Black Dog
3 Capítulo III
Notas iniciais
Sirius, já na forma humana, não se lembrava de estar mais radiante na vida senão quando abriu a porta do número 12 no Largo Grimmauld para o melhor amigo entrar, se detendo antes de qualquer coisa para fazer um alerta:
— Me faça uma gentileza, vê aquele quadro? – ele apontou para o quadro tampado por um grosso tecido negro no meio do corredor – É a minha mãe, e você não quer conhecê-la, então faça o mínimo de barulho possível aqui, sim?
— Claro. – o homem respondeu em um sussurro – Mas porque você não tira ela daí?
— Tem algum encantamento, presumo que só saia se derrubar a parede. – Sirius deu de ombros – Vamos subir.
Nas escadas ele relatou brevemente os esforços para limpar a grossa camada de sujeira e artes das trevas que estava impregnada em cada superfície e canto imaginável . Ele se lembrara de não acreditar, na primeira noite na mansão, que seria capaz de tornar aquele lugar decente o suficiente para viver, mas se provou o contrário, e a presença do amigo tornava tudo menos tenebroso.
— Um pouco menos de poeira e cabeças de velhos elfos decepadas, e isso pode se tornar um lar. – Remus disse avaliando curiosamente as redomas de vidro onde as cabeças descansavam – Quem é o elfo sobre o qual você falou antes?
Como se adivinhasse, Monstro saiu arrastando os pés, aos resmungos, do quarto de Sirius, até ver o seu senhor e fazer uma reverência profunda e falsa.
— O senhor já retornou! – exclamou cinicamente – Trouxe mais um sujeito consigo, deve ser outro sangue-ruim, como se não bastasse essa criança...
— Monstro, esse é Remus Lupin, um lobisomem mestiço, se isso lhe fará dormir melhor. – Sirius disse e o elfo se encolheu com desagrado – Remus, esse é o Monstro, antigo elfo que serve a família Black, não serve para nada, apenas reclamar, facilmente comparável com a minha querida mãe.
— Como ousa falar mal da Senhora de Monstro... – Monstro recomeçou a ladainha de lamúrias.
— Enfim, o quê você estava fazendo no quarto? Clara está bem? – questionou Sirius já se encaminhando para o quarto onde a filha dormia, sendo seguido de perto por Lupin.
— A menina nojenta ficou caçoando de Monstro enquanto ele vigiava. – o elfo disse com uma carranca.
— Caçoando? – ele pôde ver que a filha se mexia na cama e compreendeu o quê Monstro queria dizer – Acho que ela só queria se divertir um pouco.
Clara estava sorrindo sem motivo aparente quando o pai entrou acompanhado pelo melhor amigo, e ao ver os dois homens a menina começou a rir sonoramente e estender os bracinhos para ser pega. Obviamente ela tentara chamar Monstro para brincar, mas ele não recebera muito bem a proposta.
— Olha só para você! – Lupin exclamou e largou a maleta no chão ao notar que Sirius tinha deixado o caminho livre para que ele pegasse o bebê – Nunca ninguém ficou tão feliz assim em me ver.
Assim que ele a aconchegou em seu colo, a garotinha agarrou seu rosto e começou a passar as unhas pequenas e finas pela barba loira por fazer, além de emitir alguns sons que indicavam que ela queria falar alguma coisa de forma muito entusiástica, mas obviamente não sabia como.
— Compreendo perfeitamente. – Lupin acenava com a cabeça como quem estava participando ativamente daquele diálogo enquanto Sirius sorria ao assistir os dois – Ela está tão parecida com Florence.
— Minha mulher costumava dizer, um pouco indignada, que carregou Clara por nove meses e sentiu as dores do parto apenas para criar uma cópia minha. – ele piscou para a filha que o olhou quando ouviu seu nome ser pronunciado – Queria que pudesse vê-la agora.
Ele sempre sentia falta da esposa, quando estava sozinho, e quando tinha companhia sentia mais ainda, pois Florence sempre sabia ser mais diplomática e querida que ele até nas reuniões com seus próprios amigos. Esperava que Clara não puxasse apenas a beleza dela, como também as qualidades, sem falar no talento em magia.
— Queria que pudesse ver vocês dois. – Lupin disse gentilmente – Estaria orgulhosa, porém aliviada de ver que a menina não parece tanto com você.
