Bittersweet.
24 24. Parece que o destino é mesmo engraçado, não?
Notas iniciais
Antes que Nyazu pudesse responder, Mary se adiantou, confortavelmente escorada na parede com seu computador na mão.
— Não, Mary sou eu.
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Os olhos turquesas cruzaram com os castanhos enquanto ambas as morcegas se encaravam com olhares analíticos.
Nenhuma delas fez questão alguma de desviar os olhares, até que, Rouge já cansada do dia exaustivo que teve devido a longa procura por Sonic, resolveu se manifestar.
— Você me chamou aqui, não? — Disse com o semblante tenso, embora um sorriso ameaçava se espalhar por seus lábios pela próxima provocação. — Se me chamou para ficar me olhando dessa forma, deveria ter me pedido uma foto.
— Bancando a provocativa, uh? — Retrucou Mary, retribuindo o sorriso. — Eu não estaria tão presunçosa agora se tivesse falhado o dia.
Algo no tom dela fez o sorriso de Rouge esmaecer, sua postura automaticamente tensa. Essa morcega desconhecida parecia saber de algo, mas o que e quanto isso poderia lhe prejudicar era algo que ela desconhecia, não queria ter seus próprios truques voltados para si mesma.
Rouge observou quando o sorriso da outra se ampliou, sobre os lábios coloridos de batom vermelho, suas presas, maiores que suas se mostravam em seu sorriso quase predador. Como se soubesse que ela fez algo que não devia ou tivesse frustrada por algo que não conseguiu, não sendo nenhum pouco sutil.
Se desvencilhou da parede em que estava apoiada com uma falsa calma, apesar de sua postura ser visivelmente tranquila, seus olhos pareciam dizer outra coisa totalmente diferente, fazendo com Rouge se sentisse levemente incomodada por alguma razão que desconhecia até então.
Mary sentou-se na poltrona que havia, Nyazu, a raposa que havia lhe recebido até então, seguiu o exemplo na morcega, sentando-se na parte mais afastada do sofá, sorrindo desconcertada para Rouge, que estava sem palavras.
— Primeiramente sente-se, agente, temos muito a tratar. Assuntos que lhe envolve, você deve estar se perguntando sobre o que eu quero chamando-a até aqui, mas tudo ao seu tempo. — Sua voz saiu tranquila, enquanto observava Rouge lentamente se movendo em direção ao mesmo sofá ocupado por Nyazu, sentando-se com a expressão confusa e cautelosa.
— Parece que o destino é mesmo engraçado, não? — Sorriu, apesar de sentir-se desconfortável.
— Eu não chamaria assim, mas, realmente hoje foi realmente um dia longo, de todas as formas. — Suspirou, seu computador repousava calmamente em seu colo. O som baixo do cooler indicava que ele ainda permanecia ligado. — Esclarecendo parte das suas dúvidas, encontrei Sonic hoje, em um estado não muito indicado. — Disse sem rodeios, fazendo os olhos turquesas se arregalarem.
— Sonic, está aqui? — Perguntou alarmada, embora fosse uma pergunta óbvia, não conseguiu evitar com que saísse dos seus lábios.
Um aceno de cabeça foi tudo que recebeu.
Seus olhos passaram a analisar toda a sala procurando onde possivelmente ele poderia estar.
— Não se preocupe, ele está bem, pelo menos fisicamente, porém não posso dizer isso sobre seu estado mental. A revelação foi um tanto forte demais para ele digerir tão facilmente. — Disse em um tom casual. Recebendo um olhar surpreso de Rouge. — Sim, eu sei que ele está carregando uma criança, não precisa fazer essa cara. — Disse em desdém.
— Como soube? — Perguntou com uma curiosidade formal, fazendo com que Mary fizesse uma careta.
— Seu aroma denunciava isso, é algo um tanto complicado de explicar exatamente como consigo identificar, acredito que seja pela experiência que tenho com eles — mexeu a mão como se não fosse importante essa questão — o problema está em como ele lidar com toda a pressão externa-
— Espera, há outros como ele? — Interrompeu bruscamente Mary, que fez uma careta de desagrado.
