Bittersweet.
48 47.1. Ele me ama.
Notas iniciais
A iluminação remanescente do sol que ainda conseguia teimosamente adentrar atrás dos galhos agrupados das árvores e de suas espessas copas não eram o suficiente para iluminar completamente o caminho, deixando com que quem tenha se aventurado no meio da floresta, se deixe ser guiado apenas por seus instintos.
O maior problema era que nenhuma das duas sabia se guiar pelos instintos.
Amy Rose se embrenhava cada vez mais além da mata, seus passos decididos e firmes, apesar da visão sendo aos poucos obstruída pela escuridão que se arrastava através de suas cabeças, a gata ao seu lado, porém, demonstrava claramente não estar feliz com a caminhada.
Amy não conhecia a floresta o suficiente para saber o que esperar de sua busca, tampouco fazia ideia dos mistérios que poderiam aguardar e, dado a sua falta de conhecimento, acabava gritando de frustração quando vez ou outra galhos e ramos envolviam seu vestido ou arranhavam sua perna, reclamando que havia se arrumado muito para ver o foco do seu grande e puro amor.
A gata não parecia feliz com a situação em que havia se envolvido, sua expressão apesar de forçadamente neutra, era de puro desgosto quando a ouriça virava a cara para outra direção.
— Vamos demorar muito? — Perguntou pela vigésima vez, sua voz soava cansada.
— Não é você a guia? — A ouriça refutou girando não só sua cabeça, como seu corpo para ela, seus olhos verdes menta se estreitando perigosamente.
— Eu? Você que mim arrastou, não sei de nada, nem sei quem é você! — Ela gritou, em seus dedos, pequenas e finas garras surgiam, lenta e perigosamente.
— Como assim não sabe quem eu sou? — Ela gritou, sua voz aguda e perfurante ecoando pelas árvores, podendo talvez ser ouvida a metros de distância.
— Claro que não! Por que eu deveria saber? — Respondeu no mesmo tom, como se ambas estivessem em uma disputa para decidir quem grita mais alto.
— Eu sou Amy Rose! A ouriça mais forte e bonita de Móbius! Fã número 1 e futura esposa de Sonic the Hedgehog! Você me deve respeito, serei esposa de um herói! — Ela gritou ainda mantendo o mesmo tom. Seus olhos tinham um brilho sonhador e olhava para a gata com arrogância, como se de fato fosse quem diz.
— Ah tá. — Ela respondeu desinteressada, olhando para ela não se não se importasse.
O sorriso largo que Amy tinha nos lábios se apagou no mesmo segundo, seus olhos se estreitando perigosamente e antes que ela pudesse dizer ou até mesmo reagir, um alto som de rosnado soou detrás delas, onde grandes arbustos se aglomeravam e bloqueavam a visão do outro lado.
Os arbustos se mexeram violentamente, revelando um enorme urso marrom mobian, alto e com a expressão de poucos amigos, ele olhava para as garotas com um profundo e mortal olhar perfurante, seus dentes se mostravam através de seus lábios, ele exalava forte ameaça.
— Vocês duas não vê que estão atrapalhando gritando igual doente mental assim?! — Ele rosnou, ao seu lado, um pequeno urso apareceu, com lágrimas nos olhos e um bico projetado, ele fungou, enquanto olhava para elas e lambia lentamente seu pirulito.
— Papai... — O pequeno garotinho urso olhou para seu pai com os olhos grandes e cristalinos, como se estivesse prestes a chorar.
— O que foi filho? — Sua voz havia abrandado para uma nuance macia, seu timbre grave havia amaciado surpreendentemente, parecendo até mesmo ser outra pessoa totalmente diferente.
— Faz o urro. — Sua voz era suplicante, quase como um implorar.
O urso maior e mais robusto olhou para o pequeno com um olhar paternal compreensível, antes de virar para as garotas e sua expressão se alterar completamente.
— Primeiro veio uma garotinha loira invadindo nossa casa, comendo nossa comida e dormindo em nossa cama, depois um anão vestido de duende destruindo nossos vasos e agora vocês atrapalhando nossa soneca?
Elas se entreolharam por um breve minuto, engolindo em seco, seus olhos alargados demonstravam o medo e horror que se apoderava de seus corpos, com uma velocidade impressionante e congelante.
Ele avançou alguns centímetros para perto delas, seus dentes grandes e pontiagudos capazes até de perfurar a carne, quando elas menos esperavam, o urso soltou um rosnado enfurecido e bestial, capaz até de estremecer o chão.
Elas gritaram cada uma a sua maneira e, sentindo que o torpor gélido do medo havia abandonado completamente seus corpos, correram em disparada como nunca antes em suas vidas, a ouriça até mesmo havia esquecido por um momento o latejar em seu tornozelo ferido, correndo o mais depressa que conseguia, mesmo que seu andar parecesse manco.
Apesar de correrem com toda a velocidade ainda conseguia ouvir com clareza a voz do garotinho, falando com seu progenitor com uma voz irritante e presunçosa:
— Nossa, papai.
.
A corrida desenfreada havia cobrado muito de seus corpos alguns breves minutos depois, seus músculos queimavam e seus pulmões não conseguiam ar o suficiente, não conseguiam mais correr nem mais algum segundo a mais e, ao olhar para trás para saber se estava sendo seguida pelo imenso e perigoso urso enfurecido, Amy não estava dando atenção suficiente para seu entorno.
Seus pés se enrolaram novamente em uma raiz de uma árvore qualquer, suas mãos buscando apoio em seu tronco, porém a palma de sua mão havia sido espetada por farpas tão duras que parem até mesmo espinhos de ouriço, mas que, devido à escuridão em que estavam não era possível averiguar.
Agora, com sua perna dolorida e a mão arranhada, não sabia o que fazer.