Sirius revirou os olhos e deixou a risada de Lupin ecoar pelo quarto antes de tomar Clara dos braços do amigo para acalmar sua euforia e impedi-la de causar mais arranhões.
— Seu quarto é exatamente como eu pensava. – Lupin passou os olhos ao redor do cômodo cheio de pôsteres de motos e fotos da época de escola, cores vermelha e dourada e uma bandeira do time de quadribol da grifinória corroída por traças – Imaginei que haveria mais fotos de garotas.
— Havia, mas tirei já que estava colocando Clara para dormir aqui. – ele encostou o nariz no topo da cabeça da filha para sentir o cheiro de bebê – Ela não precisa saber quem eu era na juventude, não é, querida? Apenas que fui um ótimo marido.
— Naturalmente. – Lupin concordou.
— Vamos para cozinha? – ele se virou para sair do quarto — Silêncio na escada, seus dois fanfarrões.
Depois de se sentarem na cozinha, Sirius acendeu a lareira, pegou algumas garrafas de cerveja amanteigada e colocou Clara para brincar com as rolhas encima da mesa.
— Voltando ao assunto que discutimos lá no bar... – Sirius pigarreou para chamar a atenção do amigo – Eu não estava brincando.
— Eu sei que não. – Lupin o encarou – Você tem noção de quão complicado isso vai ser, não é?
— Defina “isso”, porque atualmente tudo é complicado. – ele disse com a testa enrugada.
Lupin respirou fundo e tomou fôlego para continuar, desta vez olhando para as rolhas que Clara pegava e soltava na mesa, rindo como se fosse a coisa mais engraçada de todas.
— Isso. – indicou a bebê com a cabeça – Uma criança criada numa mansão escondida de todo o mundo, por um pai que está fugindo de todo o mundo. – de repente a boca de Sirius secou e ele tomou um gole de cerveja – Entendo que você precisa de apoio e pode contar comigo, mas certamente não tornarei tudo tão mais fácil pelo tempo que me permitirem ficar com vocês.
— Você tem permissão para ficar até quando quiser. – Sirius interviu em sua fala – Por mim, você só sai daqui casado. – Sirius deu de ombros e ouviu o amigo fazer um som entre bufar e rir – Mas é verdade, eu estou fugindo de todos, me escondendo, mas não posso privar minha filha do mundo, Remus. Em algum momento ela vai sair por aquela porta sem olhar para onde está indo, pelo simples desejo de ir a algum lugar. Ela merece ver coisas maravilhosas e aprender algo novo todos os dias, mas não posso oferecer isso, minhas aventuras com ela se resumirão à histórias dentro de livros na hora de dormir e passeios sobre quatro patas. – Lupin pareceu compreender o que ele queria dizer – Não se importe comigo, vou ficar bem, sou um cachorro velho, mas fique por ela.
Um expressão perturbada se espalhou pelo rosto de Lupin, e Sirius, ao olhar do amigo para Clara, ouvindo o crepitar do fogo na lareira e o rastejar de pés de Monstro no corredor, sentiu um marejar leve e perigoso nos olhos e piscou para afastá-lo. A verdade mais pura era que ele não sabia bem o que estava fazendo com sua vida além de zelar pela vida de sua filha, mas esperava encontrar um motivo a mais para continuar vivendo enquanto Lupin estivesse ali.
— Fico pelos dois. – Lupin disse após uma pausa breve em que permitiu Sirius de se recompor – Diremos que por tempo indeterminado, mas Monstro ficará transtornado. — Lupin disse, causando um acesso de risadas na hora certa em Sirius que o fez cuspir cerveja no chão.
Logo Clara estava rindo mais alto e batendo palmas, então Lupin riu junto até Monstro aparecer no batente da porta, resmungando o mais alto que podia em sua voz cavernosa.
— Obrigado. – murmurou Sirius em um tom de voz mais baixo e carregado de significado depois que a vontade de rir cessou, Lupin recebeu o agradecimento com um aceno de cabeça.
— Bem, terei mais liberdade para procurar um emprego. – ele disse parecendo mais entusiasmado – Caso exista alguém que empregue um lobisomem.
