enquanto falava com os policiais. Depois de tudo eu ainda não sabia o seu nome... e isso estava me torturando por dentro. Mesmo assustado, com frio e querendo ir pra casa o mais rápido possível, minha curiosidade em saber quem ele era ainda me corroía por dentro.
Pedro havia acordado minutos depois que os policiais nos encontraram; estava em choque. Ele havia sido levado para um das ambulâncias enquanto eu recebia atendimento médico em outra, mesmo que não precisasse.
Depois que ele, o cara dos olhos negros, terminou de dar seu depoimento, andei até ele. Não iria perder a chance de descobrir, enfim, quem ele era. Eu simplesmente não pude me controlar.
"Quem é você?" Perguntei logo que cheguei perto. Ele me olhou meio desconfiado, percebi.
"Por que quer saber?" Perguntou-me, ríspido.
"Porque... você me ajudou. Eu gostaria de saber seu nome."
Ele continuou a me olhar desconfiado. Suspirou, passando uma mão pelos cabelos um tanto longos. Desviou os olhos dos meus por um momento, olhando para onde estavam retirando o corpo do Ivan — eu tentava a todo custo não olhar.
"Alex." Disse, voltando seu olhar a mim sem aquela desconfiança de antes. "Você está bem agora?"
Assenti. Eu estava melhor do que antes, mas não totalmente bem.
Continuei a fitá-lo, guardando na memória todos os traços de seu rosto. Seria constrangedor se eu dissesse isso à alguém, mas eu havia o achado bonito, ali, molhado, com os cabelos escuros quase tampando sua visão e os lábios meio rosados entrando em contraste com a pele pálida. E assim como eu, ele não parou segundo sequer de me encarar de volta.
De repente senti alguém tocar meu ombro, me dando um leve susto. Era um policial.
"Garoto, acho melhor você ir para casa descansar. Amanhã daremos notícias. Quer carona?" Mark, apesar de aparentar ser um homem sério, era uma pessoa gentil que sempre fazia o possível pra ver o bem daquela cidade. Ele conhecia Ivan, e seu rosto denunciava o quanto estava mal. Neguei a carona. Eu não iria perder a oportunidade e matar minha curiosidade sobre o "Alex".
"De onde você é? Acho que nunca te vi por aqui." Perguntei assim que Mark se foi.
"Acho que você deve ir pra casa. Tem de descansar, não?"
"Sim, mas..."
Ele de repente começou a me puxar pelo pulso em direção a uma viatura
"Licença, acho melhor alguém levá-lo para acasa. Por precaução." Um dos policias que estavam lá assentiu e disse pra mim entrar no carro. Tentei protestar, mas foi em vão. Alex já estava indo embora.
Durante todo o curto caminho até minha casa tentei pensar direito nas coisas que aconteceram. Era difícil acreditar que Ivan havia morrido. Difícil acreditar que na mesma noite eu conheci Alex.
Eu morava com minha tia, Maria. Ela era enfermeira e trabalhava em outra cidade, num hospital maior. Naquela noite, com em muitas outras, eu estaria sozinho em casa. Mas pela primeira vez eu quis que alguém estivesse comigo. Eu estava com tanto medo.
Não lembro a que horas peguei no sono. Só lembro das poucas palavras do policial, dizendo que cedo ele retornaria para me dar notícias. De manhã quando acordei, só duas coisas povoavam meus pensamentos: um cadáver e um par de olhos negros.
Notas finais
Se quiserem comentar fiquem à vontade :3
Bye ~
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