A gata havia parado em seu caminho, no entanto, ela não iria parar, Amy Rose não era conhecida por desistir tão facilmente de seus objetos. Ela provaria para si mesma que era digna de um herói tão poderoso quanto Sonic the Hedgehog, então, tomando uma respiração profunda e, enfim se equilibrando, arrumou sua postura, iria mostrar para seu amado ídolo que era sim capaz de manter-se com ele em todo tipo de situação, independente do lugar e adversidades.
Deu o primeiro passo em direção da gata, que por ser de um azul claro, não era tão fácil de ser perdida de vista, a situação teria sido complicada se fosse Shadow em um lugar como esse, balançou a cabeça, não entendia aonde seus pensamentos iam e sinceramente preferia manter-se focada no seu objetivo principal.
— Por que parou? Vamos! — Ela empurrou a gata para sempre com ansiedade e impaciência.
—Esper-! — A sentença foi interrompida quando um grito agudo a plenos pulmões saiu da garganta de Lumis. —Nyah!
Ela estava caindo, seu desespero era demasiado que se agarrou a primeira coisa que suas mãos alcançaram para manter-se em equilíbrio, uma ouriça rosa tão descoordenada quanto ela.
Ambas estavam diante de um desfiladeiro íngreme, rolando agarradas enquanto a terra e pedras arranham suas peles e sujavam seus pelos, os gritos delas eram altos e desesperados, procurando qualquer objeto firme para se agarrem enquanto ainda estavam em queda.
Parecia que havia se passado horas desde o momento em que estavam em queda livre, seus corações batendo acelerados pela adrenalina e o grito preso na garganta, a gravidade cumpria seu papel, empurrando-as cada vez mais rápido para o chão.
—Meow... — A gata gemeu assim que caiu em cima de um arbusto com pequenos e finos galhos, sua sorte era que as folhas excessivas haviam amortecido grande parte do impacto, tornando seu posto relativamente tranquilo.
Seu alívio durou muito pouco, logo assim que pousou no arbusto de amoras, uma ouriça veio em seguida, suas costas doeram com o impacto e um grito esganiçado saiu de sua garganta.
— Sai... de... cima... de... mim... — Sua voz saia em gemidos fracos, seu peito sendo comprimido por galhos e pelo peso da ouriça.
— Pensei que gatos caíam de pé — Amy comentou com desdém, enquanto cruzava seus braços no peito e olhava para a garota com os braços abertos.
— Pra mim já chega... — choramingou. — Desisto, desisto e desisto! — Entoou enquanto choramingava debaixo da ouriça, sua voz soando cansada e fraca.
Amy olhou para ela e, tomada por uma emoção de rara piedade, tentou se levantar o mais rápido que podia, mesmo que seu tornozelo doesse no processo, ela não era sem coração e, se quisesse demonstrar ser digna de estar junto de um herói como Sonic, deveria passar a entender como ele pensava para ajudar tantas pessoas em necessidade.
Talvez seja por isso que ele não veio ao seu encontro, ela deduziu, sorrindo sonhadora, Sonic queria que ela entendesse como ele pensava ao ajudar outras pessoas e agir como uma verdadeira heroína. Seus olhos verde-menta olhavam para todos os lugares rapidamente. Talvez ele estivesse o tempo todo a observando e a testando? E no final do seu teste? Receberia uma declaração de amor! Claro, ele estava testando se ela era resistente e tão forte.
O pensamento, mesmo sendo recente, foi o que lhe deu forças o suficiente para se erguer, se levantou e ajeitou sua pose, sorrindo para o escuro com animação e orgulho.
Virou para a gata com sua animação renovada, seu olhar era leve, enquanto oferecia-lhe seu melhor sorriso de canto, assim como ele fazia ao ajudar alguém em necessidade.
— Aqui, colega. — Estendeu a mão para ela, curvando-se ignorando suas dores, assim como ele faria, como um perfeito cavalheiro. — Pegue minha mão.
— Mais nem lascando! — Ela gritou. Os olhos de ametista fuzilando a ouriça com uma ameaça silenciosa de violência.
— Anda logo, estou querendo te ajudar! — Amy estava frustrada, sua tentativa heróica de ajudar as pessoas não estava dando tão certo quanto ela imaginava.
— Não, estou muito confortável aqui. — A voz da gata soou petulante, se estivesse em melhores condições, estaria com as bochechas infladas, talvez estivesse, mas a ouriça não podia ter exata certeza.
— Mas eu só quero ajudar... — Amy disse fracamente.
A cabeça da gata se levantou em direção da voz da ouriça, a iluminação prateada da lua em sua pele a deixava em um tom rosado pálido, os grandes olhos verdes, mesmo com a iluminação fraca, pareciam desolados.
— Ajudar?! — Ela grasnou, com uma expressão indignada, se levantando em uma velocidade impressionante para quem havia acabado de cair em um arbusto de amoras. — Você quer ajudar? Você que me empurrou em primeiro lugar!
Amy olhou para a gata assustada, ninguém nunca havia gritado com ela dessa forma, havia se acostumado com todo mundo passando a mão em sua cabeça e acatando suas ordens, por mais que em sua mente, parecia algo normal.
Ao que parece, chantagem emocional não iria funcionar daquela vez.
— Mas... — Tentou se explicar, mas foi cortada pela gata.
— Mas nada, eu estou dando o fora daqui. — Disse irritada.
— Você prometeu me ajudar! — Amy protestou, olhando para ela indignada.
— Prometi? Você que mim arrastou nisso. — Retrucou cruzando os braços no peito sob o casaco vermelho que usava.
— Vai deixar uma moça inocente como eu sozinha? — Perguntou fazendo um bico nos lábios.
Lumis quase fraquejou, mas manteve-se firme, seus olhos ametista se estreitaram em suspeita.
— Estou dando o fora daqui! — Avisou e assim como havia prometido, saiu logo em seguida.
