Bittersweet.
36 36. Desobediências.
Notas iniciais
O restaurante era de longe um dos locais mais simples que poderiam encontrar. Pelo contrário. O local exalava sofisticação, embora tudo o que o ouriço menos desejava era chamar a atenção. Principalmente pelas roupas chamativas que usava.
Como se já não bastasse os olhares desconfortantes que recebeu em todo o trajeto até o restaurante.
Ele suspirou fundo enquanto tentava se equilibrar naqueles sapatos apertados, sentindo falta de seus tão confortáveis e inseparáveis sapatos de corrida.
Seu olhar tinha se tornado desconfortável desde que eles saíram da loja com a atendente olhando para eles de forma estranha, embora ela não tenha nenhuma noção do que estava acontecendo, ainda assim aquele olhar dela lhe fez se sentir deslocado, quase como se ela tivesse enxergado além de seu disfarce feminino.
Mary seguia na frente com Nyazu em seu encalço, Rouge não tinha deixado seu braço ir em nenhum momento, olhando para ele vez ou outra procurando qualquer sinal que pudesse as obrigar a sair dali às pressas.
Os passos eram lentos, calculados, embora o que mais Sonic desejava era uma cadeira para sentar, porque seus pés doíam e já estava se sentindo exausto de estar ali, o que ele estranhava, levando em consideração que há pouco tempo ele conseguia suportar longas corridas sem derramar uma gota de suor sequer.
Praguejou sobre a respiração, rendendo uma careta de reprovação de ambas as morcegas que ele não pegou por estar com a cabeça baixa, amaldiçoando sua própria sorte.
— Então, Nyu, pronta para comer alguma? — Perguntou Rouge, quando uma ênfase no nome enquanto um sorriso de diversão brincava em seus lábios.
— Uh... — Sonic apenas gemeu, se perguntando porque diabos escolheu um nome como aquele, com uma pronuncia tão engraçada e de certa forma infantil.
Seus olhos percorrem o lugar, se perguntando por que razão Mary escolheria aquele dentre outros com uma aparência menos extravagante.
O lugar em si era ambientado de forma com que parecia um dojo de artes marciais ninja, com cores laranjas, douradas e beges com escritas orientais em tiras de panos brancos que de longe parecia ser seda. Apesar da ambientação oriental, que o fazia se lembrar de quando visitou Chun Nan — embora naquela época ele não poderia parar a apreciar a cultura nem tampouco das decorações do lugar — parecia ser um local um pouco mais confortável e acolhedor.
Estar ali lhe preenchia com sensações mistas de nostalgia e saudade, embora não gostasse do que acontecia durante a noite enquanto viajava o mundo para consertar o estrago que Dr. Eggman fez, ainda assim não podia evitar as ondas de nostalgia que invadiam sua mente enquanto olhava as decorações do lugar, as mesas com toalhas orientais, as paredes com papel fino colorido e bambu.
Não pode evitar um sorriso saudoso, como se aquele lugar trouxesse lhe boas e inesquecíveis lembranças.
Mary se dirigia até onde um rato mobian estava, como se fosse uma espécie de gerente e supervisor, ele era de um cinza escuro e tinha uma barba branca e olhos negros críticos, trajada um longo quimono marrom escuro com uma faixa negra amarrada na cintura, sua roupa arrastava no chão e suas mangas eram grandes o suficiente para esconder suas mãos. Ele franzia o rosto e balançava a cabeça, enquanto observava uma dupla de tartarugas no canto discutindo.
Tartarugas essas que eram bastante parecidas, exceto por alguns detalhes. Ambas as eram verdes, embora claramente dava para ver de longe que se tratavam de machos até mesmo pela postura corporal e pelos músculos bem evidentes, apesar da distância.
Um deles tinha uma badana vermelha nos olhos, a postura era furiosa enquanto parecia discutir aos rosnados, ele tinha um par de sais no casco em suas costas, presos graças a uma enorme faixa marrom que rodeava sua cintura. Seus punhos fechados estavam levantados em uma ameaça clara de agressão, por alguma razão, ele lembrava a Sonic, Knuckles, talvez por aparentemente ter uma personalidade explosiva, sem se conter, não pode evitar um sorriso enquanto brevemente se recordava das inúmeras vezes que provocou o equidna apenas por diversão.
Quem aparentemente estava sendo alvo a fúria da tartaruga da faixa vermelha tinha uma faixa laranja nos olhos e parecia constrangido, sua mão direita estava coçando a cabeça enquanto parecia ouvir o outro gritar, esse tinha uma arma diferente para o ouriço, já que nunca tinha visto antes e desconhecia o nome, eram correntes com as extremidades presas em madeira esculpida de forma que possa ser segura confortavelmente, essa arma peculiar estava calmamente presa em sua cintura. Ambas as fêmeas e Sonic assistiam a reação dele, surpresas por ele não parecer surpreso ou irritado com a explosão, apenas constrangido. Reação estranha para o quarteto, principalmente para os ouvidos sensíveis que captavam o teor da discussão.
— Parece que está com problemas, mestre. — Mary se dirigiu ao rato que estava apenas olhando a discussão, ele se virou para ela, se fazendo ciente da presença dela naquele momento. Ele estreitou os olhos enquanto olhava para as outras, principalmente para Sonic.
— Oh, jovem Mary, quanto tempo? — Sua voz era tranquila, suave, como de um canto antigo. Olhava para Mary com curiosidade, enquanto seus olhos vez ou outra furtivamente escapavam para o ouriço.
— Sim, algum. — Ela respondeu com uma voz saudosa, como se estivesse se dirigindo a um professor. — Eu não conhecia seus novos alunos, quem são?
Os olhos dela correram por mais dois que apareceram e acabaram com a discussão dos dois, logo eles estavam focados em servir das mesas e atender os novos clientes que chegavam, a briga anterior completamente esquecida.
— São meus filhos, meu orgulho. — Ele respondeu dando um sorriso caloroso e paternal. — Raphael. — Apontou com a cabeça para a tartaruga de faixa vermelha, que estava atendendo uma mesa onde um casal de cães estavam, a fêmea tinha uma pelagem branca e refinada enquanto o macho era marrom e parecia um cão simples, ambos pareciam estar negociando a conta enquanto podiam ver um prato de macarronada na mesa. — Leonardo. — Seu olhar foi para um dos que eles não tinham visto antes, com faixa azul que estava coçando o queixo com a caneta enquanto ouvia uma dupla fazendo seus pedidos, pareciam amigos, um cão dinamarquês mobian marrom com pintas pretas nas costas trajando apenas um colar azul com as siglas SD no pingente e um overlander franzino de cabelos ruivos e barba por fazer usando uma camisa verde larga e calça marrom grande demais para seu tamanho. — Donatello. — Este estava atrás de um balcão onde tinha uma caixa registradora e parecia concentrado anotando algo em um bloco de notas — E Michelangelo. — Eles podiam ver o mencionado com um esfregão na mão limpando o piso, pelo menos era isso que era suposto a ser, porque ele estava dançando em um canto um pouco isolado, usando o esfregão como guitarra.
— Ah, sim. — Mary franziu um pouco a expressão, enquanto olhava para eles com os olhos críticos. — Gostaria de conversar com você mais tarde, se não houver problema. — Ela disse calmamente.
— Claro, por que não? — Apesar da resposta calma, ele parecia cauteloso e se não fosse o tom calmo, parecia quase com uma pergunta sarcástica. — Gostariam de uma mesa? — Sugeriu, enquanto dava as costas para elas, escondendo sua expressão.
— Um lugar mais reservado, por favor. — Mary respondeu, enquanto observava a reação dele como esperada, respondendo uma questão silenciosa em sua mente.
— Certo, sigam-me. — Ele juntou as mãos na altura do peito, enquanto começava a guia-los através das mesas lotadas e vazias, recebendo alguns olhares inclusive das tartarugas que pareciam confusas.
Não precisavam andar muito até chegar em um canto um pouco mais isolado e longe o suficiente das mesas principais, era uma mesa maior, com espaço para mais de 6 pessoas, usadas para confraternizações familiares ou jantares com grupo de trabalho, onde estavam era mais quieto, quase não ouvindo os cochichos de alguns dos clientes que olhavam para o grupo com curiosidade.
