Black Beauty

2 Kids from the yesterday


Notas iniciais
Descrevi Kurama como um ser de gênero indefinido, assim como na estória original, então utilizo dos pronomes A/ELA e O/ELE para me referir.

Sakura estava bem mais em forma que nós dois, eu estava completamente desgastado, meu corpo doía por inteiro. Sasuke estava deitado na grama com a respiração pesada. Não houve misericórdia para nenhum de nós. Sakura é tão impiedosa quanto a Godaime, talvez por isso tenham se dado tão bem.

— Eu poderia pagar algo para bebermos — começou ela. — Mas como tivemos dois perdedores, é bem melhor que vocês juntem as moedas e paguem algo.

— Estou, horrivelmente, fora de forma — falou Sasuke.

— Eu deixei você ganhar hoje — resmunguei.

— Obrigado por isso. Pelo visto vocês me deixou ganhar na semana passada e na anterior, certo? — disse. Definitivamente ela não sabia brincar.

Um ninja da ANBU surgiu à nossa frente, como um fantasma.

— Tsunade-sama pediu que fossem à torre imediatamente — sumiu logo em seguida.

Fomos o mais rápido possível, entretanto Sasuke reclamou boa parte do caminho que uma de suas pernas estava dolorida e não poderia ir mais rápido.

— Você bem que poderia me curar — reclamou ele.

— Desse jeito não teria graça — Sakura mostrou-lhe a língua.

Tsunade-sama estava tendo uma conversa com Kakashi-sensei quando chegamos à sua sala, um diálogo um pouco sério por sinal, Kakashi-sensei apenas olhava-a em silêncio com o semblante neutro. A Godaime olhava em seus olhos, falando firmemente. Eu poderia jurar que meu sensei estava recebendo uma bronca. Shizune estava em um canto da enorme sala calculando algo com Ton-ton em seu colo.

— Estávamos esperando vocês três chegarem — deu um longo gole no que seria saquê. — Tenho uma missão importante para vocês, contudo, essa tarefa não será realizada em quarteto e sim em duplas — deu outro gole na sua pequena taça que estava cheia da bebida. — Kakashi e Sakura irão ao país do Vento para que o Kazekage assine um importante documento de aliança econômica. Sasuke e Naruto irão ao país da Água fazer o mesmo procedimento — andou até a janela, olhou lá para baixo e deu um último gole em sua bebida. — Vocês partem imediatamente!

Corri para casa o mais rápido que pude e o máximo que o Sasuke aguentou, tive tempo apenas de pôr um pouco mais de ração para Cereja e regar as flores um pouco mais. Liguei para Hinata contando de minha viagem, pedi que ela tomasse conta da casa na minha ausência. Arrumei a mochila o mais depressa que pude sem me preocupar se as roupas estavam bem dobradas, certifiquei-me apenas de colocar o documento dentro da mochila. Sakura-chan e Kakashi-sensei esperavam por nós na saída da vila, Hinata estava lá também. Beijei-a antes de partir, disse que a chave estava escondida no lugar de sempre, avisei também para ela não se assustar se um sapo quisesse entrar, ele era um sapo amigo.

— Estarei enviando boas energias para tudo dar certo — disse ela.

— Obrigado! — abracei-a.

— Boa viagem!

Demoraria três dias para chegarmos ao nosso destino se fizéssemos ao menos uma única parada ao dia, ou seja, apenas para dormir. Kakashi-sensei e Sakura-chan demorariam mais tempo, cerca de quatro a cinco dias, para chegarem ao país do Vento. Tsunade-sama foi bem clara quando pediu que colhêssemos a assinatura o mais rápido possível, então fizemos de tudo para que a viagem de ida levasse um terço do tempo habitual. Fazíamos nossas refeições de pé para que nenhum minuto fosse perdido. Nossa única parada era somente durante a noite quando procurávamos um lugar relativamente seguro para acender uma pequena fogueira e realizarmos a única refeição sentados.

Devido ao treino daquela manhã Sasuke ainda reclamava de uma dor intensa em sua perna e garantiu que no dia seguinte não conseguiria manter o ritmo da caminhada. Dei uma olhada em sua perna, ela estava um pouco inchada e intensamente roxa em uma grande área acima do joelho. Fiz uma expressão de tranquilidade como se eu soubesse o que estava fazendo. Algum tempo atrás Sakura ensinou-me como diminuir o inchaço da musculatura apenas com massagem e uma pequena quantidade de chakra, nunca pude pôr em prática o que aprendi com ela. Eu não possuía muitas opções naquele momento, eu precisava tentar algo ou nossa chegada à vila seria muito além do planejado.