Amy olhava desolada para onde a gata estava indo, seus olhos verde-limão estavam incrédulos e decepcionados. Sentia-se desolada.
Essa seria a hora em que Sonic apareceria e iria ao seu encontro, abraçando-a e dizendo que sente muito por ter a deixado em perigo, certo? Então porque ele não apareceu? Por que ele não estava do seu lado nesse momento?
Era tudo sua imaginação, então?
Sonic não apareceria e lhe salvaria? Como sempre acontecia?
Ela fungou, as lágrimas quentes deslizavam em seu rosto sem qualquer restrição, seu peito doía, o simples pensamento de que estava sozinha e que ninguém iria lhe ajudar era assustador, seus joelhos cederam.
Seus olhos estavam no chão, em realmente ver nada, a visão embaçada enquanto suas mãos apertavam com força a grama que crescia alta e pinicava suas pernas.
Um suspiro soou perto, ela congelou, por um momento pensando que Sonic apareceria e a ajudaria, mas não teve abraços ou a voz dele acariciando sua audição.
Lumis estava indignada com a ouriça, com o modo como ela se metia em confusão e depois parecia querer se vangloriar por algo que não havia feito.
Ela parou por um momento, olhando para trás, para a ouriça que havia deixado para trás e, mesmo que quisesse muito deixar com que se virasse sozinha, principalmente como forma de vingança por a ter empurrado de uma ribanceira, não estava de acordo com seus pensamentos de a deixar. Simplesmente porque, mesmo que quisesse, não poderia.
Querendo ou não, eram semelhantes em algo, ela queria tornar-se forte, a ouriça parecia buscar isso também, mesmo que tivesse lhe dado nos nervos.
“Vamos lá, Lumis, só dessa vez...”
Pensou consigo mesma, não conseguia ter um coração frio diante de cenas assim e, mesmo que parcialmente contrariada com a atitude, voltou.
Ela não era cruel o suficiente para isso, mesmo que quisesse.
“Foi por isso que ele te deixou Lumis, você é fraca.” Uma vozinha em sua mente murmurou com tom ácido e cruel, jogando sal em uma ferida que ainda não havia começado a cicatrizar.
“Dário apenas pensou que seria melhor para mim.” Ela suspirou com o pensamento, sem perceber que a ação foi alta demais para a ouriça ouvir.
“Você é fraca, Lumis.” A voz açoitou cruel. “Porque te falta ódio.”
Ignorou seus pensamentos amargos. Mesmo que ficasse irritada com o que costuma acontecer em sua vida, não conseguia odiar ninguém. Talvez exceto Druitty, mas era mais medo do que ódio propriamente dito.
Estendeu a mão com a expressão cansada.
— Hey, levanta. — Sua voz saiu baixa, leve e ligeiramente sem graça.
Amy levantou os olhos para a mão estendida, mesmo não sendo a mão da pessoa que ela esperava, ainda assim era alguma coisa, a garota havia se preocupado consigo.
—O-obrigada... — Aceitou a mão estendida sem qualquer segundo pensamento. Ao que lhe parecia, seus sonhos não passavam disso, sonhos.
Não havia passado pela sua cabeça sonhadora que, talvez, apenas um mísero e insignificante talvez, Sonic não sabia que ela iria à sua procura, tampouco soubesse até mesmo que ela tinha ideia de visita-lo — embora a ouriça tivesse a menor ideia de onde ele estava morando e apenas estivesse tentando encontrá-lo através de algumas vezes que perseguiu Knuckles ou Tails — e, devido a esse detalhe, não poderia ir atrás dela para ajudá-la.
Porém, a ouriça era inocente e imatura ainda para entender, compreender que, Sonic também tinha problemas, não era perfeito e imaculado como ela e tantos outros imaginavam e, estava tão mais perdido quanto ela naquele momento. Claro, não era culpa dela, como poderia ser? Ela era apenas uma fã que o idolatra tão fervorosamente que chegava a ser sufocante e, mesmo não gostando tanto do modo como era sufocado a cada abraço dela, nunca poderia ferir seus sentimentos negando suas demonstrações exageradas de afeto.
Ele no fundo esperava que, conforme ela fosse crescendo, entendesse que ele sempre a viu como a irmãzinha, assim como via e tratava Tails, ele gostava da família que havia formado, mesmo que não pudesse ter a sua — embora nesse momento, a realidade fosse totalmente diferente da que ele esperava —, tinha um laço forte com seus amigos e aliados.
Amy sorriu fracamente envergonhada, não tinha sido tão amigável de começo para com a gata. Lembrou-se da forma como havia agido impensadamente com ela, atacando-a e tirando conclusões precipitadas sem ao menos a conhecer.
— Desculpa... — Murmurou assim que levantou, as lágrimas ainda escorrendo por seus olhos tristes. Passou as costas de sua luva imunda de terra e sangue os arranhões que vez ou outra fisgavam e ardiam em seus olhos, para limpar parte de sua dor e desolação.
— Está tudo bem! — Lumis sorriu para ela e então, Amy viu. Era o mesmo sorriso que ele lhe dava, não no mesmo rosto, mas carregava o mesmo significado.
Ela puxou a gata para si, dando um abraço forte, mas controlado, abraçá-la trazia lembranças e, ao olhar ao perceber algo, seu humor havia mudado.
Lumis congelou naquele momento, não esperava um contato tão próximo com alguém com espinhos novamente, não sabia como reagir e tão pouco onde tocar, desde que não tinha certeza onde era seguro tocar. Hesitantemente passou os braços finos e azuis pela cintura dela, envolvendo o corpo trêmulo em seus braços.
Aquele sorriso... Tudo começou com aquele maldito sorriso.