Mary e Nyazu se sentaram isoladas em um canto e Rouge e Sonic do outro lado, os pares de frente para o outro. O rato pegou alguns cardápios de mesas vazias e colocaram diante delas e logo pediu licença, para voltar ao seu lugar na recepção, onde podia monitorar o fluxo de movimento e manter um olhar sobre a mesa à distância, observando-os com olhos analíticos.
— O conhece? — Rouge perguntou algo óbvio, levantando o olhar para a morcega negra enquanto abria o cardápio e folheava distraidamente,
— É uma longa história, mas sim, ele já foi meu treinador enquanto ainda era uma recruta da G.U.N. — Ela respondeu dando de ombros.
— E isso faz tempo, não? — Rouge de um sorriso malicioso enquanto olhava para ela sugestivamente.
— Algum. — Ela respondeu distraidamente enquanto fingia prestar atenção no cardápio que acabou de abrir, olhando para as opções sem realmente as ler, divagando sobre algo que eles não faziam ideia. — Tem ideia do que quer pedir, ouriço? — Disse enquanto baixava levemente o cardápio e ajeitava os óculos na face.
— Uh? — Sonic disse distraído, enquanto olhava as opções confuso, via ali várias opções de carnes, tortas, saladas, sopas, entradas, sobremesas e a cada nome que lia parecia se sentir perdido.
— Só fala o que sente vontade de comer que eu peço, se eles não tiverem eu pago a mais. — Mary deu de ombros, enquanto assistia Nyazu pegando o cardápio de ponta cabeça e tentava impressionar Mary, dando um sorriso inocente enquanto fingia ler as palavras de ponta cabeça. — Você vai querer, carne, correto, Nyazu? — Perguntou a raposa que tirou os olhos e balançou a cabeça afirmativamente, o olhar constrangido por ter ganhado atenção.
Sonic parecia divagar, olhando as vastas opções de menus, seus olhos corriam por qualquer nome que soasse familiar, falhando ao perceber que não encontrava algum. Então deu um sorriso largo, enquanto murmurava seu pedido sobre a respiração fazendo ambas as morcegas fizerem uma careta.
— Olá, estão prontas para fazerem o pedido? — Perguntou a tartaruga de faixa azul com um ar de liderança, se aproximando do quarteto.
— Bem — Mary deu um pigarro enquanto se endireitava na cadeira — um bife mal passado para ela — apontou para Nyazu que tinha baixado o cardápio e colocado na mesa enquanto olhava para o garçom com expetativa — uma pizza de frango, queijo e calabresa com chocolate e geleia de morango para ela — apontou para Sonic disfarçado que sorria amarelo enquanto o garçom fazia uma expressão confusa.
— Desculpe? — Piscou sem saber o que dizer exatamente ao ouvir o pedido.
— Ela está com desejo. — Deu de ombros, enquanto tentava manter a expressão neutra enquanto Rouge segurava a risada.
— Certo, desculpe. — Piscou enquanto usava a caneta para coçar a cabeça.
— Para mim uma salada de frutas. — Rouge sorriu e piscou para ele que pareceu corar.
— Certo. Bebidas? — Perguntou enquanto anotava rapidamente o pedido estranho.
— Suco natural de laranja para ela — apontou para Sonic — refrigerante para ela — apontou para Nyazu fazendo uma leve careta — e vinho para nós duas. — Apontou para Rouge e si mesma.
— E por favor, não coloque calda na salada de fruta. — Rouge pediu, sabendo que normalmente serviam salada de frutas como uma sobremesa.
— Anotado. Vou providenciar, se precisarem de algo mais é só chamar. — E saiu com a expressão estranha ainda levemente perturbada.
— Não está com fome? — Nyazu perguntou inocentemente enquanto o garçom que as haviam atendido anteriormente saia depois de as servir, cortando seu bife e já começando a comer, assim como Sonic com sua pizza e Rouge com as frutas.
— Não. — Mary respondeu rígida, enquanto pegava sua taça e solvia do vinho, não olhando para ninguém em particular.
— Estou surpresa, pela decoração eu esperava que servissem comida oriental. — Rouge comentou, chamando a atenção de Sonic e Nyazu. — Digo, o que mais se pode esperar?
— É um ponto. — Mary respondeu, levemente distraída. — É extravagante para um restaurante que não é oriental, sem mencionar a decoração e quem administra. — Deu de ombros. — Mas é uma jogada interessante, por ser diferente que chama a atenção, entende?
— Tem razão. — Rouge concordou antes de morder e mastigar um pedaço de maçã.
A refeição seguiu tranquila, com assuntos bobos e sem importância enquanto elas pareciam entretidas em uma pausa tranquila, logo iriam para mais algumas lojas antes de encerrarem o dia, que parecia longo demais para Sonic, desde que raramente saía para qualquer evento de compras, exceto algumas vezes em que ele era arrastado por uma Amy, quando ele não estava tão animado para fugir de um martelo potente.
— Cuidado! — Nyazu gritou de repente, assustando os três que estavam distraídos, logo os olhares estavam nela que tinham os olhos vagos. Foi inesperado, logo alguns segundos depois o vidro da fachada do restaurante quebrou quanto algo foi jogado contra ele, uma bomba manual com o pavio sendo perigosamente consumido pela chama.
Porém, antes que ela explodisse, um do curioso quarteto de tartarugas jogou um copo com alguma bebida nela, apagando o pavio, ele recolheu a bomba e a levou para dentro, sem dizer nenhuma palavra.
— Isso não se vê todo dia. — Rouge comentou enquanto dava de ombros.
— ... — Mary mantinha o olhar da raposa até que ela voltou a ter algum foco e piscou confusa para os três que a observavam.
— Que foi? — Perguntou enquanto parecia extremamente confusa.
— Nada. — Foi a resposta baixa em coro, enquanto ela parecia piscar confusa e depois dar de ombros enquanto terminava de beber seu refrigerante, sua refeição já ingerida.
Logo após os vidros quebrarem, um longo e estranho silencio se instaurou em todo o ambiente, até ser quebrado por uma invasão um tanto peculiar.
Um urso polar mobian entrou quebrando a porta com os punhos, entrando de forma irritada no lugar com uma pose autoritária, seguido de uma doninha roxa e um pequeno e jovem pato verde que tinha a expressão emburrada.
— Cadê minha bomba?! — Ele gritou estridentemente de forma infantil, como uma criança que acabou de perder um brinquedo que amava bastante.
— Não temos tempo ‘pra’ isso, Bean. — Repreendeu com grosseria a doninha, olhando para o pato de forma irritada enquanto sacava uma arma da cintura e apontava para qualquer direção aleatória.
— Posso ajudar, senhores? — O rato apareceu ao lado deles, pegando-os de surpresa, ele sustentava um olhar plano enquanto sua fala era calma e calculada.
— Você! — Apontou a arma para ele, enquanto sorria de forma doentia. — Passem tudo ou se não faço do velhote uma peneira! — Ele gritou, enquanto sorria e continuava apontando para ele.
Sonic olhou para aquilo apreensivo, suas mãos se fecharam em punhos, enquanto seus olhos verdes se estreitaram, ele fez questão de levantar, entretanto foi impedido por Mary, que ergueu a mão aberta para ele, em um sinal claro para parar.
— Eu não faria isso se fosse você. — Mary simplesmente disse, seus olhos voltados para Sonic por um breve momento antes de se dirigir para a cena que acontecia na frente.
— Mas... — Foi cortado pela morcega antes que pudesse concluir o seu protesto.
— Não é problema nosso. — Ela disse simplesmente. — E se alguém vai se ferir, certamente não vai ser ele, acredite. — Ela seu um sorriso com presas para o ouriço e voltou seu olhar para a cena a frente.
— Que estão esperando? — A doninha voltou a gritar, balançando a arma em direção ao rato que tinha uma expressão bastante tranquila no rosto, sem se abalar com o gesto.
— Vão querer comer alguma coisa? — Perguntou com a voz tranquila, enquanto agia como se não tivesse uma arma apontada para si.
— Mary! — Sonic disse baixo o tom exasperado e preocupado, parecia que estava se segurando para não se levantar.
Ela apenas estendeu a mão novamente e disse com a voz mais fria possível.
— Eu não interferiria se fosse você. — Seu tom era tão frio que Sonic estremeceu. Mas embora a tentativa de intimidação fosse super efetiva, Sonic não iria desistir tão facilmente.
— Mas ele não era seu mestre? — Perguntou baixo, tentando não fazer sua voz nenhum pouco feminina ser notada.
