Black Desert
36 Uma chance de Ajuda
Notas iniciais
Começando à me atrair cada vez mais pela ideia de escapar, eu então tentei jogar meu olhar rapidamente para o lado -procurando ver a distância entre mim e a porta.
Mas assim que eu fiz isso, pude notar o Skrea também dando um passo na direção para o qual meus olhos se inclinaram, mostrando que mesmo depois de tudo ele ainda não estava disposto a deixar as minhas intenções continuarem –pelo menos, não aquelas!
Mas continuar ali tentando também pensar em qualquer outra solução seria igual à nada! Aquela era a única saída possível desse quarto, eu não tinha como me defender das armas dele sem o meu bastão, e de maneira alguma eu iria ficar dependendo toda hora dos meus poderes para afastá-lo até ele se cansar!
Foi aí que eu tomei um profundo fôlego, sabendo que iria ter que arriscar...!
"Ele não vai me matar se não souber aonde está o cordão... Ele não vai-...!"
Ao que eu repeti essa frase na minha cabeça para me dar coragem, em um único salto eu corri na direção da porta! A distância era de apenas três passos, mas assim que eu consegui alcançar a maçaneta daquela porta, a assustadora sensação de algo apressadamente vindo na minha direção foi -em segundos- substituída por um forte impacto contra todo o meu corpo!
Eu havia sido jogando com força sobre aquela mesma porta que não consegui abrir à tempo, sendo prendido contra ela e perdendo a última possibilidade que eu ainda tinha de conseguir fugir sem precisar confrontá-lo novamente!
O barulho do impacto na madeira reforçada da porta fez meus olhos acidentalmente se fecharem, ao que eu podia sentir boa parte do meu corpo começar à lentamente doer com aquela brutal colisão que ainda estava ressoando por todos os meus ossos.
Meu corpo estava sendo esmagado contra minha única chance de fuga, e em uma mísera questão de tempo, uma mão comprida agilmente conseguiu também alcançar aquele meu braço que estivera mais próximo da maçaneta, puxando-o um pouco acima da minha cabeça e o prendendo contra a parede. Ao que sua mão segurava o meu pulso firmemente -quase como se quisesse arrancá-lo do meu braço- eu então precisei, com dificuldade, mudar a posição do meu corpo até ficar de frente para ele tentando não deixar que o meu braço fosse quebrado no processo.
Mas mesmo com tudo aquilo, ainda sim eu continuei a manter os meus olhos fechados graças à confusão de muitas sensações ao mesmo tempo que estavam violando os meus pensamentos, me confundindo demais para eu até mesmo me lembrar que precisava reagir ou iria voltar a ficar na mesma situação em que começamos!
De repente então, toda aquela confusão dentro de mim se estilhaçou assim que ouvi o som do afiado fio de uma lâmina roçando para fora de sua bainha! Me forçando a retomar o controle sobre meu corpo, eu rapidamente abri os meus olhos a tempo de ver sua outra mão vindo na minha direção com uma adaga empunhada!
Assustado, por reflexo o meu corpo então se jogou para o lado oposto da direção em que ela vinha, ao que minha outra mão livre correu para segurar mais uma vez o seu pulso, tentando impedir aquela adaga de conseguir me alcançar mesmo sabendo que eu não iria conseguir medir forças com ele por tempo suficiente! E quando dei por mim, eu realmente já estava cerrando meus dentes pela força que estava precisando empregar naquele gesto tão pequeno de segurar firme seu braço! Foi nessa confusão toda então que eu finalmente tentei olhar bem para os seus olhos, procurando um mínimo de certeza de que sua intenção afinal era a de realmente me acertar! ...Tudo para eu notar surpreso, que seus olhos realmente estavam muito próximos dos meus... muito próximos.
No instante em que ele também se deu conta disso e correspondeu meu olhar, sem aviso -ou explicação- toda aquela raiva cega que ele parecia estar usando para vir para cima de mim e me atacar, apenas sumiu... Fazendo seu rosto recuar por um instante no susto ao que suas pupilas dilataram instantaneamente, deixando uma expressão de surpresa tomar conta de si e diminuindo quase toda a força que seu corpo inteiro estava empregando contra mim e aquela porta!
Em espanto com a sua reação, eu o revidei usando a mesma expressão de surpresa sem conseguir entender nada além do fato que que algo em mim não queria me deixar desviar daquele seu estranho olhar.
Porém, eu não havia esquecido que ainda estava segurando com todas as forças o seu braço, tentando impedi-lo de chegar perto de mim! Então, usando aqueles poucos segundos que eu tive da desatenção dele, em um impulso, eu foquei –de um jeito desajeitado- mais uma vez nos meus poderes (não importava mais o quão arriscado fosse fazer isso às pressas, ele ia me matar se eu não o fizesse!) e tomando controle da água existente no corpo –na mão- dele, movi à força seus dedos para que ela largasse enfim aquela adaga!
Rapidamente, eu então recuei para o lado, assustado ao que eu me dava conta de que agora o efeito havia sido sem querer forte e rápido demais -por conta do pânico que estava fazendo meu coração disparar com muita vontade! Não que talvez ele mesmo tenha notado ou sentido algo, porque eu só vi sua atenção realmente escapar de mim quando finalmente ambos ouvimos o som do metal de sua adaga caindo no chão, ao lado de seus pés! Foi aí que ele se tocou de que algo estava errado consigo e passou a encarar a sua arma -largada bem ali — sem ter muita reação para discernir o que aconteceu da mesma maneira que eu também não entendia como tive a oportunidade de fazer aquilo novamente –se não fosse talvez por uma intervenção divina de Grivah, já que Skreas não eram burros para cometer o mesmo erro duas vezes seguidas contra um inimigo!