— Acho que posso ajudar — falei em um tom calmo e seguro.

— De qual forma? — arqueou a sobrancelha, duvidoso.

— Sem muitas perguntas, só confie em mim.

— Eu confio em você, não confio nas suas habilidades de cura se é que você possui alguma.

Concentrei cuidadosamente meu chakra em minha mão, uma pequena esfera se formou do tamanho de uma maça. Fiquei parado por mais um pouco, extraindo a energia do fundo de meu corpo, até que a esfera ficou totalmente vermelha preenchida pelo chakra de Kurama. Sasuke deixou um gemido escapar quando derramei meu chakra em seu ferimento, fiz movimentos circulares para que a energia penetrasse bem em sua pele e nos músculos mais grossos, curando seu machucado.

“Naruto, o que pensa que está fazendo?”, o grito de Kurama ecoou na minha cabeça.

Eu havia pegado um pouco do poder dela para curar a perna do Sasuke, provavelmente ela estaria furiosa por isso, pegar o que é dela sem permissão. Quando fiz o tratado de paz com a Kyuubi prometi que pediria antes de usar qualquer quantidade de seu chakra, ele só me permitiu que eu usasse seu poder para coisas extremamente importantes. Eu lidaria com ele depois, assim que curasse a perna de meu companheiro.

— Sua perna está melhor? — questionei.

— Uau! Realmente ficou boa — deu uma risada tímida. — Desculpa por achar que você poderia arrancar minha perna.

— Vou considerar isso como um obrigado — falei, abraçou-me desajeitadamente.

Chegamos à Kirigakure no Sato no início do segundo dia, fiquei aliviado ao perceber que nosso plano para ganhar tempo havia saído perfeitamente, apesar de que o cansaço era bem maior do que o esperado. A vila era estrategicamente situada ao centro que altos rochedos que faziam uma proteção natural à população. Densas nuvens cinza estavam sobre a cidade, escondendo o sol e fazendo com que o ar fosse o mais úmido possível. Uma suave cortina de neblina flutuava por toda a região de Kirigakure possibilitando que a vila ficasse mais camuflada entre as altas pedras. Os recursos naturais permitiam que a vila fosse um local seguro, aparentemente.

Um agente ANBU estava nos esperando na entrada da vila.

— A Mizukage-sama está esperando por vocês.

Lembrei-me de Haku-kun e do Zabuza-senpai. Eles eram duas pessoas adoráveis que lutaram por aquilo que acreditavam, por mais que o que eles tivessem em mente fosse errado. Eu amo isso em um shinobi. A paixão, o desejo, de lutar pelos seus ideais mesmo quando há a possibilidade de morte e do esquecimento, mas isso não aconteceu, eles não foram esquecidos. Acredito que depois daquela batalha na ponte todos se descobriram de alguma forma: Haku percebeu que a devoção dele para com Zabuza não era algo simples, era como um filho que protegeria seu pai; Zabuza, por sua vez, se deu conta de que a fé que Haku tinha por ele era real e que não poderia usá-lo como uma arma. Eu descobri do que eu era capaz, do que esse poder dentro de mim, fora de controle, podia fazer. Talvez se os que morreram naquele dia, na ponte, ainda estivessem aqui certamente que eles seriam pessoas melhores, que lutariam pelas coisas certas.

Nossa presença foi detectada uma vez que, como em qualquer outra aldeia, há um campo de força em volta da vila em que ninjas especializados monitoram quem entra e quem saí. Por isso o ANBU nos esperava antes mesmo de chegarmos à parte central da vila.

A Mizukage, uma mulher alta de longos cabelos castanhos e de olhos intensos, nos recebeu com um enorme sorriso em seu rosto. Ela ficou contente ao saber que sua vila e Konoha estavam, finalmente, criando laços concretos de irmandade. Ofereceu-nos chá enquanto lia e assinava a papelada, entregou-me o documento pouco tempo depois; assinado onde deveria e com o selo que representava a concretização da aliança. Fez inúmeras perguntas sobre a Tsunade-sama assim que terminei meu chá, elas eram amigas de longa data, porém, devido ao trabalho intenso, não se viam há anos. Sempre que possível trocavam cartas e informações de como as vilas estavam progredindo.