— Sim, ele é meu mestre. — Ela disse com um sorriso presunçoso enquanto lhe dava um sorriso sombrio com presas.
— Então... — Ela lhe interrompeu, virando o rosto para a cena na frente, ignorando os olhares dos três olhando para ela.
— Apenas assista. — Ela instruiu apenas, embora ela tenha pego uma faca do jogo de talher que estava sobre a mesa, enquanto girava-a entre os dedos. — Rouge, chame a polícia, sutilmente. — Deu uma ênfase clara no final da sua ordem, sem tirar os olhos da cena a sua frente.
Rouge fez o que Mary instruiu, tentando não chamar atenção enquanto os garçons estavam olhando a cena com olhares diversos, uns de raiva beirando a fúria, outros curiosos e dois tinham genuína expectativa.
A doninha estava olhando para o rato com o olhar de vitória, no enquanto o que ele estava não aconteceu, ninguém parecia disposto a lhe entregar nada, parecia até que sua tentativa de assalto tinha falhado e isso lhe irritava, então furtivamente passou o braço nas costas do rato e pressionou sua arma na cabeça dele, olhando com a expressão muito mais irritada.
— Melhor passar tudo! Eu não ‘tô’ brincando! — Ele rosnou enquanto o urso polar que estava ao seu lado juntou as mãos estalando os dedos causando um estalo tão alto que ecoou pelo local, o pequeno pato verde estava com uma expressão assustadora enquanto dava um enorme sorriso doente e preparava uma dinamite nas mãos para lançar.
O rato entretanto suspirou, enquanto colocou as mãos no braço que rodeava seu pescoço e dava um impulso para a frente com grande velocidade, fazendo com que a doninha fosse jogando para a frente e suas costas batessem no chão com um alto estrondo, os olhos azuis dele se ampliaram de surpresa enquanto sua boca se entreabriu expondo seus dentes frontais enormes.
O urso polar piscou antes de avançar para cima do rato, que soltou a doninha e se esquivou o ataque enquanto o pato parecia perdido sem saber o que fazer enquanto o rato esquivava de toda tentativa de avanço, frustrando e irritando cada vez mais o urso.
Sonic olhava para a cena abismado, piscando várias vezes enquanto os que estavam assistindo pareciam entretidos, como se estivesse presenciando parte de um show exclusivo.
— Bem, surpresos? — Mary disse com a voz transbordando presunção, enquanto seus olhos castanhos pegavam todo o movimento rápido e gracioso, quase como uma coreografia perfeitamente ensaiada. — Ele é forte, mas lento demais, previsível. — Comentou, enquanto ainda girava sua faca nas mãos, apesar do movimento aparentemente parecer distraído, ela estava completamente focada nos movimentos e na cena na frente.
A doninha levantou do chão com raiva, pegando sua arma com toda fúria possível e antes que ele puxasse o gatilho para atirar na direção do rato, um projetil em alta velocidade acertou sua mão, fazendo com que a arma voasse a uma boa distância e sua mão sangrasse ferida, diante de si havia uma reluzente faca de prata.
Olhos se ampliaram com a cena, inclusive dos de Mary, que olhava tudo atentamente.
— Termine logo com isso, estou entediado. — Foi uma ordem dada de uma das mesas bem próximas dali.
Os olhos de Mary se desviaram para lá automaticamente, pegando todos os detalhes do garoto que estava de costas para si, era magro, baixo para um mobian, possivelmente uma criança, estava trajando uma espécie de terno infantil, o tecido era ao mesmo tempo fino quanto resistente, tinha cabelos azuis escuros acinzentados com um brilho bonito esverdeado, suas orelhas de gato estavam altas, ele olhou para trás, incomodado com a forma com que quem estava em sua frente estava olhando para trás, ela pode ver claramente as feições felinas e delicadas dele, o olho azul esquerdo tão frio que a fez sentir certo medo e o olho direito oculto por um tampa olho de couro preto.
Os olhos de Mary olharam para a frente, para se encontrar com os olhos vermelhos maliciosos do corvo que estava olhando diretamente para si como se tentasse ler a sua alma, enquanto um sorriso provocante enfeitava sua face distorcendo sua aparência refinada de mordomo de uma enorme mansão, seus cabelos eram perfeitamente alinhados e grandes o suficiente para quase tocar seus ombros de um preto tão brilhante que parecia sedoso.
Mary engoliu em seco, ignorando o cheiro de sangue, o corvo a sua frente abriu um sorriso divertido, como se soubesse do seu sofrimento.
— Sim, meu lorde. — Foi a voz dele, obediente, calma, suave e rouca, Mary arregalou os olhos ao mesmo tempo em que via ele pegar alguns dos talheres da mesa, incluindo o do garoto que parecia insatisfeito e desaparecer rapidamente de sua vista.
“Parece até um demônio.”
O pensamento passou por sua mente com uma velocidade assustadora. Ela ignorou o tremor que passou por sua espinha enquanto um único pensamento rondava a sua mente naquele momento.
“O QG não pode ficar sem saber disso.”
Rouge ainda sussurrava baixo no celular, passando informações de onde tudo estava acontecendo, mas seus olhos aqua estavam bastante atentos ao que estava acontecendo, completamente surpreendida enquanto vários ali se perguntavam o que infernos estava acontecendo ali.
Até que Mary se levantou e calmamente estava indo até a pequena luta estava acontecendo — apesar de que, não parecia necessariamente se tratar de uma luta, mas de praticamente uma brincadeira de pegar, desde que nos poucos minutos que se seguiram, o rato apenas se esquivava de todas as investidas do urso polar —, com uma frieza tão surpreendente que parecia que a situação estava sob controle, pelo menos era o que ela queria transparecer.
Ela saltou ao mesmo tempo que o rato desviava novamente de outra investida e aproveitou a concentração do urso polar para lhe chutar na cabeça, ao mesmo tempo em que seus ouvidos captaram o som de um projetil e tirou o alvo da linha, uma faca voadora se prendendo em uma parede no fundo da cena, olhou para onde o corvo estava, no ar e preparado para lançar um garfo quando ela estendeu a mão.
— Esse não é o seu negócio. Parece com isso agora ou a G.U.N terá que intervir. — Disse com calma, enquanto ainda olhava o corvo com olhar neutro e calmo, ignorando todo e quaisquer sons externos que poderiam lhe distrair, inclusive da doninha praguejando ao fundo, segurando sua mão com força e fazendo uma careta de dor.
Os olhos vermelhos do corvo baixaram até encontrar com o jovem gato que lhe encarava com tédio, pedindo permissão na qual foi apenas respondida com um dar de ombros desinteressado.
— Vamos embora daqui. — Ele respondeu se levantando com tanta calma que parecia que não estava em uma cena de quase assalto. — Não temos o que fazer aqui. — Sua voz apesar de séria tinha um tom de frustração.
— Sim, jovem mestre. — Ele assentiu para si mesmo, enquanto pousava no chão com uma leveza assustadora. Mas antes que colocasse todos os talheres sobre uma mesa que estava perto, ele empunhou um dos garfos e lançou em direção de Mary, ela o parou com a faca que estava ainda em mãos, sua postura séria.
Ele sorriu com a reação dela, enquanto ia para o lado do jovem gato que já estava se dirigindo para a saída, ignorando os olhares que eram lançados para eles.
— O que aconteceu? — Era uma das perguntas que ecoavam pelo lugar por diversas mesas e ocupantes. O cão dinamarquês e o overlander de antes tinham se escondido debaixo da mesa, agora saiam com mais calma, embora evidentemente estivessem ambos tremendo.
Os ombros de Mary relaxaram visivelmente, embora ainda não estivesse segura. O urso polar tinha recuperado todo o equilíbrio perdido e partia para cima dela com o punho erguido prometendo violência, embora antes que ele pudesse fazer algo, ele caiu para a frente, completamente desacordado. Seus olhos focaram nos negros do rato que tinha a mão erguida ainda em posição e sorriu-lhe, que retribuiu a ação.
Ele se curvou em sua frente com as mãos espalmadas juntas no peito, ela repetiu a ação também e logo parecia que a seriedade dela tinha se dissolvido em uma expressão mais tênue.