Além de pensar em suas chances de arrumar emprego, Lupin também pensava com preocupação em como seria criar Clara, ele jamais se imaginara como pai, mais por conta de sua condição do que pela falta do desejo. Provavelmente ficaria por um tempo razoável, até pai e filha se estabelecerem melhor.
O quê ele não imaginava é que ficaria sob aquele teto pelos próximos quinze anos.
Durante os dias que se seguiram, a energia da casa foi renovada pela presença do novo morador. Lupin e Sirius concentraram forças para limpar cada buraco em que pudessem usar magia e tentar arrancar quadros e tapeçarias das paredes, reabasteceram a dispensa de comida e divertiram Clara ao máximo. Depois disso, Lupin foi forçado pelo bom senso ir em busca de um emprego, deixando Sirius e Clara um pouco deprimidos, mas esperançosos.
Ele não saberia dizer quantas semanas se passaram até ser surpreendido por uma senhora de aparência nobre no Caldeirão Furado, enquanto bebia alguma coisa apenas para se lamentar um pouco sozinho e poder voltar para a casa aparentando boas expectativas. Estava lendo um livro intitulado “O Essencial da Defesa Contras as Artes das Trevas” , quando sentiu alguém se aproximando por trás e virou o rosto para encarar quem quer que fosse que estava lendo por cima de seu ombro.
— Com licença? – ele disse ao notar que era uma senhora – Posso ajudá-la?
— Desculpe, querido. – ela sorriu, os olhos azuis estavam marejados, aparentava ter menos de sessenta anos, usava um vestido verde com uma capa negra por cima, os cabelos grisalhos presos – Não pude deixar de te notar.
Ele virou o corpo por completo para a mulher, provavelmente fazendo a cara mais confusa de todas.
—Perdão? – ele fechou o livro e se aproximou mais dela, como se não conseguisse ouvir bem o que ela estava dizendo – Me notar?
— Você é um lobisomem, não é? – ela disse com uma voz cheia de expectativa e um sorriso que ele não saberia dizer o que queria expressar, mas os olhos estavam iluminados pelas lágrimas.
As palavras fugiram de Lupin e ele apenas pôde encarar a mulher, em silêncio, esperando que ela dissesse mais alguma coisa que pudesse dar sentido para aquela situação em que se encontravam.
— Meu filho era um lobisomem. – os olhos azuis cintilantes passeavam pelo rosto dele da forma mais terna que já o tinham olhado na vida – Não preciso de muito para reconhecer um.
— O quê me denunciou? – Lupin riu entre os dentes como se não acreditasse no que estava acontecendo, e questionou-a sem muito confiança.
— Tudo. – ela riu com sinceridade em resposta a ele – Para quem temeu as luas cheias por muitos anos, tudo em você me diz que as teme também.
Foi dessa forma que Lupin conheceu Adele Stewart, uma mulher que teve o filho mordido por um lobisomem quando criança, o pai abandonou os dois e o garoto se matou ainda jovem depois de se apaixonar e ser abandonado pela namorada também. Adele estava deslumbrada com ele e tentou arrancar o máximo de informações possível sobre sua vida, até o ponto de ficar comovida e oferecer emprego em sua casa como professor particular de Defesa Contra as Artes das Trevas.
— Seria apenas algumas horas por dia, mas posso te remunerar bem Remus. – Adele disse exasperada – Você tem família? Filhos?
— Eu... – ele parou para pensar antes de responder – Tenho uma garotinha, minha afilhada.
— Ótimo! Você pode levar ela para ficar conosco quando quiser. – a mulher parecia cada vez mais maravilhada – Por favor, venha conhecer minha casa, eu te garanto que sou uma boa pessoa, mostro documentos, fotos de família, qualquer coisa.
Lupin hesitou e pediu que eles se encontrassem novamente no dia seguinte, até que, ao ver as fotos de família e a coleção de livros, artigos e recortes sobre licantropia que a mulher carregava, além de seu enorme interesse em aprender mais sobre lobisomens e as defesas contra as artes das trevas, ele foi convencido a visitar sua casa que não ficava muito longe do bar.
A decisão de aceitar o emprego que o manteria longe do Largo Grimmauld algumas horas do dia fez Sirius ficar temeroso, mas ao ver a felicidade do amigo e as circunstâncias daquele acaso, ele se rendeu e comemoraram juntos com uma noite de cerveja moderada, musica até um horário cabível e conversa momentaneamente interrompida por um chorinho ou uma fralda cheia.