Aquele gesto, em seus lábios pêssego, havia sido o gatilho para que sentisse especial para ele, como se aquele fosse apenas o seu sorriso. Trazia uma sensação imensa de conforto, como se ele mais do que ninguém a entendesse e quisesse demonstrar através de um gesto tão comum.
A verdade era que, Sonic nunca havia sido bom com as palavras e conseguia se comunicar melhor com gestos e ações significativas do que com palavras mesmo, ele havia sido marcado pela guerra e, não conseguia mais falar, era apenas uma criança contra uma legião de maquinas e, mesmo que tenha amadurecido com a vida que passou a ter, tinha cicatrizes mentais muito maiores do que ele queria admitir para si mesmo.
Quando resgatou a jovem Amy de Metal Sonic, não sabia nem se havia palavras o suficiente para confortar a garotinha assustada e desolada depois de tudo o que aconteceu. Ele entendia o que ela sentia, tão perfeitamente que doía em seu íntimo.
Ele já havia tido esse mesmo olhar quando perdeu tudo, o mesmo olhar de dor e desamparado que ela sustentava aquele momento, a dor o fez amadurecer tão rápido para se proteger, não tinha ninguém para defendê-lo, então foi assim que ele tirou força de si mesmo, ele iria proteger aqueles que não conseguiam se proteger iria dar esperanças para aqueles que se sentiam sozinhos e desesperançados, por isso que ele nunca julgou quando ela lhe abraçou.
Foi depois daquele dia, graças a aquele sorriso compreensivo, que a ideia de que ele tinha a salvo porque a amava se fixou em sua mente, ela se tornou sua fã e seguidora, mas nunca imaginou o que ele poderia estar escondendo por trás dos inúmeros sorrisos.
Mas, ela sempre havia acreditado que o sorriso que havia recebido naquele dia era especial e único para ela. Ah... Como havia se enganado.
Havia alimentado uma expectativa durante anos, havia alimentado a esperança de que o ouriço a amava da mesma forma, mas, naquele momento, perdida em uma floresta e longe de tudo e todos que conhecia e apenas com uma desconhecida, havia enfim entendido a mensagem que sempre esteve diante dos seus olhos.
Soltou a gata depois desse longo momento de epifania tardia, sentindo-se ligeiramente tonta com os novos pensamentos que vinham em sua mente. Sorriu para a gata em agradecimento, Lumis são sabia, mas havia a ajudado a entender fatos que até então lhe pareciam desconexos ou estranhos.
— Você sabe como sair? — Amy perguntou depois de fungar, sua voz ainda era falha, mas parecia estranhamente mais calma.
— Eu não sei... — Lumis admitiu olhando para as árvores rodeando-as, profundamente em pensamentos. — Nunca vim aqui. Estamos muito longe da trilha. — Ela estremeceu, sua expressão carregava preocupação. — Pode ser perigoso ficar aqui.
Amy assentiu tristemente, ao ver a expressão da gata, se encolheu sabendo que a culpa era inteiramente dela.
— A culpa foi minha. — Expôs seus pensamentos culposos em voz alta. — Eu tenho que lidar com isso. Você pode voltar para casa, vou dar um jeito de sair...
— Não! — Lumis protestou, colocando as mãos na cintura. — Eu também tenho culpa nisso, eu deixei isso acontecer. — Disse baixo, olhando para baixo.
— Mas... Eu fui tão estúpida com você quando de conheci... E agora isso... — Olhou para baixo, seu rosto adotando uma coloração rosa de constrangimento. — Por que me ajuda? Eu não fui tão gentil com você...
— Eu não sei... Acho que no fundo você faria o mesmo. — Suspirou com a declaração, o desabafo fazendo com que se sentisse estranhamente bem. — Acho sinceramente que no fundo você é apenas alguém perdida.
Amy olhou para ela por um momento, mas ao invés de sentir-se ofendida, ela sentiu conforto. Ela estava sim de fato perdida, em vários sentidos, ela havia se perdido dentro de si todos esses anos. Apesar da frase ambígua, ela sorriu. Um sorriso verdadeiro.
— Acho que tem razão. — Sua admissão era libertadora, como se ao se perder, conseguisse se encontrar. Com o semblante mais leve, mesmo com as dores que corria pelo corpo, ela pegou as mãos da gata nas suas. — Vamos?
Lumis assentiu, sem precisar dizer quaisquer palavras.
Não havia nada para ser dito.
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Alguns minutos haviam se passado desde então. Porém, Amy sentia-se diferente. Não tinha a necessidade feroz de encontrar Sonic mais, apenas sentia à vontade incalculável de retornar para sua casa e dormir depois de um longo banho. Seu corpo doía em cada polegada, mas a dor era de certa forma revigorante. Era a única sensação que tinha, o resto era apenas um grande vazio sem precedentes.
Seu caminhar era lento, mas decidido, carregado de uma determinação que ela desconhecia a origem. Apesar de estar enfrentando diversos problemas no momento.
Um deles, talvez o maior e mais complexo, se tratava unicamente de encontrar a saída que parecia ser impossível, devido sua inexperiência em conhecer a floresta e as condições em que se encontrava.
Mas, assim como uma luz no fim de um túnel que parecia ser interminável, as luzes da cidade começava a serem vistas, a ideia de seguir em linha reta parecia ter funcionando e tão logo as árvores abriam espaço para áreas urbanas, o alivio e a alegria parecia irradiar não somente ela, como a gata também.
Faltavam apenas alguns passos para sair do manto verde e selvagem da floresta para o cinza deprimente das cidades e o conforto que a civilização e a modernidade poderiam lhe oferecer, mas assim que a cidade ficava cada vez mais perto, o cansaço que tentavam esconder e suportar tomava cada vez mais conta de seus músculos. Suas pernas doíam como nunca antes e em seus dedos já se formavam as malditas bolhas que faria de seus próximos dias um verdadeiro inferno.