— Voltarei para respostas mais tarde. — Foi a única coisa que disse antes de dar as costas para ele e ir para sua mesa, olhando para o trio com calma. — Vocês terminaram? — Olhou para Nyazu que tinha seu refrigerante pela metade e Sonic, que ainda tinha seu prato pela metade, Rouge ainda tinha sua salada de frutas quase intocada. — Quanto tempo? — Olhou para Rouge fazendo uma pergunta indireta.
— Alguns minutos, não estão muito longe. — Respondeu, quando finalmente começou a comer em silêncio, perdida algum pensamento que eles não sabiam qual.
Sonic e Nyazu seguiram o exemplo de Rouge, ambos voltando a comer, embora ainda dessem alguns olhares para Mary algumas vezes, com curiosidade e uma certa preocupação.
Não demorou muito para que a normalidade voltasse para o recinto, com cada um seguindo com seus afazeres e alimentação, foram preciso dois das tartarugas para amarrar o urso polar desacordado, pelo menos até que a polícia chegasse para os prender. A doninha relutou, no entanto foi facilmente intimidado pela tartaruga de badana vermelha, já o pato parecia amedrontado demais para sequer tentar fugir, com seus olhos azuis arregalados e uma expressão de completo choque no rosto, parecia extremamente surpreso de que o seu grupo foi intimidado com tamanha rapidez.
Sonic parecia estranhamente absorto e para a completa surpresa de Rouge, o ouriço não parecia nauseado, mesmo depois de ter comido o seu pedido estranho, como se não fosse anormal. Apesar as coisas terem claramente se normalizado e adotado um ritmo mais lento e tranquilo, Mary parecia bastante alheia ao clima de tranquilidade. Bebia sua bebida lentamente, sua mente corria com as informações, como se presa em algum devaneio que desconheciam.
Logo, passou-se tempo o suficiente para que os policiais que eles aguardavam chegasse no lugar, surpresos com a fachada quebrada, embora não existissem mais quaisquer fragmentos de vidros espalhados pelo lugar.
Eram duas duplas distintas, uma coelha cinza com grandes olhos roxos, baixa em estatura em comparação com seus companheiros, mas parecia ter uma energia desconhecida para Mary, estava andando ao lado de uma raposa laranja que tinha um sorriso sarcástico em seus lábios enquanto andava com um copo grande de cappuccino em mãos, os olhos azuis pareciam trazer um brilho irônico. A outra dupla do entanto era mais tranquila, a raposa de uma coloração roxa clara tinha os cabelos de um roxo escuro acinzentado escondido com uma touca que ocultava também sua orelha, tinha óculos de aviador no pescoço e tinha uma expressão de poucos amigos enquanto o morcego de pelagem azul petróleo tinha um sorriso no rosto, relada, ambos tinham jaquetas combinando.
Mary se levantou novamente, Nyazu fez questão de se levantar, porém foi parada por uma mão em sinal para parar, não foi surpresa nenhuma que foi em direção para as duplas de policiais, apresentando seu distintivo e conversando com eles em um tom baixo e sério, enquanto eles levavam os detidos para fora com Mary indo junto com eles sendo ela que segurava e empurrava a doninha, depois de assistir a raposa de pelos vermelhos rosnar em direção dele com os dentes às mostras.
— Não era para você estar junto, Rouge? — Sonic perguntou baixo, temendo que sua voz pudesse sair alta demais e atrapalhar seu disfarce ou que lhe reconhecessem. — Você também trabalha na G.U.N, não? — Levantou o olhar, embora a peruca atrapalhasse um pouco suas expressões faciais.
— Não exatamente, meu trabalho é com espionagem, troca de informações ou se for preciso, localização de artefatos antigos ou poderosos, mas esse último é só em casos extremos. — Deu de ombros. — A parte política é mais por conta de Shadow, sim, ele que trabalha com isso na equipe, assim como negociações é por conta dele. — Ela riu enquanto Sonic parecia incrédulo, riu levemente enquanto tampava a boca com a mão.
— Imagino que os negociantes nunca contestaram as propostas. — Ele deu um sorriso enquanto imaginava a cena, não conseguindo se concentrar por muito tempo.
— Algo assim. — Rouge deu de ombros enquanto bebia o restante do vinho.
— E Ômega? — Sonic perguntou interessado, enquanto se endireitava na cadeira e colocava um cotovelo na mesa e apoiava o rosto.
— Pensei que fosse, óbvio, ele executa. Além de ser nossa porta de entrada e saída quando não queremos ser sutis. — Deu de ombros enquanto Sonic assentia para si mesmo, como se fosse uma confirmação que ele esperava.
— Ah... — Ele disse simplesmente enquanto esperava o retorno de Mary, o rato parecia longe de ser visto e os funcionários tartarugas estavam cada um em um canto, efetuando várias funções. — Eu nunca soube como Shadow se juntou à G.U.N, muito menos Ômega. — Sonic comentou, enquanto olhava para Rouge, que parecia entretida com as perguntas, como se gostasse desse tipo de atenção.
— Ômega foi logo depois de vocês derrotarem Metal Madness, G.U.N viu um grande potencial nele, também ajudava o fato dele ter sido criado por Gerald e ter uma consciência própria. — Ela sorriu enquanto se recostava na cadeira, esperando a pergunta clara.
— O que? Ele foi criado por Gerald? — Sonic sentiu seus olhos se ampliarem, enquanto absorvia esse novo pedaço de informação.
— Sim, os projetos dele foram encontrados nos bancos de dados da A.R.K, assim como Emerl, Eggman deve ter o encontrado desativado em algumas das bases que também foram de Gerald e só se apossou deles, creio eu que foi o ponto de partida para a criação dos novos robôs dele que foram usados em Station Square para conseguir as esmeraldas e controlar Chaos, inclusive os dados sobre as civilizações antigas equidnas também eram antigas pesquisas de Gerald quando mais novo. — Ela sorriu, enquanto se apoiava também, os olhos brilhantes e a expressão pensativa.
— Como sabe disso? — Sonic perguntou à ela, enquanto curiosidade e desconfiança apareceram em sua face.
— Invadindo os bancos de dados. — Foi a resposta de Mary, assim que voltou até o grupo, sua presença sutil e inesperada assustando os quatro.
— Foi por um bem maior! — Rouge protestou, enquanto colocava as mãos na frente, em defesa.
— Sei. — Ela desviou o olhar para Nyazu que parecia estar aguardando algo e depois para Sonic. — Vamos? — Chamou, enquanto esperava resposta de pé.
— Claro. — Sonic disse ao mesmo tempo em que Nyazu respondia com um “Sim” não tão animado quanto o ouriço esperava ouvir.
O ouriço se levantou sem muito ânimo, enquanto seguiam, haviam guardado as compras em um setor de segurava que havia no andar, para que não precisassem andar de um lado para o outro com sacolas em mãos, o que era um tanto confortador para Sonic que, mesmo que as garotas tivessem o proibido de carregar quaisquer sacolas, ainda se sentia desconfortável com a superproteção que estava recebendo das fêmeas, mesmo que tivesse contestado.
Passaram por outras lojas mais, comprando algumas roupas de gestantes mais confortáveis, como pijamas largos e de algodão macio e até algumas camisolas, essas com alguns protestos de um Sonic constrangido e uma Rouge bastante maliciosa.
Pausaram um momento em um dos bancos, ao mesmo tempo que ouviam os gritos de uma discussão feminina, os olhos de ambos se dirigiram até onde um grupo estavam, em uma loja de sapatos, uma overlander ruiva de cabelos longos e vestido roxo estava discutindo ou melhor, disputando um par de sapatos com uma overlander loira de cabelos chanel vestida com uma blusa azul curta e saia roxa enquanto essa estava sendo contida por outras duas garotas, uma delas de cabelo curto e preto e vestido rosa claro curto e a outra uma ruiva com uma espécie de topete vestida com um conjunto social azul claro. A primeira estava sendo parcamente contida por uma garota baixinha de cabelos castanhos avermelhados curtos, vestida com um moletom de gola alta laranja e uma saia plissada vermelha.
— Vamos embora, daqui. — Mary disse fazendo uma careta, enquanto observava as garotas gritando e puxando uma a outra, com uma expressão de desgosto.
Sonic assentiu, enquanto Nyazu se punha de pé no mesmo instante e Rouge parecia pensativa.
Ambos voltaram a caminhar, passando pelo setor de segurança e recuperando as outras sacolas, dessa vez não houve outra alternativa a não ser deixar com que Sonic carregasse algumas das sacolas, já que tinham exagerado um pouco com as compras, falando ironicamente, claro.
