Black Desert
20 Admitidamente Egoístas
Notas iniciais
— "Você conseguiu mesmo me acompanhar... hahaha!"
Gale disse enquanto respirava com vontade, finalmente levantando sua cabeça e soltando um sorriso bem largo. Ele era doido...!
Colocando então uma de suas mãos em meu ombro, Gale sem aviso se aproximou de mim até que nossos rostos ficassem muito próximos, me encarando com um olhar bem sério e mudando radicalmente o clima daquele momento. Mesmo com sua carregada respiração ainda muito forte sobre mim, ele se manteve completamente estoico o tempo inteiro.
— "Que tal agora você voltar para sua casa e parar de tentar se envolver nos meus assuntos particulares?"
— "... E dá para eu me envolver mais ainda...? Não me diga que ainda tem alguma coisa que eu estou sem saber...?!"
— "N-... É claro que não... de onde você tirou isso?"
Eu havia indagado-o apenas de brincadeira, convencido de que aquilo que aconteceu fosse ser o pior que a confusão toda de Gale poderia ter conseguido causar, mas ele soou estranhamente surpreso e frustrado, lançando seu olhar até então intimidador para o lado como se me evitasse por um instante... A sensação que tive era que ele estava claramente mentindo, e juro... como eu queria ter apenas acreditado nas palavras dele agora e não ter notado essa reação estranha -como se ainda tivesse coisas para ele esconder de mim!
Lentamente começando a ficar irritado diante daquela sensação, eu empurrei Gale para trás abrindo espaço para eu passar -ao que senti meu fôlego finalmente voltando ao normal. Eu escapei de Skreas que poderiam ter me matado, e ele ainda achava que eu iria desistir AGORA de me envolver até o fim? Ele realmente achava que eu tinha alguma razão para desistir de descobrir todo o resto do que havia para saber aqui...?!
Sem considerar a proposta de Gale, eu tomei uma distância segura dele e bati com força no chão o meu bastão -que eu estivera segurando até então na minha mão-, firmando ele do meu lado e encarando Gale de onde eu estava como se não fosse sair dali tão facilmente...!
— "Vai precisar de mais do que isso para me convencer agora... O que mais eu devo esperar, Gale?"
— "Você não se cansa não...??!"
Quase abandonando toda aquela seriedade que ele impôs até então, Gale fez um gesto de completo desânimo com seus ombros. Mesmo sendo óbvio que eu não ia deixá-lo em paz, ele até então havia firmemente imposto sua vontade de me deixar de fora... mas talvez depois de toda aquela corrida, e os momentos de desgaste aonde eu sei que ele ficou preocupado, Gale já começara a realmente desistir de me manter em completo escanteio.
Ele novamente abaixou sua cabeça se jogando sobre a mesma parede em que eu estivera encostado e apoiou sua mão em seu rosto enquanto tomava um longo e pausado suspiro, provavelmente para pensar em uma boa resposta que fosse mantê-lo ainda no controle das coisas. Se eu realmente estava cansando ele, ou se era só o cansaço pela nossa corrida, eu não sabia... mas que estava me satisfazendo -sentir que eu podia estar finalmente quebrando as defesas dele-, realmente estava.
Gale então levantou sua cabeça pronto para falar mais alguma coisa, mas no mesmo segundo em que ele se decidiu e abriu sua boca, um estalo estranho vindo de cima dos prédios foi ouvido por nós dois. Baixo o suficiente para não chamar atenção, mas claro o suficiente para nos fazer sentir uma suspeita no ar de que alguma coisa podia estar ainda se aproximando de nós sem percebermos... Nós então voltamos a nos lembrar de que não estávamos ainda em completa segurança para ter outra longa e tranquila conversa... mesmo que aquele barulho não passasse provavelmente de um aleatório animal de rua passando pelos telhados dos prédios -o que não era incomum.
Eu sozinho, não sabia afinal que tipo de veneno Gale havia usado naquele Skrea, e se ele sozinho era o suficiente para deter o Skrea de vez, ou apenas atrasá-lo... Ainda por cima porque venenos não são a minha área.
Mas eram a área dele, e eu pude sentir Gale se esquecendo de mim enquanto voltava a parecer preocupado com os arredores. Aquilo era toda a sinalização que eu precisava para ter a certeza de que as coisas ainda não haviam se acalmado totalmente.
Esperando para ver se ouviria mais algum barulho, Gale com um jeito desconfiado parou tudo que estava fazendo e começou a se aproximar de mim com passos bem curtos e rápidos, pondo a mão em minhas costas e me puxando para bem perto dele...