Após essa ocasião o tempo se desdobrou de forma assustadoramente veloz, a mansão Black se tornava um lar mais caloroso e aconchegante todos os dias, Clara crescia com saúde e energia, rabiscando as paredes com giz e enfeitando cabeças solitárias de elfos com coroas de flores, passando por cima das adversidades, como o fato de que seu pai não podia deixar a casa deles senão na forma de cão. Lupin a levava para casa de Adele várias vezes e a senhora a entupia de amor e comidas deliciosas, entretanto, ao voltarem para casa, muitas vezes encontravam Sirius trancado em um dos quartos largado em algum canto escuro, melancólico e abatido.
Mas a presença de Clara era suficiente para alegrá-lo novamente, e eles passavam seu tempo brincando, cuidando da casa e estudando – Lupin tinha o cuidado de arranjar tempo para ensiná-la sobre tudo o quê precisava saber, sobre o mundo da magia e coisas que ela poderia acompanhar sem dificuldade, e a menina se mostrava muito interessada, até chegar a idade em que a magia começou a fluir dela naturalmente, e eles precisaram ajudá-la a controlar alguns impulsos. Clara era uma criança amorosa e gentil, mas havia nela certa rebeldia que a levava a sair de casa quando não havia ninguém na rua e ficar sentada nos degraus da frente, observando o céu, além de pegar a varinha do pai ou de Lupin e sair correndo e pulando como se estivesse no meio de um combate feroz, soltando faíscas de forma assustadora e gritando com os quadros de velhos parentes que obviamente não a suportavam.
Era nesses momentos que Sirius encontrava maior diversão, apesar de precisar repreendê-la quando Lupin estava por perto. Ao chegar na idade de dormir sozinha, Clara gostava de ter um quarto só seu para aprontar suas travessuras e se esconder durante o dia mas, em muitas noites, acabava dormindo no mesmo quarto que seu pai, porque podia ser muito jovem, mas ela sabia como ele poderia se sentir solitário.
Juntos, Lupin e o pai contavam histórias da sua juventude e sobre os Marotos, além de ensiná-la sobre quadribol, o que a deixava cheia de ansiedade, até ganhar sua primeira vassoura e voar pelo quintal de Adele apontando um graveto para todos os lados enquanto Lupin dava suas aulas particulares de Defesa Contra as Artes das Trevas. Ela também costumava voar na sala de estar, para que Sirius acompanhasse seu progresso e a perseguisse pulando sobre as patas traseiras.
Sua infância passava de forma mágica, apesar de todos os seus questionamentos que ficavam sem resposta, pois “ainda não era a hora certa”, e momentos sombrios onde teve que lidar com a tristeza de seu pai por ficar trancado e todas as luas cheias em que ele e Lupin passaram fora de casa sem nenhum pretexto suficientemente bom – Sirius contou que Lupin era um lobisomem quando ela tinha 7 anos, então ela virou para Lupin e disse “mas você é um lobo bonzinho, não é?”, e ele concordou – deixando-a sozinha com Monstro, o elfo com quem ela tentava brincar todos os dias, apesar de ele repeli-la o tempo todo.
Suas limitações e a criação que recebeu, principalmente de Lupin, a tornaram responsável e madura, apesar da rebeldia pontual louvada por Sirius, então quando, aos dez anos de idade, ela se sentou entre Sirius e Lupin para finalmente ouvir a história da Primeira Guerra Bruxa e sobre o motivo de seu pai não poder deixar a Mansão, ela compreendeu tudo o que eles disseram, mas se sentiu injustiçada e com raiva por ele como se estivesse presente na noite de 1981.
— Rabicho fugiu? – ela perguntou com os olhos faíscando – Você é inocente, precisamos encontrá-lo e fazê-lo confessar, e se ele se esconder como um rato de esgoto para sempre?
— Isso é exatamente o que ele pretende fazer, agora que não tem ninguém que possa protegê-lo. – Lupin explicou pesaroso – Mas precisamos tentar viver nossas vidas, perseguir um homem de quem não sabemos sequer o paradeiro seria uma perda de tempo enorme.