O ouriço nunca esteve tão feliz em carregar compras, se sentindo menos inútil naquela situação pelo seu estado de gestação, onde Rouge parecia empenhada em não permitir que ele fizesse qualquer esforço desnecessário, que o irritava algumas vezes, mas a morcega usava o fato dele estar grávido para o fazer calar a boca, falando coisas como: “é pelo bem de vocês.”.
Felizmente não tinham que andar muito, desde que chegassem até os elevadores, eles podiam evitar caminhar muito até o estacionamento. O que soava bem para Sonic, desde que estava sentindo seus pés doerem desde que saiu do restaurante, não acostumado a usar sapatos femininos, tampouco de salto.
Foi com alivio que as portas do elevador que estava localizado na parte inferior se abriram para eles, saindo deles alguns overlanders e mobians e deixando o elevador vazio para eles, que não perderam tempo e logo entraram enquanto se espremiam com sacolas.
Sonic estava satisfeito, tranquilo até, apesar de que sentia certo medo de encarar Shadow e explicar sobre sua gravidez, algo que ele não queria fazer, não queria ser culpado por atrapalhar a vida do ouriço devido a sua falta de conhecimento sobre seu próprio corpo tampouco o fazer se sentir obrigado a estar consigo, caso, milagrosamente o ouriço negro aceitasse seus filhos, porém, essa hipótese não era umas que Sonic cogitaria.
Na realidade o que ele cogitava era muito pior, um acesso de fúria, um desaparecimento para nunca mais o encontrar, todas essas opções preenchiam seus sonhos tornando-os pesadelos sangrentos, onde em muitos deles sangue era derramada e ele acordava desesperado, tremendo e chorando, o que assustava Rouge quando vinha lhe ver, alarmada pelo barulho.
Suspirou quando as portas se abriram novamente, felizmente ninguém tinha chamado pelo elevador, o que não causou atraso, saíram com calma olhando dos os carros distraidamente, Sonic abismado pela variação de carros, muitos deles pareciam antiguidades de colecionador.
— Os overlanders usaram muito as lembranças dos ‘nossos’ antepassados. — Comentou Mary ao olhar os carros. — Inclusive muito deles pelos registros seriam considerados velharias pelos humanos, mas os overlanders gostam de relembrar esse passado, acho que para se sentirem mais íntimos dos humanos que não existem mais. — Ela completou dando de ombros enquanto passava por um Impala 1967 preto brilhante.
— Alguns desses carros são adoráveis. — Comentou Rouge, olhando com olhos brilhantes um Porsche amarelo canário de vidros escuros. — E outros nem tanto. — Fez uma careta enquanto fazia um movimento de desdém ao olhar uma pick-up Chevy vermelha 1953, talvez um dos carros mais velhos dali.
— Nenhum deles conseguem bater minha velocidade. — Rebateu Sonic, ignorando o olhar brilhante de Rouge para as diversas marcas de carros esportivos e caros ali. — Mas é uma vista engraçada.
— Engraçada? — Perguntou Nyazu, não entendendo o que ele queria dizer com isso, desde que não via humor em carros.
— A diversidade, muitos desses carros vulgo antigos tem o motor atualizado, claro, mas a carroceria é bem identicas as fotografias, filmes e seriados que os overlanders encontraram. — Mary disse, respondendo indiretamente a pergunta de Nyazu. — É quase como visitar um museu. — Ela sorriu, enquanto passavam por um overlander loiro vestido de camisa polo branca com a gola azul decorada com um lenço laranja e calça jeans que acenou para elas com a cabeça antes se abrir a porta de um furgão econoline 1963 azul claro mesclado com um amarelo desbotado e flores laranja.
Ela acionou a trava eletrônica do carro antes de ir até o porta-malas e o abrir, inserindo a maioria das sacolas, embora algumas ainda não couberam ali. Nyazu já estava abrindo a porta do passageiro e Rouge abria a da direita de trás, gesticulando para que Sonic entrasse primeiro e depois entrou com as sacolas restantes, apertando-as no colo enquanto colocava o cinto.
Mary fechou o porta-malas e deu estava indo para a porta do motorista quando um carro preto estava passando lentamente até parar com lado do passageiro do seu lado, o vidro desceu lentamente antes de mostrar quem estava no carro, o mesmo jovem garoto gato de tampa olho e seu mordomo corvo que tinha os olhos vermelhos olhando para ela de uma forma maliciosa enquanto o garoto colocava o braço na janela e lhe estendia um pequeno bilhete.
Mary pegou confusa e o vidro fechou novamente, o carro dando partida sem nenhuma palavra ser trocada. Ela abriu o bilhete e seus olhos se estreitaram automaticamente, sua expressão se tornando de raiva rapidamente.
Ela abriu a porta e entrou, sua expressão extremamente obscura.
— O que foi isso? — Rouge perguntou sem conter sua curiosidade, Mary podia ver pelo retrovisor a expressão confusa da morcega albina.
— Agora não é hora disso. — Mary cortou. — Talvez um dia. Ou em breve saberão. — Foi a única coisa que disse antes de dar partida e sair do estacionamento sem dizer nenhuma palavra a mais pelo que aconteceu.
A viagem seguiu sem mais nenhum inconveniente.
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Mary abriu os olhos, levantou a cabeça e com a voz firme e alta, pronunciou:
— Permissão concedida.
Os olhos vermelhos olhavam para cada um de seus soldados, um por um procurando por qualquer sinal de objeção às suas ordens, se levantou calmamente, ignorando as dores que atingiram as feridas em sua cintura e levantou a cabeça com a voz muito mais firme disse:
— Essa missão tem um caráter importante, recrutas. — Ela disse indo de um lado para o outro, os braços cruzados atrás nas costas, os olhos gélidos. — A missão primária de vocês é evacuar a área e garantir que todos os cidadãos saiam vivos, a qualquer custo. — Deu uma ênfase no final, ainda olhando para eles de forma fria. — Para sucesso da missão, vocês precisam esquecer a ideia de bancar o herói, isso só causará falhas. Não façam igual o seu amiguinho ali. — Apontou em direção ao soldado do fundo que fazia uma expressão de dor, enquanto estava sendo tratado por Topaz. — Independente do que acontecer. Estão me ouvindo?
— Sim, General! — Os soldados responderam em coro, menos Shadow que estava ignorando o que estava acontecendo e Topaz com o soldado ferido.
— E se vocês morrerem serão unicamente culpa suas! — Ela olhou novamente para cada um deles. — Então não baixe a guarda em nenhum momento ou senão morrerão! Ainda aceitarão essa missão? — Sua voz saiu alta, altiva, seus olhos vermelhos brilhando estranhamente.
— Sim, General! — Responderam novamente, com mais ânimo.
— Estamos entendidos. — Ela assentiu para si mesma, satisfeita com a ação. — Estejam preparados para quando o piloto der o sinal. — Finalizou enquanto seus ombros se suavizaram, embora seu olhar ainda tivesse um brilho um tanto selvagem.
Tirou os braços das costas enquanto ainda andava para perto de onde Topaz estava com a expressão de desgosto.
— Você! — Chamou o soldado com grosseria, olhando para ele com desdém. — Fred, não é? Bem, não importa. Não precisa se preocupar com participar dessa missão — disse, enquanto o soldado parecia aliviado com a dispensa da missão — a G.U.N não precisa de inúteis que não sabem seguir uma ordem simples. — Ela completou com a voz ácida, tendo a satisfação de ver a expressão dele mudar.
— Você não po—
— Não posso o que? — Disse interrompendo o protesto. — Não posso te eliminar da G.U.N? Não seja idiota overlander de merda, você só está aqui agora porque eu quis, você poderia ter morrido facilmente. Sua obrigação era de ser grato a mim, não me desacatar. — Respondeu alto, fazendo com que os outros soldados olhassem para a cena. — Não me importo com o que ache que eu deva ou não fazer, eu sou sua superior e se depender de mim não voltará para a G.U.N novamente. — Terminou com a expressão sombria, deu as costas para ele se seguiu para o lugar onde estava antes da chamada.
Uma mão a impediu de continuar, segurando com força o seu braço, o suficiente para que ficasse marcado depois, olhou a mão e depois para quem estava a segurando, depois olhou para a mão novamente e para ele, em uma ameaça silenciosa nenhum pouco sutil, mas que infelizmente foi ignorada.