— "Vem comigo."
Sem olhar para mim, analisando cada possível passagem escura, Gale me disse aquilo enquanto começava a me empurrar para o lado oposto do qual viemos, andando colado à mim silenciosamente até a entrada de um pequeno corredor com duas latas de lixo e várias caixas empilhadas. Eu não via direito o fim do corredor, mas parecia um beco sem saída que dava até a tela de uma grade cortada e semiaberta... além daquela grade, eu mal conseguia ver qualquer outra coisa -como se realmente não houvesse mais nada além dali.
— "Ainda não estamos seguros, aquele veneno era só um retardador temporário e nosso rastro ainda está muito óbvio, então ele pode ainda nos encontrar se continuarmos facilitando as coisas."
— "E você tem algum plano sobrando...?"
— "Tenho, vai ser mais fácil despistá-lo se confundirmos ele, nos separando. Você por acaso conhece os aquedutos abandonados aqui da zona oeste?"
— "Sim... Precisei andar por eles uma vez já."
— "Certo, siga por aqui então, vai dar na lateral acima dos aquedutos. Use as grades que contornam as paredes para chegar até as ruas paralelas mais acima. Nenhum Skrea vai perder tempo checando um caminho difícil como esse, então você ficará bem. Enquanto isso eu vou tentar atraí-lo pelas ruas de dentro caso ainda esteja tentando nos seguir..."
— "Se eles não checam a passagem pelos aquedutos, então porque você ainda sim vai ir por outro caminho?"
— "Porque se der algo errado e eles acabarem me encontrando, você vai estar seguro. Tudo bem se eu me arriscar, mas preciso que você esteja à salvo."
— "... Gale... Tem certeza de que isso vai funcionar?"
— "... hahaha! Toda."
Gale me respondeu com um riso fora de contexto e quase irônico, que simplesmente não me fez captar o que se passara em sua mente na hora, afinal ele queria me empurrar para longe do perigo e se colocar sozinho em uma situação que facilmente podia se tornar complicada. Ele jamais havia parecido ter até hoje uma atitude tão preocupada assim comigo, e aquilo realmente me pegou de surpresa, mais do que eu gostaria de admitir.
"Definitivamente não estou acostumado à alguém tentando me proteger..."
Porém eu logo decidi que não iria ficar preso em nenhum dilema ali, e nem parar para brigar com ele e dizer que eu me recusava a usá-lo como isca para me salvar... Afinal, independente do que eu estava sentindo, eu realmente não estava afim de soar que poderia me importar mais com ele do que comigo, e por isso apenas concordei com a cabeça sabendo que ele também não precisava da minha preocupação para conseguir saber se virar e sair vivo dessa, exatamente assim como eu.
Gale e eu somos como dois sobreviventes solitários dentro dessa cidade, e escapar de enrascadas é um dom nosso. Realmente não é hora de fingir que não sei disso.
"... Somos dois homens admitidamente egoístas. Brigar com ele aqui seria inútil, quando cada um já sabe exatamente o que quer fazer."
Soltando então um sorriso animado ao me ver concordando com ele tão rápido, Gale colocou sua mão na minha cabeça esfregando-a sem aviso como seu eu fosse apenas uma criança. Ele então desceu sua mão pela minha nuca, deslizando-a pelas minhas costas e me puxando com força em sua direção, me dando um meio abraço que eu não soube como reagir ou interpretar! Sua força física era maior do que a minha, e assim tão de perto eu não tinha como medir esforços contra Gale para me afastar dele mesmo se eu quisesse.
Independente de eu retribuir ou não aquele abraço, Gale apenas pareceu se aproveitar daquele instante -esticando aqueles segundos em silêncio-, como se estivesse matando um desejo que já possuía à algum tempo.
— "Eu ainda preciso de você, por isso se mantenha vivo, ok?"
Sussurrando isso no meu ouvido, ele então finalmente me soltou, apontando para mim mais uma vez com o dedo o caminho que eu devia seguir -através do buraco aberto na tela, ao fim daquele beco escuro-, e finalmente me deu suas costas sem nem mesmo olhar uma segunda vez para trás.
Tivéssemos naquele instante sido amigos ou não, era aqui que nós dois acabávamos voltando a ser o que realmente éramos... Duas pessoas que só sabiam depender de si mesmas -e de ninguém mais- para sobreviver em um ambiente tão hostil. Afinal, é isso que a vida sempre me ensinou a ser: ...Sozinho.
"Sozinho, em meio à tanta gente que sempre acabará tomando rumos diferentes dos meus."
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