Amy fazia careta a cada novo passo, seu caminhar apressado sendo reduzido para um simples mancar lento, a gata estava em igual ou pior estado, ambas estavam sujas, suadas e completamente doloridas e esgotadas, cada pequeno passo, por mais lento e cuidadoso que fosse, era um caminhar letal para suas mortes.
Assim que o chão instável de terra, pedras e musgos cederam espaço para o concreto de uma das inúmeras rodovias de SpeedHighway, joelhos cederam fortemente, atingindo o concreto com força, ocasionando em gemidos de dor em uníssono, em um coro de alívio e cansaço.
As luzes de faróis recaíram sobre elas de repente, cegando-as por um momento e deixando-as sem reação por um momento.
Não sabiam quanto tempo haviam se passado, podia muito bem ser de manhã do dia seguinte ou ainda noite do dia anterior, a noção de tempo de ambas havia sido perdida.
O carro parou logo que seus ocupantes perceberam-nas, duas portas se abriram, mas elas não tinham forças sequer para levantar a cabeça, estavam esgotadas e no limite.
— Parecem esgotadas. — Uma voz masculina jovem, comentou, enquanto com uma lanterna que carregava apontou para as duas.
— Boa observação, Sherlock. — Uma voz feminina, rouca e com tom sarcástico retrucou.
— Hey, não seja tão fria. — Reclamou o de voz masculina, mas sua voz demonstrava que não estava ofendido.
— Idiota. — Ela resmungou, antes que chegasse mais perto da dupla. — Vocês! — Ela falou mais alto, sua cauda roxa claro balançando ao redor de seu macacão cinza.
Amy levantou os olhos com custo, olhando para a raposa a sua frente, seus olhos verdes piscando e se franzido com a luz forte jogada em sua cara de repente.
— Estou avisando, Dankan, mais uma brincadeira e essa lanterna vai parar em um lugar não muito agradável para você. — Ela rosnou olhando para seu lado, onde um morcego azul petróleo estava rapidamente desligando a lanterna e se afastando rapidamente. Ela mudou sua atenção para as garotas, olhando para elas com a expressão franzida em pensamento. — Ei, você é Amy Rose, certo?
A ouriça olhou para ela com confusão, não a reconhecia de lugar nenhum.
— Sim... — Disse com a voz exausta, tentou se levantar, porém seus joelhos pareciam pesar uma tonelada. — Como você sabe?
— Reconheci do noticiário. — Explicou tranquilamente. — Namorada do Sonic, certo? — A raposa sorriu enquanto lhe estendia a mão.
Amy congelou por um momento, olhando para a desconhecida como se tivesse levado um tapa, engoliu em seco, tentando controlar sua dor focando apenas na dor corporal que sentia, seus músculos queimando. Ela sorriu por um momento, embora sentisse a vontade maior de gritar.
— Sim. — Ela disse fracamente. Sua voz falhando, mas podia simplesmente jogar a culpa de sua voz dolorida em sua dor física.
— Não deveria estar andando assim de noite. Há criminosos a solta, muitos deles atacam de noite. — A raposa repreendeu enquanto cruzava os braços no peito.
Lumis havia enrijecido com as palavras da raposa, a forma como ela falava e agia lhe deixava tensa, como se algo estivesse a incomodando.
— Eu me perdi e ela tentou me ajudar, acabamos chegando aqui. — Amy explicou rapidamente, tentando justificar sua situação.
— De onde vocês vieram? — A raposa perguntou sem entonação, soando imparcial e profissional.
— Central City. — Amy falou baixo, seu tom soando constrangido.
Um assovio impressionando soou da direção em que estava o morcego, que parecia chocado, seus olhos vermelhos estavam olhando para elas com incredulidade.
— Estão dizendo que vocês cortaram caminho de quatro cidades inteiras...? — A raposa piscou, olhando para seu companheiro com a mesma surpresa e incredulidade.
Amy baixou a cabeça e assentiu, a gata permanecia parada em sua posição ajoelhada, atordoada com a informação nova. Sabia que havia andado muito desde que a ouriça a puxou para procurar sabe-se o que seria que agora não lembrava mais, não tinha dado atenção ao que a ouriça falava animadamente, parecia não fazer sentido para si.
Um suspiro alto soou da raposa, enquanto aos poucos recuperava sua compostura e se ajeitava, olhando para seu companheiro e depois de um longo momento de divagação consigo mesma, deixou que seus ombros caíssem em rendição.
— Vamos levar vocês para casa. — Ela disse depois de um longo suspiro. Olhando para a dupla estendeu suas duas mãos para elas, oferecendo apoio para se levantarem.
Amy aceitou de pronto, levantando-se pesadamente, seus joelhos trêmulos e seu corpo doendo por inteiro, cada mísera célula de seu corpo queimando. Lumis, no entanto, parecia que estava prestes a desmaiar, seu corpo suando frio e seus membros completamente congelados. Com hesitação, colocou sua mão sobre a da raposa, sendo içada para se que ficasse parcialmente de pé.
O morcego que tinha se afastado diante a ameaça da raposa, se adiantou para abrir as portas de trás da viatura policial, indo em direção a ouriça e se oferecendo para ajudá-la, ela se apoiou nele pesadamente, quase o fazendo perder o equilíbrio, colocou seu braço ao redor de sua cintura e devagar a ajudava a entrar na viatura no lado do esquerdo.
Já a raposa parecia enfrentar problemas piores, desde que a gata não estava cooperando, o corpo pesado demais para que só a raposa suportasse, fazendo com que ambas chegassem ao veículo como se estivessem completamente embriagadas.
Assim que ambas entraram na viatura, a gata mesmo que parecesse não querer entrar por alguma razão que os três desconheciam, os dois policiais prenderam os cintos de ambas e fecharam a porta.