— Você é só uma vadiazinha que subiu de posição abrindo as pernas! — Ele gritou com toda a fúria que reuniu. — Nem sabe o que é passar por todo treinamento e chegar onde eu cheguei para ser dispensado por nada! — Gritou novamente, apertando os braços dela com mais fúria.
Nesse momento todos ali prenderam a respiração, até mesmo Topaz, todos aguardando a reação negativa da morcega.
Ao contrário do que esperavam, ela riu. Não, não era uma risada, era uma gargalhada rouca e sem humor, como se o que tivesse saído dos lábios de Fred fosse uma piada tão ruim que ela estava rindo apenas para não o deixar sem graça.
— Não tenho tempo para perder com você. — Disse recuperando a compostura, enquanto olhava novamente para a mão que a restringia, puxando seu braço, sem muito efeito já que ele apertou ainda mais a mão, não a deixando sair. — Me solte! — Disse com a voz calma, mas seus olhos eram assustadores.
— Não! Você vai me ouvir! Estou cansado de todo esse show que você faz! Você não tem nem condições de me dar uma ordem! Não sigo você nem esse teatrinho idiota, não sei o que o você faz para o Comandante gostar tanto de você! Não passa de um lixo, como todos esses mobians que se—
Antes que pudesse terminar, um forte e rápido chute foi desferido em sua direção, fazendo o soltar Mary e bater contra a parede do avião. Os olhos castanhos deles se ampliaram ao ver quem foi seu agressor.
— Hmpf. — Foi a única coisa dita antes do ouriço voltar para onde estava sentado. — Estava cansado disso. — Respondeu simplesmente.
— ... — Mary olhou para o ouriço antes de voltar seu olhar até o soldado. Andando lentamente até ele, os outros que assistiam estavam em expectativa. — Sou um lixo não é? — Ela sorriu largamente, suas presas à mostra, seus dedos se crisparam em garras enquanto parava de frente à ele, tombando a cabeça para a esquerda, enquanto observava seu estado, levantou-o pela gola.
Encarou-o profundamente, enquanto trincava os dentes com o cheiro de sangue.
Parecia bastante tentador soca-lo até a morte, naquele momento não importava mais a sua proibição, não importava as ordens do Comandante, só queria acabar com a raça desse overlander que havia lhe tirado profundamente do sério. Levantou o braço com o punho levantado, a mão tão fechada que cortou a palma com suas unhas mancando a luva e escorrendo pelo pulso e braço, antes que pudesse desferir o golpe, um par de mãos macias e firmes segurou as suas, olhou com o olhar perfurante para quem é que tivesse a interrompido, para encontrar os olhos azuis de Topaz lhe olhando de uma forma suave.
— Não vou deixar que quebre seu juramento por culpa minha. — Ela disse calmamente, ignorando o olhar aterrorizante da morcega. — Deixe comigo. — Pediu, seus olhos azuis se tornando mais sérios à medida que esperava a resposta da morcega.
Os olhos vermelhos de Mary encaravam os azuis de Topaz mais algum tempo, procurando algum tipo de piada ou sinal de que estaria mentindo, no entendo não encontrou nada.
Topaz era umas das poucas pessoas que sabia sobre algumas de suas limitações, sendo talvez uns dos outros overlanders que ela não consegue nutrir nenhum ódio. Se conheceram em circunstancias anormais, Mary tinha acabado de sair da sede da G.U.N quando seus caminhos se cruzaram, logo depois a garota via em Mary algo especial, via nela alguém em que se apoiar e inspirar, era uma dessas razões que estava ali, se interpondo entre sua superior e um dos soldados que ela treinou. Tinha no olhar, algo que a morcega entendia, foi por isso que ela simplesmente relaxou e soltou o soldado, que caiu rudemente no piso arfando com força e um sorriso convencido no rosto por ter sido defendido por sua treinadora.
Mary deu um longo olhar de advertência para a garota antes de se sentar novamente onde estava, observando outros soldados cochichando sobre o que acabou de acontecer e uns questionando sobre a posição da General. No entanto todos os sons de fofoca foram silenciados com o olhar dela, ninguém queria estar sobre o foco da fúria dela.
O cansaço, estresse e sede estava cobrando muito de si que estava chegando no seu limite, prova que chegava em seus olhos, vermelhos brilhantes e ardentes. Seus dentes estavam trincados enquanto via que seus próprios subordinados estavam contestando sua autoridade, enquanto um em peculiar parecia não ter amor à vida, tendo somente a sorte dela ser estritamente proibida de matar.
Fez uma careta de desgosto ao olhar para o overlander com a expressão convencida no rosto, como se fosse superior... Ah, se ele soubesse...
— Capitã! — Ele exclamou com entusiasmo, olhando Topaz com alegria. — Obrigado por—
— Não fique convencido. — Ela respondeu simplesmente, se agachando na frente dele enquanto sutilmente pagava uma pequena e afiada adaga de um dos bolsos de seu colete, olhou com falsa e genuína preocupação. — Está ferido? — Ela perguntou, olhando para ele analisando sua farda, procurando por ferimentos.
— Não, isso não é—
— Nada? — Ela perguntou interrompendo-o com um golpe rápido de uma adaga no estomago, olhando para ele com um pequeno sorriso. — Que tal isso? — Golpeou-o novamente, atingindo lugares como peito, barriga e diferentes lugares, mal dando importância para os gritos de dor vindo do soldado.
— Onde está seu sorriso, soldado? — Mary perguntou de longe, olhando diretamente para ele com os olhos brilhantes e um olhar predatório. Ela parecia satisfeita com o que via.
— Por quê? — Ele gritou com Topaz, enquanto ela lhe esfaqueava sem pausa e descanso.
— Desacato ao superior, apontar sua arma para não só um, como dois agentes de elite da G.U.N, rebeldia — ela murmurava entre uma facada e outra, ela aparentava estar furiosa, mas se continha — não só desrespeitou as ordens de um General da G.U.N como a ofendeu e me ofendeu também. — Continuou enquanto mais sangue escorria. — Acha que vai sair impune depois disso, soldado? Ela pode ter lhe poupado, mas não há regras nenhuma me impedindo de acabar com a sua vida aqui e agora. — Ela rosnou, os outros olhavam para a cena temorosos.
— M-Me dê uma segunda chance! — Ele disse em um foi de voz, lágrimas escorriam de seus olhos enquanto ele tentava segurar a mão dela com a pouca força que ainda tinha.
— Você perdeu a sua segunda chance no momento em que puxou o gatilho. — Mary disse de longe, a voz rouca, como se estivesse com a garganta extremamente seca.
— Por favor! — Ele implorou para Topaz que fechou a cara.
— Está implorando para a patente errada. — Foi o ela disse simplesmente. Se levantou, limpando o sangue da adaga nas roupas do soldado e se distanciando, antes que ela pudesse se mover mais, braços agarram suas pernas em um aperto desesperado quase a desequilibrando.
— Por favor, eu imploro, me dê uma segunda chance! — Ele gritou, impedindo-a de andar.
Ela olhou para baixo ao mesmo tempo em que deu um chute na face dele, o desnorteando e fazendo com que a soltasse.
— Como eu disse, está implorando para a patente errada. — Caminhou até Mary, enquanto a chamava para conversarem no banheiro que tinha no avião.
Sem nenhuma palavra, Mary se levantou e a seguiu, saindo apressadamente dali enquanto parecia curiosa com o que a Capitã tinha a dizer.
Shadow observava tudo sem dizer nenhuma palavra, pouco se importando com o soldado que estava agonizando, seus braços cruzados no peito, os olhos fechados enquanto tombava a cabeça para atrás e se distraía em um mar de pensamentos.
Estava ansioso pela volta, não podia negar.
A falta de notícias significativas e as chamadas sem qualquer sentido ou explicação de Rouge irritava-o de uma forma estranha. Parecia-lhe que a morcega estava escondendo algo de si, embora ele não soubesse exatamente o quê.
Não que ele se importava com o que a morcega fazia ou deixava de fazer, porém sempre nas chamadas tinha uma pergunta, o fato dela sempre estar nas chamadas o incomodava bastante.
“Quando volta?”
Rouge nunca fez questão de saber quando ele voltaria das missões, nem mesmo quando eles dividiam o apartamento há algum tempo, antes dele se mudar para um quarto em um subúrbio, longe o suficiente para não ser incomodado por nenhum dos amigos do ouriço azul.