— Pensei que você sendo a espiã prodígio da organização soubesse melhor do que estou falando, heh, acho que não — sorriu ao ver a expressão dela de desagrado — sim, respondendo sua pergunta sim, há mais, porém não vou citar nomes ou descrição. Normalmente os que são capazes de conceber geralmente são dotados de corpo externo feminino, são mais propensos devido ao melhor desenvolvimento uterino e equilíbrio hormonal, porém, há certos casos isolados de hermafroditismo verdadeiro masculino, são bem raros, na verdade quase inexistentes — sua expressão ganhou um ar de divagação, enquanto ela olhava para as duas fêmeas sem realmente as ver, como se estivesse presa em seus próprios pensamentos.
— Então Sonic é realmente um hermafrodita? — Perguntou, seu corpo se curvando em sua direção.
— Sim, um verdadeiro, o que é espantoso, só lembro de um caso e bem... — Sua feição mudou para desconforto. — Esse caso isolado não teve o melhor desfecho. — Sua voz soou com dor leve, porém Rouge ignorou, apesar da curiosidade crescente, poderia descobrir sobre isso depois, agora tinha outras preocupações.
— Se é tão raro, como Sonic... — Deixou sua pergunta no ar, embora não precisasse a concluir.
— A resposta é incerta, o primeiro caso eu não soubesse muito, era totalmente um mistério, não sei dizer se é algo natural, induzido ou resultado de experiências, eu realmente não sei dizer. Tanto o passado desse primeiro, quanto o de Sonic é um mistério para sim, apesar de tudo que ele me disse, parece sempre faltar algo, parece um quebra cabeça incompleto. — Disse com tom preocupado. —Eu não faço ideia do que esperar da gestação ou se ele conseguirá levar a gravidez até o final, como seu corpo irá reagir as mudanças comuns, como seu psicológico vai ficar. Ele é totalmente imprevisível, torna meu trabalho mais delicado.
— Seu trabalho? Pensei que fosse uma agente, não sabia que a G.U.N tinha se tornando uma ONG de hermafroditas. — Comentou casualmente, embora não fosse como uma provocação.
— Ah, sou General, comando as tropas, faço missões de reconhecimento, acumulo dados, atualizo constantemente todo o banco de dados que vocês usam nas missões, assim como auxilio na remoção e recuo de vítimas e feridos dos ataques constantes de Ivo Robotnik. Quando consigo algum tempo, eu faço catalogação de hermafroditas e acompanho toda a gestação dos que engravidaram, fazendo uma espécie de ‘pré-natal’. — Respondeu, embora tivesse um ar arrogante, mais pelo costume de lidar com soldados inconvenientes.
— Sheesh, falando assim faz parecer meu trabalho fácil quanto fazer um bolo. — Provocou. — Trabalha com hermafroditas, uh? Acho que o destino é brincalhão.
— Ou conveniente. G.U.N tinha me ordenado averiguar uma estranha movimentação essa manhã, pega pelos satélites espalhados, poderíamos deduzir que fosse somente Sonic, porém a rota fugia completamente do padrão de rotina dele ou havia algum problema, ou era outro ser que fosse veloz, o que poderia significar problemas, então enviaram as coordenadas para o meu GPS e o encontrei em algum lugar próximo de uma floresta, prestes a desmaiar. — Explicou.
— Por que está me contando sobre isso? — Sua voz soava preocupada.
— Achei que deveria saber, já que eu tenho a suspeita que o estado de choque dele tem não um dedo, mas um braço seu. — Sorriu provocativamente.
— É feio acusar sem provas. — Retribui o sorriso.
— E quem te garante que não tenho? — Ela lhe encarou, ambas com os olhares fixos, os sorrisos nunca vacilantes, até que uma voz surgiu entre elas.
— Hey, gente... — Ouviu Nyazu falar. — Isso é desconfortável, sabiam? — Reclamou. — E estou com fome!
— Ah, bem, quer algo para beber, agente? — Mudou de assunto rapidamente, se levantando com seu notebook, indo para o corredor. — Já volto.
Rouge olhou para a raposa que estava sentada com a testa franzida.
— Ela costuma ser assim? — Perguntou em tom de brincadeira.
— Normalmente é pior. — Deu de ombros, dando um mínimo sorriso.