Assim que a raposa ocupou seu lugar no banco do motorista, como se fosse premeditado, o rádio começou a chiar e uma voz com estática soava alta através do rádio.
— QAP Oficial? Repito QAP Oficial. — O som do que parecia de uma voz masculina soou no rádio.
A raposa pegou o rádio no painel e começou a falar baixo.
— QAP Papa- X-ray Primeiro Quarto Sexto Delta... — Ela pronunciou lentamente, tomando cuidado com o que dizia. Lumis olhava confusa para a forma como ela falava, já Amy estava dispersa com seus próprios pensamentos conflituosos, tentando fazer com tudo faça sentido em sua mente.
A comunicação era ouvida, mas ela ouvia apenas muito parcialmente, seu peito ardia com uma dor que sobrepujava o cansado, era uma dor emocional dilacerante.
Ela havia alimentado uma ilusão por tempo demais para acreditar que tudo era real, era a única motivação que ela tinha para continuar lutando, para continuar de pé:
Ser o suficiente para Sonic.
Era o que ela havia pensado ser seu destino, companheira de um herói, a destinada para viver ao seu lado até os fins do tempo, mas, ao perceber um pequeno detalhe, viu que não era tão especial assim quanto pensava. Seu coração afundou em seu peito, a dor era torturante e o que ela mais desejava naquele momento era que sua agonia tivesse um fim.
— Quanto tempo? — Ela ouviu o morcego perguntando baixo, por estar do lado do passageiro, conseguia ouvi-lo, mesmo que falasse baixo.
— Umas quatro ou 5 horas. — A raposa suspirou enquanto reajustava seu cinto, girou a chave na ignição e sem mais qualquer palavra adicional, deu partida na viatura.
— O que? — A voz saiu alta demais, quase um grito desafinado. — Tá zoando, né?
— Bem — ela começou lentamente — é uma distância que gira entorno de uns 320 quilômetros.
— Isso... — A gata começou hesitante. — É mais que trinta centímetros?
Os dois nos bancos dianteiros se entreolharam com emoções diversas, choque, incredulidade e diversão.
— Sim. — Afirmou tentando segurar a risada incrédula. — Bem mais que trinta centímetros.
Amy mesmo envolta em seu mundo de dor, não conseguiu conter o sorriso que ameaçava aparecer em seu rosto.
Misteriosamente, o ambiente havia se tornado muito mais leve, sentia que a dor se tornava mais leve à medida que o tempo passava, suspirou baixo, enquanto se recostava confortavelmente no banco.
O mundo dos sonhos nunca havia lhe sido tão bem recebido.
.
A semana havia transcorrido de forma tranquila, até mesmo para ela, sem imprevistos ou problemas. Mas, mesmo a tranquilidade dos dias havia curado seu coração, pelo contrário, ainda doía. Acabou por se habituar da dor que persistia em seu ser, o tempo não tornava tudo melhor, porém a dor lentamente e progressivamente tornava-se suportável, mais tênue.
Ela podia lidar com isso por si. Não era como se tivessem tido um relacionamento em primeiro lugar, não havia memórias amorosas reais para deixar cicatrizes, estava razoavelmente melhor naquela manhã.
A luz solar entrava pelas frestas da cortina clara do quarto de hospedes da casa de Vanilla, atingindo seu rosto em cheio e acordando-a, era irritante. Seus olhos jade se abriram preguiçosamente, havia dormido bem naquela noite, apesar dos músculos ainda em recuperação e das bolhas ainda para secar nos dedos dos pés e calcanhares, evitava usar suas tão adoradas botas, desde que não parecia lhe fazer nenhum bem.
A doce senhora mãe de Cream havia se apiedado de seu estado lastimável assim que a visitou no dia seguinte junto com sua pequena filha que havia insistido em ver Amy, as duas haviam criado um laço de amizade tão forte que eram quase irmãs, uma sempre suprimindo o que a outra precisava. Uma amiga, uma ouvinte para todos os tipos de assuntos de garotas, apenas da jovem coelha creme ser jovem o suficiente para não entender tudo o que a ouriça dizia, dava seu melhor para acompanhá-la.
Vanilla havia se afeiçoado a Amy, desde que sua pequena a adorava, então não via nenhum problema em deixar que as duas ficassem juntas, eram quase praticamente inseparáveis.
Essa havia sido uma das motivações pela qual ofereceu a sua casa para que a ouriça pudesse se recuperar de suas dores, desde que não havia ninguém que pudesse se responsabilizar por cuidar dela, exceto ela.
E foi assim que ela foi parar na casa de Vanilla, dormindo no quarto de hospedes e ajudando a anfitriã quando fosse necessário em toda e qualquer tarefa domestica que pudesse, mesmo que seus músculos ainda doessem e seus pés parecessem mergulhados em ácido.
Uma semana havia se passado desde então, estava se recuperando fisicamente, mas sua mente ainda estava confusa.
— Vanilla... — Chamou hesitante enquanto a mulher entrava em seu quarto para lhe verificar, Cream já dormindo em seu quarto, rodeada por pelúcias e seu inseparável chao Cheese.
— Sim, querida? — A mulher olhou para ela pacientemente e curiosa, o tom da ouriça não era um que usualmente era usado, era hesitante, até mesmo sôfrego.
— Posso te perguntar uma coisa? — Ela havia se erguido na cama, em uma posição sentada, o cobertor caindo em suas pernas.
— Claro... — A mulher respondeu automaticamente, embora sua expressão fosse cautelosa, sua mente vagando em possíveis perguntas e respostas.
— Como se cura um coração partido? — A pergunta veio carregada de dor, a expressão da ouriça era tão triste e desolada que Vanilla se assustou, olhando para o ouriça com surpresa e pena.
A coelha adulta se moveu para perto da ouriça, sentando na beirada da cama dela enquanto a ouriça cedia espaço para que ela se acomodasse.
