Bittersweet Tragedy
2 Capítulo 1: Disorder
Notas iniciais

POV Noah Wilhelm:
Estou em um quarto vazio pintado de cinza, preso numa moldura de dor. Dizem que o tempo é o melhor remédio para a dor que carregamos na alma. Mas quanto maior a perda, maior é a dor. E fica ainda mais difícil o processo de ficar inteiro novamente. A dor pode até desaparecer, mas as cicatrizes que permanecem são somente um lembrete de todo aquele sofrimento e o deixam preparado para nunca mais ser ferido. Mas nem sempre é eficiente. Durante todo o tempo tramamos, planejamos e esperamos que fiquemos mais forte. Mas eu nunca fiquei forte o suficiente.
Levantei-me da cama, decidido a fazer algo que afastasse essas reflexões que não me levavam a lugar algum. Olhei para o canto do quarto onde havia um amontoado de roupas sujas. Eu devia visitar a lavanderia, já que era uma cortesia que o prédio dispunha aos moradores. Recolhi as roupas jogadas pelo apartamento mal arrumado e sai, sem me importar com as minhas vestimentas que se resumiam em uma calça de moletom e uma camiseta branca amassada. Meus pés estavam descalços e eram comandados por passos ásperos que ecoavam na minha mente.
Sai do apartamento com uma trouxa de roupas embaixo do braço e desci as escadas até o subsolo do pequeno prédio, para finalmente entrar na lavanderia vazia. o que era um alívio: Não gostava de conversar com pessoas, ou socializar com elas. Só quando era necessário, como ir ao mercado ou com o meu trabalho de fotógrafo. Trabalhar com fotografia me fornece algum dinheiro e dá para sobreviver com a quantia que ganho.
Quando as roupas já estavam devidamente dentro da máquina de lavar, eu apertei o botão "ligar" e sentei-me em uma máquina vazia, enquanto observava as roupas girando e girando dentro do aparelho. Não demorou para que lembranças que não eram tão bem vindas retornassem sem a minha permissão.
FLASHBACK ON — 1789
Era impossível não me chatear diante do que a Kate estava se transformando. Ela estava se afastando e simplesmente não entendia minhas desculpas, meus problemas. Ela estava começando a me achar um louco, apesar de nunca dizer isso.
– Noah — me chamou e eu a olhei.
– Sim, Katie? — fui carinhoso e senti a dor encher seu olhar.
Ela se levantou com seu vestido elegante e estonteante. Aproximou-se de mim e enlaçou seus finos e delicados braços em meu pescoço. Senti um nó se formar em minha garganta. Queria dizer tanta coisa à ela, mas eu sabia que ela não acreditaria. De nada servia falar se ninguém quer ouvir ou ninguém quer tentar entender. Então somente a olhei, esperando para o pior que seus olhos denunciavam.
– Eu estou com medo do que você está se transformando, Noah.
– Como assim? — perguntei com a voz vacilante.
Ela abriu a boca para me responder, mas ouvimos batidas insistentes vindo da porta da frente. Kate correu para atender a porta e eu a segui, encontrando o Sir James com um sorriso presunçoso nos lábios. Kate parecia incomodada e temorosa. Eu olhei atrás e percebi um carro branco e dois homens, também vestidos de branco que estavam do lado de fora do carro.
Do que aquilo se tratava?
– O que está fazendo aqui, Sir James? — não tentei parecer nem um pouco feliz em receber James em casa, já que eu não ia com a cara do mesmo.
– Ele só veio ajudar, Noah, então seja agradecido.
– Eu não preciso de ajuda, Kate — olhei para ela para depois olhar para ele novamente — Muito menos preciso da ajuda dele!
– Bom dia, Kate e Noah. — ele balançou a cabeça em um movimento educado, mas não importava o quanto James fosse educado, eu nunca iria com a cara dele.
– O que aqueles caras estão fazendo aqui?
– Eles só vieram te ajudar, Noah. — retrucou Kate, me lançando o olhar de súplica. O que...?
Os homens se aproximavam e James sustentava aquele sorriso presunçoso. Minha espinha congelou. Eu tentei fechar a porta, mas um dos homens de branco ergueu o braço impedindo que eu fechasse. O outro me mobilizou pondo meus braços contra as minhas costas.
– Do que se trata isso, James?!
– Ele só está querendo ajuda-lo, Noah — ela repetiu pela milésima vez.
– Você está indo para um hospital psiquiátrico, Noah. Lá você ficará em boas mãos. — disse James me encarando nos olhos, pondo aquela mascara de falsidade tão típica dele. — Podem leva-lo.
– Kate — chamei seu nome em forma de súplica, esperando que ela me ouvisse e me ajudasse. — Kate! — gritei, mas ela só me olhou e percebi o quanto ela estava sofrendo com essa decisão, mas a culpa era dela. Eu lhe disse a verdade e ela simplesmente não quis acreditar — Kate! — continuei a gritar seu nome, enquanto os dois homens me prendiam em uma camisa de força e me colocavam dentro do carro. Da janela eu a vi chorar nos braços do James e o vi acenar para mim, com um sorriso vitorioso nos lábios.
Eu chorei também. Quem não choraria ao ver que a pessoa em que mais confia te mandar para um manicômio?
FLASHBACK OFF
– Perdido?
Pisquei os olhos algumas vezes e olhei para a dona daquela voz que havia me despertado dos meus devaneios. Ela tinha um sorriso divertido nos lábios enquanto parecia estar concentrada em colocar algumas peças de roupa dentro da máquina de lavar.
– Não, eu só... — hesitei em continuar.
Reparei que a minha máquina havia parado e fui até lá, me preocupando em colocá-las numa secadora.
– Você é o morador que nunca aparece nas reuniões do condomínio?
Depois de terminar, eu a olhei. Agora ela estava de costas para mim. Mas seus cabelos tinham eram uma mistura de loiro com castanho e eu não sabia definir exatamente que cor era aquela. Ela era envolvida por um espiral de naturalidade e isso me deixou fascinado, sem ar.
– É, sou eu — respondi a sua pergunta
– Por quê? — virou-se e me olhou com aqueles olhos brilhantes. Por um momento, eu não consegui pensar em mais nada.
– Não sou sociável — respondi sinceramente, depois de respirar fundo
– Hm — murmurou — Mas qual é seu nome, Sr. Não-sociável? — perguntou fazendo aspas com os dedos, para depois dobrar os braços e cruzar as pernas, esperando uma resposta.
– Noah — disse — Noah Wilhelm
– Oh, prazer em conhecê-lo, Sr. Wilhelm– falou de uma maneira que conseguiu me arrancar um sorriso; — Aliás, me chamo Julie Hammilton.
– Julie — repeti seu nome, talvez tentando memorizá-lo. Mas acho que não teria problemas com isso. Algo me dizia que aquele nome e aquela pessoa traria um pouquinho de bagunça para a minha vida e minha mente.
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