Não é que ele odiasse os amigos de Sonic, em realidade ele nunca se importou com eles, porém, depois dos eventos que vieram a acontecer durante esses três meses, sua consciência pesava o suficiente para que não conseguisse encarar nenhum deles, exceto claro, Rouge. A morcega enxerida que havia se metido em sua vida pessoal e jogado Sonic para cima de si. Algo que o fazia sentir um misto de raiva, indignação e agradecimento. Sentimentos esses que ele julgava como errados.
Porém, mesmo que sua mente gritasse não, seu corpo dizia totalmente o contrário, lhe entregando e fazendo-o voltar sempre para os braços do ouriço, como um imã. Tão irresistível.
Balançou a cabeça, isso tinha que terminar, mesmo que seu corpo ainda estivesse relutante e abandonar toda a fonte de prazer e conforto, isso não podia continuar dessa forma. Ele não aguentava mais o peso de sua imprudência, sua mente gritando-lhe ofensas para que o fazia com o ouriço antes tão puro e jovial, agora rebaixado para a fonte de seus prazeres. Naquele momento, ele se sentiu um monstro digno de ser odiado por toda a humanidade, não ter alguma vez já quase destruído o planeta, mas por ter usado o símbolo de heroísmo e esperança daqueles cidadãos como fonte de sexo.
Estava decidido, ele não iria voltar atrás. Iria encontrar Sonic depois que acabasse a missão e tivesse um tempo de folga, se desculparia e diria adeus.
Não sabia porquê, mas aquele pensamento parecia melancólico, triste e vazio.
Deu de ombros distraidamente enquanto abria os olhos, o soldado ainda estava no chão, choramingando sua sorte enquanto Mary voltava do banheiro, ela parecia mais composta e menos cansada, como se tivesse tido um descanso significativo, ao seu lado Topaz parecia visivelmente pálida, porém sustentava um olhar sério enquanto ambas voltavam para a frente dos outros, olhando-os de forma superior.
— Escutem, soldados. Não me importo se me odeiam ou não. Isso nunca me fez diferença. — Mary disse, com uma frieza assustadora que fez com que Shadow olhasse para ela, apesar de sua expressão sem emoção. — Vocês estão na G.U.N não para questionar, mas para seguir ordens. Segui-las é sua única obrigação, não importa como, apenas sejam obedientes. — Ela levantou o queixo, olhando cada um deles profundamente. — Como virão esse soldado desobedeceu as normas e será punido, porém quem irá dá a sentença final é o Comandante, apesar de que ele seria mais útil morto. — Ela comentou com desdém.
Todos lhe encaravam sérios e até mesmo temerosos.
— A amada Capitã de vocês também será punida, um dos seus soldados foi desobediente e poderia ter colocado em risco toda a missão por sua imprudência e impulsividade, tiveram sorte de que não havia nada que pudesse os atacar, pelo menos não que vimos. — Ela disse e logo estremeceu, parecia se recordar de algo que eles não sabiam, mas que parecia não ter sido uma experiência agradável.
Eles olharam para Topaz, talvez esperando uma reação ou que a contestassem, porém ela estava perfeitamente calada e ereta, tensa na frente dos soldados.
— Se alguns de vocês querem contestar as minhas ordens e minha capacidade, digam agora, para serem dispensados logo da G.U.N e evitar dor de cabeça ou morte. — Ela continuou. — Se ainda tiverem alguma dignidade, quero que relembre a única regra que impus antes da missão. Essa será a última vez que irei repetir: Nunca me desobedeçam. — Disse firme.
— Objeções? — Topaz perguntou, surpreendendo todos que esperavam algo diferente.
Silencio.
— Então estamos entendidos. Ah! — Ela disse inesperadamente, como se tivesse lembrado de algo. — Se estão surpresos com que aconteceu, fiquem sabendo que eu pessoalmente treinei Topaz e ela subiu de posição por mérito próprio. — Terminou, enquanto se sentava novamente no assento e esperava que o piloto escolhesse o local melhor para que descessem.
— Desculpe, General... — Começou um dos soldados, de cabelos negros e uma expressão jovial.
— Sim, Hawkeye? — Ela respondeu, ele parecia surpresa dela saber seu nome.
— Quem foi seu treinador? — Perguntou tomando coragem, olhando para ela com curiosidade enquanto os olhos aguardavam ansiosos sua resposta.
— Ah, isso? — Ela perguntou retoricamente. — Tive muitos mestres, mas respondendo sua pergunta, ninguém menos que Abraham Tower. Satisfeito? — Perguntou, olhando de soslaio para ele, enquanto ele engasgou e assentiu rapidamente.
— Dez segundos para pousar. — Veio a voz do piloto no auto falante, chamando a atenção de todos.
Mary se levantou e já estava na porta, abrindo-a antes que pousassem, deu um olhar significativo para o ouriço que a seguiu, Topaz olhou para ela e trocaram olhares, antes dela assentir e virar sua atenção aos soldados.
Ambos, morcega e ouriço pularam no ar, Mary tinha suas asas negras abertas, embora elas pareciam em posição estranha e a morcega aparentava desconforto e até dor com o movimento de bater. Shadow usou seus sapatos adaptados para se estabilizar no ar enquanto caía, pousando perfeitamente no chão.
Ambos os olhos vermelhos encaravam o estado atual de Speed Highway, ruas danificadas enquanto prédios pareciam a ponto de cair a qualquer momento. Moradores corriam para todos os lados enquanto uma mulher estava sendo contida por alguns dos soldados que já estavam ali para evacuar, embora ela gritava e se debatia enquanto as chamas engoliam a casa.
— O que está acontecendo aqui? — Ela se aproximou, enquanto a mulher estava em pânico gritando estridentemente.
— General. — Ele cumprimentou com um menear de cabeça. — Ela não para de gritar pela sua filha, infelizmente não podemos fazer nada para ajudar. — Ele explicou.
Os gritos da mulher eram sofridos, dolorosos de ouvir, antes que Mary dissesse que ela iria procurar a filha dela, Shadow já tinha tomado a dianteira, surpreendendo a morcega que, pelo que conhecia do ouriço, ele não era um dos que se voluntaria para algo assim.
Shadow nem mesmo sabia porque tinha decidido fazer algo assim, ele sentiu um impulso forte, talvez pela promessa feita à Maria em seu suspiro de morte, mas o fato era que estava surpreendido consigo mesmo por ser capaz de tomar uma decisão rápida com relação ao sofrimento da mulher, se a criança estivesse viva ou não, pelo menos ele tentou.
Seus passos eram rápidos enquanto entrava na casa às pressas, não tendo tempo de admirava a decoração, já que essa estava sendo devorada pelas chamas que engoliam tudo impiedosamente, olhou para todos os lados, tentando encontrar a criança, falhando na tentativa, olhou para as escadas e não pensou duas vezes, subiu-as mais rápido que se podia pronunciar seu nome. Em poucos segundos ele já tinha revistado quase todos os quartos, exceto o do final, onde seus ouvidos sensíveis podiam captar o som de um choro ruidoso.
Se aproximou com cuidado, temendo que o piso cedesse e colocasse em risco a vida da pobre criança, seus passos eram altos e mesclavam-se com o som da madeira sendo consumida lentamente pelas chamas, o cheiro de fumaça e o calor extremo não parecia fazer muita diferença para o corpo perfeitamente projetado com a engenharia genética de Gerald Robotnik, o que o tornava praticamente insensível a lugares extremos, como uma casa em chamas por exemplo.
Abriu a porta que cedeu sobre suas mãos e adentrou no quarto, onde em uma cama de casal um bebê overlander estava deixado, com travesseiros rodeando-o para que ficasse seguro, felizmente o quarto ainda não havia sido consumido pelas chamas, mas seria apenas questão de tempo para que toda a estrutura cedesse e nada mais restasse do que algum dia já foi uma casa de uma família.
Ele sabia que podia lidar muito bem com aquela situação, porém duvidava que o frágil pulmão de um bebê tão pequeno pudesse suportar tanto, por isso tratou de correr até a cama e pegá-lo nos braços, olhando-o com certa admiração, sendo a primeira vez que via um filhote overlander tão de perto. Os cabelos ralos loiros, os grandes e brilhantes olhos azuis, mas mãozinhas tão pequenas se fechando em um tufo de pelo macio e branco do peito de Shadow, a criança havia parado de chorar, talvez porque ele tivesse mesmo que pouca, alguma segurança de estar nos braços dele.