— Oh, querida... Quer contar o que aconteceu? — Vanilla lhe deu seu melhor olhar compreensivo, os olhos castanhos tinham uma gentileza sutil e suave, olhando para a jovem tão maternal que por um momento Amy se sentiu protegida.
— Eu percebi algo óbvio, que estava diante dos meus olhos o tempo todo, mas eu não queria ver... — Ela começou baixo, sua voz falhando enquanto pronunciava as palavras, dizê-las em voz alta fazia a dor piorar, tornava-as mais reais.
— Não estou entendendo... — Vanilla começou baixo, olhando para ela ainda confusa, embora no fundo soubesse ao que se devia. Seu coração materno doía ao ver o estado da jovem, mas não podia apaziguar ou mentir para ela, mesmo que doesse.
— Sonic nunca me amou. — Ela sorriu tristemente. — Eu havia acreditado que era especial, sabe? — Olhou para Vanilla com carinho. — Ele sorriu para mim de uma forma tão quente, tão compreensiva...
— E você achou que era amor? — A mulher perguntou hesitante, embora já soubesse a resposta antes mesmo que fazer a pergunta.
Amy assentiu, embora seu rosto demonstrasse seu constrangimento.
— Eu confundi as coisas, achei que fosse amor, mas depois quando eu me aproximava, tentando retribuir o amor ele fugia, me recordo do dia que ele se negou a proteger Birdie quando pedi, achei que ele aceitaria logo de cara, mas ele fugiu de mim. — Ela olhou para ela enquanto falava, embora seus olhos denunciassem que sua mente girava em torno da memória que narrava. — Houve outros momentos que ele fez isso, mesmo que ele acabasse me salvando muitas das vezes, mas acho que isso se devia ao fato de que ele se sentisse no dever como herói. — Ela refletiu, enquanto tombava a cabeça.
“Eu acreditava que era vergonha, sabe?” Ela riu nervosamente com sua frase, mesmo que também soasse ligeiramente incrédula. “Mesmo que muitas vezes Sonic enfrentasse todos os perigos sem nenhum receio ou medo, ele não parecia ser alguém que se envergonhasse de algo.”
— Como você chegou nessa conclusão? — Vanilla estava ligeiramente impressionada, havia visto Amy muitas vezes conversando com Cream sobre seu amor com Sonic e seus planos de um casamento próximo, a mudança drástica vinda da ouriça era no mínimo assustadora, desde que desconhecia a razão do súbito sentimento e epifania que lhe acometeu.
— Sinceramente? Nem eu mesma sei explicar — admitiu enquanto olhava para suas mãos — eu me perdi na floresta, na verdade eu queria encontrar Sonic...
— Você se colocou em perigo para que ele viesse em seu encontro. — A coelha adulta lhe acusou com seus amendoados olhos castanhos em fendas, tais como uma mãe que flagra seu filho cometendo alguma travessura absurda.
— Não! — Ela respondeu imediatamente, olhando para ela com seus olhos de jade arregalados e surpreso dela ter pensado tal coisa de si. — Não dessa vez... — Admitiu, talvez a mulher tivesse razão em suspeitar de si. — Eu apenas queria ir a casa dele, fazer uma surpresa e o chamá-lo para sair.
— Continue... — Apesar da expressão dela ter se suavizado visivelmente, Amy ainda podia visualizar a censura repreensiva em seus olhos, sabia que Vanilla não seria gentil e tampouco delicada se sentisse necessidade de lhe repreender.
— Eu acabei me perdendo, uma gata me encontrou e acabei arrastando-a junto comigo, parecia uma boa ideia na hora, mas depois... — Ela estremeceu suavemente.
“Ela conhecia a floresta tão bem quanto eu, na verdade eu estava liderando, como ela não falou nada, achei que estava no caminho certo, mas éramos duas perdidas, saímos muito da trilha.” Ela falava tão calma que não parecia sua figura usual, mais tímida e tranquila que a Amy Rose normal, energética e impaciente. Muito menos admitia suas próprias falhas, parecia uma mudança boa, saudável até. “Acabamos brigando, isso irritou uma família que morava perto, acabamos nos perdendo mais, acabou que ela desistiu e eu me senti mal, eu era culpada de tudo isso estar acontecendo, me senti sem chão, desejei que Sonic aparecesse e me salvasse como sempre fez, mas estava sozinha. Ela voltou, me estendeu a mão e sorriu da mesma forma que ele sorriu para mim quando me resgatou de Metal Sonic.”
— Eu não consegui acompanhar a linha de raciocínio que você quer passar. — A coelha admitiu sincera, analisando a jovem com atenção redobrada.
— Ah... — Amy soltou desanimadoramente. — Ele tinha sorrido da mesma forma compreensiva que ela, como me entendesse completa e verdadeiramente. Acho que tudo foi um erro meu. Um erro estúpido.
— Não há nada de estúpido em se afeiçoar a alguém que demonstra te entender. — Vanilla retrucou, suas palavras doces e gentis. Carregava uma verdade em seu tom. — Você apenas precisava se agarrar em algo, acreditar em algo. Acabou sendo o sentimento de afeição que surgiu por Sonic.
— Afeição? — Pronunciou a palavra com confusão.
— Existem várias formas de amor, querida. — Ela lhe sorriu gentilmente. — Acredito que o que sente por ele não é uma ilusão, você realmente sente amor. Mas se agarrou a um tipo de amor que não era o que sentia de verdade.
— Como assim?
— Com eu disse, “existem várias formas de amor”. — Sorriu-lhe maternalmente. — De mãe, de um filho, de irmãos, amigos, namorados e de irmãos. — Ela sorriu no último exemplo sugestivamente.
— Como você sabe que pode ser amor de irmão? — Olhou para a mulher com uma curiosidade fervorosa.