— Você poderia entregar isso para a Godaime? — entregou para Sasuke um pequeno embrulho.

— Não se preocupe quanto a isso, será entregue — respondeu ele.

Agradecemos pelo chá de alga de marinha, reafirmei que o documento seria entregue em mãos assim que possível.

Pelas janelas do gabinete da Mizukage era possível ver uma vila tranquila, com pessoas seguindo suas vidas tranquilamente, era um local de verdadeira paz. O céu que estava coberto por densas nuvens cinzentas derramava melancolia sobre aqueles prédios, como se fosse uma pintura ocidental.

— Uma vila realmente agradável, se me permite dizer — falei, os olhos ainda na população lá embaixo.

— Agradeço todos os dias por poder estar à frente deles — disse ela enquanto se aproximava da janela e lança o olhar para baixo.

Estávamos saindo quando, antes de batermos a porta, a Mizukage-sama chamou-nos. Instantaneamente pulamos para dentro da sala novamente.

— Vocês são meus convidados especiais. Fiquem e conheçam melhor nossa vila.

Eu não estava esperando pelo convite, confesso, então relutei em aceitar ou dar uma resposta em definitivo. Não passava pela minha mente se Sasuke aceitaria ficar também.

— Não sei — eu estava mais preocupado com os papéis que Tsunade-sama esperava. — Precisamos entregar isso aqui o quanto antes.

— Ah, não se preocupem com isso, mandarei uma mensagem para Godaime informando que a missão de vocês foi concluída com êxito.

— Parece ser uma boa ideia — disse Sasuke, um brilho estranho estava em seus olhos negros.

— Tudo bem, então. Obrigado, Mizukage-sama, pela sua generosidade!

Aceitei o convite ao final porque a ideia de aproveitar a viagem mostrou-se interessante. Queria saber se a minha estadia ali reviveria algum sentimento sobre a luta passada. Minha intenção era conhecer melhor a cultura daquele lugar, sua comida, suas bebidas, as pessoas, os costumes, tudo. Eu não sabia quanto às intenções do Sasuke, mas ele aproveitaria tanto quanto eu. Nos acomodados em um grande hotel perto do centro vila, um prédio azul com cerca de quatro andares; um pequeno muro de arbustos enfeitava a frente do lugar. Um rapaz bem simpático surgiu oferecendo ajuda para carregar nossas mochilas, coisa que não era necessária. Eu não carregava muita coisa em minhas costas, portanto a mochila estava leve.

Liguei para Hinata que demorou um pouco para atender, imaginei que estivesse treinando com seu tio. Atendeu-me com uma voz um pouco ofegante. Conversamos brevemente sobre como estava a viagem e outras coisas sem importância. Desliguei para que ela pudesse voltar para seu treino, mesmo querendo conversar com ela por mais tempo.

Pouco antes da hora do jantar Sasuke deu a ideia de irmos ao centro da vila para observarmos as coisas, comprarmos, bebermos e comermos. Concordei com a cabeça enquanto tirava uma muda de roupa de dentro da mochila. Em um ato brincalhão, ele ficou pelado em minha frente mostrando seu corpo branco. Pulou pelo quarto, balançando suas coisas de um lado para o outro. A marca de Orochimaru ainda estava lá, pouco acima do ombro. Olhava para aquela marca incrédulo que havia passado tanto tempo desde que Orochimaru, um dos três Sannins Lendários, tentou destruir Konoha e queria o corpo de Sasuke para usar como receptáculo de sua alma. Gritei para que ele fosse se vestir. Depois de muito gritar, ele ouviu-me e foi ao banheiro, minutos depois reapareceu pelado novamente no quarto.

— Sentiu minha falta?

— Por Deus, Sasuke! — gritei para ele, sem me virar para vê-lo nu.

Olhava meu reflexo no espelho admirando minha marca de nascença.

“Kurama?!”, pensei alto para que ele acordasse se estivesse dormindo.

“O que queres?”, respondeu-me no melhor jeito Kyuubi de ser.

“Desculpe-me por ter usado seu chakra sem sua autorização”, eu realmente errei ao usar o poder sem seu consentimento, principalmente que conseguir uma aliança com ele foi a coisa mais difícil que eu já havia feito. Não podia jogar tudo pelo ar.

“Apenas lembre-se que meu poder só deve ser usado quando vidas inocentes estão em risco, tolo.”

Notas finais
Obrigado por vir e ler mais um capítulo. Não deixe de comentar e compartilhar. Volte sempre!