Aquela reação tão natural e inocente o deixou desconcertado, piscou algumas vezes enquanto o observava brincar com seu pelo peitoral, uma criatura tão frágil e delicada aninhada nos braços de alguém que era tudo, menos uma fonte de segurança. Aquilo mexeu consigo, de uma forma que não sabia explicar, era engraçado até. A cria de uma espécie de lhe odiava estar ali, simplesmente tranquilo ao seu redor. Admirava essa capacidade das crianças.
O som de uma viga caindo lhe fez se lembrar de onde estava, olhou para o bebê que parecia tão calmo em seus braços, enquanto lhe apertava mais próximo de si, para o proteger melhor. Embora nunca tinha visto, sequer tocado antes em um bebê, o movimento de carrega-lo parecia tão natural que ele sequer pensou, somente agiu, pegou a manta que ali estava na cama, tampando o pequeno ser para que estivesse protegido e caminhou para fora do quarto, agora que tinha o filho da mulher seguro consigo, ele podia desfrutar de sua velocidade para sair dali.
E assim o fez.
Mary tentava confortar a mulher, depois de ordenar para que o Sargento que a segurava lhe soltasse, ela estava em pânico, estava com a respiração descompassada e seus olhos eram de dor, como se tivesse perdido um dos seus bens mais valiosos.
Ela parecia não ter mais de 25 anos, tinha olhos azuis que estavam vermelhos do choro desenfreado, os cabelos longos loiros estavam presos em um rabo de cavalo alto, a franja estava bagunçada para a esquerda, trajava uma camiseta branca justa, com um casaco vermelho longo e shorts jeans curtos, ela estava agora sentava com as mãos na cabeça, seu choro alto e desesperante fora reduzidos à soluços de conformidade à medida que o tempo passava e não recebia nenhuma notícia do ouriço que havia adentrado em sua casa em chamas.
Mary tinha uma de suas mãos nos ombros da overlander, embora nenhuma palavra tenha sido trocada, a morcega não precisava articular frases de incentivo para que ela soubesse que a morcega lhe entendia. Ela estava tão absorta em sua própria dor que não deu importância para as luvas sangrentas dela, apesar aceitava o toque que mesmo que simples, trazia um pouco de conforto.
Mary não odiava todos os overlanders em si, tinha uma empatia enorme quando se tratava de gestantes e mães, algo que ela acabou adquirindo pelo longo tempo de trabalho e esforço cuidando de hermafroditas. Várias experiências que ela vivenciou e cada vida que ela viu nascer sobre seus cuidados lhe fez quase como uma protetora.
E ver uma mãe em desespero lhe desconfortou, muito mais do que ela pensou ser possível.
— General! — Ouviu uma voz bastante familiar soando perto de si, o tom malicioso e até mesmo irônico ao pronuncia sua patente, embora publicamente ela obrigatoriamente teria que ser tratada assim. — Não pensei que voltaria tão cedo. — Ela comentou, enquanto se aproximava.
— Agente Rouge. — Ela cumprimentou, estreitou os olhos com desconfiança. — Foi convocada?
A morcega albina apenas assentiu a cabeça, sabendo que Mary não estava nenhum pouco feliz que Sonic ficou sem a devida supervisão, sabendo tão bem pela experiência que Nyazu era fácil de se distrair e que se o ouriço soubesse do que estava acontecendo ele não teria segundos pensamentos a não quer correr para ajudar, o que era justamente o que ela mais temia.
— Você não parece bem. — Rouge comentou, enquanto olhava para ela criticamente, notando com os olhos aqua as manchas escuras de sangue nos lados do colete, as luvas manchadas e com cortes, os olhos incrivelmente vermelhos e brilhantes, ela franziu o rosto confusa, os olhos dela sempre foram vermelhos?
— Não é nada. — Cortou enquanto desviava o olhar para a entrada da casa, onde ela aguardava com que Shadow aparecesse, ele não podia demorar tanto, podia?
Rouge parecia intrigada, porém antes que ela pudesse fazer qualquer outra pergunta, seus ouvidos sensíveis captaram o movimento dentro da casa, onde poucos segundos depois uma figura negra saia dali, com um pequeno bolo seguramente em seus braços, logo o ouriço estava a apenas alguns passos deles com a pequenina bebê que parecia entretida com brincar com suas mãos grandes enquanto lhe dava um riso sem dentes.
Ao ouvir o som de tal risadinha, a mulher levantou a cabeça, para encontrar com Shadow ali, com sua filha nos braços e rindo, como se não tivesse acabado de sair de uma casa em chamas.
Mary já estava ao lado do ouriço, averiguando para se certificar de que ela não tinha nenhum machucado, Shadow parecia tenso pela invasão de seu espaço pessoal, porém ignorou a sensação que odiava porque sabia de que alguma forma aquela morcega parecia saber o que estava fazendo, logo a criança foi levada de seus braços, com cuidado e foi passada para os braços da mãe, que há àquela altura estava chorando novamente, dessa vez de felicidade.
— Não sabia que era tão bom com crianças. — Provocou Shadow, se aproximando do ouriço e cutucando-o no ombro. Fazendo com que ele fechasse a cara. — Talvez devêssemos providenciar um, não acha, Sunshine? — Ela provocou, olhando-lhe uma piscadela sensual e se encostando nele enquanto sorria maliciosamente.
Shadow ignorou olhando para a fonte daquela destruição com os olhos em fendas, um robô de mais de três metros destruía tudo ao seu redor enquanto dos auto falantes uma voz soava e ria doentiamente, como se vanglorizando de sua obra de arte.
Ômega estava há alguns metros, atirando contra ele, quando parece ter sucesso algum, há alguns metros no ar um bimotor estava sobrevoando o local enquanto um equidna vermelho parecia estar em todos os lugares, desferindo inúmeros socos com uma velocidade e fúria impressionante, uma ouriça rosa pairava por ali, procurando alto que todos ali sabiam o que era, mas só somente suas morcegas sabiam onde estava e que não deveria aparecer nesse lugar de forma alguma, para sua própria saúde.
Dr. Eggman parecia insatisfeito, suas risadas não eram tão animadas, procurava também algo ou melhor, alguém, não havia se preparado tanto para não poder testar seu brinquedo novo e ter a oportunidade de destruir Sonic, principalmente pelo novo combustível que encontrou fazendo pesquisas em uma base extremamente antiga que uma vez foi o centro de pesquisas de seu finado avô.
Dessa vez ele tinha a certeza que venceria e conquistaria o planeta.
Procurava por todos cantos encontrar o roedor que tanto lhe infernizou durante anos, seus olhos azuis ocultos por óculos escuros se estreitavam, até que sua esperava foi recompensada.
Aí está você, rato imundo!
O som ecoou por todo o lugar, enquanto todos os expectadores direcionavam seus olhares para onde estava quem ele se referia.
Ali estava ele, Sonic the Hedgehog, porém algo parecia diferente, muito diferente, ele parecia cansado, como se tivesse corrido por dias e não por algumas poucas horas, parecia como se fosse desmaiar a qualquer momento de exaustão, seu rosto estava abatido, pálido, como se estivesse anêmico ou vomitado recentemente. Estava com um pijama largo azul claro, o tecido de algodão largo o suficiente para parecer que ela estava acima do peso, cada um que o via, tinham expressões variadas.
Mary parecia genuinamente frustrada. Rouge estava preocupada. Knuckles tinha uma expressão impaciente no rosto, como se cansado de esperar que o ouriço aparecesse. Shadow não expressava emoção alguma. Tails parecia incrédulo de ver o irmão ali, depois do que descobriu. Amy tinha um olhar brilhante no rosto, enquanto parecia a ponto de pular animadamente.
Foi então que um dos braços do robô se direcionou à ele, Eggman tinha um sorriso sádico que nenhum dos que estavam ali poderiam ver, mas podiam sentir que ele estava satisfeito. A mão do braço se adaptou para o formado de um canhão, onde um míssil de tamanho considerável estava prestes a ser lançado em direção do ouriço que parecia se sentir incapaz de dar mais sequer um passo.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Era um alvo fácil. Todos ali tinham o mesmo pensamento.
O míssil foi disparado e o único grito que cortou o silencio aterrorizante foi da função das morcegas, gritando em um uníssono um pedido/ordem em um tom de terror e medo.
— Shadow, vai!
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