— Você cuida de Cream da mesma forma que Sonic cuida de você. — Ela explicou com leveza. — E Cream te ama e admira de uma forma muito semelhante como você admira Sonic. Mas ela sabe que te vê como uma irmã mais velha. Entende agora?
Amy deixou que as palavras da coelha se assentassem em sua mente, dessa vez se apegando a elas como uma solução ao invés de ignorar e se torturar cada vez mais. Pela primeira vez em tanto tempo ela sorriu, um brilhante e caloroso sorriso, enquanto tudo parecia se encaixar de uma forma maravilhosa, perfeita.
Sua relação com Sonic era verdadeira, ele a amava e ela retribuía, agora percebendo que era na mesma intensidade. Um puro e gentil amor.
Foi com esse pensamento que ela conseguiu dormir naquela noite, feliz que seus pensamentos de dúvida e confusão haviam se dissolvido graças as palavras de Vanilla.
Ela era realmente uma boa e gentil mãe.
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.
Duas semanas se passaram desde então, mas não havia encontrado com Sonic em nenhum momento, mesmo visitando os mesmos lugares que geralmente ele frequentava, desde que havia decorado sua rota usual das vezes que o perseguiu antes.
Precisava encontrá-lo e conversar com ele sobre o que acabou entendendo naquela noite há duas semanas, sentia que precisava ouvir claramente dos lábios dele algo que por muito tempo não entendia e não buscava entender, simplesmente por acreditar que já sabia de tudo e que estava nos conformes.
Sentia-se culpada por nunca ter procurado entender os verdadeiros sentimentos dele para com ela, sua forma de amor que era diferente para com ela, mesmo que ainda fosse uma forma tranquila e aceitável de amor. Ainda o amava, mas agora compreendia o sentimento de uma forma mais realista, abandonando completamente suas fantasias de casamento e uma vida de casal, conversar com Vanilla havia aberto uma porta de possibilidades e questionamentos que lhe eram novos.
Mas não eram desagradáveis.
Existiam tantas formas de amor, era uma verdade indiscutível e ao pensar consigo mesma, acabou por entender cada vez mais assuntos que antes não conseguia entender, por nunca ter dito a informação certa, conversado com as pessoas certas e tido os questionamentos certos.
Sonic não era tímido, mas sentia-se desconfortável com a forma como ela agia em torno dele, mesmo assim sempre estava ali para ela, sempre tentando ajudar, salvando-a e protegendo com tanta determinação como só um irmão faria.
Ela sorriu ao pensamento. Enquanto contornava a praça que ficava a barraca de chillidogs que Sonic sempre frequentava, quando pensava que não era seguido e poderia ter uma tarde normal e tranqüila. O homem que havia lhe atendido tinha cara de poucos amigos e recusou-se a lhe qualquer coisa, por menor e trivial que fosse.
Estava irritada com o homem quando saiu dali, resmungando baixo quando ouviu um grito tão assustado quanto incrédulo.
— Minha bolsa! — Havia se formado uma comoção de pedestres transeuntes instantes depois que a mulher gritou.
Amy levantou os olhos ao mesmo tempo em que via o homem correndo, segurando uma bolsa de couro marrom que parecia cara, seus instintos lhe impulsionou a ajudar a apreender o delinquente, enquanto seu fiel martelo Piko-Piko se materializava em suas mãos firmes e decididas, seus olhos de jade se estreitaram em antecipação, fazendo uma conta mental de seus movimentos.
Não era a primeira vez que interceptava alguém em movimento e o homem não era tão veloz quanto certo ouriço azul.
Com um simples movimento do braço, o martelo fez contato com o homem em fuga, acertando-o bem na face com uma força impressionante, fazendo com que voasse de encontro à parede de prédios comerciais e caísse ao chão, com um filete de sangue escorrendo pela boca aberta.
Ele estava desacordado.
Adiantou-se para pegar a bolsa, ao mesmo tempo em que a dona chegava perto de si. Olhou-a pela primeira vez, desde que tinha se concentrado primeiro em salvar a bolsa, sem nem ter visto a quem pertencia.
Ela era uma esquila avelã com curtos e arrumados cabelos ruivos brilhantes e que mesmo a distancia, pareciam incrivelmente macios ao toque. Estava trajada com uma calça jeans com blusa branca de algodão, a jaqueta jeans escura estava balançando em seu movimento de corrida, embora ela parecesse alguém que se exercitava com freqüência, naquele momento ela parecia alguém de alta classe, se dirigindo a ela com uma leveza e cadência invejável.
Os olhos azuis tinham um brilho de agradecido, enquanto seus lábios se abriam em um sorriso educado, até mesmo contido.
— Obrigada por me ajudar. — Sua voz era um melodioso tom de soprano, como se fosse cantada, tão impressionante que Amy havia ficado momentaneamente sem palavras.
Ela estendeu a bolsa para ela, mecanicamente. Seus olhos de jade piscaram surpresos, presa em uma falta do que responder, mesmo que fosse apenas um “não há de quê”.
— Você é bem forte. — A esquila elogiou suavemente, seu sorriso ainda permanecia educado, enquanto seus olhos denunciavam sua admiração. — Obrigada por isso.
Amy assentiu tonta, a voz dela era tão bonita que poderia ouvi-la falar todo o dia que não se sentiria entediada.
—A propósito, me chamo Sally. — Ela pronunciou tranquilamente, embora parecesse uma ação normal, ela ocultava seu sobrenome, talvez por não achar necessário tanta formalidade ou tivesse uma motivação por trás. — E qual o seu? — Estendeu sua mão direita em cumprimento.
Amy a olhou, ligeiramente lisonjeada de sua atenção. Estendeu sua mão em resposta, retribuindo o gesto e apertando sua mão em cumprimento. Era macia, mesmo que usasse luvas.
— Sou Amy, Amy Rose.
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