— É deselegante falarem de alguém pelas costas, sabia? — Mary surgiu pelo corredor, sua face séria.
Seguiu direto para uma porta, que Rouge deduziu que se tratasse da cozinha ou algo assim.
Se levantou, sua postura estava mais relaxada apesar de tudo. Saber que Sonic não estava ‘perdido’ e que havia se encontrado com alguém que conhecia e trabalhava já com casos semelhantes lhe fazia se sentir mais tranquila até, como se um peso tivesse sido retirado de seus ombros, enquanto outra preocupação ainda maior se apoderava de sua mente. Como lidaria com o fato de que Shadow, o mobian mais frio e imprevisível que conhece, agora seria pai?
— É divertido. — Contradisse. Seguindo-a junto da raposa que parecia ansiosa com algo ou apenas com fome.
A assistiu abrir a geladeira, pegando uma bacia de alumínio, o cheio de tempero invadiu suas narinas, enquanto a via retirar um pedaço de carne vermelha e úmida, devido ao tempero e também ao ambiente da geladeira.
Sentou em uma cadeira qualquer da mesa que havia, colocando os cotovelos sobre a mesa e apoiando o queixo neles.
— Tem algum álcool? — Perguntou, a voz cansada, depois de todo o dia.
— Se esperar, tenho vinho, serve? — Respondeu concentrada enquanto procurava uma frigideira no armário para fritar a carne, pegando uma e procurando o óleo. — Não é como se eu bebesse sempre, mas você entende o que quero dizer, não é? Todo esse estresse. — Comentou enquanto acendia o fogão, colocava a frigideira e despejava o óleo.
— Eu presumo que você não é adepta das frutas. — Rouge comentou.
Mary congelou. Nyazu olhava para a morcega negra com um olhar de curiosidade e confusão, enquanto o sorriso de Rouge se ampliou.
— Talvez esteja correta. — Seu tom foi sombrio. Aumentando a confusão de Nyazu que olhava para as duas sem saber o que pensar.
Mary foi ao armário maior, pegando uma garrafa de cor escura e colocando na mesa, pegando um saca-rolhas que estava em um suporte na parede.
— Eu não costumo congelar bebida, desculpe. — Sua expressão era de falsa culpa, enquanto seus olhos cintilavam ferozes.
— Faz sentido, dá sensação de realidade, não é? A bebida quente. — Provocou, porém dessa vez Mary não vacilou.
— E você, qual fruta é sua favorita? Espera, uh... — Analisou a morcega albina de cima a baixo duas vezes. — Claro, que pergunta a minha, é lógico que é banana. — Sorriu.
Rouge bufou.
— E eu me achando infantil. — Retrucou, sorrindo.
— Talvez todas tenhamos um espirito infantil. — Respondeu.
A morcega pegou uma espátula e virou a carne, nesse momento o cheio da fritura estava contaminando completamente o ambiente, Rouge tinha o nariz levemente retorcido, Mary parecia ignorar o cheiro, talvez pelo costume e Nyazu estava completamente alheia, presas em seus próprios pensamentos, enquanto sorria para algo que nenhuma das duas poderia saber o que era.
Ouviram passos lentos vindo do corredor, três orelhas sensíveis se movimentaram em sincronia instintivamente, Mary estava levemente tensa, Nyazu curiosa e Rouge em expectativa.
Sonic apareceu com a expressão tímida e envergonhada, suas bochechas estavam levemente rosadas e quando ele foi dizer algo, todos os ouvidos presentes podia ouvir o som de seu estômago, alto e constrangedor. O ouriço se encolheu.
— Deixa eu adivinhar, sentiu o cheio, não é? — Mary, deu um sorriso acolhedor, enquanto Sonic sorria amarelo. — Sente-se, vou dividir essa que estou fazendo e frito mais, tudo bem para vocês dois? — Olhou de Sonic a Nyazu, a raposa deu de ombros, enquanto Sonic parecia desconcertado.
— Obrigado... — Disse com a voz baixa.
— Não precisa, você não comeu nada o dia todo, precisa comer, sabia? — Disse enquanto direcionada sua atenção a carne. — Nyazu, pode servir a mesa, por favor? — Pediu de forma tranquila, Rouge franziu a testa para a mudança de comportamento rápido.