— Isso é uma injustiça enorme, isso sim. – ela bateu na mesa com raiva e Sirius agarrou sua mão para contê-la.
— Ele vai pagar pelo que fez. – assegurou – Acredite em mim.
Clara acreditava no pai com todas as suas forças, o olhar dele transparecia obstinação, então ela assentiu e respirou fundo para se controlar e levantar mais pontos importantes da história que havia criado dúvidas em sua cabeça.
— Voldemort morreu? – ela perguntou exasperada e Lupin fez uma careta ao ouvi-la dizer esse nome, como se alguém lhe tivesse espetado com uma agulha de tricô.
— Não diga esse nome. – ele pediu e ela vislumbrou Sirius rolar os olhos.
— Por que? – perguntou sem compreender – Papai diz o nome dele.
— Acho que temer um nome não é saudável para ninguém. – Sirius respondeu com as sobrancelhas erguidas.
— Bem, eu... – Lupin parecia pronto para argumentar, mas algo pareceu clarear em seus pensamentos ao trocar um olhar com o pai da garota, e ele mudou a fala – Enfim, ele não morreu, mas as chances de retornar são mínimas.
— Mínimas? – Clara repetiu com os olhos cor de mel um pouco sobressaltados – Quer dizer, mesmo assim, ele pode voltar a qualquer minuto, não pode?
— Supondo que apenas o passar do tempo não seja o suficiente para reerguê-lo, ele pode voltar, mas vai demorar séculos. –Lupin explicou calmamente.
— Bom saber. – ela suspirou, mas ainda estava intrigada.
Ouvir o relato de como Sirius fugiu e depois procurou Lupin fez com que ela se sentisse absolutamente grata pela vida que tinha naquele momento, pois sem a persistência do pai e a ajuda de seu melhor amigo ela poderia estar num orfanato. Mas sem dúvida, o que trouxe a maioria das lágrimas que ela derramou na mesa de jantar foi a história dos Potter, pois ela não se lembrava de Harry ou de seus pais, mas ouvir falar sobre como eles deram apoio após a morte de sua mãe foi muito comovente, além do fato de que Harry era apenas um bebê e já fora obrigado a passar por situações inimagináveis.
— Eles eram nossos melhores amigos. – Sirius disse com os olhos um pouco úmidos, enquanto secava uma lágrima gorda que ameaçava rolar pela bochecha da filha – Sou padrinho de Harry.
— Ele está bem? – ela questionou com a voz embargada.
— Tenho certeza que sim. – Lupin deixou bem claro para que ela não se entristecesse – Ele foi morar com alguns familiares num lugar onde está protegido.
— Por que não pode morar conosco? Não estaria protegido aqui também? – perguntou desconsolada – Ele é completamente órfão, eu não tenho mãe, mas tenho um pai e um Lupin, isso é injusto.
Os dois homens não sabiam o quê responder assistindo ela derramar lágrimas silenciosas por conta de uma história que parecia ter acontecido há tanto tempo, mas que ainda podia doer tanto.
— Faria de tudo para ficar com ele, de verdade. – Sirius passou um braço pelos ombros da filha – Mas não posso.
— Você não pode muitas coisas! – ela exclamou indignada – Isso é ridículo.
Ela se levantou e foi a passos duros até a porta da frente e se sentar nos degraus onde ficava para tomar um ar e pensar. Sentiu a revolta se acrescer em seu peito como se ascendessem uma chama, então ela prometeu a si mesma que inocentaria o pai um dia, e quando conhecesse Harry Potter ela o pediria desculpas formais por nunca tê-lo procurado. Mais do que isso, ela se imaginou lutando bravamente caso algum dia Lorde Voldemort voltasse, então nunca iria fugir de um confronto pela justiça, mesmo que custasse sua vida, pois ela entendia que Sirius pensava do mesmo jeito.
Clara ficou do lado de fora algum tempo encarando a noite fria e sem estrelas, sentindo o vento balançar seus longos cabelos negros e querendo como nunca que a mãe estivesse viva para confortá-la num momento em que Sirius e Lupin não podiam. Quando sentiu que era hora de entrar e encarar sua vida complicada de novo, se sentindo mal por ter se exaltado com o pai, ela trancou a porta e seguiu lentamente até a cozinha. Ao se aproximar da porta, pôde ouvir que conversavam lá dentro aos sussurros.