E foi aí que então percebi ele finalmente notar o quão irresponsivo seu braço mais uma vez voltara a ficar, aos poucos afastando –com relutância, mas receio- seu corpo mais uma vez do meu! No que eu achei que poderia com isso, novamente, tentar fugir pela porta, se não fosse dessa vez as minhas pernas fraquejarem e eu acabar escorregando sem forças pela parede! Ofegante e desesperado, enquanto fechava ansioso minhas mãos tentando não me deixar levar pelo medo de ter passado dessa vez dos limites, enquanto igualmente tentando não ceder aos meus sentidos e checar através deles o estado real do que eu fiz!
"Eu não vou sobreviver, se continuar nesse quarto com ele!"
O som da minha respiração abafada disputava com o som de um grunhido que pude ouvir ele soltar -ao que dessa vez não estávamos tão distantes assim um do outro- mostrando que possivelmente ele estava dividido entre a vontade de não me deixar ir, e de não ser novamente pego pelos meus poderes!
Enquanto eu, porém, mal conseguia encará-lo -parado ali bem na minha frente- porque agora eu só estava era me sentindo capaz de olhar para o chão -alarmado- tentando guardar para mim o fato de que dessa vez foi por muito pouco que eu não fiz uma grande besteira! Enquanto os meus sentidos agiam fora do meu controle, me indicando que a pulsação do seu coração e toda a circulação do seu corpo estavam alteradas, mas novamente, não danificadas.
— "Yura? Está tudo bem aí dentro?"
De repente nós dois congelamos aonde estávamos, ao que uma voz feminina vindo do outro lado da porta na qual eu estava encostado pôde ser ouvida!
"É a minha chance de escapar!!"
Eu -e provavelmente aquele Skrea- chegamos àquela conclusão, já que no segundo em que eu levantei meu rosto na direção da porta com uma certa alegria, pude sentir ele então, mais uma vez, vindo para cima de mim –silenciosa, mas velozmente- em uma tentativa de cobrir mais uma vez a minha boca com a sua mão para que eu não tivesse como gritar por ajuda!
Só que dessa vez, de um modo instintivo, eu rapidamente levantei uma das minhas mãos como em um tom de ameaça, na frente de seus olhos, o que fez ele parar no meio do caminho aquilo que estava prestes a fazer, acabando por transformar sua tentativa de me prender em um quase inocente semi-abraço -ao que toda a força que ele ia empregar em mim desapareceu, assim como a sua intenção de continuar me mantendo sob controle!
"Pelo visto ele finalmente entendeu que não vai dar certo continuar tentando me segurar quieto... ufa."
Só que, em meio àquele constante e irresoluto conflito (renovando ainda mais o forte clima de tensão entre nós dois) fomos cortados por novas batinas na porta, ao que mais uma vez aquela não identificada voz feminina chamou por mim.
— "... Yura?"
Uma segunda vez então eu tentei virar meu rosto na direção da porta, muito estimulado à respondê-la com um pedido de ajuda, só para ser resgatado de uma vez de lá de dentro!
Porém-... Assim que eu fiz esse movimento, algo me chamou a atenção e eu voltei meu olhar para aquele Skrea que estava bem na minha frente -aos poucos saindo de cima de mim, mas sem realmente se levantar.
Seu corpo havia se inclinado para trás, e ele apenas estava se mantendo ali, ajoelhado, bem de frente para mim enquanto encarava o chão com uma expressão de desolação que ele mesmo não conseguia esconder muito bem.
Para alguém que estaria desesperado para fazer várias coisas contra mim, ele estava até que bem irresponsivo e desistente dessa vez... E isso, no fim, não me surpreendeu, porque eu já sabia bem lá no fundo, mesmo que fosse difícil de confiar -diferente de suas atitudes desesperadas, ele realmente não tinha a intenção de me machucar.
"Ele só quer algo importante de volta que eu peguei, e mais nada..."
Chegando naquela fatídica conclusão, eu passei a me dar conta de como aquela cena era quase de partir o coração (isso é, se eu realmente fosse muito idiota para cegamente resolver sentir qualquer compaixão agora). Mas, um incômodo mesmo assim continuou me perturbando, por nós dois, porque essa jamais iria ser a melhor forma de concluir esse assunto. Criando uma pendência que iria com certeza voltar para me assombrar mais tarde se eu apenas respondesse agora à voz me chamando...
"Se eu fugir, vou apenas estar dando uma razão ainda maior para ele me procurar de novo. Assim como ele fez com Gale."
Pensando aquilo, e com uma sensação de que eu tinha logo que dar uma resposta para aquela menina ou ela tentaria abrir a porta por conta própria, eu então suspirei ao que me virei para a porta falando bem alto e claro para ter a certeza de que minha voz seria ouvida. Gastando um último instante que ainda me sobrara, porém, para relutar e torcer para não me arrepender disso depois.
— "... Está tudo bem aqui, pode voltar ao trabalho."
Eu falei com uma voz séria, estragando o estranho clima deprimente que havia surgido dentro daquele quarto graças ao silêncio que havia se formado entre todos nós, e sendo recebido em troca por mais alguns segundos de silêncio vindo de todos. Finalmente, então, a menina voltou a me responder.
— "...Ok, se precisar de alguma coisa é só chamar."
Com uma certa desconfiança na voz porém, a garota me respondeu normalmente, se afastando da porta e indo embora ao que seus passos podiam ser ouvidos pelo outro lado –diminuindo, até desaparecerem de vez sem novamente retornar.
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