— Claro! — Se levantou indo para os armários e pegando dois pratos e talheres, depositando na mesa e logo em seguida copos, colocando-o na mesa, Rouge pescou um deles e com ajuda do saca-rolhas abriu a garrafa, derramando seu conteúdo e bebericando um pouco enquanto olhava para Sonic de forma reprovativa.
— Sonic! Por que você não comeu? Não tomou nem café da manhã? — Olhou para ele com a expressão preocupada.
— Talvez se alguém não tivesse aparecido na minha casa me obrigando a fazer a porcaria do teste de gravidez por razão alguma, eu teria comido alguma coisa! — Respondeu de forma seca, ainda em pé olhando para Rouge com a expressão fechada.
— Sente-se ouriço, já vou servir. — A voz de Mary foi direta, uma ordem que ele parecia não sentir nenhuma vontade de contrariar. Nyazu apareceu ao seu lado, passando os braços sobre os seus e o puxando para uma das cadeiras onde ela tinha colocado o prato e os talheres.
— Hey! — Reclamou enquanto era empurrado para se sentar na cadeira.
— Nyazu, não é assim que você convida alguém a se sentar. — Mary repreendeu divertida, partindo a carne na metade e indo na geladeira pegando uma bandeja com salada já preparada.
— Desculpe. — Olhou para o ouriço se sentindo culpada.
— Tudo bem. — Sonic sorriu sinceramente, seus olhos brilhando ao ver Mary virando em direção para a mesa com uma mão segurando a frigideira e outra com a salada.
— Eu espero realmente que vocês comam essa salada também, só a carne não vai suprir a necessidade de vocês dois de vitaminas. — Suspirou.
Usou a espátula para colocar a carne nos pratos.
Rouge estava ao lado de Sonic olhando para ele com a expressão de culpa e solidariedade, mesmo que ele não estivesse prestando atenção dela.
— Mary... — Chamou Sonic um pouco desconcertado. — Você...
— Pode falar ouriço. — Notou a hesitação dele ao falar.
— Você tem morango?
*
Os olhos escondidos atrás das lentes escuras e grossas pareciam insatisfeitos com o que estava vendo na tela, um programa aberto demonstrando estar 70% carregado. Para o desagrado do homem que olhava a tela com expectativa.
Se levantou, seus ossos estalando depois de ficar tanto tempo sentado, suas pernas finas cobertas pela calça e bota pretas faziam um contraste com seu tronco quase redondo, coberto com uma espécie de casaco vermelho com detalhes em branco e dourado.
Seus dedos remexiam em seu bigode enorme, que escondia o franzir de seus lábios insatisfeitos por algo.
A porta da sala se abriu automaticamente para um corredor enquanto ele andava ainda mexendo em seu bigode, uma mania que ele adquiriu enquanto estava insatisfeito ou ansioso por algo, virou o corredor, entrando em uma sala e se deparando com dois robôs que pareciam estarem discutindo sobre ele.
— Parem de discutir! — Foi a ordem dada pelo homem, vendo que os robôs não notaram sua presença e continuaram a discutir.
— Desculpe, doutor. — O robô de cores vermelhas e cabeça circular de desculpou, enquanto o outro que tinha a cor amarela e cabeça quadrada cruzava os braços robóticos e se afastava.
— Como estamos? — Ignorou a atitude do segundo, direcionando sua atenção ao robô que rodou em torno de si mesmo.
— Quase tudo pronto, doutor Eggman! — Exclamou, embora seus chips pareciam não conseguir simular corretamente a animação, o homem pareceu entender.
— Espero que vocês dois não estraguem nada dessa vez, Orbot e Cubot. — Resmungou enquanto olhava para a frente, além dos robôs, onde um brilho de roxo cintilava. — Dessa vez Sonic the Hedgehog, não saberá o que o atingiu. — Seu sorriso se ampliou sobre o bigode enorme. — E eles não terão outra alternativa a não ser sucumbir ao império Eggman, hohohoh! — Sua risada ecoou alta pela sala, fazendo com que os robôs se abraçassem encolhidos em um canto da sala.
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