— O que faremos quando chegar a carta dela? – Lupin questionou com um tom de urgência, estava ocupado cortando rabanetes na mesa – Dumbledore pode aceitá-la, mas e os outros? Conhecem o nome dela, mas não conhecem a história verdadeira, quase ninguém conhece, ela vai sofrer.
— Vamos fazer o quê então, não enviá-la para escola? – Sirius perguntou sarcasticamente enquanto mexia uma panela no fogão – Não vou privar Clara de ir para Hogwarts, Remus, nós vamos dar um jeito.
— Não quero privá-la, mas você já parou para pensar nisso? – ele parou de cortar os legumes abruptamente e descansou a faca na mesa – No mínimo, saíra no jornal: “Clara Black, a filha desaparecida do notório assassino Sirius Black, ingressa na escola de Magia e Bruxaria de Hogwarts.”
— Claro que já pensei! – Sirius alterou a voz e se virou para o amigo sem largar a colher que usava.
— Sirius, não me leve a mal. – Lupin disse cuidadosamente – Ela será questionada nos corredores, afinal, onde ela esteve por onze anos? Onde está o pai dela? Te garanto que crianças podem ser muito mais cruéis que isso.
— Eu sei disso, Aluado, eu fui uma criança cruel. – ele respondeu e largou encima da mesa um pano de secar louças que carregava no ombro e, respirando profundamente para se acalmar, voltou seus olhos negros para encarar o amigo – Tive uma ideia noite passada, mas precisamos falar com Dumbledore e Adele.
— Adele? – Lupin repetiu o nome de sua aluna particular sem entender qual era o papel dela nessa história.
Clara, que estava escutando atentamente a conversa, não ouviu quando Monstro se aproximou por trás e empurrou a porta em que ela estava colando o ouvido, então acabou sendo obrigada a entrar aos tropeços e fingir que não estava participando daquele diálogo há meio segundo atrás.
— Garota nojenta. – Monstro murmurou e saiu se arrastando, fazendo Clara se sentir grata por ele não dedurá-la, sabendo que aquele ato de parceria provavelmente custaria alguma coisa depois, como o resgate de alguma peça valiosa da família Black que eles ainda guardavam.
Sirius se endireitou e deu um meio sorriso para a filha antes de voltar ao fogão como se nada tivesse acontecido, o mesmo serviu para Lupin que prosseguiu cortando os rabanetes.
— Sinto muito pelo desgosto que te causamos hoje, querida. – seu pai disse – Mas já era a hora de você conhecer a história toda.
— Não foi desgosto. – ela rebateu se forçando a soar displicente – Eu só fiquei com raiva como qualquer pessoa ficaria.
— Você está certa. – Lupin disse sorrindo amavelmente para ela – Mas não pense muito sobre essas coisas, tudo bem?
— Isso mesmo, todos nós fizemos sacrifícios e vivemos momentos difíceis, mas foi por um bem maior, derrotamos Você-Sabe-Quem. – Sirius piscou um olho para filha – Agora, será que pode me ajudar com os pratos?
Ela ficou parada no mesmo lugar por alguns segundos, pensamentos pipocando em sua mente, mil perguntas e um sentimento estranho engolfando seu peito, principalmente por tê-los visto conversarem sobre ela, mas sem a presença dela. Porém, ela confiava nos homens que a criaram, pois não havia mais ninguém em quem confiar, e decidiu que iria esperar para saber qual a era a ideia de seu pai para enviá-la para Hogwarts em segurança, agora que sabia ser a filha de um famoso assassino.
Antes de pegar os pratos no armário de louças, ela se aproximou do pai e abraçou sua cintura, encostando o rosto em suas costas. Ele ficou imóvel e até parou de respirar por um breve momento, então colocou sua mão quente sobre a pequena mão dela em seu peito.
— Eu amo vocês e sinto muito por tudo. – ela disse com a voz abafada, então soltou-o e foi até a cadeira de Lupin para agarrá-lo pelo pescoço e beijar seu rosto ferido – Obrigada.
Nenhum dos dois foi capaz de responder, apenas sorriram um para o outro e continuaram em suas tarefas.
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